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Full text of "São Francisco de Assis de Ouro Prêto : crônica narrada pelos documentos da ordem"

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PUBLICAÇÕES DA DIRETORIA 
D O PATRIMÔNIO HISTÓRICO 
E ARTÍSTICO NACIONAL 



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SÃO FRANCISCO DE ASSIS 
DE OURO PRETO 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE — RIO DE J ANEDIO — 1951 



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in 2014 



https://archive.org/details/saofranciscodeasOOtrin 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS 
DE OURO PRÊTO 



INSTITUTO JUAN XXI 

Salesianos 
mercedes 1769 



MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE 

nov a9 198? 

SÃO FRANCISCO DE ASSIS 
DE OURO PRETO 

CRÓNICA NARRADA PELOS DOCUMENTOS DA ORDEM 
CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



N 17 



PUBLICAÇÕES DA DIRETORIA 
DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL 
195 1 



1/ PARTE 
A ORDEM 



CAPÍTULO I 



ESTABELECIMENTO DA ORDEM EM VILA RICA 

1.° — REGIME PROVISÓRIO 

Mal se denunciou o aparecimento do ouro nos sertões dos 
Cataguás, nessas terras que, por isto, vieram a denominar-se 
Minas Gerais, para aí dispararam em atropêlo, desenfreada- 
mente, aventureiros de tôdas as condições e de todas as classes, 
vindos das mais remotas partes da colónia e da metrópole. Toda 
essa gente aí se despejava, avassalada por ambições infrenes 
de riquezas fáceis, senhoreada totalmente pela gana depravada 
do ouro. 

Engrossando essas multidões, religiosos em número consi- 
derável, evadidos de seus conventos, divorciados do dever, ma- 
drugaram nas Minas, subjugados, também êles, por essa auri 
sacra fames que — para algum bem há de servir o mal — foi a 
causa determinante do povoamento tão rápido da terra 
mineira. (1). 

Acusados de "negociações tão contrárias às suas obriga- 
ções" (C. R. de 19-5-1723), de viverem "sem religião e com mui- 
to distraimento em seus costumes" (C. R. de 2-5-1725); sus- 
peitos de contrabando do ouro, foram êsses frades por dilata- 
dos anos uma das grandes preocupações do governo da metró- 
pole. Pertinazes, cerrados a todos os apelos, embalde contra 
eles se expediram sucessivas ordens de expulsão. Desde o alvo- 



(1) Simão Marques S. J., Brasília Pontifícia, Lib. I, 24: "...multi sunt sacer- 
dotes, tum saeculares, tum regulares, qui auri ab anno 1698 inventi sacra fame, 
nunc vero adamantum amore, illac (Aurifodinarum Província) confluunt. . . . " 



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CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



recer da capitania até meados do século XVIII, deparam-se- 
nos nos arquivos inúmeros despachos régios apertando com os 
capitães-generais, e com os prelados, assim diocesanos como 
religiosos, para que cada qual, na esfera de sua jurisdição, cha- 
masse os transviados ao cumprimento do dever. (2) 

Havia entre êsses frades bom número de franciscanos, 
contra os quais baldavam-se, não menos, as medidas régias e 
eclesiásticas que se empregavam para pô-los, a todos em geral, 
fora das Minas. 

Em 1745, secundando essas providências, Frei Antônio da 
Conceição, que então regia a Província Franciscana da 
Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, despachou para Minas 
Frei Antônio de Santa Maria, com a delicada missão de reduzir 
à obediência as ovelhas desgarradas do seu rebanho. 

Ignoramos se nesta parte logrou bom resultado a missão 
de Frei Santa Maria. Dizemos "nesta parte", porque não o tra- 
zia à Capitania apenas êste difícil e melindroso encargo. O Mi- 
nistro Provincial investira-o também Comissário de todos os 
Terceiros existentes nas Minas, os quais de há muito clama- 
vam aos superiores da Província lhes instalassem em Vila Rica 
uma congregação de Ordem Terceira da Penitência. A patente, 
que para aquela espinhosa missão o acreditava perante as auto- 
ridades civis e eclesiásticas, da Capitania, continha também o 
seguinte: "E outrossim, como nas minas de Ouro Preto e em 
outros vários lugares se acham alguns noviços terceiros que, 
com impaciência nos suplicam a Profissão, também nomeamos 
e constituímos a V. C. nosso Comissário, cum plenitudine potes- 
tatis, para os professar, praticar-lhes a forma e obrigação da 
nossa Venerável Ordem Terceira da Penitência, segundo os 
Estatutos da mesma e instruí-los com seus bons exemplos, nos 



(2) Eis uma relação, certamente omissa, de Cartas, Avisos e Ordens Régias, 
emanadas da metrópole contra os religiosos que pervagavam as Minas: 12-X-1710; 
9-VI-1711; 26-11-713; 12-XI-714; 27-1-715; 12-VII-721; 23-X-721; 13-V-722; 19-V-723; 

9- XI-723; 2-V-725; 16-11-732; 21-1-738; 21-11-738; 26-11-739; 16-1-755; nas Eph. Min. 
de X. da Veiga. E 12-XI-712; 16-XII-713; 12-1-714; 8-IV-714; 21-IV-714; 27-VII-714; 

10- V-715; 4-V-715; 28-V-716; 13-VII-717; 12-VII-719; 1-III-720; 18-111-720; 11-V- 
720; 12-V-720; 15-V-720; 21-X-721; 12-VII-722; 27-VII-723; 10-V-725; 28-IV-744; 
na Rev. do Arqu. P. Min. 16, 20, 21, 24. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



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santos exercícios que esta Venerável Ordem costuma (3) para 
salvarem melhor as suas almas, que é o fim para que Nosso 
Seráfico Padre São Francisco a instituiu (4), e lhe concedemos 
nossa autoridade ativa e passiva em todo o tempo que exercitar 
esta nossa Comissão, e, completa que seja, com a brevidade 
possível, voltará para êste nosso Convento de Santo Antônio 
do Rio de Janeiro". 

Precioso documento para a história da Ordem Terceira 
da Penitência, em Ouro Preto, essa patente de que traslada- 
mos o trecho grifado e cujo texto mais adiante poremos por 
extenso, foi datada do Convento de Santo Antônio do Rio de 
Janeiro a 28 de outubro de 1745. 

Em virtude das faculdades nela contidas foi que a 9 de 
janeiro de 1746, na capela do Bom Jesus dos Perdões, fregue- 
sia de Nossa Senhora da Conceição de Vila Rica, presentes 
Frei Antônio de Santa Maria, o Vigário Dr. Felix Simões de 
Paiva e seu coadjutor (e sobrinho) Padre João Soares de Al- 
bergaria, e "mais de oitenta irmãos terceiros da dita Venerável 
Ordem (entre as pessoas principais da mesma Vila), profes- 
sos, segundo suas patentes em várias Províncias do nosso reino 
e seus estados", se fundou a Ordem Terceira de São Francisco, 
instituição que iria em breve cobrir-se de glórias e constituir- 
se benfeitora por excelência da cidade, com a doação que lhe 
fêz dêsse mimo arquitetônico de que se adorna, e se desvanece 
com razão — a Igreja de São Francisco de Assis. 

Cumpre notar que nessa primitiva instituição não se orga- 
nizou ainda a Mesa Administrativa. Frei Antônio de Santa 
Maria, Comissário do Ministro Provincial, iria exercendo inte- 
rinamente os cargos de Ministro e Comissário, no desempenho 
dos quais elegeu por secretário interino a Manuel Rodrigues 
Abrantes e procedeu às primeiras profissões. 



(3) Costumar na acepção antiga de usar. Cf. F. Fernandes, Dic. de Verbos, 
verb. costumar. 

(4) A Ordem III da Penitência foi fundada pelo Santo Patriarca em 1221, 
destinada aos fiéis de ambos os sexos que, não podendo viver em conventos, quises- 
sem abraçar no século a vida religiosa. A piedosa fundação foi aprovada por Nico- 
lau IV em 1289, e modificada por Leão XIII em 1883. 



L2 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Registremos aqui, como consta do Livro de Profissões e 
Recepções, os nomes dos primeiros irmãos terceiros que pro- 
fessaram em Minas: 

"Primeiro assento das recepções 
A 9-1-1746 

O R. Dr. Felix Simões de Paiva 
O R. João Soares de Albergaria 

Continuam os assentos das pessoas que, precedendo exatamentc 
todas as diligências que a Regra determina, foram admitidas à recep- 
ção do Santo Hábito por despacho do Rmo. Frei Antônio de Santa 
Maria, Comissário Visitador e com assistência do Ir. Secretário Manuel 
Rodrigues Abrantes e os receberam em 20 de fevereiro de 1746: 

José Antônio Martins e 

Ana Maria da Conceição, sua m. er 

Pedro Gonçalves Lamas 

Luís Barbosa de Miranda 

Manuel Dias de Sousa 

"Em 22 do mesmo: 
Manuel Correia Maia 
Bernardo dos Santos 
Francisco Correia Maia 
Manuel João de Almeida 

"Em 25: 

Cipriano Rodrigues Lanhoso 
João Barbosa Lima e 
Teresa Quitéria de Jesus, sua m. er 
"Em 28: 

Luís Pita Loureiro e 

Maria das Neves de Faria, sua m. or 

Pedro de Almeida e 

Rosa Maria de Jesus, sua m. er 

Marcos da Fonseca 

Manuel Pires de Carvalho 

Manuel Vieira 

Francisco Barbosa de Figueiredo 
Custódio Francisco Moreira 
Manuel Dias de Sousa 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



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Em 7 de março de 1746: 
Francisco da Costa Coimbra 
Jacinto Monteiro de Barros 

Em 14: 

O Cap. m Manuel Álvares de Azevedo 
Domingos de Abreu Cadaval 
Manuel Ribeiro Alcanede 
Manuel de Sousa Soares da Fonseca 
Tomé Dias Coelho 

Em 25: 
Sebastião Lopes Pereira 
João Ferreira Morais 
Manuel Luís dos Santos Ferreira 
Francisco da Silva Vale 
João Lopes Veloso 
Francisco Carneiro de Azevedo 

Em 6 de abril de 1746: 

José Gomes Goios 

Felipe da Costa Escudeiro 

João Pereira Caixeta e 

Caetana do Rosário-, sua m. er 

Ana do Rosário, sua filha, idade 13 a. 

Manuel Ferreira da Costa 

José Ferreira Couto 

Mateus Romeiro da Costa 

Manuel de Sá Rodrigues 

Francisco Xavier 

Cipriano da Silva 

Em 17: 

Antônio Gonçalves de Araújo 

João de Araújo Chaves 

Domingos de Moura 

Manuel Rodrigues Freire 

Padre Antônio Jácomo 

Padre Antônio Gomes de Abreu 

Antônio Pereira de Sousa 

Francisco Teixeira da Costa 

Francisco Machado de Sousa 

Manuel Ferreira da Rocha e 

Francisca Maria da Conceição, sua m. er 

Antônio Dias Bicalho e 



14 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Ana Maria de Jesus, sua m. er 
Isabel da Silveira, viúva 
Catarina Luísa Ferreira da Silva 
Tenente João Rodrigues de Sousa 
Manuel Gonçalves Vassalo 
Manuel Dias Guimarães 
Antonio Teixeira da Cunha 

Em 19 de maio de 1746: 
Domingos Fernandes Varandas 
Antônio Nunes Ferreira 

Em 1 de junho de 1746: 
Caetano Pereira Luís 
Manuel Gomes de Oliveira 

Em 2 de agosto: 

Manuel da Costa Novais 
Mateus de Araújo Veiga 
Francisco Lopes da Silva 
Antônio José de Oliveira 

Em 24: 

Manuel de Freitas Guimarães e 

Rosa Maria de Jesus, sua m. er 

Antônio José de Lima Costa e 

Benta Nunes do Rosário, sua m. er 

Catarina de Jesus, m. er de Antônio Gomes Sousa 

Catarina Nunes do Rosário, m. er de Antônio Alves de Sousa.' 

"Certificado da primeira profissão 

Frei Antônio de Santa Maria, Religioso do Seráfico P. São Fran- 
cisco da Penitência da Imaculada Conceição da Snra. do Rio de Ja- 
neiro, Pregador, Lente na Sagrada Teologia, ex-Custódio, Examinador 
Sinodal e Com. Visitador, cum plenitudine potestatis, pelo Rmo. P. M. 
Fr. Antônio da Conceição, Ministro Provincial atual da mesma Pro- 
víncia &. Faço certo que o Rdo. Dr. Félix Simões de Paiva, tendo re- 
cebido de minha mão o Santo Hábito da Ven. el Ordem Terceira da Pe- 
nitência de nosso Seráfico Patriarca S. Francisco na forma que ex- 
pressamente neste Livro a fl. 1 me suplicou sua Profissão; e como 
instruído na Regra que indica observar inteiramente com a ajuda do 
Senhor, juntos os mais predicados por que se fazia atendível a sua 
súplica, por privilégio especial de pessoa da primeira distinção, lhe 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 15 

dispensei o tempo do seu noviciado, admitindo-a a Profissão, que com 
efeito fêz nas minhas mãos em 9 de janeiro de 1746, presentes os ir- 
mãos professos já referidos na atestação expressa nesta a fl. 1 e se 
lhe fêz seu assento que abaixo se vê, onde imediatamente se continua- 
rão as dos demais irmãos que, mediante a Divina Graça, esperamos 
professem esta Santa Venerável Ordem, a que se dará inteiro crédi- 
to, valor e cumprimento, sendo feitos os sobrescritos pelo Irmão Ma- 
nuel Rodrigues Abrantes, Secretário interino que esta escreveu, que, 
para constar desta verdade, a mandei lançar nesta Vila Rica e Capela 
do Senhor Bom Jesus dos Perdões aos 9 de janeiro de 1746 anos. E eu 
Manuel Rodrigues Abrantes, Secretário da Venerável Ordem Tercei- 
ra, deputado pelo sobredito Rmo. Padre Comissário que o escrevi e 
assinei. Manuel Rodrigues Abrantes." 

O documento que se acaba de ler não foi assinado pelo refe- 
rido Comissário, Frei Antônio de Santa Maria; autenticou-o, 
12 anos depois, Frei Manuel do Livramento, quando em visita 
canónica à Ordem em 1758. Fê-lo nos termos seguintes: "Pela 
authorid e . que temos, aprovamos e assinamos este termo, Sa- 
nando a falta de a Sinação do M. R. P. Me. Fr. Antônio de Santa 
Maria I o Comm° Visor, desta Congregaçam. Em visita aos 20 
de 9br° de 1758 — Fr. Manoel do Livramento — Com. Visor. 
G.l". A êste ato, à primeira vista de somenos valor, deverá em 
boa parte a Ordem da Penitência a vitória que irá alcançar, mais 
tarde, em pelejada luta contra a Ordem do Carmo. 

Em outubro do ano seguinte, 21 meses decorridos de insti- 
tuída a Ordem, encerra Fr. Santa Maria sua missão a Minas e 
regressa ao seu convento. Antes, porém, providenciando acerca 
do melhor govêrno que podia deixar à congregação, provê no 
cargo de Comissário Visitador o Rdo. Dr. Bernardo Madeira, 
virtuoso sacerdote que então vivia em Vila Rica. E o faz com 
o seguinte documento que transcrevo do citado livro de pro- 
fissões: 

"Substabelecimento 

Usando do pleno poder que na Patente retro me concedeu o Pa- 
dre Provincial a respeito da criação de nossos Irmãos Terceiros nas 
Minas, substabeleço em minha ausência no Rdo. Dr Bernardo Madei- 



lfi CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

ra, nosso irmão professo, por reconhecer no mesmo exata capacidade, 
inteireza de espírito, devoção, prudência firme e todos os mais requi- 
sitos aderentes a êste ministério, e recomendamos a nossos Irmãos 
Terceiros, assim noviços, como professos, com o mérito da Santa Obe- 
diência, o reconheçam nosso legítimo sucessor na nossa ausência, e 
o venerem como a seu legítimo Comissário, obedecendo-lhe em todos 
os atos espirituais, seguindo em tudo a sua direção, tanto para rece- 
berem os hábitos, como para professarem, receberem absolvições e to- 
das as mais graças e favores espirituais, assim e na mesma forma pra- 
ticada com a nossa pessoa, e para que o dito Rdo. Dr. nosso sucessor, 
mais mereça, lhe imponho o mérito da Santa Obediência, aceitando 
êste trabalho do que resultará a Deus muita glória acidental e a N. 
Seráfico P.S. Francisco muita honra, e a nossos Caríssimos Irmãos 
Terceiros muita utilidade espiritual. Em Vila Rica, aos vinte e três de 
outubro de 1747 anos. Frei Antônio de Santa Maria, Comissário Visi- 
tador." 

★ 

Durara quatro anos a administração provisória do Comis- 
sário Madeira, cuja preocupação exclusiva parece ter sido a 
expansão da Ordem. Com efeito, ao findar esse período, que 
foi propriamente o noviciado da congregação, estava ela esta- 
belecida, por meio de presidias (filiais ou vice-comissariados), 
em quase todas as paróquias e em muitas capelas do bispado, 
o qual, note-se de passagem, se instalara por esse tempo. 

As paróquias e capelas aludidas são as seguintes, como se 
colhe do arquivo da Ordem: Serro Frio, Congonhas do Campo, 
Ouro Branco, Brumado do Suassuí, Barra Longa, Mariana, 
Curral del-Rei, Sumidouro, Itabira, Morro de Mateus Leme, 
Sabará, Carijós, Lagoa Grande, Catas Altas de Noruega, Gua- 
rapiranga, Rio de Pedras, Barra do Bacalhau, São Bartolomeu, 
Paraopeba, Cachoeira do Campo, Furquim, Arraial dos Pau- 
listas, Venda Nova, Itaverava, Pinheiro, Calambau, Empare- 
dados. Bento Rodrigues, Inficionado, Catas Altas do Mato 
Dentro, Ribeirão de Santa Bárbara, Passagem de Mariana, 
Chopotó, Borda do Campo, Casa Branca, São Sebastião, Antô- 
nio Pereira, São João do Morro Grande, Ponte de São Gonçalo 
do Paraopeba, São Gonçalo do Rio Abaixo, Camargos, São Gon- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



çalo do Bação, Redondo, Soledade, Lamim, etc, às quais locali- 
dades vieram juntar-se, mais tarde, São João del-Rei, a Vila 
de São José, Prados e outras. 

Digna do melhor reconhecimento e gratidão a administra- 
ção benemérita do venerando Dr. Bernardo Madeira, a qual se 
encerrou em 1751, ano em que se procedeu à eleição da primeira 
mesa administrativa. 

Registremos aqui, antes de entrar na segunda fase da his- 
tória da Ordem, uma ocorrência ou circunstância desagradável, 
que provocou uma pastoral, algo enérgica, do Padre Provincial. 

Puseram em dúvida alguns irmãos a validade do substabe- 
lecimento de poderes, feito na pessoa do Padre Bernardo Ma- 
deira por Frei Antônio de Santa Maria. 

Procurando remover tais escrúpulos, mandou-lhes o Pro- 
vincial a seguinte pastoral, que calmou as consciências, e na 
leitura da qual o meu leitor se inteirará do incidente, que foi, 
como veremos mais além, o primeiro na série de intermináveis 
contendas entre a Ordem e o Provincial. 

PASTORAL 

"Frei Antônio da Conceição, Mestre da Sagrada Teologia, ex-De- 
finidor e Ministro Provincial desta Província da Imaculada Concei- 
ção da Senhora do Rio de Janeiro. 

Aos nossos caríssimos irmãos terceiros assistentes em Vila Rica 
e seus distritos saúde e paz em Nosso Senhor Jesus Cristo que de to- 
dos é verdadeiro remédio e salvação. 

Porquanto à nossa notícia vem e de certa ciência nos consta por 
informação verídica, não sem grande aflição de nosso espírito, que 
alguns dos nossos irmãos terceiros, ou sugeridos pelo comum inimigo, 
ou excitados do seu natural orgulho e zêlo menos considerado, duvi- 
dam acêrca da validade da Patente do nosso Comissário Visitador, o 
Irmão Lente e ex-Custódio Fr. Antônio de Santa Maria, do pleno po- 
der que lhe concedemos para nas Minas Gerais criar e instituir a Ve- 
nerável Ordem Terceira de N. Pe. São Francisco na forma que deter- 
minam os Sumos Pontífices se estabeleça nos lugares onde não há 
conventos da nossa Ordem: e outrossim duvidam do substabelecimen- 
to que o dito Rdo. Padre, nosso Comissário, fêz da sua Patente na pes- 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



soa do Mt. Rdo. Dr. Bernardo Madeira, e outras dúvidas menos aten- 
díveis por incoerentes, por se não exprimir na mesma Patente o po- 
der de substabelecer em sua ausência, opostas à subsistência da mes- 
ma Ordem; e pôsto que nos pareça esta inútil controvérsia mais calunio- 
sa injúria, do que zêlo do serviço de Deus, contudo, em atenção à sú- 
plica que se nos fêz, queremos atribuí-la antes a fato de ignorância, 
do que a procedimento temerário: e assim declaramos que não há ra- 
zão de duvidar acêrca da validade de todos os atos, que exercitou o 
dito nosso Irmão Comissário, porque nas palavras — cura plenitudi- 
ne potestatis — expressas na sua Patente se compreendem implicita- 
mente todos os poderes em ordem a criação e instituição da mesma 
Ordem: nem era necessário se exprimissem em particular, porque, 
para serem valiosas, sobravam as nossas instruções particulares que 
lhe insinuamos, das quais não estava obrigado a fazer cientes, salvo 
pro suo libito a quem lhe parecesse. Declaramos outrossim que, no 
substabelecimento da Patente na pessoa do Rdo. Dr. Bernardo Ma- 
deira, em sua ausência, obrou o nosso Rdo. Comissário com prudên- 
cia e manifesto acêrto, supostas as relevantes prendas de virtude, re- 
ligião e devotíssimo zêlo de que estamos certos concorrem no dito Rdo. 
Dr. a quem recomendamos exercite todo o poder que o nosso Rdo. 
Comissário lhe substabeleceu e em tudo se conforme com a doutri- 
na que o mesmo lhe praticou, defendendo êsse pequeno rebanho de 
Jesus Cristo ; não dando ouvidos a clamores populares que fazem dis- 
cordes os ânimos e ofendem a caridade fraternal e, para mais méri- 
to seu, de novo lhe impomos o da Santa Obediência para progredir 
em exercício tão santo com amor e longanimidade e mansidão. De- 
claramos finalmente que com o mesmo acêrto instituiu o nosso Rdo. 
Comissário em Secretário ao nosso muito devoto irmão Manuel Ro- 
drigues Abrantes e em sua falta ao nosso muito zeloso irmão José dos 
Reis de Abreu, aos quais e a cada um recomendamos e encomendamos 
cuidem com paciência em evitar todas as ociosidades, questões e dú- 
vidas que parece influi o País em nossos irmãos terceiros e aos mes- 
mos advertimos com paternal caridade se abstenham de outras novi- 
dades para que nos não precise perguntar-lhes : — si in viridi ligno 
haec faciunt, in árido quid fiet? intimamente, no que respeita às pa- 
tentes que o nosso Rdo. Comissário fêz passar a dois outros irmãos 
terceiros de irem para Portugal, declaramos obrou o que devera, por- 
que, enquanto não há Mesa para as passar, ao mesmo, ou a quem lhe 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 19 

sucede no lugar, pertence o mandá-las passar. Admoestamos a todos 
nossos irmãos a observância de sua Santa Regra, assistam diligentes 
a seus santos exercícios para conseguirem o ditoso fim para que bus- 
caram a Venerável Ordem Terceira da Penitência, e para merecerem a 
Deus o vê-la estabelecida em tempo conveniente, sem contradição de 
seus indiscretos êmulos: e caso que por algum acidente falt*m, tan- 
to o Rdo. Dr. ao presente, nosso Comissário, como os nossos irmãos 
terceiros deputados para Secretário, nos remetam os nomes e cogno- 
mes dos Rdos. Sacerdotes, nossos Irmãos, e dos seculares de mais ca- 
pacidade, para elegermos os que mais aptos nos parecerem. 

Dada neste Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro aos vin- 
te e seis do mesmo (5) de mil setecentos quarenta e oito anos e sela- 
da com o sêlo maior da Província. Frei Antônio da Conceição, Minis- 
tro Provincial// Lugar do + sêlo // Por mandado do Caríssimo Ir- 
mão Ministro Provincial, Frei José de Santa Maria e Silva, Pro-Se- 
cretário." 

2° — GOVÊRNO DEFINITIVO 

Como dissemos acima, realizou-se em 1751 a eleição da 
Primeira Mesa Administrativa. Eis aqui como narra o histórico 
acontecimento o 7/vro I o de eleições da Ordem a fl. 1 : 

"TERMO PRIM.° da elleição q. se fez da primr. a Meza q. se ins- 
tituhio nesta venerável ordem 3. a da Penitencia desta Villa Rica. 

Aos treze dias do mez de Abril de mil sete centos sincoenta e hum 
annos. estando em a Igr. a Matriz de N. Sr. a da Cone. am desta v. a Rica, 
e a caza do Novessiado desta venerável ordem 3 a da Penitencia, ereta 
pello Rdo. Pe. M. e Fr. Ant.° de S. ,a Maria, por obediência e pura inten- 
ção do Rm.° Pe. M.° Fr. Ant.° da Conc. am , Min.° Provincial desta Provín- 
cia da Immaculada Conc. am da Sr. a do R.° de Janr. 0 , juntos o Rdo. 
D. or Bernardo Madr. a Comissr. 0 actual da mesma venerável ordem, e 
Fran. co Barbosa de Figrd.°, Secretr. 0 tudo pello mesmo Rmo. Min. 0 
Provincial, reelleitos pello actual o Rm.° Fr. Agost.° de S. Jozé por sua 



(5) Êste mesmo se refere sem dúvida ao Janeiro do Rio de Janeiro. A data 
será, portanto, 26-1-1748. 



20 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Patente expedida em 30 de 9br.° de 1749 e outros Irmãos os mais cir- 
cunspectos, todos assignados a fl. 2 do L.° dos tr.° 9 , a q. m pello mesmo 
Rd. 0 D.'" Comissr. 0 foi por posto o q. to era vtil e nessr. 0 formar seu re- 
gimem, e governo, por se achar esta venerável ordem com avultado n.° 
de Irmãos, este crescia pela devoção q. se reconhecia nestes Povoz, e 
q. p. a os governar e reger, como tãobem p. a curar as vtilid. es da mes- 
ma venerável ordem, e az maiz concequenciaz, se fazia perçizo formar 
corpo de meza, cujos onorificos empregos e cargos com q. se illustrão 
os mesmos Irmãos, servissem de oz excitar a mayor devoção; e con- 
cordando todos vniformemen. ,e no açerto da referida proposta, e nos 
premeditados effeitos q. delia se seguião, se procedeo á elleição q. foy 
feita com a sollemnid. e q. se costuma, e na forma q. detreminão os 
Estatutoz e Constetuhiçõez da d. a venerável ordem, e hé a q. ao dian- 
te se segue, em q. sahirão elleytos os Irmãos nella conteúdos. 

Elleyçam 

Em nome de Deos todo poderozo, Padre, Filho, e Espirito S. to trcz 
pessoaz, e hum Só Deos verdadeiro, e da Sanctissima Virgem May de 
Deos e Sr. a nossa, e de N. S. P. e S. Fran.'°, esta hé a elleyção q. nesta 
deste prez. p anno de 1751, pello Rm.° D. " Bernardo Madr. a nosso Co- 
missr. 0 , e seu compenhr. 0 o Rd. 0 D. or . Ant.° Jozé corr. a e pela jun- 
ta dos Irmãos discretoz q. p. a este acto forão convocados, em a qual 
foy elleyto por Ministro. 

O Irmão Snr. Lourenço de Amorim Costa 

Vice Ministro 
O Irmão Snr. Manoel Vieyra 

Secretario 

O Irmão Sfír. Fran.'° Barboza de Figr. do 

Proc." r G. : " 
O Irmão Snr. Jozé Gomez da Rocha 

Sindico 

O Irmão Snr. Lourenço Pirez Ramalho 

Deffenidores 
O Irmão o Rd. 0 Sr. D. or Ant.° Jozé correa 
O Irmão o Rd° S.' Pe. Ant.° Gomez de Abreu 
O Irmão Sr. Dom. 08 de Sa Roiz 
O Irmão Sr. Manoel Giz de olivr. a 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



21 



O Irmão Sr. Matheus de Affon. ca 
O Irmão Sr. Andre Nunes Ferr. a 
O Irmão Sr. Manoel Mont. 0 S. Thiago 
O Irmão Sr. Manoel da Silva Couto 

Vigr. 0 do Culto Devino 
O Irmão Sr. Pedro Giz. Lamaz 

Ministra 

A Irmã Sr. a D. M. a Izabel de Sá Bitancor 

M. 1 ' dos Novissos 
O Irmão Sr. Miguel Jozé Lopez 

Mestra das Novissaz 
A Irmã Sr. a Antónia Joaquina de S. Perfinz 

Sanchristãez 

O Irmão João da Silva Ferr. a 
O Irmão Ignacio da Costa chavez 
O Irmão Jozé Roiz Duarte 
O Irmão João de Amorim Per. a 

Prezidentes 
O Irmão Pedro de Miranda 
O Irmão João Giz. Bragança 
O Irmão Tristão Gomes Lima 
O Irmão João Roiz Ceyra 
O Irmão Manoel Roiz Fr. e 
O Irmão Miguel Roiz azurar 
O Irmão João Roiz de Souza 
O Irmão Amaro Alz. Pinto 
O Irmão Bernardo Giz. veyga 
O Irmão Manoel de Abreu 
O Irmão Domingos Pinto 
O Irmão Jerónimo Roiz dos Reys 
O Irmão Thomé Diaz Coelho 
O Irmão Ant.° de 01ivr. a Braga 
O Irmão Fran. 1 " Dominguez Espinhoza 
O Irmão Bm.'" Gomez de Macedo 
O Irmão Phelipe da Costa Escodr. 0 
O Irmão Domingos Ferr. a de Aguiar 
O Irmão Manoel Gomez de olivr. a 
O Irmão Jozé do Souto Ribr. 0 
O Irmão João Per. a caxeta 

E nesta forma como na do estillo derão por feita e concluhida a 
sobred. a elleyção q. determinão fazer publicar em o dia 26 deste pre- 



22 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



zente mez, posto q. seu ef feito haja de durar mais de hum anno q. 
vem a çer dezde o referido dia da sua publicação e posse thé o dia 17 
de 7br.° de 1752, em q. he maiz conforme semelhante acto, como se 
pratica em os outros lugares, no q. todos os assima referidos e abaixo 
assignados concordarão uniformen. te e de tudo mandarão fazer este 
termo q. assignarão em o L.° dos tr. os a fl. 2 onde a d. a elleyção foi 
lançada por equivocação e eu Fran. co Barboza de Fig. do que esta sob 
escrevi e assigney. Fran. co Barboza de Figr. d0 ". 

Estava definitivamente instalada em Vila Rica a Ordem 
Terceira da Penitência. Deveria, por isto, ter algum destaque 
no calendário da Ordem o dia 13 de Abril. E' a partir, de feito, 
desta data que a Irmandade pode considerar-se fundada em 
Ouro Preto. E o dia não deveria ser festivo tão somente para 
a Ordem, a qual pràticamente nem já existe, separada que se 
acha, há muito, do tronco que lhe subministrava a seiva espiri- 
tual — o Provincialato do Rio de Janeiro; tal dia merecia ser 
de festas, sobretudo para Ouro Preto. Aos Terceiros Francis- 
canos, exclusivamente, deve a veneranda cidade êsse mimoso 
monumento — a Igreja de São Francisco de Assis — de que 
ela se envaidece, que lhe atrai admiradores e que vale, por fim, 
de estátua a um de seus filhos mais ilustres — Antônio Fran- 
cisco Lisboa, o Aleijadinho. 

Foram os heróicos franciscanos que, sozinhos, desajudados, 
lutaram e venceram, e legaram à cidade o seu melhor adorno, 
hoje monumento histórico e artístico nacional. 



CAPÍTULO II 



ESTATUTOS 

Em 1756 levou a Ordem à aprovação do Provincial os Esta- 
tutos que elegera para seu regime. Constam de 20 estirados e 
interessantes capítulos, precedidos de um curto "Proêmio", ou 
brevíssimo histórico das Regras do Santo Patriarca. 

Na impossibilidade de passá-los na íntegra para estas pá- 
ginas, limitar-me-ei a registrar-lhes os títulos, que são: 

"Cap. I — De como se hão de examinar os que hão de entrar na 
Ordem (Proibe a admissão de "mulatos ou cabra" e 
de "judeu, mouro, ou hereje e seus descendentes até a 
quarta geração)". 

"Cap. II — Da forma do recebimento dos que querem entrar na 
Ordem (Interrogatório — Ritual)". 

"Cap. III — Da forma do hábito e qualidade dos vestidos". 

"Cap. IV — Que não vão a convites ou actos deshonestos, nem dem 
couza algúa aos representantes (jogos, danças e actos 
ou espetáculos públicos)". 

"Cap. V — Da abstinência e jejum". 

"Cap. VI — De quantas vezes se ha de confessar em o anno e re- 
ceber o corpo de Crispto". 

"Cap. VII — Que não tragão armas offensivas". 

"Cap. VIII — De como se hão de dizer e rezar as horas canónicas". 

"Cap. IX — Que todos os que de Direyto podem, fação Testa- 
mento". 

"Cap. X — Da paz que se ha de reforma entre os Irmãos e os 
Extranhos". 

"Cap. XI — De quando são molestados contra o Direyto e seus 
privilégios". 



24 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



FÕLHA DE ROSTO DOS PRIMEIROS ESTATUTOS DA ORDEM TERCEIRA 
DA PENITÊNCIA DE VILA RICA 

★ 

ESTATUTOS 

Da Venerável Ordem 3 a da Penitencia 
Erecta nesta Villa Rica 
Pelo R. P. M. 
Fr. Antonio de Santa Maria 
Relligioso Seraphico, lente na Sagrada Theologia, 
Exdifinidor, Excustodio, e Examinador Sinodal, 
debaixo da proteção, e obediência 
Do R mo Men° Prov al 
Desta Santa Provincia 
Da Immaculada conceição da Senhora 
Da Cidade do Rio de Janeyro 
Pelo infatigável odio do Ir. M eL Roiz. Abrantes n< anno de 1754 o 
Extrahidos conformemente do formulatorio 
inquam do formulário dos mesmos (1 seobscervão na mes- 
ma venerável ordem, stabelecida no convento de San- 
to Antonio da dita cidade do Rio de Janeyro, q. 
reformou com exacta devoção, zello e prudência 
O. R. P. M. 
Fr. Antonio do Extremo comm 0 - 
Vez 01 q. foy da d a Ven cl ordem pela Doutissi- 
ma direcção do R. P. M. 
Fr. Ignacio de Santa Roza 
Mestre em Artes e Lente Actual 
de Theologia moral no mesmo Convento 

★ 



(*) Ver adiante a razão deste grifo e versaletes. 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉTO 



25 



"Cap. XII — Que se guardem quanto puderem de juramentos so- 
lemnes". 

"Cap. XIII — De ouvir Missa e da Congregação que se ha de fazer". 
"Cap. XIV — Dos Irmãos emfermos e defuntos". 
"Cap. XV — Dos Ministros". 

"Cap. XVI — Da Visitação e correipção dos Delinquentes". 

"Cap. XVII — De evitar contendas entre sy e com outros". 

"Cap. XVIII — Em que maneyra e porque cauzas se poderá dispen- 
sar em abstinências". 

"Cap. XIX — Que os Ministros manifestem as culpas ao Visitador". 

"Cap. XX — De como as couzas assima ditas nenhúa obriga a pec- 
cado mortal". 



Tais Estatutos não eram originais da Ordem de Vila Rica, 
quero dizer, não foram por ela confeccionados, mas adotados. 
Tinham sido copiados, palavra por palavra, dos Estatutos por 
que se regia a Ordem Terceira da Penitência do Rio de Janeiro, 
os quais não haviam alcançado ainda a necessária aprovação. 

Pelo mesmo motivo por que estes haviam sido recusados, 
foram-no, de certo, os de Vila Rica. E' o que nos revela o têrmo 
que vamos ler e que se encontra anexo ao livro dos Estatutos, 
in fine (arquivo da Ordem) : 

"Nesta nossa Congregação intermédia, q. celebramos nesta Caza 
Capitular de S. Ant.° do Rio de Janeiro aos 24 do mes de Abril do 
anno de 1756, nos forão aprezentados estes Estatutos da V. 01 Ordem 
3. a da Penitencia de N. Seraphico Patriarcha S. Fran. ,l> de V. a Rica; 
p. a q. os confirmasse-mos, e lhe déssemos a nossa approvação; porem 
attendendo Nos ás varias cotas, e riscas, com q. se achão adnotados, 
e q. delles precizam. ,e ha-de nascer mais confuzão, do que aprovei- 
tam.* 0 ás almas dos nossos Cmos. Irmãos 3. 0S ; nem de facto o seo ori- 
ginal, de donde forão extrahidos da V. el Orde 3. a deste Rio de Janr. 0 , se 
acha approvado p. los Prelados mayores nossos predecessores; e so a 
Nos pertence dar Estatutos para se regerem, e governarem as venerá- 
veis Ordens 3. m a Nos sugeitas; damos estes Estatutos por dc nenhu 
vigor, p. h,s cauzas assima dittas; e só mandamos se rejão, e governem 
os nossos Cmos Irmãos 3." s de V a rica p. 1 " Palestra da Penitencia, c 
<:o esta se observe, e guarde, pois por ella se regem, e governão, tantas, e 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



tão innumeraveis Ordens 3. 08 existentes em todo o mundo, sugeitas a 
nossa Seraphica Religião; porem os 14 Capitolos estatuidos, e deter- 
minados p. l0B nossos Cmos. LI. da Meza da mesma Venerável Ordem 
3. a de V. a Rica, os quaes se achão a fls. 60 deste Livro, os approvamos, 
e confirmamos, e mandamos se lhe de inteiro comprim. 10 . Em fê do 
q. mandamos fazer este tr.°, em q. nos assignamos, e sellamos com 
o sello menor do nosso Officio. Neste Conv. to de S. Ant.° do Rio de Ja- 
neiro aos 29 de abril do anno de 1756. 

Fr. Archang. 10 Ant.° de Sâ 
Min.° Prov. al 
L-f-S" 

Os 14 capítulos da página 60, a que se refere o têrmo, foram 
aqui acrescentados, porque, nesta parte (esmolas ou contribui- 
ções dos membros da Mesa), não quis guiar-se a Ordem Vilari- 
quense pelo que estatuía sua congénere do Rio de Janeiro. 

A Ordem não acolheu bem o despacho de seu superior 
imediato. E, ou por desafronta, ou porque a trabalhasse já essa 
ânsia de liberdade que caracteriza a gente mineira, saltou o seu 
Provincial e recorreu a Castela. 

De há muito ardia a Ordem na aspiração de ampla auto- 
nomia. A um de seus procuradores em "Portugal, Espanha e 
mais partes onde convier", recomendava em 1755 (6) que alcan- 
çasse da autoridade competente "que a Ordem fosse isenta de 
toda a jurisdição ordinária" e "que pudesse fazer todos os seus 
atos públicos e particulares, dentro e fora da sua igreja, expon- 
do nela o SS. Sacramento em festividades da Ordem e em Quin- 
ta-Feira Maior, sem que a isso impedissem os Exmos. Prelados, 
ou seus Ministros, ou o Pároco da freguesia". 

Era por êsse tempo Comissário Geral dos Franciscanos 
Frei Pedro Juan de Molina, autoridade suprema da Ordem. 
Tinha sua residência em Madri, no Convento de São Francisco. 



(6) Procuradores da Ordem por outorgas de 1752 a 1755: Dr. Francisco Xa- 
vier Ramos, Capitão Francisco Antônio Rodrigues Feio, Capitão Francisco Dias 
Leal, Francisco Batista Rodrigues, Antônio Rodrigues Airão, João Rodrigues Mu- 
reira, e outros. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 27 

À sua porta, feridos pela recusa áspera do Provincial, foram 
bater os Terceiros de Vila Rica. 

Tinham por si, além de hábeis e bem providos procurado- 
res, os franciscanos Fr. José da Conceição Pereira e seu irmão 
Fr. Francisco de Azurara, sobrinhos de um senhor residente 
em Vila Rica, irmão terceiro, provàvelmente. O segundo dêstes 
frades, Definidor Geral da Ordem, gozaria, como tal, de fácil 
acesso junto àquella autoridade. 

À sombra de tais patronos, bem credenciados aliás, não só 
obteve a Ordem a aprovação de seus Estatutos, senão que alcan- 
çou também alguns dos privilégios e favores espirituais que 
pleiteava. 

Cumpre notar que os Estatutos, apresentados e aprovados 
em Madri, não foram exatamente os mesmos, levados à sede da 
Província do Rio de Janeiro. Constavam estes, como vimos, de 
20 capítulos; eram de 29 os segundos. Por estes últimos se regeu 
a Ordem até a reforma de Leão XIII. E' pena que se tenham 
perdido. Era um belíssimo livro, segundo fui informado, enca- 
dernado em belbutina, e enriquecido de preciosas iluminuras. 

Transcrevo a seguir, acompanhadas dos breves de confir- 
mação, as "Letras Patentes" de Fr. Pedro Juan de Molina: 

Aprovação dos Estatutos 

"Fr. Pedro Juan de Molina, Le. or da Sag. da Theologia, Theologo de 
S.M.C, en la R. 1 Junta por la Immaculada Concepcion, ex-Ministro 
Gen. 1 de todo el orden de Men s de N.P.S. Fran. eo y en esta clsmontana 
Familia Commissar. 0 Gen. 1 Visit. 01 " Apost. co y siervo &. 

Al R. P. Commissar. 0 , Vice-Commissar.°, Mintfo, Officiales y de- 
mas individuos de ntfa V. 1 Orden Tercera de Penitencia de N.S.P.S. 
Fran. co sita en la Iglesia Parroq. 1 de N. ra S. ra de la Concep. m de villa 
Rica, Minas de oro prieto en el Brasil, Diocesi de Marianna, Salud y 
paz en nfo Senor Jesu enristo. 

Porquanto por parte de nfa V. 1 orden tercera de Penitencia de 
N.S.P.S. Fran. co sita en la Iglesia Parroq.' se nfa de la Concep." 1 de Villa 
Rica, Minas de oro prieto en el Brasil, Diocesi de Marianna, se nos 
ham presentado unas constituciones Municipales, q. son las retro 
scriptas, que contienen veinte e nove capitulos, para el fin de que vis- 
tas y examinadas, las aprobemos, confirmemos y mandemos se obser- 



28 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



vcn en ella. Haviendolas visto y examinado con madura reflexion, las 
hemos advertido mui arreglados y conformes à nrãs constituciones 
Gen. s enquanto permiten las circunstancias dei Pais; asi por lo q. 
toca al espiritual, como al temporal govierno de dha nfa tercera or- 
den: Portanto, y deseando Nós el cooperar quanto es de nfa parte al 
mejor y mas puntual arreglam. 1 " de la expressada nfa tercera orden, 
y el condescender a sus humildes ruegos; en virtud de las presentes, 
y usando de la authoridad de nfo officio y faculdades Apostólicas â 
Nós especialm. p concedidas, aprobamos dichas Constituiciones y sus 
capitulos, y en toda forma las confirmamos; y ordenamos, y manda- 
mos à todos los Hermanos, q al presente son, y por tiempo fueren de 
la mencionada Orden tercera, asi Prelados, como súbditos y a todos 
los demas, q. directa ô indirectam. 0 concerner puedan las referidas 
Constituciones, q observen pontualm." su contenido, sô pena de nui- 
lidad de quanto en contrario se obrar. Dadas en este nfo Conv. to de 
N.P.S. Fran."" de Madrid en 30 de Enero de 1760 — Fr. Pedro Juan de 
Molina, Comm. Gen. 1 = loco + Sigilli = Por mand. 0 de S.P.Rma. Fr. 
Gabriel Lazaro = Secretr. 0 Gen. 1 de Desc. zos y Recoletos =." 

(Breve da Nunciatura confirmando a Patente supra) 

"Philippus Miseratione Divina S.R.E. Presbyter Cardinalis Accia- 
juoli, SSiíii. Dfi. Nfi. Papae et S. Sedis Aplicãe, in Portugalliae et Al- 
garbiorum Regnis atque Dominiis Nuntius &. Dilectis in Xpto. Fillis 
Pri. Commissario, Vice-Commissario, Ministro, Officialibus, allisque In- 
dividuis Venerabilis Tertii Ordinis S. Fran. cl de Poenitentia numcupa- 
ti, siti in Ecclesia Parochiali B.M.V. a Conceptione de Villa Rica, Mi- 
nas de Ouro preto in Brasilia, Marianen. Dioec. Salutem in Drío semp- 
nãm. Religionis zelus, vitae ac morum honestas, aliaque laudabilia 
probitatis et virtutum merita, super quibus apud nos fidedigno com- 
mendamini testimonio nos inducunt ut vos speciabus. et grais, prose- 
quamur. Exponi siquidem Nobis nuper fecistis, quod vos quandam 
gratiam seu Patentem approbationis quarumdam Regularum seu 
Constituionum vel Capitulorum a vestro Commissario gli. obtinuistis, 
tenoris sequentis, videlicet = Fr. Pedro Juan de Molina, Lec. or de 
Sag. d * Theologia 

(seguc-se na íntegra a Patente acima transcrita) 

= Cum autem 

sicuti eadem petitio subjungebat hudi. grãm. seu Confirmaofiis statu- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



29 



torum Patentem, quo firmius subsistat et exactius servetur Aplicãe. 
Confirmaõnis robore communiri sumopere desideretis. Nobis prèa. 
humitr. supplicari fecistis ut vobis in pmissis oppne. providere be- 
nigne dignaremur. Nos igitur qui Lfas. Aplicas, ad quarum insertio- 
nem minime tenemur sufficienti faculte, suffulti sumus, vesque spe- 
eiabíís. favobus. et grãis prosequi volen. et a quibusvis ex cabús. 
aliisque eccticis censuris, si quibus quomodolibet innodati existitis ad 
effum prntiúm. tantum consequem. dumodo tamen in illis ab anno 
non insordueritis, harum serie absolven. et absolut. fore censen. hudi. 
suppbus inclinati: Aucte. Aplica, qua in hac parte fungimur prae- 
dictam grãm. seu statutorum Patentem et. ut supra, insertas Lfas. 
firmas, validas et efficaces, remanere, suumq. plenarium et integrum 
effum. sortiri et obtinere mandamus. Non obstantibus quibuscumque 
in contrarium facientibus. In quorum fidem pfítes manu nfa. firma- 
tas, sigilloque nfo. munitas expediri mandavimus. Datum Lisbonae 
die duodécima Mensis Martii Anno dfii. MDCCLX, SSnii. Dfíi. Nf. Dfii. 
Clem. Div. a Provid. a PP. XIII — Anno Secundo — Ph."" Card. Accia- 
juoli. L. + S. Emmanuel Giz. Vargas. P. Secr. ius //"- 

Concessão de faculdades 

"Fr. Antonio Juan de Molina, Lec." r de Sag.' la Thgia. y en esta 
Familia Cismontana dei Ordem de Men. K de N.P.S. Fran. 1 " Comm.° 
Gen. 1 Vizit. Apost.™ y siervo = Al P. Comm. 0 , Vice-Comm. 0 Ministro, 
y Officiales, que componen la Mesa de nfa V. 1 Orden Tercera de Pe- 
nitencia de N.P.S. Fran. 00 de Villa Rica, Minas de Oro prieto en el 
Brasil, Dioecesi de Mariana, salud, y paz en nfo Sefior Jesuchristo. = 
Por quanto por parte de VV.CC. se nos há supplicado, q. e tengamos â 
bien de confirmar las Letras Patentes, qu. p para el buen regimen de 
dha Orden tercera expedio nfo immediato Antecessor, las quales son 
dei thenor seguiente = 

Fr. Pedro Juan de Molina, Lec. or antiguo de Sag. ,1:i Thgia, thgo 
de la Mag.' 1 Catholica en su R. 1 Junta por la Immac. da Concep. on Ex- 
Mntfo Gen. 1 de todo el Orden de Men. s de N.P.S. Fran. 10 y en esta Fa- 
milia Cismontana Comm. 0 Gen. 1 Visit. or Apost. co y siervo = Al. P. 
Comm. 0 Vice-Comm. 0 Mintfo, Officiales, y demas individuos, q. e al 
prezente son, por tiempo fuerem de nfa V. 1 Orden tercera de Peniten- 
cia de N.P.S. Fran. co sita en la Igles. a Parroq. 1 de N. ra S. ta de la Con- 



30 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



cep. on de Villa Rica, Minas de Oro prieto en el Brasil, Dioecesi de Ma- 
riana, y â todos los demas, q. p conciernen, ô concerne puedan estas 
nfas Letras salud, y paz en nfo Senor Jesuchristo = Por quanto he- 
mos entendito, q. e nfa V. 1 Orden tercera de Penitencia de N.P.S. Fran. co 
eregida en el ano de 1746. con facultad, y licencia de los RR.PP. Pro- 
vâles de nfa Provâ de la Immac. dn Concep. ou dei Brasil de Men. s Desc. 05 
en la Igles. a Parroq. 1 de N. ra S. ra de la Concep. on de Villa Rica, Minas 
de Oro prieto en el Brasil, Dioecesi de Mariana, necessita para su 
mayor augm. t0 estabilidad, y bien, asi espiritual, como temporal de 
el reforme de algunos abusos, q. e el comun enemigo hã introducido, 
con evidente despendio de la paz, amor fraternal, y desinteres, q. p 
tanto nos amonesta N. Seraphico Patriarcha; en virtud de las pre- 
sentes, usando de la author. d ordinária de nfo Officio, y de las facul- 
tades Apostólicas â Nos especialm.* concedidas ordenamos, y manda- 
mos lo sigui. te = Primeiram. te que todas las elecciones de Comm. 0 Vi- 
ce-Comm. 0 Mntfo, y de mas Officiales, q. e se hicierem desde el dia de 
la confirmacion de los estatutos de dha V. 1 Orden tercera, que hemos 
tenido â bien de aprobar, y confirmar, sean en todo, y por todo con- 
formes â lo prevenido, y mandado por ellos sô pena de nullidad lo q. ff 
en contrario se obrare; sinq. e ningun inferior nfo pueda dispensar en 
todos, ni en alguns de ellos. 

Itt: Que los RR.PP. Provâles de la expressada nfa Provâ de la 
Concep. on dei Brasil de Men. s Desc. os solam. ,e puedan embiar Visit. or 
Religioso para visitar dha tercera Orden de diez en diez anôs, paia 
cuya visita le assignamos el tiempo preciso de tres Meses desde su 
arribo el referido Pueblo de Villa Rica, los quales concluidos, queda 
sin facultad, ni author. d alguna, aunq. e no haya finalizado su Visita, 
qu. e hã de ser precissam. te sobre la guarda de la Regia de la tercera 
Orden de Penitencia de N. S.P.S. Fran. co y observância de los Estatu- 
tos de dha tercera Orden, por Nos vistos, aprobados, y confirmados, 
sin ingerirse, ni intrometerse en otras dependências, y disposiciones. 

Itt: Permitimos, y concedemos â los Hermanos, q. e son, y por tiem- 
po fueren de la dha nfa V. 1 Orden tercera, q. e en falleciendo puedan 
ser amortajados, y enterrados en sus próprios Hábitos de Terceros de 
que usan; sinque se pueda precissar â la expressada nfa tercera Or- 
den, Albaceas, ô Herederos de los q. e falleciessen, el que los amorta- 
jen, y entierren en otros hábitos. 

Asi mismo admitimos â todos los Hermanos de la dha nfa V. 1 ter- 



9Ã0 FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



31 



cera Orden, q. e al presente son, y por tiempo fueren al goze, y parti- 
cipaz. n de todos los Sacrifícios, oraciones, mortificaciones, y demas 
buenas obras, q. e se hacen, ê hicieren por todos los Hermanos de nfa 
V. 1 tercera Orden de Penitencia de N.S.P.S. Fran.°° extendida, com 
tanto beneficio de las almas, por todo el mundo. 

Finalm. tp ordenamos, y mandamos por S. ,a obediência en virtud. 
dei Espiritu S. t0 que â estas nfas Letras se les de el debido, y entero 
cumplim. to asi por los Hermanos de la referida nfa V. 1 Orden Terce- 
ra, como por los RR.PP. Provâles, y demas Religiosos de la dha nfa 
Prova de la concep. OD dei Brasil de Men". Desc. os para cuyo fin remiti- 
ra la expressada nfa V. 1 Orden tercera una copia authentica de estas 
nfas Letras al R.P. Prval de la susodha nfa Prova, q. e colocará en el 
Archivo de ella, paraq. 1 * conste de nfa determinaz." y no se alegue en 
tiempo alguno de ignorância. Dadas en este nfo. Conv. to de N.P.S. 
Fran. co de Madrid en 30 de Enero de 1760. = Fr. Pedro Juan de Moli- 
na Comm. 0 Gen. 1 = Por man. ,1 ° de S.P. Rma: Fr. Gabriel Lazaro, Se- 
cret.° Gen. 1 de Desc. os y Recol. tos = Lugar + dei sello. = 

Por tanto, deseando Nos condescender â los humildes ruegos de 
VV. CC. en virtud de las presentes, confirmamos, y revalidamos las Le- 
tras preinsertas en todo su contenido, y mandamos baxo las penas cn 
ellas expressadas â todos â quienes conciernen, y concerner puedan, que 
las executen, cumplan, y obedezcan, sin ir en modo alguno contra 
ellas. Dadas en este nfo Conv. to de N.P.S. Fran. 00 de Madrid en 17 o'e 
Septiem. p de 1761. = 

Fr. AntP Juan de Molina 
Comis. Genr. 1 

L.+S. 

Por mand. 0 de S.P. Rma 
Fr. Gabriel Lazaro 

Secret. 0 Gen.' 

BREVE DA NUNCIATURA 

Confirmando a patente de faculdades 
Philippus Miseratione Divina S.R.E. Presbyter Cardinalis Accia- 
juoli SSmi. Dni. Nfi. Papae et S. Sedis Aplicãe, in Portugalliae et Al- 
garbiorum Regnis atque Dominiis, Nuntius &. Dilectis in Xpto Filiis 
Pfi. Comissário, Vice-Commissario, Ministro, Officialibus, aliisque In- 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



dividuis Venerabilis Tertii Ordinis S. Fran; 1 de Poenitentia nuncupati, 
siti in Ecclesia Parochiali B.M.V. a Conceptione de villa Rica, Minas 
de Ouro preto, in Brasilia, Marianen. Dioec. Salutem in Dno. semp- 
nam. Religionis zelus, vitae ac morum honestas, aliaque landabilia 
probitatis et virtutum merita, Super quibus apud nos fidedigno com- 
mendamini testimonio nos inducunt ut vos speciabús. favõbus. et 
grãis, prossequamur. Exponi siquidem Nobis nuper fecistis quod vos 
quandam gratiam seu Patentem a vestro Pfi. Commissario Gli. obti- 
nuistis tenoris sequentis, videlicet = Fr. Pedro Juan de Molina, Lee/"' 
antiguo de Sag.* 1 Thgia 

(segue-se a "Patente de Concessão de faculdades", já transcrita; 

Cum autem 

secuti eadem petitio subjungebat hujusmodi gratiam seu Patentem, 
quo firmius subsistat et exactius servetur Aplicãe. confirmãonis ro- 
bore comuniri sumopere desideretis Nobis prêa. humitf. supplicari 
fecistis ut vobis in pmissis oppne. providere benigne dignaremum. Noò 
igr. qui Lfas. Aplicas, ad quarum insertionem minime tenemur sufíi- 
cienti facultè. suffulti sumus, vosque speciabíís. favobus et grãis prost- 
qui valent et a quibusvis ex eãbus et ecclicis. censuris, si quibus quo- 
modolibet innodati existitis ad effectum pntium tantum consequen. 
dumodo tamen in illis ab anno non insordueritis, harum serie absol- 
ven. et absolut. fore censen. hudi, suppbus, inclinati; Auctè. Aplica, 
qua in hac parte fungimur, praedictam grâm. seu Patentem confir- 
mamus et approbamus, illique inviolabilis Aplicãe. firmitatis robur 
adjicimus decernentes eamdem grãm. seu Patentem, et, ut supra, in- 
sertas Lrãs. firmas, validas et efficaces remanere, suumque plenarium 
et integrum effíim. sortiri et obtineri mandamus. Non obstantibus 
quibuscumque in contrarium facientibus. In quorum fidem pntes. 
manu nfa. firmatas, sigilloque nfo munitas expediri mandavimus 
Datum Lisbonae, die decima tertia Mensis Martii, Anno Dni MDCCLX. 
SSmi. Dni. Nf. Dni. Clem. Divina Providentia PP. XIII. Anno Se- 
cundo. 

(a) Ph. ,l % Card. Acciajuoli. 

Emmanuel Giz. Vargas. — Pr.° Secr. ,ua ". 

Coube ainda a Fr. Pedro Juan de Molina, três anos depois, 
quando segunda vez no governo da Ordem, conceder aos Ter- 
ceiros de Vila Rica a graça que consta do seguinte documento: 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



33 



ESCAPULÁRIOS DA CONCEIÇÃO 

"Fr. Pedro Juan de Molina Lec. or de Sag. da Thg. ia Theologo de su 
Mag: 1 Cath. M en la Real Junta por la Immaculada Concep." 1 de Nfa. So- 
nora segunda vez Mntfo Gen. 1 de todo el Orden de Men. ,s de N.P.S. 
Fran.'" Comm. 0 Visit. or Apostólico y siervo = Al R.P. Comm. 0 de los 
Terceros de nfa Orden de Villa Rica en las Islas de Oro prieto en el 
Brasil, q. 1 ' al presente es, y por tiempo fuere, salud, y paz en nfo senôr 
Jesuchristo = 

Por quanto los Herm." de nfa tercera Orden de dha Villa Rica 
nos han suplicado tuviessemos â bien de conceder nfa facultad. y li- 
cencia al P. comm." de dha Orden tercera, q. 1 al presente es, y en ade- 
lante fuere, para bendecir los escapulários, ô sean habitillos de li* 
Puríssima concep."" de nfa Senôra para consuelo de muchos de nfos 
herm os . terceros, que lo desean; Por tanto, en atencion, â que en dha 
Isla, no mora Relig.° alguno de nfa Orden, y la gran distancia, que 
hay entre dicha tercera Orden, y los Religiosos de nfa Orden primera; 
por tenor de las presentes concedemos nfa facultad y licencia al dho 
Comm. 0 que al presente es, y en adelante fuere de dicha nfa Orden 
tercera de Villa Rica, para que pueda bendecir dhôs escapulários, ó 
sean habitillos de la Immaculada Concep."" de nfa Senôra dadas en 
este nfo. Conv. to de N.P.S. Fran."- de Benavente en 24 de Junio de 
1764./ 

Fr. Pedro Juan de Molina 
Mntro. Gen. 1 

Por mand. 0 de S.P.Rnia 

Fr. Pasqual Joven 

Sec.° Gen. 1 de la Orden." 

A intervenção, escusada, do Núncio na aprovação da Pa- 
tente das Faculdades impunha como consequência a interven- 
ção também do govêrno civil, sem cujo beneplácito, sobretudo 
a êste tempo em que estavam rôtas as relações entre Lisboa e 
Roma, não podiam ter execução no reino nenhuns atos emana- 
dos do govêrno pontifício, ou de seus ministros e legados. 

Aconteceu que a Ordem, por inadvertência de seus procura- 
dores, deixou de submeter ao placet régio o Breve da Nuncia- 
tura: daí o ser tolhida a sua observância em Vila Rica. 



34 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Tornou a Mesa ao Geral em carta de 13 de fevereiro de 
1761, na qual pede segunda via da Patente, e cuida, com uma 
simoniazinha, em ir aplainando caminho para a obtenção de 
novos favores. 

E' do teor seguinte a referida carta: 

"Nosso Muito Reverendíssimo Padre Geral — Estimamos singu- 
larmente que V.P. Rma. atendesse aos humilíssimos rogos desta Con- 
gregação, confirmando-lhe os seus Estatutos com a Patente de 30 de 
janeiro de 1760 e juntamente lhe fizesse o grande benefício dos privi- 
légios, e isenções, com que também a enriqueceu com a outra Paten- 
te do mesmo dia, mês e ano, o que tudo recebemos com alegres de- 
monstrações de júbilo, gravando ao mesmo tempo em nossos corações 
uma perpétua memória onde reviverá tão grande bem, e por isso nós, 
em nome de tôda a Ordem, vamos como filhos mais obedientes aos 
pés de V.P.M. Rma. a beijar-lhe a mão e ao mesmo tempo pedir-lhe 
nos abençoe, inda que indigníssimos filhos de N.S.P. 

Com a chegada de uma e outra coisa destinou a Mesa da Ordem, 
com seu Definitório, o dia 5 do corrente mês para fazer publicar a tôda 
a Ordem os grandes benefícios que V.P. Rma. fêz a todos estes filhos 
que, em região tão remota, militam debaixo das bandeiras de um tão 
sagrado Pai. 

Junta assim a comunidade em a Igreja em que reside a Ordem 
com aquela solenidade que foi possível se publicaram os Estatutos e 
a Patente de sua confirmação junto com a outra, ao que se seguiu 
um Te Deum Laudamus em ação de graças por permitir o Senhor 
tanto bem a esta Congregação. Do mesmo dia começaram a ter ob- 
servância e no dia 13 se passou a fazer eleição do Rdo. Comissário e 
Vice-Comissário, como nos mesmos se ordena, a qual ficamos para re- 
meter ao N.R.P. Provincial da Província reformada da Imaculada Con- 
ceição do Rio de Janeiro a quem por ora não remetemos a cópia au- 
têntica da outra Patente, como nela determina V.P. Rma. pela razão 
de o Procurador de Lisboa a apresentar ao Eminentíssimo Senhor 
Núncio para a confirmar que fazendo-o por seu Breve de 13 de março 
do dito ano de 1760 e por ocasião da demora da frota e proibição do 
decreto de Sua Majestade Fidelíssima de 4 de agosto sôbre os recur- 
sos à Santa Sé Apostólica teve ocasião o comum inimigo de sugerir 
dúvidas se via ou não compreendido o dito Breve em aquela proibi- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



35 



ção, suspendemos a sua execução, tanto pelo rigoroso das ordens, como 
pelas ameaças que se nos faziam por parte do Rdo. Pe. Provincial. É 
êste o motivo por que suplicamos de V.P. Rma. segundas vias da mes- 
ma Patente cuja necessidade e do mais que suplicamos para estabili- 
dade desta Congregação e seu aumento exporá o M.R. Pe. M." Defini- 
dor Geral Frei Francisco de Azurara, por via do qual remetemos cento 
e dois mil e quatrocentos para V.P. Rma. se dignar em mandá-los 
aceitar por esmola de uma Missa por tenção dos irmãos vivos e defun- 
tos desta Congregação e seu aumento, suplicando ao mesmo tempo 
humildemente o perdão; por todos quantos benefícios V.P.M. Rma. 
fizer a esta Congregação daremos perpétuas graças ao Senhor, o qual 
conserve por muitos anos para receber de nós, em todo o humilde ho- 
locausto de filhos e servos da obediência. Vila Rica do Ouro Prêto, em 
Mesa de 13 de fevereiro de 1761 anos/ Revmo. e nosso sempre Padre 
Geral// De V.P.Rma. obedientíssimos súditos e filhos em o Senhor// 
o Pe. Manuel Pinto Freire, Comissário visitador// Felipe Gonçalves 
Santiago, Min. 0 // O Beneficiado João Batista Caiado de Macedo, Vice- 
Comissário// Domingos Tomé da Costa, Vice-Ministro// José da Mota 
Araújo, Secretário// Domingos da Rocha Ferreira, ex-Ministro// Ma- 
nuel Ferreira de Carvalho, Procurador Geral// Lourenço Pires Ra- 
malho, ex-Secretário// Antônio de Sousa Mesquita, ex-Secretário// 
José Pereira da Fonseca, ex-Proc. or Geral 



João Ferreira da Silva Braga, Vigário do Culto Divino." (Copiador 
- 15). 

Não tardou a resposta do Geral, que rezava assim: 

"Sefiores Herm. 08 Comm. 0 Vice-Comm.° Mntfo, y demas Officiales 
de la Mesa de nfa V. 1 Orden tercera de Penitencia de N.P.S. Fran. to 
de Villa Rica en el Brasil. 

El Espiritu S. t0 assista â W.CC. cuya carta de 13 de Febrero de 
este afio, con la representacion, y demas Documentos q. e la acompa- 
nan recivo por el conducto dei M.R.P. Diffin.'"" Gen. 1 Fr. Fran. co de Azu- 
rara, y por el mismo en respuesta de ella, remito por Dup. do las Letras 
Patentes de mi immediato Antecessor revalidadas, y confirmadas, las 
que no era necessar. 0 haver presentado al S. or Núncio Apost. co de esos 
Reynos, solicitando su confirmaz. 11 sino desde luego haver remetido 



36 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



la copia, que en ellas se manda al R.P. Provai, y ponerlas en exe- 
cucion. 

En quanto â las demas pretensiones no puedo determinar en el 
dia, porq.' ignoro las facultades, y circunstancias, conq: se fundo la 
V. 1 tercera Orden de la Ciudad de Mariana; pero havidos los informes 
correspondientes, y necessários, verê lo que pueda hacer en favor de 
essa; por cuyos Herm."" vivos, y Dif untos hê aplicado la Missa; q. <- me 
encomendan VV. CC. â quienes doi grac. s por la limosna de ciento 
dos mil, y quatroz.'" s reis, q. 1 ' dho M.R.P. Azurara me avisa, tenerla â 
mi disposiz." â q." ya escrivo para su remission. Doi â VV.CC. la sera 
phica bendicion, y encomendenme â Dios, que les G.' m. s a. s en su S. t0 
amor. S. Fran. co de Madrid, y Septiem." 17. de 1761. 

De VV.CC. aff. to siervo en el Senor 
Fr. AntP Juan de Molina 
Comis. Gen. 1 " 

E finalmente os agradecimentos da Mesa: 

"N.M. Rmo. Min. 0 gv" 

A grassa do divino Espirito Santo a Sista a Vossa Reverendissinia 
cuja carta de dezassete de Setembro de mil setecentos e sessenta e 
hum com as Letras Patentes revalidadas por Vossa Rma. recebemos 
em vinte e oito de Febereyro de mil sete Sentos e sessenta e dois por 
condução do M.R.P.M. definidor geral. Com cuja grassa se encheo toda 
esta venerável ordem de tão grande jubilo e contentamento na con- 
çideração de q. estes homildes filhos em terras tão distantes houves- 
sem de pessuhir tão piadosa correspondência pela coal se nos como- 
niqua tanto Bem espiritual por Cujo Beneficio dando grassas a deos 
e postrados aos pes de Vossa Reverendíssima recebendo a Seráfica 
Benção com que nos alenta sempre esperamos continuada lhe oferes- 
semos por via do mesmo Rdo. Pe. M. (> definidor g.» 1 o memorial que 
consta do impedimento oposto a esta venerável ordem p. a obtermos 
de Vossa Rma. o que for de Justissa e Juntamente setenta e seis mil 
e oito sentos Reis que Vossa Reverendíssima mandou receber de es- 
mola de huma missa dita pelo aumento espiritual e temporal desta 
Congregação particularizando-a na edificação espiritual e recebendo 
com inata liberdade a estes omildes filhos que de tão longe lhe supli- 
cão oferessendo os seus rendidos corações para q. como vitimas Vossa 



SÃO FRANCISCO UE ASSIS DE OU HO PRETO 



37 



Reverendíssima os sacrifique nas aras de seu desejo sendo o nosso pe- 
dir insessantemente a deos o conserve em o seu santo amor, e que a 
religiosíssima pessoa de Vossa Reverendíssima goarde por m. l,,s e fe- 
lises annos para amparo deste seráfico rebanho feita nesta Matriz 
de nossa Sr. a da Canceyção de Vila Riqua na casa q. serve de despa- 
cho desta venerável ordem 3. a da penitencia Aos vinte e sinco de Abril 
de mil sete sen tos e sessenta e dois annos". 

Declara o Secret. 0 que esta foi assinada pelo Com. 0 M.^ 1 Pinto 
Freire — Dom.*' 8 Tomé da Costa — Vice Min.° — José da Mota Arau- 
jo — Secr. 0 — Bernardo de Araujo Franco — Proc."' G. ,d — Dom, o; 
dos Santos Lisboa, Sindico — definidores". (Copiador — 25). 

A aceitação dos Estatutos ficou consignada no livro com- 
petente pelo têrmo do teor seguinte (Liv. de Têrmos — 39) ; 

"Termo deaseytação do Recebimt. 0 do Livro dos estatutos desta 
Venerável ordem comfirmados pello Noso Rm.° P." Geral Fr. Pedro 
João de Molina. 

Aos oprimeyro de Fevr. 0 demil esetesentos esessenta ehíí sendo 
naCaza doComsistorio daigr. a Matris deNossa Sr. a daConceyção de 
V a Rica estando emMeza oRd.° Dr. Comisario Luis deAlmeyda V a 
Nova e olr. Viçe Menistro Domingos Thome da Costa, e maz defini- 
torio foy aprezentado hú Livro dosestatutos, Comfirmados pello Noso 
Rm.° Pe. Geral Fr. Pedro João de Molina doqual semandou seobser- 
vaçe tudo oque nelle se acha detreminado pello mesmo porser tudo 
Comdiçente aobom regime desta Nossa Venerável ordem, edecomo 
asim odiserão mandarão fazer este termo por mim Francisco X. er de 
Souza Secretario atual desta Venerável ordè q. o fis easiney. Luis de 
Almeyda V. a Nova, Comissr. 0 // Francisco X. n ' de Souza, Secretr. 0 // 
Domingos Thome da Costa, Vice Ministro //Bento Leite/ /Manoel Frz. 
de Carv. 0 , P. or G. 1 // José da Mota Araujo, Definidor// Feliciano Jozê 
da Camera, Definidor/,/ Fr an.'" Jozê de Barbosa Fruão, Definidor 
subrrogado / /Manoel Dias Guimês, Definidor/ /Antônio Teixeira Cha- 
ves, Definidor//7osé Ribei?~o de Mello, Definidor soroguado// Manoel 
de Torres Lima Sorogado//João Fr. a da Silva Braga, Vigário do Culto 
divino." 

TERMO DE PUBLICASAM DOS ESTATUTOS 

"Aos sinco dias do mes de Febr. 0 de 1761 nesta Caza do despecho 
da ven. H ordem 3 a de Sam Fr. 1 " desta vila achandose prez.' 1, o Sr. Mi- 



38 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nistro e o R.P.Com. 0 e mais off. PS da meza e definitorio por eles me foy 
ordenado e mandado fazer este tr.° p. a a todo tempo constar de como 
em o mesmo dia na Igr. a achandose junta toda a Comonidade q. ti- 
nha sido combocada forão publicados os novos estatutos deste vene- 
rável oídem q. aprovou e confirmou e mandou q. nela se observassem 
o NoSo M. Rmo. ex-Min.° e Comissário G. al Frey Pedro de Molina por 
patente sua q. se acha no fim dos mesmos estatutos com a data de 
trinta de Janr. 0 de 1760 o q. tudo se publicou com toda a solenid. e os 
d.°" estatutos no fim do coal acto se Cantou o the deu Laudamos em 
ação de graças ao Sf. por nos conseder tam gr. de bem p. a o regimeni 
temporal e expiritual desta ven. el ordem, tendo preSedido em o dia 
pr ° deste mes de Febr. 0 a meza fazer tr.° de aSeytação dos mesmos 
estatutos por se lhe serem aprezentados pelo R. Notário Apostólico e 
nosso Ir. o Beneficiado João Batista Cayado de Maçedo e os Ir. Ma- 
noel Vr. a , João Mor. a Coelho e outros; e nos obregamos por nos e nos- 
sos sucessores a dar comprim. to em tudo o mandado e ordenado nos 
d. 08 estatutos conforme neles se contem; e emcoanto a Patente do mes- 
mo noSo Rmo. Ex Com. 0 G. 1 em q. Consede vários previlegios a esta 
venerável ordem e Indultos com a data também de 30 de Janr. 0 do d.° 
anno de 1760 a coal comfirmou por seu Breve o Imenentissimo Sr. 
Núncio com a data de 13 de m. co do d.° anno, pela Implicância q. ha 
de ser ou não conprehendida a d. a aprovação na prohibição do de- 
creto de sua Rial Mag. p q. D s . g.''° de 4 de Agosto do d.° anno, ficase 
por ora aSim; e se recorresse p. a haver de ter inteira e devida obser- 
vância, mandando aSim o dito Sr. ou seus Ministros da coal se não 
vsarâ sem lhe vir a dita detreminação; e de como aSim se fez, obrou 
e determinou mandarão fazer este tr 0 por mim José da Motta Ar. 0 
deFenidor da prezente Meza que o Fiz por mandado da mesma por 
Impedim. t0 do Secretario actual Francisco Xabier de Souza e p. a a 
todo tempo constar do referido todos aSinarão dia e era aSima vt su- 
pra — Luiz d'Almeyda V. a Nova, Comiss. 0 / /Felipe Giz Santiago, Min.° 
//Manoel Frz de Carv. 0 , Prc. or g. al //Bento Leyte, Cindico/ /Domingos 
Thome da Costa, Visse-Min. 0 // Fr an:° Jozê de Barb. a Fruão, Subrroga- 
do// Jozé RibrP de melo, definidor// Antonio Teyxr. a Araujo/ /Jozê 
da Motta Ar. 0 / /João Ferr. a da Silva Braga, Vigário do culto//." (L.° 
de Têrmos — 39 v.). 

O recurso à Castela, na expressão do Provincial, mortificou 



S A O FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 39 

ao vivo Fr. Manuel da Encarnação, então à testa da Província. 
Tanto o irritou que êle foi ao ponto de insinuar à Ordem, na 
carta que segue, se desligasse de sua obediência e fôsse prestá- 
la diretamente ao Comissário Geral em Espanha. 
Reza assim a aludida carta: 

Carta de Fr. Manuel da Encarnação — (Copiador — 16) 

"Senhor Irmão Ministro e mais Irmãos da Mesa da Venerável Or- 
dem Terceira da Penitência: 

É digno de lamentar que sendo os Senhores Seculares tão pro- 
pensos e inclinados ao hábito do meu Padre São Francisco e amigos 
de seus filhos como prova o amor com que os ajudam a viver, logo que 
entram em a filiação de tão santo Pai e fraternidade de tão bons ir- 
mãos, em a sua Ordem Terceira, lhe fiquem tão adversos e opostos 
como a experiência o tem mostrado e em Vossas Caridades se verifica 
recorrendo à Castela ao nosso Reverendíssimo Padre Comissário Ge- 
ral com informações sinistras e em parte menos verdadeiras só a fim 
de fugirem à submissão e obediência que devem a esta Província 
como Mãe que os criou, sem repararem que só são na realidade Ter- 
ceiros, quando aos Primeiros unidos, e submissos ao seu Prelado Su- 
perior. Porém, como esta submissão e obediência é a única base e fun- 
damento de todas as virtudes, e o demónio, pai da soberba, nimia- 
mente aborrece, tem trabalhado fortemente nessas Minas para a se- 
miar entre os nossos Irmãos Terceiros, para não serem na realidade 
filhos do humilde Serafim Francisco, nem colherem como abelhas da 
flor de sua querida Ordem Terceira a suavidade do mel das virtudes; 
mas sim, como as aranhas, o veneno da soberba, o que bem se mostra 
em Vossas Caridades, pois é a Ordem que tem dado mais que fazer 
aos meus antecessores e agora principiam a dar-me também que en- 
tender, porque deviam intimar-me, ou ao meu antecessor, todos os 
pontos de seus Estatutos e a confirmação que obtiveram do meu Re- 
verendíssimo Padre Comissário Geral, como se costuma ainda as mes- 
mas ordens da Majestade Fidelíssima apresentarem-se aos seus go- 
vernos para o Cumpra-se, se convém; e quando não, para dar parte à 
mesma Majestade dos inconvenientes que se seguem. Vossas Carida- 
des em a sua se nomeiam obedientíssimos, e reparo que nem agora 
me dão parte mais que de dois capítulos, sendo êles vinte e nove, para 
lhe poder dizer que sua obediência é só em nome, melhor fôra a Vos- 



40 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



sas Caridades e à quietação dos Prelados desta Província que os fi- 
zeram Terceiros, alcançar do mesmo Rmo. Pe. Comissário Geral o se- 
rem imediatos â sua jurisdição, sem dependência alguma desta Pro- 
víncia e dos Pais que espiritualmente os geraram à filiação de Fran- 
cisco. Eu sei muito bem os fundamentos por que VV. CC. fogem da su- 
jeição dos Religiosos; sei muito melhor o estado em que está essa Or- 
dem Venerável; de tudo darei parte ao Rmo. Pe. para que conheça a 
malícia em alguns capítulos dos seus Estatutos, a qual infiro só dois 
que vieram, pois alegam em um a muita distância das Minas a esta 
Província, com o que respondo que mais longe é da capitania do Es- 
pírito Santo a esta cidade, de Itu, de São Paulo, da Colónia, de Parna- 
guá, etc, e de tôdas estas partes, e terras mais remotas em as oca- 
siões de Capítulos e congregações recorrem os Irmãos com a nomi- 
nata de três para seus Comissários dos quais cá elege um o Capítulo 
Provincial; e por que razão não haviam de ser VV. CC. assim sendo 
menor a distância de Vila Rica a esta cidade e mais a abundância de 
portadores? Querendo VV. CC. serem os singulares, ato de soberba e 
fins terríveis por mim não ignorados, fora os ocultos que o tempo 
mostrará que hão de ser bulhas e mais bulhas entre VV. CC. mesmos, 
querendo uns fazer a Pedro e outros a Paulo, etc. 

Meus Irmãos, cuidaremos na paz que Cristo deixou no mundo, 
apartemos do hábito humilde de São Francisco vanglorias, soberanias 
e soberbas, pois será desgraça suma andarmos quatro dias que vive- 
mos cingidos com o cordão do humilde Serafim Francisco, e enfim na 
última hora acharmos abraçados com o príncipe das trevas. Eu com 
os olhos neste fim e naquela paz, que para êste ser feliz é necessária, 
confirmo por esta vez somente ao Rdo. Pe. Comissário e Vice-Comis- 
sário que lá fizeram, protestando-lhes primeiramente que não é mi- 
nha intenção prejudicar coisa alguma a jurisdição de meus sucesso- 
res e minha, em segundo lugar protesto que se dentro em dois meses 
me não apresentarem os novos Estatutos e a sua confirmação, não é 
intenção minha confirmar aos sobreditos Rdos. Comissário e Vice- 
Comissário e daí por diante o que operarem será sem jurisdição e fru- 
to algum de suas almas. 

Fico prontíssimo, como seu Prelado e Pai Espiritual, para servir 
a VV. CC. todos e concorrer para tôdas as consolações que não preju- 
dicarem a minha Religião e a sua Ordem; a experiência lhes mos- 
trará se Deus nos der vida; êste Sr. os guie por aquêle caminho que 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO TRÈTO 41 

êle veio ensinar ao mundo, e Francisco, nosso Smo. Patriarca, em seu 
nome veio lembrar aos homens. 

Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 3 de março de 
1761. De VV. CC. — Irmão, servo e muito venerador — Frei Manuel 
da Encarnação//." 

Resposta à carta precedente — (Copiador — 17) 

"Nosso Mto. Rmo. Padre Ministro Provincial — A carta de V.P. 
Mto. Rda. de três de março recebemos em vinte e cinco do mesmo mês, 
com a qual demos graça ao Céu em o levar a V.P.Mto. Rda. à Digni- 
dade de sucessor legítimo de N.S. Padre nesta Província e como tal, 
com devida submissão de filhos vamos a beijar-lhe a mão, dando a 
nós mesmos os parabéns de tão justa eleição, da qual só agora fomos 
cientes: e esta a razão porque na outra que enviamos a V.P.M.Rda. 
não fizemos esta mesma demonstração de nossas obediências. 

Pela razão de súditos e como tais filhos, recebemos com resigna- 
ção os avisos e admoestações de V.P.Mto. Rda. com o que ficamos mui- 
to satisfeitos, pois não merecendo esta Mesa resposta das que escreveu 
a Postulações que enviou dela o Rdo. Pe. Comissário ao Rmo. Pe. Pro- 
vincial imediato e isto nos três anos do seu govêrno: V.P.Mto. Rda., 
seguindo outras diferentes pisadas, logo a princípio seu nos quis con- 
solar, no que dá a conhecer ama, como bom Pai e Prelado, a êstes 
seus filhos e súditos. Assim em muito estimamos a confirmação dos 
nossos Reverendos Padres Comissário e Vice-Comissário, que com gos- 
to nosso e alvoroço de tôda a Ordem foram canonicamente eleitos por 
disposição de nossos Estatutos. E em nome de tôda esta Congregação 
rendemos as graças a V.P.M.Rda. 

Por fôrça do preceito que se nos impôs por V.P.M.Rda logo man- 
damos extrair instrumento autêntico dos nossos Estatutos, com a Pa- 
tente de sua aprovação e confirmação que o Nosso muito Rmo. Pe. 
Comissário Geral Frei Pedro João de Molina nêles deu, mandando em 
tôda a forma observá-los e cumprir o nêles disposto e esta com a 
data de trinta de janeiro de mil setecentos e sessenta: o que remete- 
mos a V.P.M.Rda. para ver e ser informado do que êles contém e or- 
denam: com o que estamos certos há de V.P.M.Rda. formar diverso 
conceito daquele que expressa na sua carta, e para maior justifica- 
ção de nossas obediências, permita-nos V.P.M.Rda. o dizermos que, 
considerando-nos sem lei própria por onde nos governássemos e por 



42 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



essa razão sempre sujeitos a um govêrno violento que tem dado oca- 
sião àquelas desordens e absurdos muitas vêzes inevitáveis; como em 
tal caso parece ponderou já o SS. Padre Eugênio IV na Bula Ad Apos- 
tolicae dignitatis, somos aquêles que enviamos Estatutos a essa San- 
ta Província e que nos não quis aprovar o Reverendíssimo Padre Mes- 
tre ex-Provincial Frei Arcângelo Antônio de Sá, como consta deles, 
mandando-nos que seguíssemos a Palestra da Penitência: pela qual 
em nossas consciências entendemos nos não podíamos somente reger. 

Sempre protestamos obediência e nunca as nossas humildes sú- 
plicas mereceram a atenção dos Reverendíssimos Prelados, anteces- 
sores de V.PM. Rda., tanto na expressada diligência, como da que fi- 
zemos ao mesmo Rmo. Pe. ex-Ministro Provincial para mandar um 
Reverendo Visitador que visitasse esta Congregação e conhecesse das 
sugestões que o comum inimigo pela pessoa de um certo Irmão (7) 
(que tantos prejuízos e desgostos tem causado a esta Ordem, porque 
o não deixam ser o primeiro móvel dela, só pelo seu querer e não por 
despesa maior ou menor que tinha feito) e com aparências de zêlo 
assim ingerido: que foi necessário o respeito do Ilustríssimo e Exece- 
lentíssimo Conde de São Miguel para nos mandar visitar pelo Revdo. 
Padre Mestre Frei Luís de Santo Agostinho; que procedendo em tudo 
legitimamente e conforme as instruções particulares que lhe foram 
dadas, por achar tudo pelo contrário, confirmou aquela Mesa, Rdo. 
Comissário e fêz tudo o de mais que se lhe ordenara, do que deu exa- 
ta conta ao mesmo Reverendíssimo, e como por então não pôde co- 
lhêr fruto da sua mal semeada cizânia, guardou nova semente que 
lançou no tempo do Revmo. Pe. Provincial imediato; e então pondo o 
cegador na pessoa do Rdo. Pe. Mestre Visitador Frei Manuel do Li- 
vramento de sua mão cuidou em preparar a eira e aí aproveitar os 
frutos de seus ardis. 

Somos maus, como V.P.M. Rda. nos diz, temos dado moléstias e 
que fazer aos Reverendíssimos Prelados, seus antecessores, e estas 
mesmas já em si tão bem as considera; no que nos persuade atende 
somente ao falso rumor e queixume, sem nos ouvir. 

Demorou aquêle Rdo. Visitador em si nove meses as letras de sua 
comissão sem fazer ciente a esta Mesa e seus Capitulares; passando 
por esta vila foi à cidade Mariana que dista pouco menos de duas lé- 



(7) Há de ser sem dúvida o irmão Manuel Rodrigues Abrantes. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 43 

guas; aí alevantou outra Ordem Terceira incontento desta e com se as 
mesmos filhos fêz logo a Mesa, professando a muitos para o dito efei- 
to, que tinham sido aceitos por esta Congregação, e onde se acha- 
vam passando o ano de suas aprovações; sem se poder por tal modo 
proceder à agregações e desagregações pela proibição que lhe insta 
por Bulas Apostólicas, Santa Regra e ainda Estatutos. 

Disto informando a Mesa que servia naquele tempo e ano de mil 
setecentos e cinquenta e oito, por carta de treze de agosto, onde pe- 
dindo o remédio a tantos danos, por não recorrerem a Superior, como 
expressaram, por assim se lhe permitir pelas Bulas Vota devotorum 
de Inocêncio IV, Romani Pontificis de Xisto IV, Exponi nobis de Júlio 
II, a resposta que tiveram foi uma Pastoral cheia de ameaças e des- 
composturas e não muito digna da prudência de um Prelado que só 
tem jurisdição no espiritual, facultativa e diretiva, para conosco, e na 
mesma, para maior injúria nossa, aprovava a nula e intrusa Ordem 
de novo levantada na cidade, a qual depois de ler o mesmo Rdo. Pa- 
dre Visitador públicamente na igreja a tôda a comunidade e com gran- 
de desprazer dela: passou a alcançar despacho do Exmo. e Rmo. Sr. 
Bispo, e êle mesmo andou por tôdas as Matrizes e Capelas daquele 
têrmo, publicando uma e outra coisa, com descrédito, prejuízo grave 
e notório desta Congregação e de todos os membros dela. Com esta 
má vontade acompanhada do desejo de aniquilar esta Ordem, privan- 
do-a daqueles meios que a constituem erário dos pobres e das rega- 
lias, graças, isenções e indultos de que estava de posse por disposi- 
ção da Santa Regra, Bulas e Estatutos gerais; se passou no progresso 
daquela visita e por fôrça daquela ruim cizânia a procedimentos tão 
estranhos e violentos que não se admiraram senão excessos no pro- 
ceder e modos de obrar; e isto não só visto em tirar os livros da Or- 
dem do poder do Secretário dela auxiliando para isso as Justiças Ecle- 
siásticas com súplicas excessivas, embargando o cofre na mão do Sín- 
dico: e ameaçando censuras; passou a suspender uma Mesa inteira, 
penitenciando os oficiais dela com a maior pena sem proceder o cen- 
so dos Capitulares que lhe tinham sucedido no govêrno, nem os de- 
mais requisitos necessários e do estilo: de outra, lançou fora a três 
Discretos e Procurador Geral por não convirem no por êle obrado; 
em seus lugares fêz outros de moto próprio, sendo já findo o tempo 
da visita, privando-os assim nulamente de suas honras e lugares, e 
a Ordem das esmolas da Mesa que havia de dar, coisa nunca vista, 



44 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nem o motivo para assim se obrar pode ser louvado, pois dizendo fa- 
cultar-lhe para tudo poder a Bula Paterna Sedis de Benedito XIII, 
quem não sabe que esta Bula, por ser contraposta a direito comum 
e Trindentiano, por seu sucessor Clemente XII, na Bula Romanus 
Pontifex, foi derrogada? 

Tudo foram expressões de nulidades e uma tal tragédia que re- 
presentaram nela não só vivos, mas inda mortos. Êste, na pessoa do 
Rdo. Pe. M.° Passante Frei Antônio de Santa Maria que, com Patente 
do Rmo. Pe. Frei Antônio da Conceição que no ano de mil setecentos 
e quarenta e seis era Digníssimo Ministro Provincial veio a elevar esta 
Ordem; e aqueles, com a denegação do feito e obrado pelos Rmos. Pre- 
lados que sucederam no govêrno, e seus Visitadores. Nada estava le- 
gal e nem o tombo da Ordem que se acha com têrmo e Patente de sua 
aprovação, como é costume, lhe impediu o desígnio de fazer um novo 
tombo para destruir a Congregação; e para melhor favorecer àquele 
Semeador consentiu que êle por sua mão fizesse a eira (isto é) escre- 
vesse aquêle livro, nêle metesse o que lhe pareceu para assim colher 
o fruto de sua sementeira; que tanto trabalho, prejuízos e desgostos 
tem dado em todo o tempo a esta Ordem, precisando-a da diligência 
de se extinguir tão péssima semente e apartando-a daquela que só 
pode produzir bons e sazonados frutos. 

A verdade dêstes fatos e suas existências não carecem de maior 
abôno para a nossa justa defesa e conhecimento de V.P.M. Rda. do 
que aquela prova que dêle existe nessa Sagrada Religião por tudo nela 
ser notório e inda o pleito que correu sôbre os ditos procedimentos, 
do qual o traslado se acha nessa cidade em o cartório do Rdo. Notário 
Joaquim de Sena Gomes, que é quem pode informar sôbre a nossa 
justiça, ou sem razão, a V.P.M. Rda. com o que não pode vir em con- 
sideração o termos informado ao Nosso Muito Revmo. Padre Comis- 
sário Geral com informações sinistras e em parte menos verdadeiras, 
porque aquelas que lhe enviamos foram legítimas, tanto para o fim 
de nos aprovar e confirmar os Estatutos, como das demais graças e 
privilégios que pela sua benignidade concedeu a esta Congregação, 
que em tempo oportuno faremos ciente e exporemos a V.P.M. Rda , 
além de ser efeitos da inata bondade e grandeza do mesmo Reveren- 
díssimo por ver o estado em que nos achávamos: e inda melhor será 
informado., quando Deus levar a sua presença aquêle mesmo proces- 
so que lembramos a V.P.M. Rda. 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



45 



Enfim, Nosso Muito Reverendíssimo Padre e Digníssimo Prelado, 
nós em nada nos desejamos apartar e ir fora da obediência de nossos 
Superiores e a êles sempre a protestamos rendida; que a não ser bem 
aceita não tem estado da nossa parte: e como se não pode duvidar 
também do poder, autoridade e obediência que devemos ao Nosso 
Muito Reverendíssimo Padre Comissário Geral, como nosso Prelado 
maior, se não pode de nenhuma forma estranhar o recorrermos a êle, 
inda em conjectura (sic) menos apta, quanto mais na presente em 
que sem remédio, e de necessidade nos vimos obrigados a vir a êle, 
buscá-lo para ofuscar tão grande tormenta, como a em que víamos 
flutuar tôda esta Congregação. 

A paz que Vossa Paternidade Muito Reverenda insinua e prome- 
te conosco tratar, em muito a apetecemos: e em desempenho desta 
paternal promessa humildemente suplicamos a V.P.M. Rda. desculpe 
o em que nos achar defeituosos, para assim merecermos a repetição 
de suas bênçãos e a consolação de suas letras, recebendo em gratifica- 
ção de nossos corações e em todo o tempo os rendidos holocaustos de 
servos e filhos da obediência. 

A pessoa de Vossa Paternidade Muito Reverenda conserve o Céu 
e guarde por muitos anos. 

Vila Rica, em Mesa da Venerável Ordem Terceira, a vinte e nove 
de março de mil setecentos e sessenta e um anos//Reverendíssimo e 
sempre nosso Padre Ministro Provincial/ /De V.P.M. Rda. obedientís- 
simos súditos o Pe. Manuel Pinto Freire, Comissário Visitador //Do- 
mingos Tomé da Costa, Vice-Ministro/ /José da Mota Araújo, Secretá- 
rio/ /Manuel Fernandes de Carvalho, Procurador Geral/ /Bento Leite, 
Síndico//." 

Estava aberta entre a Ordem e os Provinciais uma contro- 
vérsia que somente iria encerrar-se, quando aquela, pondo termo 
às suas relações com a Província, extinguiu-se canonicamente. 

Um dos últimos ecos, senão o último, dêsse debate sôbre 
direitos e privilégios, vamos encontrá-lo, meio século depois, 
nos seguintes documentos: 

Carta a Fr. Francisco Solano Benjamim. (Copiador 127). 

"limo. e Rmo. Sr. Pe. Provincial Fr. Francisco Solano Benjamim 
— No dia de hoje tivemos a honra de receber em Mesa desta Venerá- 
vel Ordem Terceira da Penitência de São Francisco o M. to Rdo. Pe. 



46 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Pregador Fr. Luís de São Libório, acompanhado da Patente de V.P. 
Rma., para por bem dela exercer o cargo de nosso Comissário Visita- 
dor; nós ouvimos cheios de amor e de respeito, e depois de lida a Pa- 
tente, êle se dignou retirar-se para que a sua presença nos não tolhes- 
se a liberdade de tratarmos sobre uma matéria a nosso ver de tanta 
ponderação. 

Nós estamos bem persuadidos das pias intenções de V.P. Rma. e 
sendo elas, como são, acompanhadas das relevantes virtudes e estimá- 
veis qualidades com que Deus ornou o todo de V.P. Rma. ; escolhen- 
do-o para nosso bom e bem digno Prelado, seria criminosa a menor 
dúvida nossa a respeito do amor e caridade com que V.P. Rma. trata 
a êstes seus indignos filhos, que só procuram com os olhos em Deus 
e mediante sua divina graça acertar com o caminho da salvação por 
meio da penitência e de uma cega obediência, como verdadeiros fi- 
lhos de Jesus Cristo e do N.S.P.S. Francisco. 

Certificado, pois, V.P. Rma. desta sólida verdade, conhecerá qual 
é o nosso pesar de nos não ser possível anuir à pretensão do Mto. Rdo. 
Pe. Pregador Fr. Luís por nos obstar as imunidades e regalias apostó- 
licas que tivemos a honra de pôr na presença dos Rmos. Snrs. Provin- 
ciais, antecessores de V.P. Rma. e hão de constar do arquivo dêsse 
Real Convento de elegermos Padre Comissário, como temos praticado 
de muitos anos a esta parte. 

Falecendo no ano de 1791 o nosso Rdo. Comissário Inácio José 
Correia elegemos ao nosso Mto. Rdo. Comissário atual Manuel de 
Abreu Lobato que principiou logo a exercer o lugar de Comissário Vi- 
sitador e nos tem servido há vinte e quatro anos, esforçando-se no 
modo possível a cumprir os deveres paternais, edificando-nos e minis- 
trando-nos o pasto espiritual com geral satisfação e contentamento 
nosso, de sorte que seríamos filhos os mais ingratos se, esquecidos das 
suas virtudes, prontidão e zêlo, o expulsássemos de nossa Casa em 
tempo da sua cansada idade em que é mais própria a conservação, 
ainda que fôsse para admitir outro de maiores méritos e virtudes. 

Parece-nos que estamos lendo no fundo do coração de V.P. Rma. 
o regozijo e deleite em que está ao ver o nosso desejo de acertar e fu- 
gir da ingratidão, ingratidão infame, vício abominável daqueles gé- 
nios volúveis, mas não de nós que, arreigados e nutridos com o leite 
da Religião, vivemos afincados nela como verdadeiros filhos de N.S.P. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 47 

e procuramos alcançar o reino da glória em recompensa de nossas fa- 
digas neste mundo. 

Congregados, pois, todos os Vogais, lida a Patente e retirado o 
apresentante, se decidiu por todos os votos, sem falhar um só, que não 
-podíamos aceitar um padre comissário, que não fôsse por nós eleito 
na forma do costume e regalia desta venerável Ordem Terceira, o que 
participamos a V.P. Rma. com tôda a submissão, obediência e respei- 
to, suplicando-lhe ao mesmo tempo a confirmação da eleição de co- 
missário que anteriormente havíamos feito em Mesa de 23 de abril, 
como terá visto da nossa carta datada do mesmo dia, ficando V.P. 
Rma. certo em que recebemos a sua carta de 13 do dito mês, pelo cor- 
reio, e que, cheios de congratulação, nos damos a nós mesmos o pa- 
rabém de nos ter dado Deus um Prelado que nos exorta a tão grata 
e saudável união para com mais gôsto nos empregarmos nos cultos 
do Santuário. 

Digne-se V.P.Rma. de nos lançar a sua santa bênção que implo- 
ramos em nome do N.S.P.S. Francisco. 

Villa Rica, em Mesa de 14 de maio de 1815. 

De V.P. Rma. Irmãos os mais humildes — Antônio Ribeiro da Cos- 
ta, ex-Ministro//ManweZ Ferreira da Silva Cintra, Vice-Ministro// 
Antônio José Ribeiro, Secretário// José Pinheiro de Faria Cintra, Proc. 
Geral/ '/Manuel José Barbosa, ex-Síndico/ /Carlos de Assis Figueiredo, 
ex-Definidor//." 



Fincou-se a Ordem, desde os primeiros tempos, nos seus 
discutíveis direitos e privilégios e deles jamais cedeu, protes- 
tando embora, sempre que se lhe abria ensejo, a maior venera- 
ção e inteira obediência e submissão aos Padres Provinciais, os 
quais, na sua piedade e prudência, acabavam sempre, pro bono 
pacis, condescendendo com a altiva congregação, como o 
documenta a resposta à carta precedente e que rezava assim: 

"Caríssimo Irmão Ministro e mais Dignidades da Mesa Defini- 
tória: 

Não foi de minha intenção ofender as imunidades de que essa 
Venerável Ordem Terceira está de posse, debaixo da garantia dos Bre- 
ves concedidos pela Santa Sé. Eu já fiz ver a VV. CC. que me foi pre- 
ciso obedecer ao impulso de uma vontade estranha e de muito res- 



48 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



peito, que se constituíra protetora das pretensões do Irmão Pregador 
Fr. Luís de São Libório, e entregando-lhe eu a Patente de Comissá- 
rio estava bem seguro de que VV. CC. teriam comigo a atenção que, 
com tanto prazer meu, mostraram pela sua carta que me servirá como 
de um testemunho diante dos Patronos do dito Padre. Desejaria eu 
contudo ter em meu poder maiores reforços para obstar qualquer pre- 
tensão que, ou agora, ou para o futuro se levante contra essa Vene- 
rável Ordem, e examinando os arquivos da Província não achei as 
cópias dos Breves de que VV. CC. me falam na sua última carta. Não 
duvido que fossem remetidos aos Provinciais, meus predecessores, po- 
rém creio que na mudança que houve dos papéis do dito arquivo se 
extraviaram como muitos outros de que não há memória. Rogo por- 
tanto a VV. CC. que se dignem ajuntar a tantos testemunhos respei- 
tosos que tenho merecido de VV. CC. a remessa das cópias dos refe- 
ridos Breves e fiquem VV. CC. na certeza de que eu serei o primeiro 
fiscal de sua inteira observância, como um dos mais interessados na 
paz e na harmonia dessa venerável Ordem Terceira. Tenho a honra 
de ser de VV.CC. Irmão e servo. Fr. Francisco Solano Benjamim, Min. 
Provincial. Convento do Rio de Janeiro, 7 de junho de 1815." (Copia- 
dor 127 V.). 

Registremos aqui, antes de pôr têrmo a este capítulo, algu- 
mas notas colhidas no arquivo da Ordem, mais ou menos rela- 
cionadas com o assunto de que se trata. 

— Consta do Livro de Profissões, fl. 15 v. (ano 1751): 
Manuel de Araujo e Sousa, morador no Alto da Cruz, cai- 
xeiro de Félix Rodrigues, não pôde ser aceito na Ordem, 
"foi recusado por ser casado com uma mulata". 

— Do Copiador, fl. 7 (ano de 1758) — a Mesa mandou 
tirar na Bahia a limpeza de sangue de Antônio Félix Pe- 
reira de Araújo. 

— Do Livro de Receita e Despesa, fl. 3 v. (ano 1751) 
— "76$800 que entregou ao condutor João de Sousa Pa- 
checo para em Lisboa mandar imprimir três resmas de 
papel em Patentes e quinhentos Compêndios para a Or- 
dem, e o resto do dinheiro remeter para Roma ao Rmo. 
Pe. Me. Frei Francisco de Azurara, Procurador Geral dos 
Reformados, assistente no Convento de Santa Maria da 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 49 

Arcádia, para alcançar de Sua Santidade os Breves que se 
lhe pediram, para o que lhe foi memorial, e carta de Fran- 
cisco da Silva Colaço, seu tio, e desta quantia foi pago 1% 
ao cofre da Nau de Guerra". 

— Do mesmo Livro, fl. 50 (ano 1761): "153$600 que 
se mandaram para Portugal para requerimentos desta 
Venerável Ordem perante o nosso Rmo. Geral". 

— Em 30 de Março de 1788 o Geral da Ordem, Fr. Pas- 
coal Varisto, por Patente datada de Roma, reforma os Es- 
tatutos nos capítulos referentes a sufrágios, e concede à 
Mesa a faculdade de os reformar sempre que o exigirem 
as circunstâncias. 

— Em nota à folha de rosto dos Estatutos promete- 
mos dizer alguma coisa com relação ao grifo e aos versa- 
letes com que procuramos destacar a linha assim redigida: 

"Pelo infatigável odio do Ir. M. el Roiz Abrantes no 
ano de 1754". 

Esta linha foi intercalada posteriormente. Denuncia-a 
à evidência a diversidade da escrita. Quando da primitiva 
redação, dizia assim: 

"Pelo infatigável (zêlo com bastante probalidade) do 
Ir. M. el Roiz Abrantes". 

E' patente a substituição por ódio de outra palavra, que 
devia ser zêlo; como é manifesto o acréscimo da cláusula "no 
ano de 1754". 

Manuel Rodrigues Abrantes foi, em ordem cronológica, 
o primeiro Secretário da Ordem. Devia ter exercido conside- 
rável preponderância durante o govêrno provisório da Comis- 
sário Madeira, que era já um ancião de avançados anos. 

E' de crer que, malquistando-se com a Ordem, da qual 
chegou a ser Ministro em 1752, tenha-se transformado mais 
em perseguidor do que num mero adversário de seus antigos 
co-irmãos. E' de presumir, outrossim, que tenha tido boa parte 
em questões, como as do Padre Vila Nova e de Fr. Manuel do 
Livramento, de que nos ocuparemos em capítulos ulteriores. 



CAPÍTULO III 



LUTAS 

Foi uma luta continuada a vida da Ordem Terceira da 
Penitência em Vila Rica. 

Não nos vamos referir, por enquanto, a essa peleja, de 
mais de 100 anos, de que ela, por fim, se saiu nobre e galharda- 
mente — a luta pela construção de sua igreja. 

De outro género os combates de que agora nos ocupare- 
mos: é da luta pelo seu direito, ou do que cuidava ser seu 
direito. E aí brigou bravamente, pelejou por mais de 80 anos. 
Na defesa de seus direitos, de suas prerrogativas, de seus pri- 
vilégios, apenas os via ameaçados, não hesitava; saía a campo 
sem olhar a consequências. Teve pela frente, nas mais varia- 
das pugnas, adversários de toda a espécie, do mais poderoso 

ao mais humilde, desde o bispo diocesano até o andador 

— o mais modesto funcionário de sua Mesa Administrativa! 
E nesses combates, de quase um século, não se lhe pode em 
verdade registrar uma derrota completa. 

No presente capítulo passaremos em revista e documen- 
taremos alguns dêsses recontros, ao menos aquêles que algu- 
ma saliência lograram nos anais da instituição. 

1.° — QUESTÃO LIVRAMENTO 

Frei Manuel do Livramento era um frade brasileiro, natu- 
ral de Santos. Tinha parentes em Minas e quando, em 1757, 
surge na história da Ordem Terceira de Vila Rica, fazia já 
muitos anos que vivia, na freguesia do Sumidouro de Mariana, 
instalado na fazenda do Gualacho do Sul, de seu sobrinho, Dr. 
Antônio José Ferreira da Cunha Muniz. 

Terá sido por certo a sombra de sua família, particular- 
mente de seu cunhado, o Capitão José Ferreira Pinto, fami- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



BI 



liar do Santo Ofício e professo na Ordem de Cristo, possuidor 
de lavras e roças no Pinheiro, que o resguardou dos beleguins 
de el-rei e lhe assegurou ali vida tranquila, a salvo de perse- 
guições. 

Os Provinciais, por sua vez, usavam com ele de notória 
complacência e, como para garantir-lhe repousada permanên- 
cia nas Minas, cometiam-lhe por vêzes encargos e missões que 
êle nem sempre soube desempenhar prudentemente. 

Em 1757 mandou-lhe Fr. Francisco da Purificação a Pa- 
tente que se vai ler: 

"Frei Francisco da Purificação, Pregador, ex-Definidor e Ministro 
Provincial desta Província da Imaculada Conceição da Senhora, em 
o Brasil, etc. 

Ao nosso Caro Irmão, ex-Leitor em a Sagrada Teologia, Fr. Ma- 
nuel do Livramento, saúde e paz em Nosso Senhor Jesus Cristo que 
de todos é verdadeiro remédio e salvação. 

Porquanto havendo nós de nomear Comissário Visitador para as 
Veneráveis Ordens Terceiras da Penitência eretas em as Minas Ge- 
rais, como somos obrigados, para que não padeça a família a nós co- 
metida por Cristo Senhor Nosso algum descômodo, e visto suficiente- 
mente o zêlo e prudência de V.C. lhe encarregamos o ofício de nosso 
Comissário Visitador das ditas Ordens Terceiras sujeitas a nós, para 
com a sua diligência suprir o que nós por ausentes não podemos fa- 
zer. Pela qual razão, e pelas presentes Letras instituímos a V.C., e ins- 
tituído o declaramos, por nosso Visitador com pleno poder sôbre to- 
dos os Comissários das ditas minas gerais, e de corrigir, castigar e dis- 
cernir todos os abusos, defeitos e negligências, se algumas achar, e 
por estas, por convenientes e saudáveis penitências na forma dos Es- 
tatutos da dita Ordem Terceira; outrossim, lhe concedemos nossa 
autoridade para que possa nomear Comissário, se acaso fôr necessá- 
rio, e achar culpa por onde mereçam ser expulsos do lugar alguns dos 
Comissários atuais postos por nós e por nossos antecessores, principal- 
mente se vir nêles pouco fidelidade à Ordem: e confiamos no zêlo de 
V.C. cure forte e varonilmente aquelas coisas que conduzem a repri- 
mir os escândalos, e a conservação dos irmãos terceiros, dando-lhes, 
não só conselhos santos e convenientes ao seu instituto, mas também 
fazendo-lhes admoestações e correções saudáveis ao aproveitamento 
das suas almas. E para queimais mereça lhe mandamos por santa obe- 



52 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



diência, em virtude do Espírito Santo aceite esta nossa comissão e de- 
baixo da mesma mandamos a todos os Irmãos Terceiros reconheçam, 
recebam e venerem a V.C. como seu legítimo Comissário Visitador 
para o que lhe concedemos a nossa autoridade in utroque foro. 

Dada nesta Convento de Santo Antonio do Rio de Janeiro aos 15 
de novembro de 1757, sob nosso sinal e sêlo maior do nosso ofício. 

Fr, Francisco da Purificação 
Lugar + do sêlo" 

(L.o de Patentes, fls. 11) 

Com esta Patente veio também aos seus cuidados uma 
carta dp mesmo Provincial endereçada à Ordem Terceira de 
Vila Rica. Datada no Convento de Santo Antonio a 22 de 
novembro de 1757, essa carta só foi entregue à destinatária em 
agosto ou setembro do ano seguinte. 

Por ocorrências que se verificaram neste intervalo, con- 
venceu-se a Mesa de que Frei Livramento, diferindo por tan- 
tos meses a entrega dessa carta, agira de má-fé. 

Não ousamos decidir de que lado estava a razão. 

O astuto religioso precisava estabelecer a Ordem Terceira 
na cidade episcopal e antes de realizar e consolidar essa fun- 
dação, que, bem o sabia, iria revoltar supremamente a família 
seráfica de Vila Rica, não lhe convinha apresentar-se ali, onde 
possivelmente se prenderia com relações que viriam porven- 
tura anular os seus planos e prejudicar a sua tranquilidade. 
Para essa fundação teria sido solicitado com vigorosos empe- 
nhos: viera do Sumidouro, onde vivia o frade, o primeiro Mi- 
nistro da Ordem, o Guarda-Mor José da Silva Pontes, um dos 
potentados da época na região do Carmo; fôra um sobrinho do 
bispo diocesano, o Padre Luciano Pereira da Costa, o seu pri- 
meiro Comissário. 

Realizado o seu projeto a 9 de agosto de 1758, data em que 
ficou solene e definitivamente instalada a Ordem em Mariana, 
pôde êle despachar para Vila Rica a carta retardada em seu 
poder. 

Nada havia de extraordinário nessa carta, que constava de 
breves comentários sobre eleições. Referia-se em particular à 
do Comissário, realizada havia pouco, cuja confirmação dele- 



S A O FRANCISCO DE ASSIS D Z OURO FKÉTO 



53 



gava em Frei Manuel do Livramento, a quem revestira dos 
poderes de visitador e reformador. 

Damos a seguir o texto dessa carta: 

Snr. Ir. Min.° c mais Irm." da Meza. 

Damão do P. Dr. Manoel de S. Roque Viz." r G.*' e Presidente do 
Cap.° q. se celebrou neste Conv.* 0 de S. Ant.° aos 22 dias do mez de Ou- 
tubro de 757, receby húa carta acompanhando a Nominata q. W.CC. 
remetterão a Meza p. a a confirmação do Rdo. Sr. Comiss. 0 D. or M." 
Pinto Freyre; alegando juniam.*' 1 a graça, q. querem participar da Or- 
dem Tercer. a desta Cid.', de poderem nomear comissr. 0 q. m m. to lhes 
parecer. 

He certo, e sem duvida, q. a Veneiv 1 Ordem Tercr.a do Conv. : " 
desta Cid. e tem alcançado Indulto Ap. ' de poderem nomear tres Re- 
ligiosos a sua satisfação, p. a delles eleger a Meza, ou o Prelado Mayor 
hú Comisr. 0 ; q. mais convier ao serviço de D. s ; e bem da Ordem, q. 
hé o único resp. t0 a q. devemos attender: e q. W.CC. participem des- 
ta graça, hê m. t0 justo; mas ainda assim não deixou de reparar, q. 
vindo na Postulação dous Sacerdotes tão som/" p. a Comsr. 08 ; vem tão 
quartada (8) a minha eleyção, q. hú delles só por auz. e ; morte, ou 
doença, querem W. CC. seja eleyto Comis.°. 

Em cujos termos, não deixo de ficar com algú escrúpulo, de ser 
a eleyção pouco conforme ao serviço de D. s ; porem quero conformar 
me com a vont. e de W. CC. porque quero entender q. pessoas tão qua- 
lificadas, como W. CC. obrarião com acerto e prudência neces. a . 

No q. resp. ,a a confirmação q. W. CC. me pedem, no R.P. Comisr. 0 
D. or M. Ie Pinto Freyre, la escrevo a nosso Car. mo Ir. ExLeytor de Theo- 
logia Fr. M:" do Livram.' 0 Comisar. 0 Viz. or e Reformador das Ordens 
3. as dessas Minas, a q. m dou os meus poderes p. a obrar e fazer o q. for 
mais conveniente e util a ordem. E daqui em diante, saibão W. CC. ; 
devem mandar a sua Nominata tres, ou quatro mezes antes da Cele- 
bração do Cap.° p. a q. vã a tempo de opoderem celebrar com o novo 
Comisr. 0 ou com o mesmo confirmado, e não depois de o ter feito, 
porq. isto hê fazelo m.*° ao Contrario do q. ordenão os Estatutos. 

Dezejarei q VV. CC. vivão com aquele espirito, e fervor com q. 
Servirão os mais abalizados filhos Tercr. 0 de N.P.S. Franc. 0 ; a q.™ 



(8) Coarctada. 



54 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



peço me dê forças p. a levar cõ suavid. e o pezo deste rebanho, p. a mayor 
gloria de D. s q. os G. e e prospere m. 8 a. 8 de vida. Conv. to de S. Ant.° do 
Rio de Janr. 0 22 de 9br.° de 1757. De W. CC. Menor Servo e ven. or Fr. 
FrancP da Purificação." 

Já sobremodo agastada com o fundador da Ordem em 
Mariana, subiu de ponto a irritação da Mesa, quando se viu nos 
últimos períodos da carta provincial entregue às mãos do seu 
adversário. Essa indignação ressai da carta que se vai ler, na 
qual se pôs muita indelicadeza e nenhuma diplomacia. 

"Mto. Rdo. Sr. Provincial Fr. Fran. co da Purificação — Há poucos 
dias recebemos uma carta de V. Rma. com a data de 22 de novembro 
de 1757, retardada na mão do R. Pe. Fr. Manuel do Livramento nove 
meses: e desta demora surtiu o monstruoso parto de discórdias inex- 
plicáveis com que ao presente nos achamos; que só dêle se podia es- 
perar; querendo com vários e muitos pretextos só a sua assistência 
nestas minas, e nada da Religião e Clausura; e assim ficamos senti- 
dos que V. Rma. nos enviou a semelhante sujeito, nosso conhecido 
adversário, para nosso Visitador e reformador, vivendo ele nestas mi- 
nas há tantos anos misturado entre as confusões seculares esquecido 
da reforma regular e observância por ser certo que ninguém pode dar 
o que não tem. Esta venerável Ordem compreende à sua sujeição mui- 
tos irmãos, não só na cidade de Mariana distante desta Vila Rica uma 
légua e meia/, mas também em algumas freguesias que ficam para 
aquela parte, tôdas em pacífica paz: o dito R. Padre os andou como- 
vendo e sugerindo-lhes os ânimos para rebelião contra esta Ordem e 
Mesa, o que efetuou no dia nove dêste mês na cidade de Mariana, fa- 
zendo nova Mesa e êle feito comissário, fazendo-lhes ao mesmo tem- 
po uma prática contra esta Ordem e Mesa para melhor os capacitar 
e êle ter melhor capa para poder assistir nestas minas; sem dúvida 
por não ter notícia do que sucedeu no princípio desta Ordem com o 
Rmo. Fr. Antônio a quem o limo. e Exmo. Sr. Gomes Freire de An- 
drada fêz despejar e que deixasse Comissário Clérigo Secular. E por- 
quanto dêste sucesso cada dia vão nascendo novas desordens e dis- 
córdias escandalosas entre os mesmos Irmãos, pois uns querem seguir 
esta e outros aquela parte, tudo contra a paz e sossêgo, não só da re- 
pública, mas também da recomendação da nossa Santa Regra e Es- 
tatutos gerais e Bulas pontifícias: sendo autor e motor de tudo o que 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OUKO PRETO 



55 



por obrigação devia pacificar atendendo ao bem comum e não a sua 
conveniência e acomodação particular. Recorremos humildemente a 
V. Rma. para que se digne de mandar logo emendar semelhantes ex- 
cessos, protestando que da nossa parte não aprovamos nem consenti- 
mos na sobredita divisão e nova ereção da dita Ordem e Mesa, nem 
desistimos do direito que nos assistir para a dita impugnação perante 
o Superior a quem pertencer e desde já damos por suspeito com tôdas 
as cláusulas em direito necessárias ao dito R. Pe. Fr. Manuel do Li- 
vramento para tudo o que pertence a esta Ordem e Mesa, por haver 
mais religiosos beneméritos e claustrais dessa Sagrada Religião: e 
sentiremos muito mais se V. Rma. nos não deferir e recorremos a Su- 
perior que nos livre de semelhantes excessos e procedimentos. Vila 
Rica, 13 de agosto de 1758. O Padre Manuel Pinto Freire. Comissá- 
rio 7 Domingos da Rocha Ferreira, Ministro// José Félix Moreira, ex- 
Vice-Ministro// Antonio de Sousa Mesquita, Secretário / José Perei- 
ra da Fonseca, Procurador Geral /' Bernardo Gonçalves Veiga, Sín- 
dico// Manuel Ribeiro, Ex-Procurador Geral José Veloso Carmo, 
Definidor// Custódio Francisco Moreira, Definidor// João Rodrigues 
de Sousa, Definidor// Domingos de Moura, Ex-Definidor ." (L.° de 
Termos, 10). 

A Fr. Manuel do Livramento também se dirigiu nos ter- 
mos seguintes: 

"Muito R. Sr. Pe. Fr. Manuel do Livramento — Ao Rmo. Sr. Pro- 
vincial demos conta da nova mesa que V.P. fêz na cidade Mariana des- 
membrando parte desta Venerável Ordem sem que para êsse efeito 
fôssemos ouvidos, como devíamos ser, com cuja conta lhe representa- 
mos a justa suspeição que tínhamos contra V.P. para tudo o que fos- 
se pertencente a esta venerável Ordem e mesa e assim até decisão do 
dito Sr. se faz desnecessária tôda a representação de V.P. a quem de- 
sejamos saúde perfeita (ilegível) ao nosso desejo. Vila Rica em mesa 
de 17 de agosto de 1758. De Vossa Paternidade muito obrigados ser- 
vos o Pe. Manuel Pinto Freire, com. 0 vizor Domingos da Rocha FerrP , 
Ministro// José Félix Moreira, ex-vice-Ministro// Antônio de Sousa 
Mesquita, secretário// José Pereira da Fonseca, Proc." r Geral// Ber- 
nardo Gonçalves Veiga, Síndico " (L.° de Ter- 
mos, 11 v.). 



56 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Faziam-se anualmente as eleições em 17 de setembro, dia 
das Chagas de São Francisco. A Mesa eleita nesse dia, em 1758, 
ficou assim constituída: Ministro — Tenente João de Siqueira; 
Secretário — Antônio Francisco Campos; Procurador — João 
de Amorim Pereira; Síndico — João Soares de Carvalho; Defi- 
nidores: João Moreira Coelho, Domingos Ferreira Simões Vale, 
Domingos Fernandes Serra, José Rodrigues Duarte, Domingos 
dos Santos Lisboa, Bernardo de Araujo Franco; Vigário do 
Culto Divino — Antônio da Silva Braga. 

Ainda aparece nesta Mesa o Comissário Manuel Pinto 
Freire, cujo tempo, aliás, iria findar um ano depois (porque os 
comissários eram eleitos trienalmente); mas, logo a 8 de no- 
vembro se retira "por impedimento justo" e é substituído inte- 
rinamente pelo Padre Luís de Almeida Vila Nova. 

A razão alegada por aquêle seria sem dúvida a repugnân- 
cia de solidarizar-se com a orientação da nova Mesa, que, de 
certo norteada por Manuel Rodrigues Abrantes e pelo Pe. Vila 
Nova, seu comensal, abria amplamente os braços a Fr. Manuel 
do Livramento e lhe caía aos pés humilde, submissa e supli- 
cante, como diz a carta que se vai ler: 

"Ao Meritíssimo e Rmo. Sr. Pe. Viz. or Fr. Manuel do Livramento. 
Com o maior culto de nosso rendimento o Ministro e Oficiais e defi- 
nitório da Venerável Ordem 3. a de N. S. mo Patriarca São Francisco, ereta 
em Vila Rica da Província da Imaculada Conceição da Sra. Que aten- 
dendo ao bem espiritual e utilidade da Ordem e conservação dêste pe- 
queno rebanho seráfico pedimos e suplicamos a V. Rma. com tôda a 
humildade queira por sua bondade, como Bom Pastor e Delegado de 
nosso Prelado para nosso visitador, seja servido vir nos vizitar com a 
brevidade que a V. Rma. lhe fôr possível para com sua doutrina emen- 
dar nossos defeitos e socorrer-nos com o penso medicinal para o bem 
de nossas almas e dêste pequeno rebanho, não olhando para os nos- 
sos gravíssimos defeitos, relevando-nos, como Pai, nossas faltas, 
acudindo-nos com o remédio de que tanto necessitamos, a cujo fim 
rendidos e obedientes nos sujeitamos sempre aos preceitos e castigos 
que V. Rma. for servido dar-nos pelas nossas imperfeições e como in- 
dignos filhos de tão bom Pai ficamos certos em que V. Rma. nos de- 
terminará dia certo em que nos há de fazer mimosos de sua presença 
para com notícia segura cumprirmos com nossa obrigação como íi- 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÈTO 



57 



lhos da Sta. obediência. E no enquanto V. Rma. nos não faz mercê 
queremos que nos socorresse com uma carta para acompanhar nossa 
postulação que temos fechada para o nosso Rmo. Ministro Provincial 
c assim o esperamos de V. Rma. E não fizemos esta obrigação de hu- 
mildade mais cedo por causa do Ir. Ministro se achar no sertão ao 
tempo da posse da nova mesa e só chegou a 28 do passado, que é que 
tomou posse e não enfadamos mais V. Rma., o que mais largamente 
informarão os nossos m. tn Amados e Caríssimos Irmãos Secretário e 
Procurador Geral. A V. Rma. g. ,lP Deus m. N anos, como lhe apetece- 
mos. Vila Rica em mesa de 3 de novembro de 1758." (L.° de Têrmos 
— 16 v.). 

(Sem assinatura, mas conferida pelo Secretário Antônio 
Francisco Campos). 

Não eram decorridos 20 dias depois de datada a carta aci- 
ma transcrita e Frei Manuel do Livramento encontrava-se já 
na vila ocupado nos trabalhos da visita. Em 20 de novembro 
selava êle com a sua assinatura, num dos livros da Ordem, como 
vimos no cap. I, certo documento inadvertidamente não auten- 
ticado por Frei Santa Maria, fundador da instituição. 

Esta visita foi recebida com indisfarçável aversão e quero 
crer que a ela se resignaram à vista do apoio irrestrito que lhe 
prestava o Provincial daquele triénio, Frei Francisco da Puri- 
ficação. A prova do que afirmo colhe-se, dentre outros do- 
cumentos, da carta que vamos ler e que teria chegado a Vila 
Rica ainda em dias da visita: 

"Srs. Irmãos Terceiros da Venerável Ordem Terceira de Vila Rica 
do ouro prêto: Não há muitos dias recebi duas cartas de V.M. ceB com 
a exposição da eleição de 17 de setembro de 1758 em que vinham to- 
dos assinados, pedindo-me lhes confirmasse a dita eleição, o que eu 
não faço, nem o farei, sem primeiro ter notícia por carta do meu Co- 
missário Visitador, delegado dessas Ordens Terceiras, o PM. Fr. Ma- 
nuel do Livramento, e que V.M. CCS lhe obedeceram e lhe tem dado in- 
teira satisfação da rebeldia e contumácia em que inobedientes persis- 
tiram em lhe não dar entrada a visitar e reformar essa Ordem, se lhe 
fôr necessário, todos os anos; presidir as novas eleições e toties quoties 
quiser; pois só a êle compete o ser Comissário Visitador e não a outro 
qualquer Comissário que V.M. ces me nomeiam nas suas postulações. 



58 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Já nesta matéria, por estar ciente do que V.M. ce8 indevidamente 
obraram, mandei dar a providência necessária que me compete, e sem 
ter a cabal certeza do que V.M. ces obraram, como obedientes e verda- 
deiros filhos de meu Padre São Francisco que se sujeitaram a tudo, e 
por tudo que determinei ao dito meu Comissário, e que têm executa- 
do inteiramente as minhas ordens, não lhe confirmo a eleição acima 
de 17 de setembro; todos os atos de exercícios meritórios e obrigações 
que fizerem os dou por nulos sem merecimento e sem indulgências. 

O Rdo. Pe. Luís de Almeida Vila Nova que V.M. ces nomeiam na sua 
postulação é muito de meu agrado pela boa informação que tenho 
dele; não duvidarei aprová-lo por Comissário, se tiver a notícia do meu 
Comissário Visitador que V.M." 8 se sujeitaram e que ele visitou e re- 
formou essa Ordem, e que estão pelos Estatutos e determinações que 
êle dito lhes impuser, que tudo se conduz para o agrado e serviço dti 
Deus e em tôda a ação que desobedecerem a êsse dito meu Comissário, 
o P. M. Fr. Manuel do Livramento, a hei de sentir como executada em 
mim próprio. 

Recebi o Memorial em que V.M. cts me mandavam oferecer uma 
esmola de cem mil réis por via de Domingos Teixeira Pôrto, que não 
aceitei por ser oferta indecorosa à minha pessoa, e não necessitar 
inda quando me é proibido pelo meu Estatuto, e juntamente não fi- 
car por esta oferta quartado (coarctado) de não cumprir com a obri- 
gação que devo. Agradeço a V. M. ces a atenção tão generosa e dei or- 
dem ao dito Domingos Teixeira Pôrto remetesse outra vez a V.M." S 
os cem mil réis; e muito mais do meu agrado será que V.M. ces cum- 
pram inteiramente com a obrigação de verdadeiros filhos do meu Pa- 
dre São Francisco e êste rogará a Deus que guarde a V.M. ces por mui- 
tos anos no seu santo serviço. Convento de Santo Antônio do Rio de 
Janeiro em 13 de dezembro de 1758 anos // De V.M. oes reverente ve- 
nerador e criado — Fr. Francisco da Purificação. ." (Copiador — 8). 

Mal recebida a visita, mais odiosa se tornou em razão de 
certos Capítulos, nela firmados pelo Visitador, visivelmente 
mancumunado com êsses Irmãos dissidentes Manuel Rodri- 
gues Abrantes, Padre Vila Nova, o atual Ministro João de Si- 
queira e outros, que pretendiam o domínio da Ordem. 

Parecem-me interessantes êsses Capítulos e por isto os ofe- 
reço aqui à curiosidade do leitor: 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 59 

"Termo que se fez em Meza do Diffinitorio, em que se assentou 
que os Noviços, que não tiverem Cazacas p. a vir aos actos, possão da- 
quy em diante fazer túnica, e o mais que deste termo constara, que 
por serem m. 8 as determinaçoens senão expressão aquy individualm. ,p . 

"Aos tres dias do mes de Dezembro de mil, e sete Sentos, e sincoen- 
ta, e oito, estando junta a Meza do Diffinitorio em que prezidio o N. 
M. t0 Rdo. Pe. Me. Comm.° Viz. or G. 1 , e o Senr. Ir. M.° o Ten ,e João de 
Syqr. a , ahy pelo d.° Min.° em nome de toda a Meza foy proposto, que 
; e devião reformar nesta vizita geral algumas cousas pertencentes ao 
oem espiritual de toda esta Venerável Congregação, e ordenando o 
M. to Rdo. Comm. 0 Viz. or G. 1 as propusesse com toda a distinção e cla- 
reza de sorte que todos percebessem, o que fez o d.° Irmão Min.° na 
forma seguinte — que se devia aSentar que Daquy em diante não pro- 
fessasse Irmão ou Irmã Noviça daquele que por direyto podem fazer 
testamento, sem que no acto da sua profição os apresentasse: Segun- 
do, que daquy em diante os Irmãos Noviços que não tiverem Cazacas 
para vir aos actos de sua obrigação na ordem, possão logo fazer sua 
túnica serrada athe abaixo, e com esta poderão andar, trazendo o seu 
cordão fino: como se costuma em varias Congregaçoins : 3. a que nes- 
ta venerável Ordem ha m. tos Irmãos que nunca pagarão annuais e athe 
o prezente por morte destes se costumão fazer suffragios: queremos 
que sim se lhe fação abatendo ao tempo do seu falecimento na q. tó das 
Missas: o abatimento do que constarem dever de seus annuais// 4.° 
que nesta Congregação ha alguns Ir.Ir. desobedientes e rebeldes, pede 
a Meza a V.P. explique o modo com que estes devem serem expulsos 
da Ordem tendo precedido as circunstancias necessárias// 5.° Que o 
nosso Rdo. Comm. 0 actual tome m. t0 a seu cargo a reforma espiritual 
desta nossa venerável congregação, comprindo tudo aquilo que man- 
da na Sta. Regra N. Seraphico Padre Sam Francisco// 6.° Que o 
nosso Rdo. Comissário no temporal deixe os Irmãos votar livremente, 
sem que os constranja como athe agora se costumou, tendo elle tam- 
bém na matéria que se propuser o seu voto consultivo, electivo e Dis- 
cizivo 7.° Que se deve nesta Congregação dizer todos os Sábados 
com toda a solemnid. 0 huma Missa em louvor da Purissima Concey- 
ção da Virgem M. a N. Sr. a por tenção dos Irmãos desta Congregação 
vivos e def. tos , e pellas Almas do Purgatório pella pas e concórdia e 
aum.'" espiritual e temporal desta nossa venerável Congregação a qual 
Missa dirá o nosso Rd. <l0 Comissário em prim. 0 lugar, em seg. do o R.°° 



60 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Vice Comm.°, e em falta de ambos, q. 1 quer Irmão Sacerdote, que o Ir. 
Vigr. 0 do Culto divino nomear, a que assistão quatro Ir.Ir. Sancris- 
taens com suas tochas aSezas nas mãos// 8.° Que se deve por nesta 
Igreja huma taboa na q. 1 aSentarâ o Ir. Secretario os nomes dos Ir- 
mãos falecidos no seu anno para que todos rezem por elles, e o Secre- 
tario que entrar de novo limpara a taboa p. a aSentar os que falecerem 
no seu tempo// 9.° Que se devia advertir a todos os Ir.Ir. Presid. 08 p. a 
que cada hu no seu destrito cuidasse em cobrar os annuais. e remete- 
los ao Ir. Syndico, como também devião logo dar parte dos Ir.Ir. fa- 
lecidos, para se lhes fazerem os suffragios communs e particulares: 
Outro Sim requereo: se devia mandar recomendação aos Irmãos Pre- 
sid. 68 para que em nome da Meza advirtão cada hú em seu distrito 
devem todos os Irmãos filhos desta Congregação, estarem firmes na 
obediência, que a ella devem, e os mesmos Presid. 08 e sabendo que al- 
gum Ir. está doente, advirtão logo p. a se lhes fazer aSystencia, e assis- 
tirlho a Meza com sua esmola sendo pobre// 10.° Que todo o Ir. apre- 
zentado nesta Congregação, se tendo com que, não pagar os seus 
annuais nem fizer aSeitação dos cargos: por seu falecimento será esta 
Congregação obrigada a enterralo, e não terá suffragios de Missas, 
salvo se p. a isso deixar alguma esmolla// 11.° Que todo o Ir. Noviço, 
ou Noviça, que tiver acabado o seu anno de aprovação, e não tratar 
de fazer logo a sua profissão se esperará mais seis mezes, nos quais 
será avizada para a d. a profissão, e não acodindo a fazela seria ris- 
cado da Ordem// 12.° Que nesta Congregação se costumão dizer por 
cada Ir. que morre quarenta Missas e porque nesta Venerável Con- 
gregação tem servido vários Irmãos/com gr. flP despeza de sua fazen- 
da/ cargos de M. 08 , Vice M. os , Secretario, Syndico, Proc. dor G. 1 e Defi- 
nidores, pedião se acrescentasse daquy em diante aos tais os Suffra- 
gios na forma seguinte entrando já na conta deles as quarenta Mis- 
sas, que se costumão dizer aos que forão Min. os oitenta Missas, aos Vi- 
ce Min.* 18 sessenta, aos Secretários sincoenta, aos Procuradores gerais 
sincoenta, aos Sindicos sincoenta, aos Irmãos da Meza e Vigr. 08 do 
Culto Divino por cada hú quarenta e cinco — E a Irmans Ministras 
que tiverem pago as suas esmolas sessenta Missas. O que tudo ouvi- 
do pello Mto. Rdo. Pe. Com. 0 Vizitador G. 1 e mandou corresse o vazo 
o que todo o Diffinitorio com favas negras e brancas votassem, se es- 
tavão por tudo aquilo que nos Capitulos tem expressado o Senr. Ir- 
mão Min.° p. a o que aquelles que os aprovassem deitassem favas ne- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 61 

gras e os que o contradissessem o propuzessem por favas brancas: o 
que tudo se comprio: saindo todos os votos com favas negras apro- 
vando e convindo todos nos Capitulos assima referidos e que se de- 
vião aSentar resolvendo cada hú em p. ar o que tudo aprovou: o M. 1 " 
R."° P. e Comm.° Viz. or interpondo p. a isso a sua autorid. e declarando 
tudo na forma seguinte: 

1 

Ordenamos por todos digo com todos os votos da Meza que de 
hoje em diante o R. d0 Comm.° assim o assistente como os que p. a ° futu- 
ro servirem não admittão a profissão a Irmão ou Irmã desta Congre- 
gação sem que prim. 0 apresente os seus testamentos/aqueles que por 
direyto o devem fazer / e dispensamos aqueles que não são obrigados 
a fazelos por direyto. 

2 

Ordenamos também possão os Irmãos Noviços fazer humas túni- 
cas Serradas com suas mangas p. a delias Vzarem nas funçoens e actos 
em que se exercitarem nesta V. el ordem em atenção a que m. toa não 
podem fazer cazacas p. a delias vsarem, privandose por esta cauza de 
vir a Ordem. 

3 

Ordenamos em 3.° lugar que os Irmãos que podendo pagar an- 
nuais a Ordem o não fizerè, a estes tais fazendose os Suffragios das 
quarenta Missas se descontará nellas o que deverem de annuais no 
tempo de seu falecimento, porem se for Irmão que pagou seus annuais 
emq. to pode, e depois cahio em pobreza, e ao tempo de seu falecim.' 0 
dever, a esta tal se farão todos os Suffragios e Charid. e que se deve 
fazer a hú Irmão, e se não tiver habito p. a sua mortalha, será a or- 
dem obrigada a darlho. 

4 

Em quarto lugar deliberamos que p. a expulsar da Ordem q. 1 quer 
Irmão desobediente, escandalozo & depois de ser o d.° Irmão adver- 
tido com charid. 0 em p. ar pelo Rdo. Pe. Comm.° cazo não se immen- 
de, dará parte a Meza da culpa do d.° Irmão p. a que seja chamado e 



&2 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



reprehindido publicamente com penitencias medicinais, se o d.° Ir- 
mão aceitar as penitencias e se immendar proseguirâ os actos da or- 
dem: porem se sendo chamado da parte da Meza por culpas que te 
nha feyto: o mandarão notificar digo não obedecendo será notivida- 
do pelo Irmão Secretario e dois Irmãos que lhes sirvão de Testemu- 
nhas p. a que venha ao chamado da Meza pena de se proceder contra 
elle com as penas dos desobedientes: se feyto isto ainda estiver o Ir. 
rebelde mandara o Rdo. Comm.° e a Meza e o definitorio repetir a 
mesma dileg. oa feita ja pelo Ir. Secretario e duas test. as : se a 3. a vez 
depois de admoestado estiver renitente e desob. te o Rdo. Comm. 0 e o 
Senor Ir. Min.° convocarão a Meza do Definitorio e se proporá a cul- 
pa do d.° Ir. e sua desobd. a provada pela fê do Secretario e d. t0 das 
duas tes. as , avista do que mandará o Rdo. Pe. Comm. 0 lavrar hú ter- 
mo no q. 1 expressará a culpa do Irmão e ditos das test. as , o que tudo 
bem ponderado pello Deffinitorio lhe darão sentença de expulsão: e 
tudo assim feyto se mandará ler publicam.' 0 em agum acto da Or- 
dem em que se ajuntarem os Irmãos. Porem se o Ir. depois de sen- 
tenciado se emendar notoriam. te da sua culpa, e pedir mizericordia, o 
Rdo. Pe. Coram. 0 e o Sefir. Ir. Min.° e mais Diffinitorio o receberão 
dando-lhes penitencias publicas na Ordem e disso mandarão fazer 
termo p. a constar; porque tudo quanto se fizer em contrario do que 
temos d.° he nullo por ser contra o direyto regular. 

5 

Em quinto lugar mandamos que os Rdos. Pes. Comm. 08 no espi- 
ritual cumprão toda a sua obrigação, ensinando, repreendendo e 
obrando tudo o que fizer a bem do Serv. 0 de D. fi e bem desta Santa 
Congregação, fazendo quarto de oração e disciplina na Ordem todas 
as Sextas feyras do anno: no Advento que começa dia de S. Marti- 
nho a the o Natal as 4. as e 6. as e na Quaresma as 2. as , 4. as e 6. as : obri- 
gando aos Irmãos a que venhão aSistir a estes actos. 

6 

Em 6.° lugar advertimos aos Rdos. Comm. 08 que no temporal de- 
pois de proposto em Meza o cazo de que se houver de votar não cons- 
tranja as Vont. es dos Ir. Ir., mas cada hú deve votar livremente para 
que assim o voto do Rdo. Comm. e do mais Diffinitorio sem estrépito 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



63 



de palavras concluão o que for mais do serv. 0 de D.' e bem desta V. el 
Congregação. 

7 

Em 7.° lugar m. t0 louvamos e aprovamos as Vont. 68 de W. CC. no 
que respeita a Missa que se deve dizer nesta Ordem todos os Sabd."" 
assim e da mesma sorte que W. CC. assima expressarão sendo dita 
pelo Rdo. Com. 0 , em sua falta pelo Rdo. Vice-Com.°, e na falta de 
ambos por q. 1 quer Rdo. Ir. Sacerdote a q. m o Ir. Vigário do Culto Di- 
vino Chamar. 

8 

Em oitavo lugar aprovamos se ponha na Igreja em lugar acom- 
modado huma taboa p. a nella se escrever os nomes dos Irmãos que 
falleceram cada anno. 

9 

Em nono lugar mandamos ao Ir. Secretario avize aos Prezid." 
dos destritos tratem de cobrar os annuais, que deverem os Ir. Ir dos 
seus destritos remetendo os ao Irmão Syndico: e outro Sim morren- 
do algum Ir. no seu destrito, dê cada hum logo noticia a esta Meza, 
que mandara avizar aos Ir. Ir. dos mais distritos p. a que em commen- 
dem suas almas a D. s E todas as vezes que souberè está algum Ir. gra- 
vem." 5 infermo e com perigo de vida, e necessitado por pobre darão 
parte a Meza do Diffinitorio p. a que o Rdo. Comm. 0 e o Sefir. Ir. Min. 0 
o vão logo vizitar e consolar fazendolhe carid. e /sendo em parte que 
commodam.' 1 ' o possão fazer/ aliás o mandarão fazer pellos Prezid. M 
dos destritos, e seus Vice Comm. 03 

10 

Em decimo lugar mandamos que os Irmãos 3. 08 professos em ou- 
tras Congregaçoins e nesta aprezentados paguem seus annuais, e sir- 
vão-na no que puderem p. a se fazerem dignos dos seus sufrágios: po- 
rem se não pagarem annuais athe o dia de seus falecim.* 08 nem dei- 
xarem alguma esmola a esta Congregação, não se lhes farão os Suf- 
fragios de Missas que se costumão fazer pelos Irmãos que morrem, 
e sô terão os Suffragios de Reza que manda a Regra, e o interro que 
se costuma fazer aos Ir.Ir. 



(34 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



11 

O vndecimo Cap.° ordenamos que todo o Ir. Novisso que tiver 
acabado o seu tempo trate logo de professar, e o que da publicaSão 
deste termo a seis Meses o não fizer será riscado da ordem, porque 
aos descuidados e negligentes se fecha a porta. 

12 

Ao duodécimo Cap.° aceytamos e aprovamos a reprezentação 
que se nos fez em Meza a respeito das Missas que se devião acrescen- 
tar aos M. os , Vice M. tíS , Secretários, Sindicos, Procuradores gerais, e 
mais Mezarios em atenção aos seus gastos e esmolas que dão no seu 
anno: como também p. a afervorar aos mais Irmãos que houverem de 
servir pello tempo adiante os sobred. 08 lugares: portanto sobre as qua- 
renta Missas, que se dis a cada Ir. se acrescenta ao Ministro e mais 
Mezarios as seguintes — aos Ir. Min. 09 quarenta — as Irmans Minis- 
tras vinte — aos Ir.Ir. Vice-Min. 08 vinte — aos Ir.Ir. Secretários, Pro- 
curadores Gerais, Sindicos, des — aos Ir.Ir. da Meza do Diffinitorio e 
Vigr. os do Culto Divino, sinco. E aSim havemos por concluido o ter- 
mo, e os Capitulos nelle insertos, e declarados que terão seu inteiro 
vigor, e comprim. to sem couza que duvida faça p. a o que interpomos 
nesta parte nossa autorid. p , e nenhú a Nos inferior este derrogará, 
salvo com expressa autoridade do N. Rmo. Min. 0 Prov. al em alguma 
vizita geral, e p. a constar mandamos fazer este termo pelo nosso Rdo. 
Secretario da vizita, em que nos aSinamos e os Irmãos abaixo aSina- 
dos. Em Mesa dia, mes, e anno supra. E eu Fr. Antonio Vieira de S. 
D. 08 Secretario da Vizita que este fiz e aSiney — Fr. Manoel do Livra- 
mento, Coram. 0 Viz. or gl./ /João de Serq. ra , Min. 0 // Antonio Francisco 
Campos, Secretr. °//João J. Soares de CarvP, Sindico//Amaro Alves 
Pinto, definidor//i47ií.° Dias Pinheiro, definidor/ /Domingos dos San- 
tos Lx. a , definidor //Ant.° da Silva Braga, Vigário//". (LP de termos 
21 v.). 

Contra êstes Capítulos insurgiram-se alguns membros da 
Ordem e assentaram o seguinte que se encontra no Livro de 
Têrmos, fls. 24: 

"Termo em que a votos se detriminou em Meza p. a aSestir a 



SXO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO G5 

Meza Redonda dois letrados os quais depois de ver o L.° dos Cap. M 
ham de vir aSestir a mesma Meza Redonda. 

Ao primeiro dia do mes de Janr. 0 do anno de mil e sete centos e 
sincoenta e nove em o Consistório desta ven. el ordem 3. a donde se 
achava prezente o Rdo. Com.° e Snr. Irmão Ministro e mais off.** e 
definitório detriminarão a respeito de huma proposta ou requerimen- 
to que fez o Irmão Procurador g. 1 que não erã convenientes certos 
Cap. os da prezente vizita que se acrescentarão sem que a Mesa prez. te 
fosse prez. te e por havido m. ,os Irmãos contra os ditos Cap. os e emtru- 
doçoins que no d.° L.° se fez e ter os Irmãos feitos m. tos requerimen- 
tos p. a se querer riscar desta Ven. el ordem se assentou em meza de 
definitório a botos de favas pretas que se combucasse hum definito- 
no de todos os Irmãos que tem servido nesta vn. el ordem junto com 
a meza actual p. a se lhe porpor o que for mais conviniente ao suce- 
guo e quietação desta vn. 81 ordem e dos caríssimos Irmãos e aSenta- 
rão mais que na dita meza redonda acistirião dois letrados a saber o 
Dr. João Tavares do Amaral e o Dr. Manoel Manso da Costa Reis p. r 
nelles votar e aprovar todo o definitório e o Irmão Procurador lhe de- 
trimine a Meza p. a logo sem demora lhe fallar nos ditos letrados e o 
Ir. Secret. 0 junto com elle levara os L. 08 que forem necess. os p. os d. cs 
Adevogados os verem e os mesmos Ir.Ir. Procurador e Secretario em 
nome desta Meza lhes proporá o q. consta dos mesmos L. 0- e do que 
não conbem a meza e feito que seja a prorposta pellos ditos Adebo- 
gados com toda a brevid. e que delles esperamos e feita que seja o Nos- 
so Ir. Procurador e Secretr. 0 darão parte ao M. t0 R. do Sr. P. e Com. 0 p. a 
elle aSignar o dia em que se nade fazer meza Redonda e se passará 
recado ao Irmão Andador: e assim mais mandão que o Ir. Secret. 0 
escreva a alguns Irmãos aquelles que tiverem servindo alguns car- 
gos; e por q. aSim o detriminarão a botos mandarão fazer este ter- 
mo em que todos aSignarão e eu Antonio Fran. eo Campos Secret. 0 
autuai o escrevi e aSigney no dito Consistório no dito dia era o de 
supra — Luis de Almeyda V. a Nova, Comis.°//Joõo de Serqueira, 
Min.°// Domingos Per. a Leyte, vice Min.°//7oão de .Amorim Per. a , 

Proc. or gl.// João Moreira Coelho, definidor// 

//José Rodrigues Duarte, definidor//il7iíomo Francisco Cam- 
pos, Secretr. 0 / /João Soares de CarvP, Sindico// 

// //Domingos Frz. Serra, definidor 

// //". 



o(i CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

A êste tempo, havia-se já recolhido ao seu retiro o Frade 
Visitador Geral. Do que ocorria em Vila Rica tivera, porém, 
notícia por informação escrita de seus amigos. A eles respon- 
deu da maneira seguinte: 

"Copia de numa carta que escreveo o Rmo. Pe. Me. Fr. M. 1 do Li- 
vramento aos coatro officiais desta venerável ordê e meza em res- 
posta de outra que se lhe escreveo cuja forma e thior he o seguinte= 

M.'° R. d0 Dr. Comissr. 0 Snr. Ir. Min.° Secretr. 0 e Procura- 
dor Q. al 

A Proteçam de Maria Santíssima Nossa Mai e Sr. a seja na 
com. a de W.CC. em servisso de Deos nosso S. r . Recebo a carta 
de W.CC. que muito venero por saver lograce saúde. Vejo o pro- 
geto de Alguns Irmãos mal informados ou mal intendidos mal 
informados por se acomselhar com pessoas totalm. te innorantes 
da praxe regular, mal intendidos por cuidarem que os cap. os de 
visita g. al se podem de Rogar pella meza do Deffinitorio ou por 
alguém alem do Provincial g. al ou Sua Santidade e cazo Haja 
alguma Duvida nelles já adverty a W.CC. Recorresse ao N. R. mo 
Provincial p. a os modificar Se algu Irmão Mezario os impunna 
não ao cazo pois hua Andorinha como dizem; Não fas verão m. t0 
me custa na ocazião prezente hir a essa v. a por tudo cortarei p. r 
Servisso de Deos nosso s. r e de W.CC. p. a que em nenhu tempo 
possão dizer padecem essa Comgregação por minha omição Aos 
15 ou 16 do corr. te estarei nessa v. a donde desejarey dar gosto a 
W.CC. a quem Deos g. de com Saúde, gualacho do Sul 11 de Ja- 
nr.° de 1759 = De W.CC. = Servo em o S. r = Fr. Manoel do 
Livramento." (Copiador — 8 v.). 

E no tempo que designou estava novamente em Vila Rica, 
onde, de início, suspende de suas funções a Mesa que acordara 
na convocação de Mesa Redonda (9). Esta suspensão, visivel- 
mente de acordo com seus apaniguados, e em que êstes foram 
envolvidos apenas para que, sem escândalo manifesto, o fos- 
sem os adversários, levantou-se a 26 de janeiro, como relata 



(9) Assim se chamava a Mesa formada de todos os Officiais e Definitório. 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



67 



o termo desta data, no qual veremos ainda que da mercê do 
levantamento não compartiram os sediciosos. 

Manuel Fernandes da Costa, André Nunes Ferreira, Ma- 
nuel Lopes Guimarães e Manuel Nunes, os nomeados de moto 
próprio, a que o termo se refere, tomaram posse a 3 de feve- 
reiro seguinte. (L° de Termos — 26). 

Tachar-me-ão talvez de exagerado na transcrição de do- 
cumentos; contra isto, porém, me defendo com a presunção 
de que uma das finalidades dêste modesto trabalho será a de 
pôr a salvo das injúrias do tempo e da voracidade da traça os 
documentos que ainda hoje nos restam do arquivo de São 
Francisco. 

Está assim redigido o têrno de 26 de janeiro: 

"Têrmo que se fêz na mesa do Definitório para se levantar a 
suspensão da Meza e nomear Procurador Geral e mais três Defini- 
dores de moto próprio do M. to Rdo. Pe. Me. Vizitador Geral Fr. Ma- 
nuel do Livramento. 

Ano do Nascimento de Nosso Síír. Jesus Cristo de mil e setecen- 
tos e cinquenta e nove, aos vinte e seis dias do mês de janeiro em 
mesa que se fêz no consistório em que presidiu o Mto. Rdo. Padre 
Mestre Comissário Vizitador Geral e o Rdo. Dr. Luís de Almeida Vila 
Nova, Comissário e o Sf. Irmão Ministro o Tenente João de Serquei- 
ra e mais oficiais e Definitório abaixo assinados; sendo aí disse o 
Rdo. Comissário Vizitador Geral que êle tinha suspendido o exercí- 
cio da presente Mesa pela desobediência formal dos irmãos Procura- 
dor João de Amorim Pereira e Definidores João Moreira Coelho, José 
Rodrigues Duarte e Domingos Fernandes Serra e outros muitos que 
foram chamados para uma Mesa Redonda, e com os ditos Irmãos 
desobedientes ainda insistentes no mesmo parecer e desobediência, 
e ainda em uma junta feita em presença de Sua Excia. Rma. como 
delegado da santa Sé Apostólica brotarão (sic) os sobreditos irmãos 
em rebeldia escandalosa têrmo em que pediu o mesmo Rmo. e Exmo. 
Snr. ao Rdo. Padre Mestre Vizitador Geral que riscasse da Ordem 
aqueles irmãos e os houvesse por suspensos da Mesa, dando-lhe os 
seus nomes em um rol feito pelo seu Secretário o Rdo. Padre Lino 
Lopes de Matos para o que e cumprimento de sua obrigação, e sos- 
sêgo e quietação da Mesa declarou o Rdo. Pe. Comissário Vizitador 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Geral por suspensos e privados totalmente de voz e lugar da Mesa 
aos irmãos João de Amorim Pereira, João Moreira Coelho, José Ro- 
drigues Duarte e Domingos Fernandes Serra, e para suprir a êstes 
lugares e suas ocupações nomeou de moto próprio para Procurador 
Geral o Irmão Manuel Fernandes da Costa; para Definidores os irmãos 
Andri Nunes Ferreira, Manuel Lopes Guimarães e Manuel Nunes, os 
quais assim eleitos serão admitidos à Mesa e lograrão os privilégios de 
irmãos da Ordem: e a presente Mesa levantamos a suspensão, fican- 
do excluídos os quatro desobedientes; e terá a presente Mesa tôda a 
autoridade que de direito lhe é concedida pelas Bulas Apostólicas, 
Santas Regras, Estatutos e Decretos, e assim gozarão de tôdas as 
honras, dignidades e predicados que por seus cargos lhe competir, 
e para constar mandou êle dito Rdo. Padre Mestre Visitador Geral fa- 
zer êste têrmo em que assinou com o Snr. Irmão Ministro e mais De- 
finitorio, comigo Secretário Antônio Francisco Campos que êste es- 
crevi e assinei em o dito dia, mês e ano. Fr. Manuel do Livramento, 
Comissário Visitador Geral// João Serqueira, Ministro// Luís de Al- 
meida Vila Nova, Comissário// Antônio Francisco Campos, Secretá- 
rio// João Soares de Carvalho, Síndico// Amaro Alves Pinto, Defini- 
dor// Domingos dos Santos Lisboa, Definidor// Antônio Dias Pinhei- 
ro, Definidor// Antônio da Silva Braga, Vigário//." (Livro de Termos 
— 25). 

Do ato de que nos dá notícia o documento que se acaba 
de ler causou-se para Frei Livramento formal incompatibili- 
dade com a Ordem. Aquela violência marcou o têrmo defini- 
tivo de sua missão junto aos Terceiros Franciscanos de Vila 
Rica. Sua influência, bem debilitada aliás, ainda se fez sentir, 
por algum tempo, através do seu íactótum, o Comissário Vila 
Nova; mas, êste cai por sua vez, é suspenso do comissariado, 
e, por fim, expulso da Ordem. Frei Manuel do Livramento 
some-se então, de fato, para não mais volver a ingerir-se em 
negócios da congregação. 

Sua derrota, contudo, só lhe veio, completa e decisiva, do 
novo Provincial. Frei Manuel da Encarnação, eleito a 28 de 
janeiro de 1761, sabedor do que se passava em Vila Rica, sus- 
pendeu-o imediatamente das funções de Comissário Visitador 
de tôdas as Ordens Terceiras em Minas, cargo em que, como 
sabemos, o investira Frei Francisco da Purificação. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



69 



Eis como, em carta de setembro de 1762, acêrca do seu 
subordinado, se expressava o referido Fr. Manuel da Encar- 
nação: "... eu sei e estou certo das injustiças que lá operou 
o Comissário Fr. Manuel do Livramento, em que não julgo 
culpado ao meu antecessor, porque tinha formado um último 
conceito nesse frade muito contrário ao meu, motivo por que, 
logo que fui eleito, lhe suspendi tôda a jurisdição a respeito das 
Ordens das Minas, e bastou isto para sossegar tanta tormenta: 
descansem VV.CC. que não hão de ter mais moléstia alguma". 
(Copiador 28). 

Aqui se iludia o bom do Provincial. Frei Livramento não 
se resignou com a ruina em que caiu. Aguardou, para despi- 
car-se, ocasião favorável, e foi esperá-la no Rio de Janeiro, 
donde, após a eleição que dera sucessor ao ministro que o sus- 
pendera, tornou a Minas, triunfantemente, agitando nas mãos 
o documento que se vai ler, o qual, para mais humilhar a Ordem 
de Vila Rica, foi entregar à Ordem de Mariana, a fim de que 
esta o remetesse àquela. Era uma carta-circular do novo Pro- 
vincial, e dizia assim em palavras de manifesta encomenda: 

"Carta circular que a todas as Ordens escreveu o Rmo. Provin- 
cial do Rio de Janeiro Fr. Inácio da Graça Leão, a qual foi remetida 
a esta Ordem pela da Cidade de Mariana. 

R.P. Comissário, Sr. Irmão Ministro e venerável definitório: A 
obrigação de Prelado maior em que me pôs a celebração do Capítu- 
lo feito neste Convento aos 28 de janeiro próximo passado move-me 
por meio desta ir à presença de W. CC. para lhe dizer o mesmo que 
São Paulo escreveu aos de Corinto — videte ne in vacuum gratiam 
Dei recipiatis, vêde, meus Irmãos, não recebais a graça de Deus em 
vão. Recebe a graça de Deus em vão aquêle que a não emprega na- 
quilo para que Deus lha deu, e se a graça que Deus nos dá há de ser 
inútil, melhor fôra que Deus nos não desse. Todo aquêle que, sendo cha- 
mado por Deus para a Religião, não procurar ser virtuoso e servir a 
Deus e edificar a seu próximo, êste não enche o fim para que Deus 
o chamou à Religião, dizia São Bernardo, que aquêle frade recebia 
em vão a graça de Deus, quando êle não se lembrava de que Deus o 
tinha livrado de perigos do mundo e que o tinha chamado à Reli- 
gião para dêle se servir. Isto mesmo digo hoje a W.CC. lembran- 
do-os foram chamados por Deus e plantados no Jardim Franciscano 



70 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



da penitência para serem santos, servirem a Deus e edificarem o que 
professam, donde tem florescido flamigerados varões em santidade, 
apartando das suas Congregações tôda a desobediência, discórdia e 
pleitos impertinentes, pois tudo isto se encaminha à perdição do 
temporal e espiritual dessas Ordens. Devem com maduro conselho e 
alta ponderação descobrir sujeitos idóneos para os cargos da Ordem, 
atendendo mais as suas prudências, virtudes, do que os cabedais e 
dignidades, com que existem no século, porque vulgarmente êstes pre- 
dicados destroem o lugar de superior nessas Congregações. Devem 
W.CC. executar os Estatutos tantas vêzes aprovados para o bom go- 
vêrno das ditas Ordens Terceiras do que inventar outros de novo, 
com os quais ficam semeadas as discórdias entre os Irmãos, sem nun- 
ca se concluir o seu feliz êxito. tJltimamente advirto a VV. CC. de- 
vem conservar a exempção da sua Ordem tantas vêzes aprovada pe- 
los Sumos Pontífices, para o que não devem inventar festas fora do 
comum da Ordem e por êste meio se vem a perder o decoro devido ao 
seu Comissário com repetidas forças e pleitos com inconsiderável gas- 
to do patrimônio da dita Ordem. Atendendo eu à distância em que 
estou de VV. CC. e ao pronto remédio que devo dar às suas dúvidas 
e necessidades, conhecendo a idoneidade do P.M. Fr. Manuel do Li- 
vramento, nosso súdito, que, com licença régia, existe nessas Minas, 
tenho lhe dado a incumbência de Comissário Visitador Geral de to- 
das essas congregações, e ordeno a VV. CC. a ele recorram em todas 
as suas dúvidas e negócios da Ordem, consultando e assentando com 
ele tudo aquilo que fôr a bem das congregações, serviço de Deus, paz 

e união de todos os Irmãos, porque aí certamente anda e 

donde reina a discórdia está o demónio, e consequentemente o lugar 
há de ser o inferno, como diz o Dr. da Igreja Sto. Ambrósio = Chari- 
tas Monachos facit, sine hac coenobia sunt tártara et habitatores 
ejus daemones =. E do que assim obrarem ordeno ao mesmo P.M. me 
faça sabedor 



Convento de Sto. Antônio do Rio de Janeiro aos seis de feverei- 
ro de mil setecentos e sessenta e quatro anos. 

Fr. Inácio da Graça Leão, Ministro Provincial." (Copiador — 38). 

Recebida a 19 de março, esta carta somente foi aberta em 
Mesa de 25, seis dias depois, como consta de um termo desta 
data, lavrado no livro dêles a fls. 89 v., que começa assim: 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



71 



"Têrmo por donde se determinou abrir uma carta do N. Rdo. 
Provincial Fr. Inácio da Graça Leão, da qual fez remessa a esta 
Ordem a da cidade de Mariana, da qual se fêz aceitação tão 
somente pelo que respeita o remeter-se ao Rio das Mortes e 
que torne a esta Ordem". 

Como vimos, determinava a aludida carta se recorresse a 
Fr. Manuel do Livramento" em todas as dúvidas e negócios da 
Ordem". Neste particular "foi por todos determinado unifor- 
mente que da dita carta faziam aceitação pelo que respeitava 
a exortação espiritual e bênção que o dito Rmo. Provincial nos 
enviava na dita carta e da mesma forma na advertência que 
nos fazia sobre a idoneidade dos Irmãos que devem servir os 
lugares da Mesa, porém que sobre o determinado na mesma 
carta em recorrer esta Venerável Ordem ao Rdo. Padre Fr. 
Manuel do Livramento para o que à mesma fosse preciso por 
ter este os poderes necessários do dito nosso Rmo. Provincial, 
nesta parte somente a não aceitavam, porque só ao mesmo 
Rmo. Provincial queriam recorrer, como lhe era determinado 
pelos Estatutos desta Ordem, por não padecer a mesma nuli- 
dade alguma nas suas determinações e aprovações, por ser 
contra as ordens régias habitarem Religiosos neste conti- 
nente ..." 

Nestes têrmos responde a Mesa à carta de 6 de fevereiro, 
de cuja existência tivera notícia e de cujo teor mais ou menos 
se inteirara, mercê das levianas provocações de Frei Livra- 
mento. Destarte pôde a resposta ser estudada com vagar e 
disposta com habilidade. Para outra coisa não foi que a Mesa 
se reuniu a 18 de março (um dia antes do recebimento daquela 
carta) e assentou o que consta do seguinte (Têrmos — 87 v.) : 

Aos dezoito dias do mês de março de mil setecentos e sessenta e 
quatro anos nesta igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição de 
Vila Rica, em o consistório da venerável Ordem Terceira de São Fran- 
cisco da dita vila, e aonde se achavam presentes o Reverendo Padre 
José da Silva Baião e o vice-ministro e mais definitório sendo aí em 
presença de todos foi dito e requerido pelo Procurador da Ordem, e nos- 
so caríssimo irmão João de Amorim Pereira e foi feito o requerimento 
do teor seguinte: 

Como Procurador Geral e fiscal desta venerável Ordem requeiro, 



72 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



por bem da mesma, a Vossas Caridades que à minha notícia tem che- 
gado por pessoas verídicas e por partes de alguns irmãos nossos que o 
Reverendo Padre Fr. Manuel do Livramento na sua chegada ao Hos- 
pício da Terra Santa desta vila tinha publicado trazer todos os pode- 
res do Ministro Provincial do Rio de Janeiro para govêrno das Ordens 
Terceiras e porque, para com esta, se acham bem provadas as suas 
suspeitas pelo excessivo e apaixonado rancor que a esta Venerável 
Ordem tem, levado juntamente da indústria caluniosa de certo irmão 
desta Ordem que com péssimo de caridade, fervor e zêlo lhe tem in- 
troduzido as mais perversas e perniciosas idéias, muito bem reconhe- 
cidas e experimentadas no considerável prejuízo que a esta venerável 
Ordem causado tem e que associado com o mesmo em uma cela do 
dito Hospício tem gasto dias inteiros com as portas secretas, das quais 
pelas suas antecedências se segue a presunção de alguma conspira- 
ção apaixonada contra o aumento e paz desta venerável Ordem, que 
se deve evitar os meios a que se conduzem semelhantes conjecturas, 
mandando-se lavrar por têrmo que o dito Padre Fr. Manuel do Livra- 
mento nunca em tempo algum pela Mesa presente ou futuras lhe se- 
jam admitidas as suas determinações nesta venerável Ordem e mui- 
to menos visitar ainda mesmo no caso de se ter passado o tempo do 
nosso e somente que nos casos precisos se recorrerá ao Nos- 

so Rmo. Ministro Provincial a quem é devida obediência e não ao dito 

Fr. Manuel pelo ter de suspeito esta venerável Ordem e 

nêle ter por ser oposto às regalias e concessões que a mes- 
ma Ordem tem alcançado e que nesta forma havia perfeito o seu re- 
querimento e que sôbre o mesmo requeria a êle dito Vice-Ministro 
mandasse correr o vaso para sua determinação, o que sendo assim ou- 
vido pelo dito Vice-Ministro, mais irmãos e definitório, por aquêle foi 
dito que vistos os justos fundamentos e a parte a que se encaminhava 
o requerimento do dito Procurador fôsse o vaso para a cabeceira da 
mesa e que nêle a pluralidade de votos se determinasse o ter efeito 
o dito requerimento e que o entendesse ser conveniente deitasse no 
dito vaso fava preta e que o contrário fôsse definisse o seu voto com 
fava branca e correndo o dito vaso por um e outro lado da dita mesa 
nêle foram lançados todos os votos de tôda ela, depois do que sendo 
pelo dito Vice-Ministro lançados em uma fôlha de papel por êle fo- 
ram contados todos os votos de favas pretas sem que nêle se achasse 
algum em contrário, pelo que em observância dos ditos votos e por 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



73 



ser assim muito conveniente à paz e sossêgo espiritual e temporal da 
dita Ordem determinavam como determinado tinham pelos ditos vo- 
tos que o dito Padre Fr. Manuel do Livramento em tempo algum nem 
na mesa presente ou futuras, existente a mesma Ordem, fôsse nela, 
nem pouco sejam admitidas suas determinações ou aprovações, pôsto 
que pareçam de utilidade à mesma Ordem porque os justos funda- 
mentos que se declaram no requerimento do irmão Procurador des- 
vanece tôda a consideração que se queira fazer e que havendo algu- 
ma necessidade de aprovação ou determinação a bem desta venerá- 
vel Ordem se recorresse a nosso Reverendíssimo Provincial do Rio de 
Janeiro a quem se determinavam se recorresse por ser assim conve- 
niente e se conformar esta determinação com o que determinam re- 
petidas ordens régias que proíbem o passarem Religiosos daquela ci- 
dade a êste continente de que os irmãos da mesma Ordem como fiéis 
vassalos queriam a sua observância e nesta forma o haviam assim por 
determinado, não só para o presente, mas também para o futuro, tudo 
na forma do requerimento do dito Procurador, copiado neste têrmo 
como parte essencial dêle e que pela sua observância desde hoje para 
todo sempre protestava a presente Mesa, em nome de tôda a Ordem, 
sem que se possa determinar o contrário, sem maior número de ir- 
mãos ou de um definitório geral, de que do referido constar manda- 
ram fazer êste têrmo a que todos assinaram e eu Antônio Fernandes 
de Araújo, Secretário que o escrevi e assinei// Padre José da Silva 
Baião, presidente// Antônio de Sousa Mesquita/ /João de Amorim Pe- 
reira, procurador // José Francisco Couto, definidor// André Nunes 
Ferreira, síndico// Manuel Nunes, definidor//." 

A resposta, redigida com estudada diplomacia, consta de 
uma carta breve e mansa, mas que teve a virtude de liquidar 
de vez a questão Livramento: o inábil franciscano desapareceu, 
agora definitivamente, para nunca mais voltar. 

Eis aqui o teor dessa carta: 

"Nosso M. Rmo. Pe. M. e Ministro Provincial Fr. Inácio da Graça 
Leão: A graça de Divino Espírito Santo assista e V.P.M. Rda. e ao 
mesmo ficamos rendendo as graças por ter com a sua divina luz ilus- 
trado o entendimento dos capitulares para o acêrto eletivo de seu e 
nosso Prelado maior, porque, sendo êste na pessoa de V.P.M. Rda. na 
qual geralmente se reconhecem tantos dotes de virtude, quantos são 



74 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



os científicos conceitos de que é dotado; parece que só por inspiração 
divina podia ser eleito por legítimo sucessor de N.S. Patriarca, para 
nosso Prelado maior a cujos pés, em razão de filhos, imos pelo modo 
possível em nome de toda esta Ordem, com a mais reverente submis- 
são e profunda humildade, beijar-lhe a mão e receber a seráfica bên- 
ção, dando-lhe o parabém de Deus o ter elevado a tão alta dignidade, 
debaixo da qual sacrificamos tôda a nossa rendida obediência 



Por não ser de necessidade na ocasião presente não nos aprovei- 
tamos da providência que V.P.M. Rda., como Prelado providente, cons- 
tituiu na pessoa do Rdo. Pe. M. e . Fr. Manuel do Livramento, por jul- 
garmos que não poderia haver censura de culpas, como por reconhe- 
cermos que havia precisa obrigação de irmos por êste modo aos pés de 
V.P.M. Rda. com a inclusa tábua dos N.R.dos. Comissários e Vice-Comis- 
sário que por ocorrência de morte, em o dia primeiro de abril presen- 
te, por eleição canonicamente se elegeram em Capítulo Geral, para 
que por serviço de Deus e amor do N.S.P. e em atenção às nossas hu- 
mildes súplicas e a muita consolação espiritual que nos resulta, se 
digne por sua piedade de aprovar e confirmar por preceder o serem 
eleitos na mesma forma que o determina o cap. 14 §§ 1.° e 3.° dos 
nossos Estatutos, confirmados e aprovados pelo N.Rmo. ex-Ministro 
e Comissário Geral Fr. Pedro João de Molina, de cuja cópia e Paten- 
te se achará no arquivo dessa Sagrada Religião um autêntico instru- 
mento 



Vila Rica e Casa do despacho desta Venerável Ordem Terceira da 
Penitência, em Mesa do Capítulo Geral ao primeiro de abril de mil se- 
tecentos e sessenta e quatro = De V.P.M. Rda. os mais humildes filhos 
e afetuosos servos em o Senhor = Domingos da Rocha Ferreira, ex- 
Ministro//.A?iíómo de Sousa Mesquita, Vice-Ministro// Antônio Fer- 
nandes de Araújo, Secretário/ /João de Amorim Pereira, Procurador 
Geral/ /André Nunes Ferreira, Síndico//." (Copiador — 39 v.). 

Em tôda esta questão Frei Manuel do Livramento não se 
absolveria da aliança odiosa e provocadora que fêz em Vila 
Rica e, porventura, de demasiada e imprudente loquacidade. 

De seu lado, a Ordem aliena simpatias, porque não soube 
ou não quis ser superior a um sentimento de despeito que a 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



75 



vergou por sucessivos anos e que ressai de todas as suas ati- 
tudes. 

A criação da Ordem em Mariana, que, por amor à insti- 
tuição franciscana, devia louvar, ela a condenou, e o estabele- 
cimento dos Terceiros na cidade episcopal passou a ser daí 
por diante o motivo principal de sua aversão ao frade do Gua- 
lache 

E a partir de 1764, como vimos, Fr. Manuel do Livramento 
desaparece do arquivo da Ordem. 

2° — QUESTÃO VILA NOVA 

Em 1757 residia em Antônio Dias, em casa de Manuel 
Rodrigues Abrantes, o Dr. Luís de Almeida Vila Nova. sacer- 
dote português, natural de Santa Luzia de Pomares, no bispado 
de Coimbra. 

Não o recomendava favoràvelmente à maioria da Ordem 
sua convivência e camaradagem com Rodrigues Abrantes. 

Apesar disto, êle se inscreve entre os terceiros e é admi- 
tido a 24 de julho do ano acima mencionado. No ato de sua 
matrícula, compromete-se a apresentar, dentro de um prazo 
que lhe fôra prefixado, a sua patente de filiado à Ordem, na 
qual, conforme asseverou, professara em sua diocese de ori- 
gem, no priorado de Vila Cova de Sub-Avô. 

E pouco mais de um ano depois, êsse homem, que devia 
ser visto dentro da congregação com receio e desconfiança, é 
eleito, embora interinamente, Comissário da Ordem. 

Tal ocorrência surpreende, sobretudo quando se consi- 
dera que razões outras acudiam a contra-indicá-lo para fun- 
ção de tamanha responsabilidade. 

Correra o ano que lhe fora outorgado e êle não documen- 
tara ainda com a patente canónica sua qualidade de terceiro 
franciscano, condição indispensável para que qualquer sacer- 
dote, não religioso seráfico, possa exercer legalmente o cargo 
de Comissário. 

O Comissário é, dentro de uma Ordem Terceira, o seu 
"primeiro prelado"; confessa, corrige, ensina; deve pregar 
com a palavra e com o exemplo; tem de ser um religioso per- 
feito. Ora. o Padre Vila Nova era um irmão remisso, nem pa- 



76 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



gara nunca o que devia à Ordem — os anuais prescritos nos 
estatutos. 

De resto, ardia no mais elevado grau o ódio contra o 
Abrantes e, portanto, contra seu aliado e comensal, o Comis- 
sário eleito. Com os aplausos de ambos vinha Frei Manuel do 
Livramento de desmembrar da Ordem uma porção conside- 
rável do seu "rebanho seráfico" — os terceiros de Mariana e 
sua comarca. 

Como se procedeu, pois, a uma eleição tão desacertada? 

E' que a Mesa que a realizara fôra a seu turno organizada 
revolucionáriamente. sob cabala não duvidosa de Frei Livra- 
mento e seus aderentes, aos quais não faltou, ao que insinuam 
alguns documentos, o apoio do próprio Provincial, cujas car- 
tas, por essa época, vinham vazadas, em linguagem áspera, 
iscadas de bravas e rudes ameaças. 

Devendo restringir-me ao assunto que me tracei neste 
parágrafo, nada direi da Mesa revolucionária, em torno de 
cuja administração parece que se fêz abstenção total por parte 
da maioria da Ordem. 

Deixemos, portanto, andar o ano de seu governo e sal- 
temos ao dia das novas eleições — 17 de setembro de 1759. 
Para estas se arregimentara vigorosamente a congregação. O 
Padre Vila Nova, já agora confirmado Comissário Visitador, 
antevendo fatal a sua derrota e a de seus amigos, tenta à úl- 
tima hora salvar-se ainda, e lavra, no ato mesmo da eleição a 
que pelos estatutos tinha de presidir, um protesto inócuo que, 
sem embargo de certa solenidade, aí ficou letra morta nos 
registros da Ordem, não produzindo o efeito a que visava o 
seu autor. 

Estava assim redigido: 

"Termo de porttesto que fes o Rdo. Pe. Comissário respeito a aSis- 
tencia da nova Eleyção que se hade fazer este prezente armo de 1759 
p. a o de 1760 e na forma Seguinte = 

Aos dezaSette dias de Setembro do anno de mil e Sette Centos e 
Sincoenta e nove, sendo na caza do Noviciado que também serve de 
Caza do despacho desta venerável ordem 3. a nesta Matriz de Nossa 
Senhora da Conc. am desta villa Rica estando junta e congregada no 
mesmo Deffinitorio e meza da venerável ordem 3. a p. a proceder a fa- 



SXO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 77 

tura da Nova eleyção p. a servir o presente anno de 1759 p. a o de 1760 
foy dito pello o Rdo. Padre Comissário o Dr. Luis de Almeyda v. a Nova 
que elle acestia a f atura da dita Eleyção contra sua vontade pella ra- 
zão de intender que não tinha Jurisdição do Rmo. Ministro Prov. aI a 
quem não queria desobedecer em couza algúa, e que sô aSestia por 
evitar distúrbio e diSençoens que via estarem iminentes entre os Ir- 
mãos da mesma meza que não comSentirão que elle sahisse do defi- 
nitorio sem acistir a dita Eleyção a qual declarava não presidir como 
Vizitador, mas Sim como Comissário acistir. E para constar aSim man- 
dou fazer este termo de protesto que aSignou eu Antonio Fr. eo Cam- 
pos o escrevy e aSigney no dito Dia, mes, e anno ut supra./ /Luis d'Al- 
meyda V. a Nova, Comissr. 0 / /Antonio Francisco Campos." (Termos 
— 31 v.). 

A Mesa, eleita nesse dia, ficou assim organizada: 

Ministro — OS. Mor Felipe Gonçalves Santiago 

Vice Min. 0 — Afonso Dias Pereira 

Secretr. 0 — José da Mota Araújo 

Proc. Gal. — Manuel Fernandes da Costa 

Síndico — Francisco Xavier de Sousa 

Definidores — Manuel Teixeira Sobreira 

João Gonçalves Pereira 

Baltazar Gomes de Azevedo 

Francisco Borges Guimarães 

José Ferreira do Amaral 

Antônio Gomes da Rocha 

Alexandre de Viveiros 

José Ribeiro de Melo 

Manuel da Costa 

André Nunes Ferreira 

Pedro da Costa Ferreira 

Feliciano José da Câmara 
Ministra — Maria Joana Fagundes 

Vigário do Culto Divino — Antônio da Silva Braga." (L.° de Elei- 
ções — 17). 

Esperávamos que esta Mesa, numa justa desafronta, 
pusesse imediatamente fora o Comissário que maquinava con- 
tra a Ordem. Isto, entretanto, não se verificou. Ao contrário, 
10 dias depois de empossada, esquecida de desfeita bem 
recente, solicita sua confirmação e o faz, encarecendo-lhe o 



78 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



zêlo e certificando que nenhum outro candidato era mais do 
seu agrado. 

Duas razões, a meu ver, influiram nesta deliberação. 

A primeira, o apoio não equívoco que dava o Provincial 
a Fr. Manuel do Livramento e, por consequência, ao seu alter- 
ego, Padre Vila Nova. Qualquer atitude contra este, no mo- 
mento, fôra desacertada política. 

A segunda razão é que a Mesa aguardava a cada instante 
a devolução dos novos Estatutos, aprovados e confirmados em 
Madri pelo Geral da Ordem. Êstes conferiam à Ordem Ter- 
ceira de Vila Rica uma soma tal de poderes e privilégios que a 
constituíam na independência quase total das autoridades 
superiores da Ordem no Brasil — os Provinciais do Rio de 
Janeiro. 

Mostrava-se humildosa e paciente a Mesa, porque estava 
antevendo além porvindoiras desforras e antegozando o prazer 
de uma cabal vindita. 

Contudo, 16 longos meses irão discorrer ainda, antes que 
amanheça o dia do ajustar das contas. 

Aproveitemos esta pausa e leiamos os documentos seguin- 
tes, anotando êstes protestos de submissão e obediência para 
os confrontarmos ulteriormente com a linguagem que irá em- 
pregar a Ordem, quando tiver à mão seus novos Estatutos: 

"Meritissimo e Rmo. Snr. Pe. Min. 0 Provincial 

Como filhos da Santa obediência estamos obrigados a seguir a opi- 
nião dos nossos Superiores, porque devemos julgar ser fundada em a 
mais solida razão e verdadeira doutrina como a de V.P.M. Rda., quan- 
do nos adverte que o comu inimigo de nossas almas como leão famin- 
to as deseja devorar, se nos faltar o amparo de V.P.M. Rda. e p. a que 
esta floreça e nos secorrer, não seSaremos de rogar a Deos e nosso 
Santo Patriarca lhe continue húa saúde livre de toda a mulestia em- 
pregada no serviço de N.Sfir. 

Em 4 de 8br.° deste corr. te mez (sic ) dia de Nosso Seráfico Patriar- 
ca tomamos posse deste piqueno rebanho que oferecemos victimas em 
as aras de sua obediência a quem como Pay e legitimo Prelado suplica- 
mos por serviço de Deos não desampare, pois lhe está cometido, antes 
lhe rogamos nos acuda em as advercidades e trebulações que o comu 
inimigo custuma subjirir. Relevandonos como Pay as faltas passadas, 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



79 



remediando os erros prezentes e fucturos; lansando a estes filhos Pró- 
digos sua Paternal benção. Com esta remetemos a V.P.M. Rda. a nos- 
ra Eleyção, ou a Postulação da Meza actual; e juntamente a nomina- 
ta dos Reverendos Sacerdotes que pedimos a V.P.M. Rda. nos queira 
comfirmar primeiro e segundo Comissr. 0 Viz. or que nos poasa reger e 
nSestir a todos os actos, Capitulos e mais Exercidos da Ordem. 

O Altissimo continue em fazer a v. Rma. mimoso de supriores 
auxilios de Sua Divina Graça para que estas desgarradas ovelhas etc. 
O mesmo Deos G. de a V.P.M. Rda. como havemos mister. V. a Riqua 
em Meza de 14 de 8br.° de 1759 as.Subescrita pelo Secretario Joze da 
Mota Araujo que declarou haver sido esta carta assinada pela Meza." 
(Copiador — 13) : 

"Postulação em virtude da carta retro 

Meritissimo e Rmo. Snr. Pe. Min. 0 e mais Pes. do Deffinitorio 
Diz o Irmão Min. 0 da Ven. el ordem 3. a da Penitencia de N.P. Sam 
Fran. 00 erecta na Matriz de N. Sr. a da Conc. am de V. a Rica e com elle 
todos os Irmãos da Meza prez. te que esta ordem por reconhecim. to da 
obediência que deve aos Prellados da Religião Seráfica desta Provin- 
da eustuma sempre nomiar e postular Comissário Vizitador para os re- 
ger na forma das Bulas e Constituições Apostólicas, em todas as Eley- 
ções desta Provincia, segundo a Bula do Papa Sixto 4° que começa 
Romani Pontificis Presidentia, segundo, digo he devem dar ou conce- 
der os ditos Prellados aquelles Sacerdotes que forem mais do seu agra- 
do, o qual Privilegio se acha comfirmado pela Constituição Novissi- 
ma do Snr. Papa Benedito 13 que começa Paterna Sedis Apostólicas 
Providentia e como pella experiência que elles Supp. es tem dos Reve- 
rendos PP. em primr.° lugar o Car. mo Irmão e Comissário autuai o R. 
Dr. Luiz de Almeida Villa Nova e em seg. do lugar o R. Pe. Jozê Frz. Lei- 
te nosso Cariss. mo Irmão, e em 3.° e vitimo lugar o Rdo. Pe. M. el de 
souza Giraldes, nosso Car. ,no Irmão. E não podem os Supp.™ nomiar 
outros nem apostular que o prz. 1 *' sejão mais do seu agrado pello o in- 
cansável zelo e prontidão que esta Ven. l>1 ordem tem experimentado, 
P. a V.P.M. Rda. etc. E.R.M." (Copiador — 13). Assinada pela Mesa 
eleita a 17-9-759. 

Os novos Estatutos, aprovados em Madri a 30 de janeiro 
de 1760 e confirmados, em Lisboa, pelo Núncio de Sua Santi- 



80 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



dade, a 12 de março seguinte, somente a 1 de fevereiro de 1761 
foram oficialmente publicados em Vila Rica, conforme o têrmo 
de aceitação já trasladado em outro lugar dêste livro. 

Com os Estatutos vieram também as Letras Patentes, que, 
como vimos, outorgavam à Ordem faculdades e privilégios de 
singular apreço. 

Robustecida pela posse de armas tão poderosas, podia 
agora a Ordem lutar e vencer, e para a lide começou de apres- 
tar-se de viseira erguida. 

Ante a perspectiva de um revés iminente, projetou o Co- 
missário Vila Nova eliminar ou anular a mais eficiente das 
armas do adversário — a Patente das Faculdades. Lembrou- 
lhe um recurso extremo, providência infeliz que poderia ter 
ocorrido a qualquer pessoa, nunca a um sacerdote que prezasse 
a liberdade da Igreja. 

Como sabemos, as Letras Patentes foram confirmadas em 
Lisboa por um Breve da Nunciatura Apostólica. 

Entre essa confirmação, a 13 de março de 1760, e a publi- 
cação do Breve, em Vila Rica, a 1 de fevereiro de 1761, ocor- 
rera o rompimento das relações diplomáticas de Portugal com 
a Santa Sé, o que se verificara por lei de 4 de agosto daquele 
ano que ordenava a observância de outra lei já revogada, de 
D. João V, de 5 de julho de 1728. (10) 

Embora não devesse ter efeito retroativo o decreto de 4 
de agosto de 1760, soube-se que o Padre Comissário pretendia 
invocá-lo contra o Breve da Nunciatura, pelo fato de não o 



(10) Como represália contra Roma que se recusava a atender, por fortes ra- 
zões, o pedido instante de D. João V no sentido de ser elevado ao cardinalato o nún- 
cio em Lisboa, Bichi, o monarca português cortou relações diplomáticas com a San- 
ta Sé e publicou a lei de 5 de julho de 1728, na qual, entre outras imposições, proi- 
biu se impetrassem do Papa, de seus tribunais ou ministros, quaisquer despachos, 
bulas, breves ou graças, sem expressa licença de el-rei. Normalizadas depois as re- 
lações com o Sumo Pontífice, o que se deu em 1732, parece que esta lei foi abolida, 
pelo menos pràticamente. Somos levados a esta conclusão porque, quando Dom José, 
em 1760, arrastado pelo sectarismo do seu primeiro ministro Sebastião José de Car- 
valho, rompeu de novo as relações diplomáticas com a Santa Sé, pelas leis de 4 de 
agosto, ordenou a observância da lei de 5 de julho de 1728, acima referida, o que 
prova que ela já não estava em vigor. Cf. Cónego Joaquim Maria Lourenço — Si- 
tuação Jurídica da Igreja em Portugal, pág. 26 — 2. a ed., Coimbra, 1945. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO ál 

haverem submetido ao placet régio. Desta sorte eliminar-se-ia 
a Patente que o Breve confirmava. 

Desvairado pela paixão esquecera-se o Dr. Vila Nova de 
que, na qualidade de Comissário, havia assinado, com a Mesa. 
um têrmo — o de 5 de fevereiro de 1761 — pelo qual a Ordem 
assentou sobrestar a execução da Patente pela "implicância 
que há de ser ou não compreendida a dita aprovação (do 
Núncio) na proibição do decreto de Sua Real Majestade, que 
Deus guarde, de 4 de agosto do dito ano". 

Mal teve conhecimento das maquinações do seu Comissá- 
rio, a Ordem, antes que ele pusesse mãos à obra da planejada 
anulação, anulou-o a êle, como iremos ver através dos seguin- 
tes documentos: 

"Sr. Rvmo. Pe. Luís de Almeida Vila Nova — Em 24 de Julho de 
1757 foi V.C. ademetido aos santos exercícios desta venerável ordem 
com a condição de dentro em hum anno aprezentar a Patente a q. 
se referio V.C. na suplica que fez a esta venerável ordem em cujos ter- 
mos e nos do Cap. 1.° § 9.° se procedeo a Meza a coal vniformemente 
me detreminou avise a V.C. p. a q. em continente a mande aprezen- 
tar a mesma meza p. a na forma dos estatutos desta venerável ordem 
ser examinada. D s . g. de a V.C. m. s a. s V. a Riqua em meza de 12 de Fe- 
br.° de 1761 — De V.C. Irmãos e servos em o Sr. Felipe Giz Santiago, 
Min.°// Domingos Thome da Costa, Vice Min. 0 / /José da Motta Arau- 
jo, Secr.°// Manoel F. de Carvalho, Proc. Gí. 1 // Bento Leite, Sindi- 
co//". (Copiador — 14) . 

E no dia seguinte: 

"Sr. R. Pe. Luis de Almeida Vila Nova — Foi Vm. te por carta do 
dia de ontem avisado p. a aprezentar nesta venerável meza a sua Pa- 
tente por onde era nosso Irmão, ao que depois de ler a carta na pre- 
zença de nossos irmãos q. a levarão deo por resposta q. a dita carta 
não era p. a Vm. cuja resposta sendo dada nesta meza foi Vm. unifor- 
memente suspenso do cargo de comissário q. tinha nesta ven. ord. o 
que como não constava de ser nosso Irmão por modo algum . a mesma 
meza uniformemente deliberou de voto de q. se fez termo q. Vm. se 
abstivesse de todos os exercícios e funções da ordem the não satisfazer 
com a aprezentação da dita Patente. D. s g. d9 a Vm. m. s a. s Vila riqua 



82 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



em meza de 13 de Febr.° de 1761 a. B — De Vm. seus veneradores — 
Felipe Giz. Santiago" (e os mais da primeira carta) . Copiador — 14 v. 

E na mesma data da segunda carta lavrou-se, à fl. 41 v. do 
livro de têrmos, o seguinte: 

"Termo em que se declara a resposta q. deu o R. Pe. Luis de Al- 
meyda V. a Nova a carta que a Meza lhe escreveo e se declara no ter- 
mo fl. 40. 

Aos treze dias do mes de Fevreyro de mil Settesentos Sessenta e 
hum nesta Villa Rica de Nossa Senhora do Pillar de Ouro-preto em a 
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conseipsão de Antonio Dias da 
mesma villa em o concistorio da venerável ordem Terseira de Nosso 
Seráfico Patriarca Sam Francisco em a meza onde se achava pre- 
zente o nosso Irmão Ministro Felipe Gonsalves Santhiago, Visse Mi- 
nistro Domingos Thome da Costa e mais Irmãos e sendo ahy pello 
dito Ministro foi mandado chamar o andador desta venerável ordem 

e os dois Irmãos Antonio Antunes Villa verde e dos Santos 

Rios aos quais se tinha determinado a entrega da carta de que o ter- 
mo fl. 40 faz mensão p. a q. se entregasse ao Reverendo Padre Luiz de 
Almeida Villa Nova e lhe pedisse resposta e vindo os ditos Irmãos lhe 
foi perguntado pello dito Ministro pella resposta da dita carta ao que 
todos tres uniformemente disserão lhe tinhão entregue na Sancristia 
•lesta dita Igreja e que respondera que hia para sua casa que se tivesse 
resposta a daria ao que segundo os ditos Irmãos na prezença dos mes- 
mos na dita sua caza abrira e que lendoa respondera que a carta não 
hera para elle que ou quem a trazia se tinha enganado ou quem a 
mandou e sendo ouvido isto pella dita Meza visto a sua contumassia 
em não querer satisfazer a dita carta pella q. 1 se lhe ordenava apre- 
zentasse a patente por donde hera nosso Irmão 3.° na forma que de- 
termina o paragrafo 9.° do Cap. l.° dos nossos estatutos como melhor 
se ve da mesma carta copiada no copiador desta Venerável ordem a 
fls. e sendo visto o que fica relatado foy dito pello mesmo Ministro e 
mais Irmãos que nesta desobediência que tinha feito em não satisfa- 
zer na forma determinada na dita carta que se ouvesse por suspenso 
o dito Comissário para o que correndo o vaso declarandose antes que 
quem quizesse que fosse suspenso deytasse feijão prêto e quem qui- 
zesse que ficasse deytasse feijão branco e correndo o vaso geralmente 
se acharão dezanove feijoins pretos pello que uniformente o ouverão 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO S3 

por suspenso da ocupassão de comissário visto não aprezentar a pa- 
tente ou titulo por que hera nosso Irmãos, para o q. se procedesse a 
elleyção de novo Comissário na forma dos nossos estatutos para o que 
sendo avizado na forma dos mesmos o nosso irmão Ministro antece- 
dente o Capitão João de Sequeyra não apareceu neste conristorio re- 
zão por que e na forma dos ditos estatutos se determinou se proce- 
desse na eleição de novo Comissário na forma delles de que para cons- 
tar mandou fazer este termo. Antonio de Souza Mesquita ex-secreta- 
rio que o escrevy por moléstia do actual Jozê da Mota Araujo e no- 
meação da mesma meza//FeZipe Giz Santiago, Ministro/ /Domingos 
Thomê da Costa, Vice Ministro/ /Domingos da Rocha Ferreira, ex Mi- 
nistro//Jo2ê da Motta Araujo, Secrtr. 0 / /Manoel Frz da Costa, Proc. 
G. al / '/Bento Leite, Sindico //Antonio Teixeira Chaves, definidor//Afa- 
noel Dias Guim. 08 , definidor//7oão Ferr. a da Silva Braga, Vigário do 
Culto devino/ /Lourenço Pires Ramalho, ex-Secretr. 0 / /Manoel Ribeiro 
Alcanede, ex Mestre dos Nov. so //Ant.° de Souza Mesquita, ex-Secretr. 0 
//José Per. a da Fonseca, ex-Proc. G. 1 / /Pedro Giz. Lamas, ex-Sindico 

//Bernardo Giz Veiga, ,//Fran. C0 Jozê Barboza, definidor surro- 

gado/./Cosíodio Fran. 00 Mor. a , ex-definidor// Manoel de Torres Lima, 
ex-definidor/ /Manoel Alves de Azevedo, ex-definidor//". 

■ 

Só a suspensão, porém, não bastava, não satisfazia cabal- 
mente: impunha-se o afastamento definitivo do protervo 
adversário que, instalando-se insidiosamente no Comissariado 
da Ordem, dali tramava contra a sociedade de que, por bem ou 
por mal, fazia parte. 

Perante o Provincial, que o apoiava, articulou a Mesa, 
entre súplicas e queixumes, as acusações que iriam servir de 
base à expulsão do inimigo. Essas acusações constam de uma 
carta de 6 de outubro de 1761. da qual apartamos os períodos 
seguintes: 

"Se aos humildes filhos lhes é lícito nas maiores perturbações re- 
correr ao melhor Pai e Prelado, como doutamente nos insinuou V.P. 
M. Rda. na sua carta de 29 de abril, ibi = Os filhos não devem ocultar 
nada aos pais quando êstes lho inquirem para utilidade sua = e as- 
sim permita-nos a religiosa modéstia de V.P.M. Rda. o dizermos que 
não é nossa intenção caluniar a quem com estranho procedimento nos 
desatendeu, só sim desafrontar a inocência violada, e inda supondo-a. 



84 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



como -publicamente se diz, acreditada na -presença de V.P.M. Rda., por- 
que sempre as justificações são mais vagarosas do que as queixas. 

Ambicioso, fraudulento, temerário e sem acordo subiu à presença 
da Majestade Fidelíssima, pelo seu Desembargo de Paço dessa Cidade, 
o Rdo. Luís de Almeida Vila Nova, Comissário que foi desta Venerável 
Ordem, sem apresentar patente de Terceiro em todo o tempo que ser- 
viu, com uma sua iníqua petição, na qual em substância denuncian- 
do requeria que a concurso de mais irmãos de Mesa sublevadamente 
fôra lançado fora do atual exercício de Comissário por querer impedir, 
como fiel vassalo, a observância de uma Patente de graça do nosso 
Reverendíssimo, por esta vir in forma Brevis pelo Eminentíssimo Se- 
nhor Núncio: e para colorir esta aleivosia dizia por conclusão no seu 
requerimento que por se achar sem acordo do que devia obrar, se lhe 
mandasse passar sua Provisão para apelar (sem dizer de quem nem 
para quem) ; e não sucedendo no despacho os efeitos do prémio que 
por meio de confisco imaginava pertencer-lhe, sem atenção à sua ir- 
regularidade; por isso ambicioso: mandou o Desembargo por seu des- 
pacho responder a esta Venerável Ordem com o prazo de três dias, 
cuja intimação se lhe fêz por requerimento do mesmo, e por isso frau- 
dulento: de cuja resposta resultou mostrar esta Venerável Ordem por 
documento autêntico o termo assinado pelo mesmo recorrendo denun- 
ciante, no qual se declarava que somente se observariam nesta Vene- 
rável Ordem os Estados aprovados com aprovação distinta e que de 
nenhuma forma se usaria da Patente in forma Brevis, na qual se con- 
cediam vários indultos e graças, e que esta ficaria sem uso algum, 
como com efeito está (remetendo-se para a Côrte, o que assim se fêz) 
sem que primeiro Sua Majestade Fidelíssima o determinasse; acompa- 
nhou a mesma o documento de uma petição, que com a mesma Pa- 
tente se mandou ao limo. e Exmo. Sr. Conde de Bobadela, insinuan- 
do-nos proferiu seu despacho em 19 de Fevereiro do teor seguinte: 
"Recorram a Sua Majestade pela Secretaria dos Negócios do Reino", 
e assim se obrou: e se por êstes e muitos outros documentos se mos- 
tra temerário por subir a tão supremo Tribunal com uma temerária 
infâmia e sem acordo, por se não lembrar do que fez e obrou, deven- 
do-se também considerar réu no caso que houvesse culpa: todos êstes 
fatos com maior individuação e clareza se acham há tempos deferi- 
dos pelo Desembargo com o final despacho do teor seguinte: 

Passe Provisão para apelar do caso que tende sobre o Ministro e 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO S5 

mais oficiais, sem embargo da resposta do Procurador Geral": e as- 
sim se ficou sem mais estrépito. Como acima dizemos, se acham na 
mão do Guarda-mor da Relação dessa cidade, o qual com facilidade 
os há de confiar a V.P.M. Rda., dos quais verá a razão ou sem razão 
que tivemos para sua expulsão, além dos mais fatos monstrativos e 
verídicos, com as demais circunstâncias ocorrentes e de tudo fará V. 
P.M. Rda., com a sua discreta ponderação, discurso certo para dêle 
melhor conhecer do que da pena com as vozes. 

Esta nossa representação não é, Senhor e Prelado nosso, movida 
do nosso padecer, só sim por querermos justificar sem culpa as in- 
fâmias com que os êmulos perturbadores da paz, sugeridos pelo co- 
mum inimigo, argúem a esta Venerável Ordem, fazendo-a por isso 
odiosa no lugar aonde não chega o conhecimento da verdade " 

Bem que o documento supra fale de expulsão como reali- 
zada, esta, de fato, se verificou mais tarde e a ela se procedeu 
com certa solenidade. Daqui a pouco o veremos. Para ato de 
tanta ponderação quis a Ordem, ao que parece, prover-se de 
sobejas razões. 

Havia o Dr. Vila Nova, quando em funções de comissário, 
transferido para sua residência e retido em seu poder alguns 
livros espirituais pertencentes à Ordem, não os devolvendo 
mesmo quando privado ou suspenso do emprêgo. 

À Ordem que os reclamava deu o Padre a resposta se- 
guinte : 

"Muito Reverendo Padre Comissário, Senhores Ministro e mais 
da Meza = Em dizer o Vigário do Culto Divino que eu tinha em meu 
ix>der alguns livros pertencentes a essa Venerável Ordem, não faltou 
a verdade; mas faltou a ella em dizer que eu não queria entregalos, 
porque nunca mos pedio. Sim, poderá dizer com verdade (mas por 
alheya noticia) que pedindoseme estes livros, respondi que elles cos- 
tumavão estar em poder do Reverendo Comissário, a cujo exercicio 
pertencião e que suposto eu estava privado dessa ocupação, era por 
meyo illegitimo e espoliativo, cuja matéria queria disputar judicial- 
mente e que sem a ultima resolução judicial não entregava os livros: 
Isto foi o que respondi e novamente respondo a vossas mercês que en- 
quanto não houver a ultima decisão da causa que com vossas mercês 
trago em juizo, não entrego os ditos livros. He o que se me oferece 



86 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



dizer a vossas mercês que Deos guarde muitos anos. De vossas mer- 
cês servo e criado — Luís de Almeida Vila Nova." (Copiador — 23). 
Transcrita a 8 de fevereiro de 1762. 

Est« vam cheias as medidas. Esgotara-se a paciência da 
Ordem, já em Mesa de 31 de janeiro fora discutida e ficara 
assentada a expulsão. Em 18 de fevereiro, o Procurador Geral 
Bernardo de Araújo Franco justificou-a com os itens cons- 
tantes de uma petição que apresentou e leu em Mesa daquela 
data e que falava assim: 

"Requerimento que em Definitório Geral fêz o irmão Procurador 
Geral Fiscal Bernardo de Araújo Franco em o dia 18 de fevereiro de 
1762. 

Senhores do Definitório Geral: O motivo que tive para requerer 
este geral definitório como Procurador Geral Fiscal desta Venerável 
Ordem foi a obrigação que julguei tinha de expôr na presença de Vos- 
sas Caridades a licenciosa (sic) e Temerária ousadia com que o Rdo. 
Luís de Almeida Vila Nova, Comissário que foi, em ódio da sua jus- 
ta expulsão, como consta dos têrmos dela, sem atenção a conveniên- 
cia que na mesma Ordem obteve e inda ao hábito que professa com 
fraudulosa ingratidão se opôs a abulir e aniquilar, e privá-la de tôda 
sua jurisdição, pondo em contínua perturbação e escândalo geral de 
todos o seu místico corpo, como é público e a W. CC. muito bem cons- 
tante, e agora por êste manifestamente se expõe. 

Pública se fêz a injúria que o Rdo. Suplicado no tempo de Comis- 
sário por paixões particulares, fêz tomando a conta de todos os li- 
vros desta Secretaria acompanhando ao Irmão Secretário Antônio 
Francisco Campos com dois oficiais pelas ruas públicas por despacho 
que, em nome do Rdo. Visitador Frei Manuel do Livramento, alcan- 
çou, de sua Excelência Reverendíssima com narrativa falsíssima e com 
êle fazer embargo no cofre, o que com efeito se fêz na mão do Irmão 
síndico João Soares de Carvalho, fazendo-se por isto senhor de tudo, 
independente, com tôda a jurisdição da Ordem, o que muito admi- 
rou a todo o continente. 

Item — É bem sabida a discórdia que nas duas eleições a que as- 
sistiu, originou fazendo fôrça para que se não fizessem, com pretex- 
to de se não poder fazer por não ter licença do Ministro Provincial, 
supondo nulidade tudo a fim de a deixar devoluta para de moto pró- 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



87 



prio a lazer o mesmo Ministro Provincial, com prejuízo do patrimônio 
desta Venerável Ordem, que são as esmolas de Mesa, e inda privação 
de jurisdição e regalias. 

Item — Não é de menos momento o dizer publicamente que com 
meia fôlha de papel deitava abaixo a tôda esta Venerável Ordem, e 
que só queria se observasse o livro novo feito com menos lizura somen- 
te para destruição desta Venerável Ordem, como bem se tem experi- 
mentado, o qual também requeiro fique sem uso, nem observância, 
como até o presente tem estado, ficando no arquivo desta Venerável 
Ordem em perpétuo silêncio. 

Item — Para conseguir o que dito tinha se foi queixar a Sua Ex- 
celência Reverendíssima arguindo a esta Venerável Ordem culpas 
muito indecorosas e alheias da verdade, para que o mesmo Senhor a 
mandasse suspender de todos os seus atos de Comissário parábola de 
que publicamente usava dizendo que para sempre se haviam de fe- 
char as portas da Ordem, intimando a todos por esta frase o seu bom 
zêlo, e aumento que esta Venerável Ordem muito desejava, e não sur- 
tindo o seu desejado efeito. 

Item — Se queixou ao nosso Ministro Provincial com imposturas 
pouco decentes afiando-lhe (sic) procedimento desta Venerável Or- 
dem, e que a criminasse por respeito da Patente do Nosso Reveren- 
díssimo ser confirmada pelo Eminentíssimo Núncio, por ser compreen- 
dida em o Decreto; do que êle Rdo. Suplicado também se tinha quei- 
xado ao Exmo. e Rmo. Senhor Bispo, e agora denunciando o tinha fei- 
to por requerimento ao Desembargo do Paço da Relação daquela ci- 
dade e isto por ser a Patente e Estatutos alcançados com grande pri- 
vação da jurisdição religiosa que êle muito estimava e por isso nunca 
quisera assinar Comissário Visitador, e além disto mandou citar por 
uma vez o Irmão Secretário por despacho do Cónego Visitador, e ou- 
tra vez por despacho do Dr. Vigário da Vara, tudo a fim de se pôr 
em juízo os livros desta Venerável Ordem, coisa que nunca se viu, nem 
se pratica; animando-se temeràriamente a dar uma denúncia de cri- 
me considerável. 

Item — De fato é sabido o ter requerido ao Desembargo do Paço, 
denunciando uma Provisão, cujo traslado requeiro se leia neste mes- 
mo ato, pois nela contém a qual citou aos oficiais da Mesa imediata, 
aos quais mandou o Desembargo, por seu despacho, responder de cuja 



88 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



resposta dada não houve atenção a denúncia, só sim a apelação por 
Provisão que se passou. 

Item — Com a mesma Provisão tem mandado citar a Mesa atual 
para seguimento de sua apelação e vendo êle Rdo. Suplicado que esta 
não fazia caso da tal citação, e isto não correspondia ao seu intento, 
e excogitando nova idéia mandou citar por uma petição simples sem 
mais atenção ao Irmão Secretário, para que dentro em vinte e quatro 
horas, debaixo da pena de prisão, pusesse na mão do Escrivão os li- 
vros dos têrmos e Estatutos, Copiador e Eleições, não servindo êstes 
mais do que para o bom regime e regular observância desta Venerá- 
vel Ordem, além de contarem coisas de muita ponderação e segrêdo, 
no que inda se está litigando. 

À vista desta e outras muitas culpas e queixas, e prejuízos que 
por modéstia se omitem, se tem feito o Rdo. Suplicado perturbador e 
inimigo comum desta Venerável Ordem, deixando por isto ser mem- 
bro dêste corpo (se é que vàlidamente o foi) e inda empreendendo des- 
lustres; tanto se jacta de desacreditar a jurisdição da Venerável Mesa, 
que por ignorância invencível, nascida do seu bom ânimo se supõe Co- 
missário, como consta mais claramente de uma carta escrita a Vene- 
rável Mesa, a qual requeiro se leia; e para que esta Venerável Ordem 
se isente de tais ardis e semelhantes perturbações e discórdias para o 
tempo futuro requeiro ao Sr. Irmão Ministro que, correndo o vaso, 
sem que haja sôbre êste meu requerimento disputa alguma, só sim 
por êle se determine se há ou não fazer-se têrmo de que em tempo 
algum não haja o Reverendo Suplicado de ser agregado ou admitido 
a esta Venerável Ordem por Mesa alguma, debaixo da pena de nuli- 
dade e de ficar reconhecida por perturbadora da paz e responsável a 
todo o dano que se seguir àquela que o contrário do que aqui se de- 
terminar pelos votos em contrário obrar, fazendo-se de tudo isto têr- 
mo no livro dêles: e para que em todo tempo conste dêste meu reque- 
rimento, também requeiro se copie na mesma forma no Copiador// 
Bernardo de Araújo Franco, Procurador Geral//". {Copiador — 22). 

Dez dias depois, a expulsão verificou-se solenemente, como rela- 
ta o têrmo que segue, com o qual absolvo êste longo e desinteressan- 
te parágrafo: 

"Termo em que expulsão ao Pe. Luiz de Alm. du vila Nova e não 
será mais admitido, etc. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉ T 0 



89 



Aos vinte e oito dias do mes de Febr. 0 de mil Sete Sentos Sessenta 
p dois annos no Consistório desta Matriz de NoSa Sr. a da Conceyção 
desta V. a q. serve de Caza do despacho desta venerável Ordem tercey- 
ra da Penitencia de NoSo Pe. Sam Francisco se achavão prezentes o 
Rdo. Pe. ComiSario o Dor. Manoel Pinto Freyre, Irmão e Cap. m An- 
tonio Giz Ferr. a com toda a meza actual e os mais discretos e graves 
q. nesta venerável Ordem tem servido geralm.**' comvocados por ter- 
mo q. p. a isso se fez e em prezensa de todos aprezentou o Ir. procura- 
dor geral Bernardo de Ar.° Franquo hum Requerim. to escrito em huma 
folha de papel q. logo leo em voz alta e Inteligivel q. todos preSeberão 
e ouvido por todos o q. o dito Requerim.'" continha q. em substancia 
nera Requerer Instantemente como procurador geral e Fiscal desta 
Ordem q. o Rdo. Luis de Almeyda Vila Nova nunqua em tempo algum 
por Meza prezente ou que no tempo foturo haja de ser, possa ser ade- 
metido nem agregado e inda conhecido por Irmão por ter aniquila- 
do e fulminado crime grave e com suas Iniquias çitaSõis pertenden- 
do destruir a esta venerável ordem e a todo o seu mistico corpo por 
todos os modos como melhor consta do Requerim. ,M prezente e copiado 
no libro que serve de Copiador a fl. 22 e porque concluhia o Requeri- 
m. 1 " que o Sr. Ir. Min. 0 sem disputa alguma mandasse correr o vazo: 
o que assim se detreminou; sendo elle mesmo o primeyro botante 
como Min.° e votando todos os que prezentes se achavão logo por 
mim Secretr. 0 foy despejado o vazo sobre huma folha de papel na 
prezença de todos; e distinguindo huns dos outros se achou Julgua- 
do com munta pluralidade de votoz que na forma requerida em per- 
petuo se observasse como perturbador e comum inimigo desta Ve- 
nerável Ordem e por isso indigno de ser membro delia com comina- 
ção de que a Meza que o contrario obrar fique reconheSida por per- 
turbadora da pas responsá- 
vel a todo o prejuizo: e outroSim que o livro com capa de veludo 
instrom. 1 " de todas estas discórdias ficasse como ao prezente sem uso 
algum p. a sempre e so sim revalidavão (se necessário era) a acey- 
tação e observação dos estatutos: e por este p. a todo sempre firmes 
e valiosos e como assim o detriminavão mandarão fazer este termo 
em que todos aSinarão comigo Secretr. 0 — E outroSim requereo mais 
o dito procurador que hera necessário cornprarse as Cazas do Sarg. ;u 
Mor João de Serqr. a p. a nela se fabriquar a Capela coando se fi- 
zer e correndo o vazo com fabas pretas e branquas sahio a flux se 



90 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



comprasem as ditas cazas p. a nelas se fabriquar a dita Capela coan- 
do houver ocazião. = E outroSim ordenarão que se satisfizesse ao 
Ir. Manoel Vr. a tudo aquilo que tinha gasto com os negossios da or- 
dem e despendido nos requerim. tos que a beneficio dela tem obrado e 
que pela sua conta se lhe satisfizesse; e se observasse as Letras pa- 
tentes novamente vindas do nosso Rmo. Geral e lidas e publicadas 
neste definitorio geral e de como tudo assim ordenarão e detrimini- 
rão assinarão comigo Secretr. 0 no dito dia, mes e anno era ut supra 
= Continuando tudo no mesmo acto em prezença de todos com pre- 
posições e votos distintos tão somente firme concluia sô aSinatura de 
todos por ivitar tanta distinção e p. a q. este e nenhum tempo possa 
fazer duvida alguma me mandarão fazer esta declaração que eu Joze 
da Motta Ar. 0 Secretr. 0 actual escrevi e aSiney — Joze da Motta Arau- 
jo — Secretr. 0 // o Pe. Manoel Pinto Fr. e , Com. Viz°7/ Antonio Giz 
Ferr. a , Ministro." (e mais trinta e nove assinaturas) Livro de Termos 
— 53 v. 

E não mais se falou no Padre Vila Nova. (11). 

3.° — LUTA COM OS PARDOS DO CORDÃO 

Depois de sua conversão, São Francisco, em memória da 
Paixão de Jesus Cristo, cingiu-se com um áspero cordão e não 
mais o abandonou até a morte. 

Posteriormente, êsse cordão, branco e com três nós, veio 
a se transformar numa das peças do hábito franciscano. 

São Domingos, refere Wadding (12), recebeu êsse cordão 
das mãos de São Francisco e, por devoção ao Santo, nunca 
mais deixou de trazê-lo debaixo do próprio hábito. Inúmeros 
fiéis seguiram o exemplo de São Domingos, desenvolvendo-se 
assim o culto desse cordão. 

Pela bula Ex supernae dispositionis (19-XI-1585) erigiu 

(11) No livro de Receita e Despesa (ano 1759) fl. 33 v. está registrado: "P. 
q despendeo com o Rdo. Dr. Luís de Almeida vila Nova de Esmolla de dois Sermõia 
q. pregou na Semana St. a do prezente ano, por Esmolla que mandou dar a Meza 
p. a a dita função — 43S200". Era, pois, pregador o malaventurado sacerdote. 

(12) Frei Lucas Wadding, franciscano irlandês (1588-1657). Educou-se e pro- 
fessou em Portugal. Aperfeiçoou sua cultura em Salamanca. Teólogo, historiador 
e poeta. Vasta a sua produção literária e científica. Faleceu em Roma, onde esta- 
va a serviço de Castela. 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO '»i 

o Papa Xisto V a Arquiconfraria do Cordão com sede na basí- 
lica do Convento de Assis, enriquecendo-a, no ato da fundação 
de muitas indulgências. Conferiu, pelo mesmo documento pon- 
tifício, ao Geral dos Conventuais a faculdade de erigir Con- 
frarias do Cordão nas igrejas de sua Ordem e agregá-las à Ar- 
quiconfraria de Assis. Xisto V ainda, pela bula Divinae caritatis 
(29-VIII-1587), concedeu-lhes novas indulgências e autorizou 
o Geral dos Frades Menores para estabelecê-las em suas igre- 
jas, nos lugares onde não houvesse Conventuais. Paulo V nas 
bulas Cum certas (2-III-1607) e Nuper Archiconíraternitati 
(11-111-1607) aboliu todos os favores espirituais até então con- 
cedidos a essas confrarias para, nos mesmos atos, conferir-lhes 
novas e mais amplas indulgências. Clemente X confirmou 
estas bulas pelo breve Dudum felicis de 13 de julho de 1673. 

Finalmente, Bento XIII, na constituição Sacrosancti Apos- 
tolatus (30-IX-1724), outorgou ao Ministro Geral dos Conven- 
tuais a faculdade de erigi-las nas igrejas não pertencentes à 
Ordem, mas nos lugares em que não residissem franciscanos. 

Posteriormente, já no século XIX, novos favores e indul- 
gências vieram opulentar o patrimônio de graças e mercês 
espirituais dessas confrarias. 

Cêrca do ano 1760, a Arquiconfraria do Cordão foi insti- 
tuída no bispado de Mariana, nas paróquias de São João del- 
Rei, Sabará, Mariana e Vila Rica. 

Nessa instituição, entre nós, uma singularidade houve que 
se deve frisar, e que só encontra explicação no meio social da 
época. Enquanto por todo o orbe católico a Arquiconfraria era 
destinada a agremiar os fiéis de todas as raças e condições que 
a ela quisessem pertencer; no bispado de Mariana em seus qua- 
dros só se inscrevia a gente parda. Talvez haja presidido êsse 
espírito no estabelecimento das confrarias, em Minas, a neces- 
sidade de satisfazer a devoção de uma numerosa classe de fiéis, 
os quais encontravam sistematicamente trancadas à sua pie- 
dade as portas das Ordens Terceiras. Pode ser também que 
andasse aí o capricho do fundador, ou o seu desejo de ganhar 
a estima de uma vasta porção dos habitantes da capitania. 

Êsse fundador fôra o Dr. Matias Antônio Salgado, vigário 



92 CÓNEGO RAIMUNDO RINDADE 

de São João del-Rei, cujo crédito andava sèriamente compro- 
metido, ao menos diante do bispo diocesano. (13) 

Também os Provinciais não o tinham em boa conta. Frei 
Inácio da Graça, coxeando embora na linguagem, chamou-lhe, 
um dia, "autor apócrifo" dessas instituições em Minas. 

A Arquiconfraria, em Vila Rica, foi fundada na igreja de 
São José, da freguesia do Pilar. Como se infere do que acima 
ficou dito, eram pardos todos os seus membros. 

A 2 de agosto de 1761, data em que no calendário francis- 
cano se festeja Nossa Senhora dos Anjos e se lucram as indul- 
gências da Porciúncula, realizaram os pardos do Cordão a sua 
primeira festa. Uma solene procissão percorreu as ruas da 



(13) Dom Frei Manuel da Cruz refere-se a êsse sacerdote em algumas de suas 
cartas. Numa delas, de 1752, endereçada ao Dr. Fernando José de Castro, deputado 
da Mesa da Consciência e Ordens, dizia o seguinte: "Cheguei do Maranhão a êste 
novo bispado de Mariana, e tanto que me deu lugar a gravíssima queixa com quá 
cheguei, pus a concurso as igrejas coladas que estavam vagas antes da minha re- 
sidência, por ordem de Sua Majestade, e também a tive para informar sobre a di- 
visão de alguma freguesia que fôsse necessária, e depois de ter mandado pôr editais, 
e ter informações de que era preciso informar sobre a divisão da freguesia de São 
João del-Rei, chegou o Padre Matias Antônio Salgado, em que Vm. me fala, e me 
apresentou uma carta de apresentação de Sua Majestade para a tal igreja e como 
as Resoluções de Sua Majestade servem umas de exemplo para outras, lembrado 
do que se tinha passado no Bispado do Maranhão, duvidei colá-lo, ocorrendo-me se- 
ria obreptícia e subreptícia a tal Apresentação, porque não podia persuadir-me que 
fôsse consultado o dito Padre pelo Tribunal da Mesa da Consciência, tendo-se por 
êle expedido ordem para se pôr a concurso neste Bispado; mas, isto não obstante, 
disse ao novo Provido que o colaria na igreja, fazendo êle têrmo de estar pela di- 
visão que Sua Majestade fôsse servido fazer, pois tinha ordem para informar so- 
bre ela; não aceitou: disse-lhe mais que, por evitar-lhe prejuizo, o proveria em um 
bom curato, no entanto em que eu e êle déssemos conta a Sua Majestade; não quis 
e com tal soberba que não quis dizer Missa, oferecendo-lhe eu para isso licença; 
enfim dei conta, recorrendo à Majestade para que resolvesse o que fôsse servido 
a respeito da divisão, entendendo que ainda ao mesmo Soberano são lícitos e per- 
mitidos os recursos e o dito Padre foi para Lisboa, onde em lugar de dizer o que 
tínhamos passado e fazer seus requerimentos com decência e modéstia desabafou 
a sua paixão em proferir e publicar calúnias e falsidades contra a minha reputação, 
e conseguiu o ser colado na dita igreja sem divisão, sendo esta precisa pela sua 
grande extensão e numeroso povo, ficando privados dela opositores naturais e resi- 
dentes neste Bispado, e nêle têm feito relevantes serviços, não tendo feito nêle al- 
guns o Padre Matias Antônio Salgado e os que fêz em Portugal foi na Companhia 
donde foi expulso". (Copiador de Dom Frei Manuel da Cruz — 151). 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 9o 

vila. Ostentaram-se nesta solenidade armas e insígnias fran- 
ciscanas, que os Terceiros de Antônio Dias entendiam serem 
privativas de sua Ordem. 

Iludiam-se êsses Terceiros. A Arquiconfraria do Cordão 
era uma instituição franciscana, perfeitamente canónica, que 
podia estabelecer-se em qualquer parte do mundo católico, 
fundada que fôra pelo Chefe da Igreja. 

Devia ter sido legalmente instituida na diocese, aliás tê- 
la-ia fulminado com as penas eclesiásticas o bispo diocesano, 
então um dos mais zelosos e escrupulosos bispos que têm 
regido a igreja marianense. Tinha, portanto, incontestável 
direito de usar as armas e insígnias da Ordem Franciscana. 

Intumescidos, porém, por êsses privilégios e favores com 
que acabava de agraciá-los o Geral da Ordem, não podiam 
sofrer os nossos Terceiros que uns "audaciosos mulatos" con- 
corressem com êles em regalias da Ordem. 

Assim enfunados, propõem no juízo local uma ação contra 
os arquiconfrades, os pardos do cordão, como por irrisão lhes 
chamavam. 

Eis na íntegra a petição inicial dos Terceiros: 

"Diz o Ministro, Procurador Geral e mais Irmãos da Venerável 
Ordem Terceyra de São Francisco desta Villa, que estando de posse 
há mais de dez annos de fazerem as funçõens da mesma ordem e a 
sua porcissão de penitencia em que levão a Cruz da mesma com os 
braços em cruz do Santo Patriarca e JEZUS Christo, armas e insígnia 
própria e privativa da mesma ordem por dispoziçõens Apostólicas, e 
uso geralmente intruduzido nas mais ordens e sendo assim succedeu 
que no dia de hontem dous de agosto de mil setecentos sessenta e hum 
introduziram os Pardos desta Villa intitulados da carconfraria do Cor- 
dão húa porcição solemne que com ella serquirão a villa, levando por 
principal insígnia na ditta porcição híía similhante cruz chamada da 
Penitencia de que uzam os Suplicantes e a sua Ordem, e para mayor es- 
cândalo e força notória formarão também húa figura ou corpo de no- 
viciado, isto he, de mulatos sem Balandraos e sengido o cordão sobre 
as cazacas, o que só he permittido aos novissos das ordens terceiras 
que estão no anno de sua aprovação e sem professarem e de nenhua 
forma aquelles que não tem entrada por recepsão de Abito no novi- 
ciado ou porfição, e só sim húa só Bensoa no cordão quando se lhe 



94 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



lança e tudo isto fazem afim de perturbarem as regalias da Ordem e 
querer lhe uzurpar por este modo a posse pacifica em que estão à 
tantos annos no que lhe cometem força e expolio em uzarem de in- 
signias e armas e o demais que só compete aos Suplicantes e não aos 
Suplicados e nestes termos querem fazer citar a Theodozio Remordes 
como procurador que diz he da ditta confraria e na falta deste ao mi- 
nistro ou vice Ministro delia e hum na pessoa dos outros, bastando 
qualquer dos nomeados que se citem, sendo estes últimos João Baptis- 
ta de Abreu e Francisco Alexandrino que ocupão os mayores cargos 
e protestão os Suplicantes somente tractar neste lugar de possesso- 
rio afim de serem desforçados e conservados na sua posse// Pede a 
vossa mercê lhe faça mercê mandar se cite qualquer dos Suplicados 
e na forma ditta para verem jurar testemunha sobre a ditta força que 
tem cometido e serem condenados a que mais não uzem das insignias 
privativamente da ordem dos Suplicantes nem de suas armas e em 
todos os prejuizos e damnos// E Receberá mercê// 

Despacho = Citados os Suplicados, justifiquem// Souto//." 

Os Suplicados foram intimados a 4 de agosto de 1761. 

= Depoimento de uma das testemunhas da Ordem Terceira= 

"Jeronymo de Souza Lobo morador nesta Villa que vive de seu 
officio de selleyro de idade que disse ser de trinta e dous annos pouco 
mais ou menos, testemunha a quem o dito Inquiridor (14) deferio o 
juramento dos Sanctos Evangelhos em hum livro delles em que pos 
sua mão direyta prometteu dizer verdade, e dos costumes disse nada// 
E perguntado elle testemunha pelo conteúdo na petição dos Supli- 
cantes disse que sabe pelo ver e ser constante e notório nesta villa que 
na tarde do dia dous do prezente mes de Agosto fizerão os Pardos des- 
ta villa intitulados Archiconfrades do Cordão húa solemne Porcissão 
pelas ruas publicas da mesma vila levando por primeyra insignia delia 
hua cruz similhante a de que uzão os Suplicantes nas suas Porcissoens 
publicaz com os braços em cruz do Santo Patriarcha e JESUS Christo 
e ao pé desta se seguia logo hum corpo de noviciado e aos mesmos Par- 
dos sem habito algum e somente suas cazacas e hum cordão cingido 
por cima delias o que só se permitte aos noviços das Ordens Tercey- 
ras quando sahem fora em Porcissão antes de professarem e mais não 



(14) O inquiridor do juízo da Ouvidoria = João Pinto de Azeredo. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 95- 

disse da ditta petição que toda lhe foi lida e declarada pelo ditto In- 
quisidor com quem asigna perante mim José Caetano Pereyra, Es- 
crivam do judicial que a escrevy = Azevedo = Jeronymo de Souza 
Lobo//." 

Não há no arquivo de São Francisco um documento, se- 
quer, relativo à defesa dos pardos. Sua causa, no entanto, devia 
ter sido bem patrocinada, visto como decidiu a seu favor o 
Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca com a sentença do 
teor que segue: 

"Vistos estes autos & o que tudo visto, e dispoziçoens de direyto 
segundo as quais para se obter no interdicto intentado hé essencial- 
mente necessário que se prove não só a posse do Autor mas que fora 
spoliado desta e supposto se prove aquelle requezito não se faz certo 
que os Reos lhes irrogassem spolio ou perturbação que se não pode con- 
ciderar por estes levarem a sua Procição hua cruz em tudo similhan- 
te á dos Autores, porque similhante acto não hé abdicativo ou tur- 
bativo da posse dos Autores por conservarem estes ainda a faculda- 
de do uzo de insignia tão sacrosanta, termos em que como pelos Reos 
uzarem desta não ficão os Autores privados da sua posse se não pode 
conciderar por essa causa spolio e muito mais quando os Autores 
não podem ter mayor juz um semelhante regalia do que os Reos, 
porque se a Ordem daquelles logra similhante faculdade por ser 
Franciscana, também a Archiconfraria dos Reos como instituhida 
debayxo dos mesmos privilégios seráficos, lhe não deve ser denegado 
similhante beneficio, porque a diversa qualidade dos Autores e Reos 
não pode ser suficiente para impedir o uzo da insignia tão sacrosan- 
ta e suposto por alguns Doutores se faculte manutenção em simi- 
Ihantes matérias só procedem a respeito da própria Igreja, porque o 
direito da Parochialidade obriga a que ninquem possa uzar de simi- 
lhante insignia e só a própria Igreja, porem fora deste cazo, assim 
como os Autores sem direyto uzam de similhante insignia, também 
não ha razam para que se denegue aos Reos nem os actos destes re- 
vestidos de devoção e fervor se podem conciderar spoliativos da cha- 
mada posse em que os Autores fundamentão a sua acção: Portanto 
e o mais que dos autos consta julgo carecerem desta e paguem os Au- 
tores as custas dos autos. Villa Rica dous de janeyro de mil setecentos 
e sessenta e dous. / 'Joseph Pio Ferreyra Souto." 



96 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Como era natural, rejubilaram os do Cordão, e folgaram com 
a derrota do poderoso adversário. Folgaram talvez de mais. 

Em três linhas de uma carta que a Ordem escreveu ao 
Provincial estão resumidamente descritos os excessos que os 
pardos praticaram. Embora não se saiba e nem é já fácil saber 
para que lado iriam, na pendência, as simpatias de Vila Rica, 
é lícito, contudo, conjeturar que ela teria rido, senão garga- 
lhado, à custa da altiva corporação. A coisa com efeito tem 
graça. 

"Vamos por esta (é da aludida carta) aos pés de V. Rma. a expor- 
3he que nesta vila levantaram os homens pardos uma Arquiconfra- 
ria do Cordão do nosso Santo Patriarca, na capela de São José, con- 
sistindo a sua criação em trazerem hábitos fechados, capas e capuz 
e o cordão mais grosso do que os dos Terceiros e ainda dos Religio- 
sos. Na primeira procissão, que fizeram, saíram com a cruz e armas 
do nosso Santo Patriarca, do que procedeu esta Venerável Ordem de- 
mandá-los por uma fôrça, no que tiveram os ditos pardos provimen- 
to e de alegria foram uma noite à casa do nosso irmão Procurador 
Geral, que então era, com violas, pandeiros e adufes, metê-lo a bulha 
e jazer quantas zombarias quiseram " 

Picaresco, não há dúvida! E a vila teria comentado largos 
dias a ferina irreverência. 

Da sentença apelou a Ordem, a 8 de janeiro, poucos dias 
depois, para a Relação do Rio de Janeiro, onde teve "melho- 
ramento". 

Agravaram os da Arquiconfraria para a Casa da Supli- 
cação. Corria já o ano de 1765. 

Em 1777, como veremos, estava a causa paralisada em 
Lisboa, no referido tribunal. 

E' interessante, a meu ver, a correspondência que, a pro- 
pósito dêsse pleito, se trocou entre a Ordem e a Província. 

Receioso de enfadar o leitor, darei de parte dessa corres- 
pondência apenas alguns extratos, os que tocam diretamente ao 
assunto. 

De uma carta do Provincial Frei Manuel da Encarnação, 
datada a 27 de maio de 1762: 

"Recebi o papel com os provarás do Libelo que VV. CC. justa- 
mente puseram contra as loucuras e temerária ousadia dêsses par- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 37 

dos. Estão bons e doutamente ponderados; ficam em meu poder para 
fazer o que puder na matéria, quando venham por apelação ou agra- 
vo para esta cidade; cá está o mesmo pleito da Ordem da cidade de 
Mariana; falei aos três desembargadores a quem compete; são ami- 
gos e ficaram de fazer justiça, porque era um desaforo, como um afir- 
mou tinha visto no Rio das Mortes; porém que lhes parecia que não 
estava bem fundado o agravo, por falar só na procissão e não em os 
mais abusos, como VV. CG, suponho será sobre tudo; vai a procura- 
ção que W. CC. me pedem e de boa vontade lhes mando para que 
persigam com todo fundamento a tôdas as loucuras a que deu prin- 
cípio a imprudência do Rdo. Vigário do Rio das Mortes." 

De outra carta do mesmo Provincial, de 6 de setembro, ainda 
de 1762: 

"O pleito dos pardos da cidade de Mariana caiu nas mãos do de- 
sembargador o Capelo cadoz (15), e explicável e a minha doença que 
dois meses me dilatou na cama foi a causa de o não prosseguir e de 
mais, porém, ontem em casa do Doutor Chanceler e outros mais de- 
sembargadores que se achavam, lhe falei, de sorte que pedindo-lhe 
perdão, prometeu que logo já o despachava, e entendo que bem, por- 
que eu lhe repeti o que êle mesmo tinha dito, a saber, que essa his- 
tória dos pardos era um desaforo grande; quando vier esta sua cau- 
sa, escrevam W. CC. ao seu procurador que veja se pode cair na mão 
do desembargador Silva, ou do Intendente Geral, aos quais, como 
especiais amigos deixo êsse negócio recomendado, ou também ao de- 
sembargador ouvidor de crime, ou do cível; já lá mandei segunda 
procuração e com a nova cláusula que se pediu". 

A apelação dos Terceiros seguiu para a Relação do Rio 
de Janeiro em 1763, como se infere do período seguinte, extraí- 
do de uma carta do já mencionado Fr. Manuel da Encarnação, 
de 8 de julho de 1763 (Copiador — 34 v.) : 

"Logo que recebi fui à casa do escrivão Noronha, que é meu 
amigo, a pedir-lhe que se não distribuísse esta causa de sorte que não 
caísse esta causa no cadoz do Desembargador o Capelo, como caiu a 
da Cidade de Mariana, donde nunca mais saíra por mais empenhos 



(15) Teria dito melhor: "caiu no cadoz do Desembargador Capelo". 



98 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



que lhe tenho metido; basta que o Sr. Chanceler, muito meu amigo, 
lhe falou com empenho; sempre diz que sim, desculpando-se com o 
muito que tem que fazer sôbre os Padres da Companhia por ordem 
de El-Rei". 

Fr. Inácio da Graça, sucessor de Fr. Manuel da Encarnação, es- 
crevia à Mesa, em 21 de janeiro de 1765, o seguinte, que destaco de 
sua longa carta: 

"Na mesma carta me recomenda o Rmo. (Ministro Geral da Or- 
dem) que extirpe os abusos das Confrarias do Cordão que, sem legi- 
tima autoridade, erigiu nessas Minas o Dr. Matias Antônio Salgado; 
e para êste efeito remeto a W. CC. êsse manifesto feito em resposta 
de uma carta escrita pelo Dr. Teodoro Ferreira Jácome ao Provincial 
meu antecessor, o qual deixando de responder em tempo oportuno 
permitiu com o seu silêncio que se radicassem tanto os abusos, para 
crescerem mais as contendas. Nêle se mostram as nulidades das di- 
tas confrarias e invalidez das suas ereções; que os confrades não lu- 
cram indugência alguma por serem criados por autor apócrifo. 

Rogo a W. CC. que façam público o dito manifesto para que a 
todos se faça notória a sua verdade, e quando nem assim êste remé- 
dio aproveite, nem queiram desistir os confrades de trazerem hábi- 
tos talares, manto, capelo e corda grossa, nem queiram deixar as de- 
nominações de Ministro, Sindico e as mais pertencentes à Ordem 
Terceira, de que usam nas suas Mesas, W. CC. me avisem para usar 
de outro remédio." 

A carta que segue é da Mesa e vai na integra: 

"Rmo. Sr. Ministro Provincial Fr. Inácio de Santa Rita Quinta- 
nilha = A graça do Divino Espírito Consolador assista a VP.Rma. 
com os seus auxílios para nos mandar a seráfica bênção e determi- 
nar as ocasiões em que lhe obedeçamos. Vamos por esta aos pés de 
V. Rma. a expor-lhe que nesta Vila levantaram os homens pardos 
uma Arquiconfraria do Cordão do nosso Santo Patriarca, na cape- 
la de São José, consistindo a sua criação em trazerem hábitos fecha- 
dos, capas e capuz e o cordão mais grosso do que os dos Terceiros e 
ainda dos Religiosos. Na primeira procissão, que fizeram, saíram com 
? cruz e armas do N. Santo Patriarca, do que procedeu esta Vene- 
rável Ordem demandá-los por uma fôrça, no que tiveram os ditos 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉTO 99 

pardos provimento, e de alegria foram uma noite à casa do nosso 
irmão Procurador Geral, que então era, com violas, pandeiros e adu- 
fes, metê-lo a bulha e fazer quantas zombarias quiseram: recorreu 
psta Ordem à Relação dessa cidade, apelando a sentença e teve me- 
lhoramento, donde procedeu agravarem os ditos confrades ordina- 
riamente para a Suplicação, e deixando passar vários a* tos, agora 
mandaram vir precatória e citaram ao Procurador Geral para ver 
expedir o Agravo na primeira embarcação; e como o Rmo. Provincial, 
antecessor de V. Rma. ajuntou procuração por parte da Província, 
agora nos parece se carece também de V. Rma. para ajuntar na 
Suplicação com a mesma que vai desta Venerável Ordem, remetida 
ao Alferes José da Silva Ribeiro, ausente, João Batista de Carvalho e 
Domingos Gonçalves Fontes. Nos autos anda a pintura de um dos di- 
tos confrades da forma que se vestem, donde se pode ver o descôco 
da sua devoção; faziam Ministros e tôda a Mesa, como Ordem Ter- 
ceira, tratando-se de Caridades, andando as pardas meretrizes com 
tôda a basófia e cordão grosso, sem diferença das brancas bem pro- 
cedidas. Com a sentença da Relação não fizeram mais atos nesta 
vila. 

Na cidade Mariana há outra tal Arquiconfraria das mesmas ves- 
timentas, enterrando-se com elas, e tendo os mesmos tratamentos 
que acima relatamos; acrescendo mais que no dia quinta-feira de 
Endoenças passado fizeram seu sepulcro e o chamado Ministro trou- 
xe a chave do Tabernáculo ao pescoço, como se fôsse eclesiástico. 

O mesmo sucede na Vila de Sabará, que falecendo uma parda, 
benfeitora dos Religiosos da Terra Santa, por esta obrigação a fo- 
ram acompanhar, e, achando-a embrulhada no tal hábito, se reti- 
raram escandalizados de ver o hábito seráfico tão mal estimado. 

Esta informação já chegou ao Rmo. Pe. Ministro Geral Fr. Pe- 
dro João de Molina que expediu a essa Sagrada Religião Letras Pa- 
tentes em 9 de março de 1764, que se hão de achar registradas na 
Secretaria, cuja cópia, ainda que mal trasladada, vai inclusa, em que 
pede a V. Rma. procure ocasião oportuna de requerer ao Ordinário 
desta Capitania não consinta hábito, nem cordão grosso aos ditos 
confrades, dando-lhe nulas as indulgências, não andando, como de- 
vem, e nas mais partes andam os ditos confrades, que entendemos, 
é um balandrau, como, verbi gratia, a Irmandade do Sr. dos Passos, 
Misericórdia e Santo Antônio, isto nas funções, e cordão de noviços 



100 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



terceiros, e quando vão aos enterros não levarem a cruz, como reli- 
gião, e só sim como irmandades. E na forma, que os desta Vila pre- 
tendem andar e andam os da cidade Mariana e Sabará, é um des- 
crédito do hábito seráfico, do que pedimos a V. Rma. se lembre, dan- 
do procuração da Província para ir para Portugal e certidão da Pa- 
tente do Rmo. Geral para ajuntar à nossa defesa e acreditarmos o 
Estatuto do Nosso Santíssimo Patriarca, pois êstes confrades não dão 
obediência, nem estão alistados debaixo de Religião, como devem. 

Esperamos que V. Rma. atenda ao exposto, que é a verdade e 
ponha tôda a diligência em sanar o absoluto dos tais confrades por 
crédito da Religião. 

Deus guarde a V. Rma. e proteja com felicidades. 

Vila Rica, 30 de agosto de 1772. De V. Rma. Irmãos e súditos 
obedientes em o Senhor = Inácio José Correia, Vice-Corrrissário//Fe- 
liciano José da Câmara, Ministro/ /Frutuoso Vaz de Serqueira, Vice- 
Mmistxo/ / Antônio José Martins Correia, Secretário//7oõo Pinto de 
Sousa, Procurador Geral/ /Antônio Martins Viana, Síndico/ /Francis- 
co Manuel da Silva, Definidor //Francisco Xavier de Andrade Ferrei- 
ra, Definidor//Maíias Gonçalves Lima, Definidor// Antônio Ferrei- 
ra de Afonseca, Definidor //Antônio Gonçalves Defini- 

dor/ /Joaquim de Lima e Melo, Definidor //Francisco da Costa Gui- 
marães, Vigário do culto divino//." (Copiador — 79 v.). 

Como vimos, há pouco, entre os documentos que instruíam 
a defesa da Ordem, remetidos para Portugal, figurava uma 
pintura de como se paramentavam os pardos nas funções reli- 
giosas de sua Arquiconfraria. 

A despesa com essa pintura está consignada no livro com- 
petente a fls. 2, nos seguintes têrmos: "Retrato da forma pela 
qual andão os homens pardos — 2/8=2$400 rs.". 

Existirão, porventura, nos arquivos da extinta Suplicação, 
os autos dêsse pleito e neles a curiosa pintura? Quem seria seu 
autor? 

Grifei intencionalmente na carta da Mesa, acima trans- 
crita, um lance do qual se pode inferir que a vitória no pleito, 
embora não levado a termo, coube afinal à Ordem Terceira. 
A Arquiconfraria desapareceu, nem dela, ao que me consta, 
restam vestígios em Ouro Prêto. 

INSTITUTO JUAN XXIII 
SALESIANOS 



MERCEDES 1769 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 101 

Nâo se passou o mesmo com a sua congénere de Mariana. 
Ali os pardos triunfaram. Lá ergueram a sua igreja — a Con- 
fraria — dedicada a Nossa Senhora dos Anjos; lá subsiste 
ainda em plena atividade a Arquiconfraria dos pardos. 

A última referência à Arquiconfraria do Cordão, em Vila 
Rica, está contida neste extrato de uma carta endereçada pela 
Mesa ao seu procurador em Lisboa, o Alferes José da Silva 
Ribeiro (4 de fevereiro de 1777): 

"Recebeo a prezente Meza a carta de Vm.™ de 23 de Junho pró- 
ximo passado, e nesta nos faz Vm. ce mercê e honra de dar resposta 
a de 13 de Agosto de 1765 a qual lhe chegou a sua mão bastantem. t<? 
retardada, servindo esta de capa a procuração que esta Meza dirigio 
a Vm.™ para em virtude delia mandar tratar de huma apelação que 
os Homens Pardos desta Villa fizeram remetter a essa Cidade; a este 
respeito que nos fez Vm. mercê de dizer que lá tinha aparecido e que 
estava sem dar passo para diante; neste cazo advertimos a Vm. que 
se estes a não puxarem para diante, a não mandara Vm. aplicar, e 
só no caso delles andarem com ella terá a bondade de mandar tra- 
tar delia com todo zelo e cuidado." (Copiador — 96). 

E daí por diante silêncio absoluto no arquivo sobre os 
Pardos do Cordão. Ia já o pleito em 15 anos. 

40 _ QUESTÃO DE PRECEDÊNCIA COM O CARMO 

Prolongou-se por 30 anos o conflito em que se empenharam, 
em Vila Rica, as Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco, 
em razão do direito que cada uma julgava competir-lhe de ocupar 
nas procissões e enterros o lugar mais honorífico. 

Era o velho direito de precedência, o qual, quando dispu- 
tado entre pessoas morais, quase sempre se decide pela priori- 
dade de instituição de um dos contendores. 

Exatamente essa prioridade que são Francisco alegava a 
seu favor, o Carmo lha contestava. 

Divide-se em três fases o memorável pleito: I a ) a questão 
submetida aos tribunais eclesiásticos; 2 a ) a decisão de incom- 
petência (usurpação regalista) do foro da Igreja para conhecer 
da matéria: e 3 a ) o julgamento da causa entregue à magistra- 
tura civil. 



102 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



I a fase 

A mais remota notícia do acidentado litígio têmo-la no 
seguinte documento que se lê a fl. 140 v. do livro de têrmos: 

"Ten 10 por donde se detreminou q p. r evitar duvidas a esta Or- 
dem com a de N. Sr. a do Monte do Carmo, na Função de acompa- 
nhar a procissão do Corpo de Deos, o Procurador geral faça o reque- 
rimento perciso athe se determinar o lugar q a hua e outra com- 
pete. 

"Aos nove dias do mes de agosto de mil sete centos e sessenta e 
sete annos nesta Matriz de N. Sra. da Conceição desta V. a em o Com- 
cistorio desta venerável Ordem terceira de São Fran. co estando prez. t? * 
em Meza o Rdo. Com.° Irmão Ministro e mais definitorio. foi dito e 
requerido pello Procurador geral desta ven. el Ordem com a de N. Sra. 
do Monte do Carmo na função de acompanhar a porcissão do Corpo 
de Deos, pedia vénia antes a esta meza p. a reprezentar extrajudicial 
ou judicialm. 10 ao Rdo. Dr. vigário da vara em nome da mesma Or- 
dem o direito q. assiste a mesma p. a lhe dar o lugar q. lhe compete 
e lhe pertense p. r Sentença definitiva, o que ouvido dito requerimen- 
to por toda a meza e definitorio, todos oniformem. te comvierão em que 
hera justo o requerimento do Irmão Procurador gr. al sobre que cor- 
reo o vazo e sahio a fluz em favas pretas, e logo se lhe determinou fi- 
zesse a d. a reprezentação ao Rdo. Dr. vigr. 0 da vara e seguisse todos 
os mais termos the se julgar afinal os lugares q. a cada hua das duas 
venera ves Ordens pertensão e p. r q assim o disserão se detreminou 
em o d.° definitorio se fizesse este termo em q. assinou o Rdo. Comi- 
çario Ministro e mais definitorio e eu Joze Vr. a Rijo Secretario que 
o escrevi e assiney." 

Seguem-se as assinaturas) 

Em virtude do recurso ao Vigário da Vara (que era inte- 
rinamente o Dr. João de Oliveira Magalhães, Vigário de An- 
tônio Dias), expediu este uma portaria, mandando aos litigan- 
tes documentasssem em três meses os seus direitos, admoes- 
tando-os ao mesmo tempo a que evitassem demandas e conten- 
das judiciais que não toavam com "pessoas tão pacíficas e de 
pia conduta". 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



103 



Estava assim redigida a citada portaria: 

"Como quer que a caridade e paz sejam o melhor distintivo dos 
íilhos da Igreja e nestas virtudes devem luzir os Irmãos das Vene- 
ráveis Terceiras Ordens como já experimentei na obediência e quie- 
tação com que assistiram e fizeram mais pomposa e solene a pro- 
cissão do Corpo de Deus observando a providência interina de irem 
ambas juntas e sem prejuízo da preferência que a cada uma compe- 
te a qual depois mostrariam com mais tempo e acêrto sendo para o 
futuro preciso que cada uma vá em semelhantes atos distintamen- 
te no lugar que lhe compete e ainda mais em utilidade das mesmas 
ordens pois costumam a acompanhar umas com outras terão mais 
número de irmãos que se queiram aceitar em ambas para gozarem 
das multiplicadas indulgências e sufrágios e serem sepultados com 
acompanhamento de ambas: Portanto mando as Mesas de uma e 
outra Ordem para que no têrmo de quinze dias instruam os seus di- 
reitos e façam decidir no têrmo de três meses a sua competência com 
cominação de Eu Resolver a executar no dito ato o que justo me pa- 
recer e como o espírito de demandas e contendas judiciais deve estar 
longe de pessoas tão pacíficas e de pia conduta lhes admoesto em o 
Senhor queiram pro bono pacis comprometer-se uns e outros por 
têrmo e de pessoas de ciência e autoridade nes- 
tas Minas, desapaixonadas para deliberarem a ponto sem ape- 
lação nem agravo. Vila Rica, 15 de janeiro de 1768. João de Oliveira 
Magalhães." Autos, na pasta 76 - A, fl. 8. 

Em obediência à Portaria supra, a Mesa de São Francisco, 
em 19 de junho de 1768, elegeu de sua parte para juizes-árbi- 
tros o Dr. Inácio Correia de Sá, o Vigário Geral, Dr. José Bo- 
telho Borges, e o Padre Manuel Narciso. 

Escusando-se o primeiro com as responsabilidades de 
Vigário Capitular do Bispado, eximiu-se do encargo e foi subs- 
tituído a 28 de agosto pelo Dr. Antônio Dias Delgado de Car- 
valho, vigário do Inficionado. 

Se acaso chegou a proceder-se ao arbitramento (do qual 
não rezam os autos), saíram mentidas as esperanças nele depo- 
sitadas, porquanto a Ordem do Carmo, opondo embargos à 
Portaria, fêz que se prosseguisse com o pleito, ainda no juizo 
eclesiástico da comarca. 



104 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



A 2 de setembro de 1769 pronunciou o Vigário da Vara, 
Dr. José Batista da Silva, a sentença do teor seguinte: 

"Vistos êstes autos e Portaria de fl. 2 pela qual se determina que 
as veneráveis ordens terceiras de Nossa Senhora do Carmo e de São 
Francisco desta vila instruam seus direitos e façam decidir no têrmo 
de três meses a sua competência de preferência que há entre as di- 
tas Ordens e pelos despachos de fls. 57 v. e 62 lhes foi mandado apre- 
sentar seus títulos o que assim executaram juntando a dita venerá- 
vel Ordem do Carmo os seus documentos e alegação do seu direito o 
que tudo discorre de fls. 60 v. usque fls. 85 e por parte da venerável 
Ordem 3. a de São Francisco de fls. 87 em diante//Mostra-se por par- 
te da venerável Ordem do Carmo que os Terceiros da dita Ordem fes- 
tejaram a dita Senhora na capela de Santa Quitéria no ano de mil 
setecentos e quarenta e sete como constava da provisão a fls. 68 e 
que também tinham feito festa a Senhora na capela do Senhor dos 
Perdões no ano de mil setecentos e quarenta e cinco e mil setecen- 
tos e quarenta e seis pelo que constava do documento de fls. 66 e le- 
gitimamente se mostra pela certidão de fls. 70 em diante que a ins- 
tituição e confirmação de fls. 60 da dita venerável ordem do Carmo 
fôra em quinze de maio de mil setecentos e cinquenta e um e pela 
certidão de fls. 79 da provisão Régia se mostra que S. Mag. e Fid. ma 
concedeu licença para erigirem a dita Irmandade e que seria obri- 
gada a dar conta no Juízo Secular e outrossim se alega que fôra a 
primeira que fizera nesta vila a sua festividade e como tal devia ter 
a preferência// Mostra-se por parte da dita Ven. el Ordem 3. a de S. 
Fr. co pela certidão a fls. 16 que em 28 de outubro de mil setecentos 
e quarenta e cinco fôra passada no Convento de S. Ant.° do Rio de 
Jan.° pelo Rmo. Provincial Fr. Antonio da Conceição uma Patente 
ao Rdo. Pe. M. e Fr. Ant.° de Santa Maria na qual lhe incumbia a ere- 
ção da dita ordem e que com efeito o dito Pe. M. e Fr. Ant.° instituí- 
ra a dita ordem na dita capela do Senhor dos Perdões onde fizeram 
o primeiro ato da dita Ordem em nove de janeiro de mil setecentos 
e quarenta e seis o que também se evidenciava pela certidão a fls. 
99 v. et sequentibus e que não o obstante a falta de assmatura da 
dita Instituição se achava sanada como sanou com a sua assinatura 
o Visitador Geral Frei Manuel do Livramento como se vê a fls. 101 v. 
fine et 102 em novembro de mil setecentos e cinquenta e oito//Mos- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉ TO 105 

tra-se mais que esta dita Ordem se acha confirmada pelo Rmo. Ge- 
ral em trinta de janeiro de mil setecentos e sessenta como se paten- 
teia da certidão a fls. 104 v. também se alega que não só fôra a pri- 
meira instituída nesta vila mas também que fôra a primeira ordem 
3. a constituída e confirmada pelo pontífice Nicolau quarto e as mais 
que foram instituídas ad instar e que como primeira em tudo por isso 
lhe pertencia a preferência: o que tudo visto e mais dos autos, dis- 
posição do Direito no presente caso com o qual me conformo no pre- 
sente caso pelo que em atenção a que a Ven. el ord. 3. a do Carmo ou 
os seus Terceiros como sujeitos a sua ordem do Rio de Janeiro como 
se vê da petição folhas 68 principiaram a festejar a dita Senhora no 
ano de setecentos e quarenta e cinco até mil setecentos e cinquen- 
ta e um que — é quando foi a sua verdadeira instituição nesta vila 
-oatet dita fls. e a d. a Ven. ord. de S. Fr. co inda que de algum modo 
*e mostra que foi instituída nesta vila no ano de mil setecentos e 
quarenta e seis, cinco anos antes da dita do Carmo contudo devia fa- 
zer certo por certidão o teor das patentes tanto da primeira do Rmo. 
Provincial em que fazia comissário ao dito Padre M.° Frei Ant.° e 
com poder de instituir e erigir a dita ordem e não com uma certidão 
tão sucinta (como) consta de fls. 16 e juntamente a certidão da pa- 
tente por onde se verifique que o Pe. M. e Fr. M. el do Livr. to era Visi- 
tador Geral para poder sanar a nulidade da falta de assinatura da 
dita instituição, termos em que como a dita Ordem Terc. ni de S. Fr.°° 
não mostra a legitimidade e autoridade com que foi instituída a dita 
ordem por isso não está nos têrmos de ter a preferência que alega 
como também porque as veneráveis ordens terceiras não viram os 
documentos uma da outra em que puderam opor o que se lhe ofere- 
cesse sendo que para evitar algum distúrbio ou discórdia que possa 
haver e a qualquer ato em que as veneráveis ordens terceiras e aten- 
dendo a que cada uma está em sua freguesia das desta vila por isso 
observarão o seguinte na procissão de Corpus Christi se formarão 
em alas sendo a da parte direita da Ordem de S. Fr. eo que como hós- 
pede se lhe deve dar o melhor lugar e achando-se ambas em algum 
entêrro por ser o defunto terceiro de ambas as ditas ordens e decla- 
rado que seja levado a sepultura no caixão desta ou daquela ordem 
preferida a dita ordem de que fôr o dito caixão por ser a tal ação 
sua e dever e deve ir ao pé do seu caixão e por isso irá a outra or- 
dem adiante e se não declarar em que caixão quer ir ou por não ter 



106 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



leito testamento neste caso irão as ditas duas ordens em duas alas 
e se o defunto fôr a enterrar no Ouro Prêto irá a Ven. Ord. de S. 
Fr. co a parte direita e se fôr a enterrar no de N. S. a da Com. m desta 
vila irá a ven. ord. do Carmo da parte direita tratando-se assim po- 
liticamente enquanto não fizerem mais certos seus fundamentos e 
documentos e nos têrmos se julgar a legítima preferência quando 
por êste modo se não acomodem, e paguem as custas de permeio de 
fls. 45 em diante. Vila Rica vinte e cinco de setembro de mil setecen- 
tos e sessenta e nove anos//José Batista da Silva." (Fl. 12 v. dos 
autos) . 

Da decisão supra recorreram, por embargos, as Ordens 
pleiteantes e, de concêrto com os documentos com que uma e 
outra instruiu sua defesa, nova sentença foi pronunciada a 20 
de novembro do mesmo ano. Ganhou São Francisco como se 
vê do seguinte tópico:. . . revogo a sentença de fls. e julgo per- 
tencer toda a preferência e primazia à Ordem de São Francisco, 
mais antiga não só por ser a primeira que se instituiu na Igreja 
e teve aprovação solene do Papa Nicolau IV, no ano de 1289, 
e todas as mais Ordens terem sido confirmadas ad instar; mas 
também por nesta Vila Rica ser a dita de São Fransisco a pri- 
meira que teve a sua instituição e ereção como se prova de tan- 
tas patentes novamente juntas..." 

Apela o Carmo para a instância superior no bispado. "Mal 
apelada..." começa a sentença de Francisco Xavier da Rua, 
então Governador da diocese, e confirma a sentença de Vila 
Rica (10-111-1774). 

Nova apelação dos Terceiros Carmelitas agora para a Rela- 
ção Eclesiástica da Bahia, a cuja decisão, favorável à apelante, 
opõem embargos os Terceiros Franciscanos, mas perdem se- 
gunda vez (7-III-1775 e 14-V-1776). 

E' São Francisco que agora apela para a Relação Eclesi- 
ástica de Lisboa e insiste com seus procuradores na metrópole, 
José da Silva Ribeiro e Domingos Gonçalves Antunes, em que 
ponham o máximo de esforço no triunfo de sua causa. Ao pri- 
meiro dêles escreveu a 5 de novembro de 1776 (Copiador — 
95 v.): 

"Também a Vmce. dizia que, sendo a nossa ordem erecta em 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 107 

.Tanr. 0 de 1746 de que ajuntamos patente de sua criação, e uma cer- 
tidão por donde consta ser a ordem 3. a de Nossa Sr. a do Carmo erec- 
ta em 5 de maio de 1751 (16) sendo estes motivos tão forçosos para 
se nos dar preferência do lugar, que com a notícia de sair da Bahia 
a sentença contra nós fez suspeitar que ou se truncaram os autos, ou 
os Srs. Julgadores não julgarão pelo o merecimento dos autos." (Car- 
ta de 5-XI-1776). 

Em 10 de junho de 1777 confirma a Relação a sentença 
proferida na Bahia e São Francisco, perdendo, apela para o 
Tribunal da Legacia, onde lhe sai, ainda contrária, a sentença 
de 23 de dezembro do mesmo ano. 

No juízo eclesiástico não havia já para quem apelar senão 
para Roma, o que não era aconselhável. 

São Francisco perdera, porquanto na Bahia, "ou se trun- 
caram os autos, ou os Srs. Julgadores não julgaram pelo mere- 
cimento dos autos" (de uma carta já citada). 



(16) O Carmo teve licença régia pela seguinte carta: 

"Dom Joam por Graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves daquem e da- 
iem mar em Africa, Senhor de Guine etc. Faço saber a quem esta minha provisão 
virem que por parte dos Irmãos Terceiros de N. S a do Monte do Carmo cita na 
freg 8 - de N. S. do Pilar de V. Rica do O. Preto se me representou que desejosos 
do bem espiritual das suas almas e de participarem as Graças de que gosam os fi- 
lhos da mesma Senhora pretenderam estabelecer a dita Irmandade para cujo fim 
tinham alcançado do Rmo. P. e Geral da Ordem confirmação delas e do Bispo seu 
Diocesano consentimento como mostravam dos documentos que juntavam e porque 
lhes faltava minha licença me pediam fôsse servido conceder-lha mandando-lhe pas- 
sar provisão para o referido efeito e visto seu requerimento e o que responderam 
os procuradores da minha fazenda e coroa: Hei por bem conceder aos Suplicantes 
a licença que pedem para erigirem a sobredita Irmandade com declaração porém 
que não comprarão fazenda alguma para a dita sua Irmandade sem minha licen- 
ça expressa e ficarem sempre obrigados a dar conta no Juizo Secular pelo que man- 
do ao meu Governador e Capitão General da Capitania das Minas Gerais e mais 
ministros e pessoas a quem tocar cumpram e guardem esta minha Provisão e a fa- 
çam cumprir e guardar inteiramente como nela se contem sem duvida alguma a 
qual valerá como carta sem embargo da ordenação em contrário. El-Rei N. Senhor 
o mandou pelos conselheiros do seu Conselho Ultramarino e se passou por duas vias, 
Estevam Luís Correia a fêz em Lisboa e vinte e sete de agosto de mil setecentos 
e cinquenta e sete // O Secretário Joaquim Miguel Lopes de Lavre a fez escrever // 
Fr.° X. er Assis Pacheco e Sampaio II Antônio Lopes da Costa II Manuel Gomes de 
Carvalho;. 



108 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



2" fase 

Quando se tratou de executar o acórdão da Legacia, a 
Ordem Seráfica, pelo seu advogado, Dr. Antonio da Silva e 
Sousa, "... com todo o devido respeito e sem ofensa da juris- 
dição eclesiástica e autoridade do Rdo. Dr. Vigário da Vara 
(já era então o Dr. Inácio de Sousa Ferreira), requereu fôsse 
êle dito Ministro servido — suspenso o têrmo de vinte e quatro 
horas que se requereu e mandou assinar — se lhe concedesse 
vista para uma Execução de incompetência de Juízo e falta de 
jurisdição, falando atentamente e com o devido respeito, em 
razão de serem os Autores réus seculares leigos e da Jurisdição 
Real, e ainda no caso de dever ter execução a sentença, que se 
pretende executar neste Juizo Eclesiástico, o deverá ser no 
secular que só é competente para semelhantes execuções, o 
que ouvido. . ." deferiu o Vigário da Vara (17), e se deu vista 
à Ordem para entrar com seus embargos. 

Levantada a preliminar da incompetência, esta foi a causa 
que se debateu na segunda fase do processo. 

As duas sentenças que se vão ler foram proferidas pelo 
Ouvidor Geral e Corregedor da comarca: resumem as razões 
do advogado de São Francisco e dão-nos a ver como iam 
entrando os magistrados regalistas, com acatamento e res- 
peito, pela jurisdição da Igreja. 

O Carmo, empenhado em defender a sentença que lhe dera 
vitória, embarga a primeira e apela da segunda para a relação 
do Rio de Janeiro. 



(17) Nesses ominosos tempos do padroado não seria possível ao Vigário da 
Vara defender sua jurisdição. Não o puderam mais recentemente os Bispos de Olin- 
da e do Pará. É claro, no entanto, que somente ao juiz eclesiástico competia deci- 
dir uma questão de precedência em funções e atos religiosos. A legislação eclesiás- 
tica, hoje codificada, sobre êste particular é a seguinte: 

"Inter varias personas morales eiusdem speciei et gradus, illa praecedit quae 
est in pacifica quasi-possessione praecedentiae et, si de hoc non constet, quae prius 
in loco ubi quaestio oritur, instituía est (Can. 106, n. 5). — Inter pias laicorum 
associationes, ordo praecedentiae est qui sequitur, firmo praescripto can. 106 n. 5, 
r>: l.o Tertii Ordines; 2.° Archiconf raternitates ; 3.° Conf raternitates ; 4.° Piae 
uniones primariae; 5.° Aliae piae uniones (Can. 701, § 1)." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PBÊTO 10') 

Antes, porém, de prosseguir, voltemos aos autos e leiamos 
as mencionadas sentenças. 

I — "A matéria da incompetência deduzida nos Embargos 
folhas setenta julgo provada para o fim de se não proceder pela 
sentença contra os Embargantes porquanto ainda que na forma 
do Sagrado Concílio de Trento o Bispo seja o Juiz destas diferen- 
ças e controvérsias procedendo nesta matéria sem apelação nem 
agravo, contudo êste procedimento de nenhum modo deve ser 
regulado em tela judiciária mas deve ser extrajudicial e proviso- 
riamente encaminhando-se êle unicamente ao fim de se conser- 
var a paz e boa ordem nos atos eclesiásticos de se evitarem as al- 
tercações e escândalos que de semelhantes controvérsias costu- 
mam originar-se usando depois as partes do Recurso que o direi- 
to lhe permite perante o juiz competente e como dêstes mesmos 
autos folhas oito verso se mostra que o juiz eclesiástico já tinha 
regulado provisoriamente as precedências entre as duas Ordens 
seculares como êle mesmo confessa na sua Portaria estava feito 
quanto lhe era permitido e pertencia a sua jurisdição e já lhe 
não era lícito passar adiante obrigando as duas ordens a litiga- 
rem perante êle sôbre a mesma matéria tanto em razão das pes- 
soas por serem elas seculares e da jurisdição real como em razão 
da dúvida ou diferença que entre elas havia por ser somente ex- 
trajudicial e provisório o conhecimento da Igreja vindo a im- 
pugnar justamente a mesma Ordem do Carmo nos seus Embar- 
gos folhas nove propostos logo no princípio desta causa a violên- 
cia e involuntária demanda a que obrigava o Vigário da Vara 
desta Vila e suposto que pela rejeição dos ditos Embargos veio 
a conhecer das procedências o juiz eclesiástico nunca o mesmo 
podia prorrogar a sua jurisdição nem ainda com consentimento 
das partes: Portanto mando que por esta sentença se não pro- 
ceda enquanto em juízo competente não mostrarem as duas Or- 
dens Terceiras o seu direito pague a Ordem Exequente as custas 
da instância Vila Rica em vinte e cinco de setembro de mil e se- 
tecentos e setenta e oito/ /Manuel Joaquim Pedroso//: PI. 43 v. 
dos autos. 

II — "Sem embargo dos Embargos a que não atendo porque 
sendo incompetente o Juiz Eclesiástico para conhecer da causa 



110 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



e sendo improrrogável a sua jurisdição entre pessoas seculares é 
nula de nenhum efeito e como tal incapaz de executar-se a sua 
sentença não só a respeito do principal que nela se julga, mas 
também a respeito das custas por ser a condenação das mesmas 
uma parte da nula sentença sem a qual a dita condenação não 
teria lugar e ainda que o deprecado não deva conhecer do mere- 
cimento dos Embargos e menos deva receber fora dos seis dias 
da lei contudo é excetuado da regra geral o caso presente tanto 
porque no caso de incompetência o juiz deprecado é que deve in- 
formar-se se a jurisdição é sua ou do deprecante como porque o 
juiz eclesiástico é incapaz de decidir a dúvida entre o Rei e êle 
em matéria de jurisdição sendo de tal natureza a incompetên- 
cia do Juízo Eclesiástico quando se intromete ou usurpa a juris- 
dição real que em nenhum tempo pode prescrever-se os seus jul- 
gados e contra êles se pode opor ainda que a sentença se tenha 
executado e as partes nela consentido sem que contra isto possa 
obstar o serem passados os seis dias da lei e outras formalidades 
desta natureza que só terá lugar nas diferenças dos particulares e 
quando se trata dos seus interêsses mas nunca e em quando se 
trata da jurisdição real e a mesma se defende contra as usur- 
pações do Juízo Eclesiástico cuja jurisdição por ser improrrogá- 
vel não pode valer-se dos têrmos da lei que se não alegar contra 
ela não sendo também atendível a dúvida de que só o Juízo da 
Coroa deve deduzir da incompetência do Juízo Eclesiástico por- 
que também o Ministro a quem se pede o auxílio é próprio para 
esta decisão em quanto a êle permite a lei se implora o dito au- 
xílio o que não se lhe permitiria se a lei o julgasse incapaz do 
dito conhecimento aliás se admitiria uma incompatibilidade im- 
própria da lei e de tal forma lhe pertence êste conhecimento que 
se por inadvertência êrro ou engano conceder a ajuda do bra- 
ço secular e a parte se opuser poderá reformar a dita sentença 
cuja reforma é permitida pelas leis dêste Reino e em têrmos há- 
beis a todos os Ministros que têm poder de julgar: Portanto cum- 
pra-se a sentença embargada e pague a Ordem embargante 
(Carmo) as custas. Vila Rica em vinte e oito de outubro de mil 
setecentos e setenta oito/ /Manuel Joaquim Pedroso '." Loc. cit. 
53. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 111 

Da sentença do Rio de Janeiro (29-VIII-1780), que con- 
firmava a de Vila Rica, agrava a Ordem do Carmo para a Casa 
da Suplicação. Êste tribunal lavra o acórdão do teor seguinte: 
"Acordam em Rellaçam &. Que não foi agravada a Ordem 
agravante pelos Desembargadores da Rellaçam do Rio de Ja- 
neiro na forma da sua sentença, a qual confirmam pelos seus 
fundamentos com o mais dos autos e pague a mesma agravante 
as custas. Lisboa, 11 de janeiro de 1783 //Ribeiro de Lemos// 
Doutor Cabral / Guião / Fomos prezentes. Com duas rubricas 
dos Procuradores Régios, da Coroa e da Fazenda." 

Conhecida a sentença, a Ordem da Penitência não tarda 
a comunicá-la à parte adversa e o faz nestes termos: "Com o 
mais profundo respeito imos por meio desta às veneráveis 
presenças de VV.CC, cingidos da humilde obediência que pro- 
fessamos no Instituto da Venerável Ordem do N. S. P. S. 
Francisco, a participar-lhes que no arquivo desta Ordem se 
acha a sentença que no Supremo Tribunal da Casa da Supli- 
cação e Côrte de Lisboa se proferiu a nosso favor na causa da 
incompetência em que litigávamos; dela nada mais queremos 
de VV.CC. que a solução das custas. Assim esperamos de suas 
benévolas atenções e muitas ocasiões de empregarmos os 
ardentíssimos desejos que temos de servir a essa Venerável 
Ordem, que muito prezamos como verdadeiros servos do 
Senhor. Vila Rica, em Mesa de 27 de junho de 1783". 

3 a fase 

Não estava decidido ainda o litígio acêrca da incompetên- 
cia do juízo eclesiástico e já, certa da vitória, a Ordem de São 
Francisco inicia na Ouvidoria de Vila Rica a causa da prece- 
dência. 

Transitou o novo pleito por três tribunais, a referida Ouvi- 
doria, a Relação do Rio de Janeiro e a Casa da Suplicação em 
Lisboa. Em todos êles tiveram ganho de causa os Terceiros 
Franciscanos por sentenças, respectivamente, de 2 de janeiro 
de 1781, 3 de junho de 1783 e 14 de dezembro de 1784. 

O arquivo não possui os autos do terceiro pleito. Dêle se 
conserva notícia na minuta de um têrmo, que terá sido lavrado 
no 3° livro de têrmos, hoje desaparecido. 



L12 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Tal minuta — documento avulso da Ordem — está assim 
redigida: 

"Termo de asseitação da Sentença e Sobre Sentença que esta 
ven. el ordem Alcançou contra a ordem de Nossa Senhora do Carmo, 
sobre lhe preferir na procição do Corpo de Deus e mais funçoins eccle- 
fiasticas 

Aos .... dias do mes de mil e sete sentos e oitenta e seis 

nesta Villa Rica de Nossa Sr. a do Pilar do ouro Preto, no Consistório 
da Nossa Venerável ordem tersseira de São Francisco na sua Capella 
de Nossa Senhora dos Anjos estando em Meza o M.R.P. Com.° e o 
Sr. Ir. Ministro actual e mais Irmãos de Meza, foy requerido pelo nos- 
so Irmão Procurador actual, Francisco Domingues que em seo poder 
se achava huma sentença e sobresentença do tribunal da Suplicação 
que tinha vindo a favor desta venerável ordem e queria que suas CC. 
mandassem convocar os nossos Irmãos que tinham servido nesta Or- 
dem, e além destes todos os Irmãos razos que se quizessem achar p. a 
huma Meza redonda, e ouvido o seu requerimento, por lhe parecer 
justo mandou o Irmão Ministro correr o vaso e pelo mayor numero 
de favas ficou aprovado que se comvocassem os nossos Irmãos para a 

Meza redonda o que logo mandou executar, e no dia do dito 

mes e anno ja nomiados se ajuntarão no Consistório o M.R.P. Com. 0 
e Sr. Irmão Ministro e mays Irmãos actuais e todos Irmãos q. tem 
servido os annos antecedentes e mais Irmãos razos q. todos juntos e 
Comgregados cada hum em seus lugares foy porposto pelo nosso Ir- 
mão Procurador actual q. a sentença e a sobresentença que esta ve- 
nerável ordem alcançou contra os Irmãos de Nossa Senhora do mon- 
te do Carmo desta villa queria foçe asseitada solenemente por todos 
os Irmãos p. a que delia tivesse notiçia cuja sentença aprezentou o 
nosso Irmão Secretario actual lendoa clara emteligivelmente e nela se 
via a Sentença do D. or ouvidor desta Comarca M. cl Joaquim Pedrozo 
a dois de Janr. 0 de 1781 e escrivão Jozé Veríssimo da Fon. ca da qual 
apellando os Irmãos da ordem tersseira de Nossa Senhora do Carmo 
p. a a Relação do Rio de Janeiro — nella se via o acórdão que comfir- 
mava a mesma, pelos Dez. ris Niculão Joaq. m de Miranda e Bento An- 
tonio Pacheco de Barros e Joaquim Jozé Freire a 3 de junho de 1783. 
de que hera escrivão Manoel da Costa Couto e ultimamente a sen- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



113 



tença e sobresentença do Tribunal da Suplicação dada pelos Dez. r< * 
Antonio de Mesquita e Moura e Jorge Manoel da Costa a 14 de Dez. 0 
de 1784 de que hera escrivão Antonio Alves Giel e depois de lidas e en- 
zaminadas todas as Sentenças que todos bem entenderão preferida a 
nossa venerável ordem terceira nas proçiçoes do Corpo de Deos e mais 
funções que ouvesse a ordem tersseira de Nossa Senhora do Carmo 
mandou p. a mais solenidade correr o vazo p.' todos os Irmãos no qual 
se via aprovado pelo mayor numero de favas pretas ficando por esta 
forma asseitas as sentenças por todos os Irmãos prezentes e futuros 
e promptos a defender todo o direito e acção que compete a esta or- 
dem. E logo na mesma Meza requereo o nosso Irmão Procurador actual 
que este termo alem de ser lançado no Livro dos termos actual, tão- 
bem se lançaçe no Livro do registo das Patentes dos nossos Rmos. Pes. 
Comissários p. a que melhor se possa vir no conhecimento delias e a 
própria sentença e sobresentença se goardaçe no arquivo desta ordem 
o que tudo assim se mandou em Meza conjunto em observância do 
qual fis este termo e eu Secretario actual que o escrevi." 

Onze anos corridos sobre a publicação da sentença que 
assegurara por uma vez à Ordem Franciscana o direito de pre- 
cedência, quando parecia que debate algum acerca daquele 
direito teria ainda razão de ser, eis que, por ocasião de um 
enterro, uma dúvida surge ameaçando renovar essa prolongada 
luta que as próprias Ordens tinham ou aparentavam ter, como 
definitivamente encerrada. 

O incidente, que foi, já tarde, o remate dessa dilatada 
peleja, está conservado no Copiador da Ordem (fl. 113 v) e se 
resume em breves palavras. 

A 16 de fevereiro de 1797 os Terceiros da Penitência, numa 
carta repassada de louvores e atenções, convidaram os do 
Carmo para tomarem parte na sua Procissão de Cinza. A res- 
posta com que êstes acudiram a tão cortês e obsequioso apêlo 
está consignada na carta que trasladarei a seguir: "Muito 
Reverendo Senhor Padre Comissário, Irmão Ministro e mais 
Senhores da Mesa — Fêz presente a esta Mesa o Irmão Secre- 
tário a carta dessa respeitável do Seráfico P. São Francisco, 
e do seu conteúdo vimos o convite que nos faz para a sua Pro- 
cissão de Cinza que costumávamos assistir pelo amigável trato 
que entre nós havíamos tratado com aplauso geral dos fiéis, 



114 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



sem que esta Ordem tenha até o presente dado a mínima 
ocasião a desordens; a pública, acontecida de próximo, tem 
movido os ânimos sensíveis de muitos Irmãos a que proce- 
dendo-se a votos saíra em vaso a repulsa: esta a razão por que 
faltaremos nesta parte ao seu obséquio, o que nos é sensível, 
pois veneramos, e respeitaremos sempre essa Venerável Or- 
dem, pretendendo com o nosso retiro evitarmos as controvér- 
sias que o comum inimigo a perturbar a paz tem suscitado em 
alguns ânimos. Deus guarde etc. Vila Rica, em Mesa de 24 de 
fevereiro de 1797". 

À margem, o secretário franciscano anotou: "N. B. A pre- 
ferência que quiseram ter os Irmãos do Carmo no enterro do 
falecido João Moreira Ribeiro, seu Irmão, a que foi nossa 
Ordem Franciscana rogada pelo dito Ribeiro em seu testa- 
mento, em cujo ato foi apresentada a sentença, que nos con- 
fere a dita preferência, deu ocasião à repugnância e mais fatos 
expendidos nesta carta". 

Um ano depois as pazes se firmaram entre as duas Ordens 
e creio que não mais se romperam até o presente. 

Falam do auspicioso acontecimento as duas cartas que se 
vão ler e com as quais dou por encerrado êste parágrafo. 

"Rmo. Sr. P. e Com. 0 , Sr. Irmão Min. 0 e mais Definitorio. 

Temos determinado fazer as Procissoens do costume que na Qua- 
resma se tem feito por esta Ordem, e por isso rogamos e pedimos mui- 
to de mercê a VV. CC. por serviço de Deus e de Nossa Mãe Maria San- 
tíssima nos venham ajudar aos referidos atos como dantes se prati- 
cava ficando W. CC. também na certeza que faremos prontos para o 
serviço dessa Ven. pl Ordem 3. a da Penitencia e que de nossa p. te está 
desterrada qualquer lembrança que pudesse motivar a intriga entre 
esta e essa corporação e q. so desejamos a paz e união e amizade. 

D. s g. de a W. CC. m. s a.» V. a R. a , em Mesa de 14 de Março de 1798 
— De W. CC. Irm. R m.*" am. tes em o Sr. 

Antônio Jozé Dias Coelho — Prior 
José Alves de Sousa — Com. 0 
Marcos Jose Ribeiro — Secret. 0 
João Dias Rosa, 1° definidor 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



115 



Joaquim José dos Santos — definidor 
José Dias Lopes " 
Manoel Correia de Sá " 
Joaquim José Vieira de Aquino — definidor." 

Resposta 

"Sr. Irmão Prior Rmo. Sr. Dr. Com. 0 e mais definitorio 

Com grande jubilo recebemos a carta de W. CC. em que nos fa- 
zem ver já sepultados no esquecimento todos os motivos q. deram cau- 
za ao repudio da nossa louvável união procedimento antes praticado 
por essa Venerável Ordem q. nos deixou até agora cheios de confuzão. 
Agora porem q. W. CC. nos certificara de uma nova paz e aliança li- 
beralizando-nos as suas vontades. 

Nos que como filhos da obediência nenhuma outra cousa mais 
prezamos nem apetecemos do q. a mesma paz também lhes oferece- 
mos os nossos sinceros desejos protestando-lhes q. nunca excitaremos 
motivo para nos separar-nos. 

Nas solenes Procissões com q. W. CC. pertendem proximamente 
edificar os fieis mostraremos finalmente q. t0 é o prazer e consolação 
q. temos em executar as sabias desposições dessa Ven. el Corporação a 
quem com toda a submissão respeitamos. 

Deus g. de felizm. te como lhe desejamos. V. a Rica em Mesa de 18 
de março de 1798. 

De W. CC. Irmãos e servos em o Sr. 

Manuel de Abreu Lobato — Com. 0 

Francisco Marques de Oliveira — Min. 0 

José Monteiro Peixoto — Ex V. Min. 0 

Tomé Frz. Braga 

José Gonçalves Reis — Secret. 0 

Francisco Xavier de Andrade 

Bernardo José da Costa Veiga 

Alexandre Teixeira de São Martinho 

Luís José Maciel 

João Fernandes Salgado 

Francisco da Costa Guimarães 

Diogo Lopes 

Manuel Albino Lopes de Carvalho 

Clemente José de Alamão Xaves 

Manuel José Machado". (Copiador 116 e 117). 



116 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



5.0 _ OUTRAS QUESTÕES 

Em 1759, insistindo a Ordem em exercer jurisdição em 
Mariana e nas freguesias daquela comarca, Dom Frei Manuel 
da Cruz, a bem da disciplina e para assegurar os direitos da 
Ordem que acabava de erigir-se na sede de seu bispado, inter- 
diz, nos limites da referida comarca, o exercício de quaisquer 
funções sagradas ao Comissário e Vice-Comissário dos Ter- 
ceiros de Vila Rica. Queixam-se estes ao Provincial e lhe 
pedem "queira acudir-lhes e favorecê-los com o remédio que 
pede o caso e excesso do Prelado dêste Bispado". E contra o 
venerando bispo, a Ordem, que teve sempre bem abastecidas 
as suas reservas de canonistas e teólogos, invoca bulas e consti- 
tuições pontifícias! 

O Provincial calou-se prudentemente. 

Morto Dom Frei Manuel, o Cabido que, pela maioria de 
seus membros, trouxera em constante desassossego o piedoso 
prelado e que não guardava acatamento a sua memória (do que 
há documentação abundante), prontamente atendeu a Ordem 
Vilarriquense. 

A petição aos capitulares marianenses envolvia, como a 
carta do Provincial, injúrias e ultrajes ao bispo falecido. 
Documenta-se o que fica dito com o seguinte: 

Mto. Rdo. Sr. Pe. M. p e Ministro Provincial Fr. Francisco da Pu- 
rificação. 

Na presença de V.P.mto. Rda. expõe a presente Mesa desta Ven. eI 
Ordem Terceira da Penitência desta Vila Rica que, desejando favo- 
recer em tudo aos Irmãos Terceiros desta Venerável Ordem, nela cria- 
dos, não lhes faltando com o pasto espiritual, quando não pode ser 
pelo Rdo. Pe. Comissário atual por causa de alguns irmãos viverem 
dispersos e por longitudes, aonde êste não pode chegar tôdas as vêzes 
que se precisa, costuma a Mesa junto com o dito Rdo. Pe. Comissário 
atual delegar os seus poderes para algumas coisas mais precisas, 
como são absolvições da hora da morte e professar a algum noviço, 
quando se acha em perigo de vida, e deitar a absolvição quando há 
algum jubileu da Ordem, isto em alguns Irmãos professos Sacerdotes 
que assistem em capelas daquelas freguesias, onde também assistem 
alguns irmãos criados e filhos desta Venerável Ordem, e que há de 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 117 

suceder, Rmo. Snr. e amantíssimo Prelado, o de se ter chegado o tem- 
po em que esta Congregação não pode acudir aos seus irmãos ao me- 
nos com o pasto espiritual, porque até êste lhe está impedido pelo 
Rmo. e Exmo. Snr. Bispo de Mariana por requerimento que se lhe fêz 
em nome da Mesa da nova Congregação, ereta na capela da Sfa. San- 
ta Ana da dita Cidade, como melhor consta da cópia da petição e des- 
pacho que incluso remetemos a V.P.M. Rda., obrando nesta parte, 
tanto aquela Mesa, como o referido Prelado de Mariana, contra o que 
determinam as Bulas dos SSmos. PP. e capítulos da nossa Santa Re- 
gra e estatutos gerais, provindo desta sorte que nenhum Sacerdote, 
Irmão e filho desta Congregação, que vivem dispersos por aquelas fre- 
guesias e capelas, aceitassem desta Venerável Ordem e Mesa comis- 
são nem concessão, nem fizesse ato algum mandado por esta dita Or- 
dem, recomendando aos Vigários lhe impedissem os tais atos com 
pena de suspensão de suas ordens, querendo desta forma obrigar aque- 
les irmãos, filhos desta Venerável Ordem, a que se apresentem e se- 
jam daquela nova Ordem a fôrça, cometendo assim injúria e fôrça à 
Mãe que os criou, pois é certo e dito pela bôca de nosso Sto. Pe. São 
Francisco, no tesouro seráfico, que cada um tenha a vontade livre 
para existir na Congregação que lhes parece depois de estar professo. 

À vista do exposto na presença de V.P.mto. Rda., como nosso me- 
ritíssimo Prelado e Pastor dêste pequeno rebanho, pois lhe está co- 
metido, nos queira acudir e favorecer com o remédio que pede o caso 
e excesso daquela nova Mesa e Prelado dêste Bispado, obrando em 
tudo contra o que está cometido expressamente na Bula do Smo. Pa- 
dre Benedito XIII que principia Paterna Sedis, e talvez passando o 
tal excesso a um horrendo espetáculo de escândalo, por ter êste mais de 
proveito temporal do que exercício no espiritual e o mais que obram 
que calamos por prudência, e só queremos que V.P.mto. Rda. nos va- 
lha com o remédio para assistirmos aos nossos Irmãos com o susten- 
to espiritual por assim nos ser prometido. 

Apetecemos a V.P.mto. Rda. uma saúde livre de tôda a moléstia 
para fazer muitos serviços a Deus e ao nosso Padre São Francisco e 
a nos favorecer com a sua santa bênção paternal, ficando nossas von- 
tades sujeitas e oprimidas a tudo o que fôr de agrado de Deus e de 
P. P.mto. Rda. O Sôr. g. dc a V.P.mto. Rda. por prósperos e felizes 
anos. Vila Rica, em Mesa de 8 de julho de 1759 anos. 

De V. P. mto. Rda. os mais indignos irmãos e servos em o Snr. 



118 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



— João de Sequeira, Min.°; Luís de Almeida Vila Nova, Com. 0 ; Antô- 
nio Francisco Campos, Secret. 0 ; Manuel Fernandes da Costa, Proc. or 
Geral; João Soares de Carvalho, Síndico; André Nunes Ferreira; Do- 
mingos Ferreira Simões Vale, Definidor; Bernardo de Araújo Fran- 
co, DefiE'dor; Amaro Alves Pinto, Definidor; Manuel Lopes Guima- 
rães, Definidor; Manuel Nunes Antônio da Silva Braga, Vigário." (Co- 
piador, 12 v.). 

Recurso ao cabido 

"Exmo. e Rmo. Cabido: Diz por seu Procurador Geral a Venerá- 
vel Ordem Terceira de São Francisco de Vila Rica que estando a mes- 
ma na posse e paz pacífica com todos os seus irmãos que se compreen- 
dem não só no têrmo da dita Vila, mas também na do Sabará e desta 
cidade e erigindo-se na mesma uma nova Ordem, não querendo mui- 
tos irmãos viver sujeitos a ela, por serem filhos daquela, sabendo dis- 
to o Exmo. e Revmo. Sr. Bispo (que santa glória haja) determinou 
que nenhum Sacerdote dêste Bispado e morador no têrmo desta Ci- 
dade pudesse absolver, nem administrar outro qualquer pasto espi- 
ritual a terceiro algum da Ordem de Vila Rica, menos que se não su- 
jeitasse à desta cidade, procedimento êste muito alheio da Justiça que 
se devia administrar, e achando-se um terceiro daquela Ordem em 
artigo de morte, requereu ao dito Exmo. Sr. faculdade para qualquer 
Sacerdote absolver lhe deferiu que sendo terceiro da Ordem desta 
Cidade, sim, aliás não havia que deferir, privando por êste modo as 
regalias concedidas àquela Ordem; talvez querendo assim persuadir 
que só era Ordem a desta cidade e não a daquela Vila, sem atender 
a tantas e tão inumeráveis almas que, contra sua vontade vieram 
sujeitar-se à Ordem desta Cidade por se considerarem sem quem os 
dirigisse, povernasse e lhe administrasse o pasto espiritual, e porque 
êste impedimento foi todo contra a disposição do direito que àquela 
Ordem e a todos os seus irmãos assiste (como a seu tempo hão de 
mostrar decidido pelo seu Rmo. Ministro Geral de tôdas as Ordens) 
por isso requer a W. S. a8 para que se dignem declarar por seu despa- 
cho que qualquer Sacerdote Irmão daquela Ordem possa adminis- 
trar-lhes todo pasto espiritual quando cometido lhe fôr pela Mesa da 
dita Ordem, como também lançar o hábito e professar a todo aquêle 
que a quiser reconhecer por Mãe sua porque não parece justo privar 
a cada um para onde tem a sua vocação, porque o Suplicante, como 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 119 

Procurador Geral daquela Ordem só requer esta graça para todos 
aquêles que a mesma a estão suplicando e não para os que se des- 
membraram daquela para a desta Cidade, em que protesta o Supli- 
cante não lhe prejudica em tempo quando lhe seja decidido pelo 
Rmo. Ministro Geral a respeito da desmembração que se fêz do 
corpo daquela Ordem com a desta Cidade, portanto = P. a W. S. as 
se dignem facultar à dita Ordem Terceira de Vila Rica a graça que 
pede, vistas as circunstâncias que alega, pondo-se por êste modo em 
paz pacífica a todos aquêles irmãos que na forma sobredita quiseram 
reconhecer aquela Ordem por Mãe sua, por cuja graça não cessará a 
mesma Ordem em rogar a Deus e ao seu Santo Patriarca pelo feliz 
govêrno de W. S. as e recebera mercê = Despacho = Remetida ao N. 
M. Rdo. Dr. Vigário Capitular para deferir ao requerente como fôr 
justo. Mariana, em Cabido de 22 de junho de 1764 = Cordeiro = Paz 
= Correia = Despacho do Vigário Capitular = Concedemos faculda- 
de a qualquer Sacerdote, Irmão da Venerável Ordem Terceira de São 
Francisco de Vila Rica para poder administrar o pasto espiritual aos 
Irmãos Terceiros da mesma Ordem, lançar o hábito e professar a todo 
aquêle que por Mãe sua quiser reconhecer voluntariamente a mesma 
Venerável Ordem, quando pela Mesa da mesma lhe fôr ordenado, tu- 
do sem o menor prejuízo dos direitos paroquiais. 

Mariana, 22 de junho de 1764 — Cardoso" 

Nota — Imediatamente passou a Mesa patentes de Vice-Co- 
missários para as paróquias e capelas de Catas Altas do Mato 
Dentro, Inficionado, Santa Bárbara, Guarapiranga, Barra Longa, 
São Gonçalo da Ponte, Santana do Paraopeba, Nossa Senhora da 
Piedade dos Campos Gerais, Itaverava, Ouro Branco, Itabira, Ita- 
tiaia, Carijós, Rio das Pedras, Congonhas do Campo, Suassuí. 
Redondo, Pitangui, etc. 

As paróquias grifadas eram da comarca de Mariana. 

Lutas domésticas 

Reeleito Ministro para o ano compromissal de 4 de outu- 
bro de 1823 a 4 de outubro de 1824, o Capitão Pantaleão Alves 
da Silva, caindo enfermo algum tempo depois, não pôde conti- 
nuar no exercício do cargo. Chamou o Coronel Marçal José de 



120 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Araujo, que alguns anos antes servira o lugar de Ministro, fê-lo 
seu procurador e transmitiu-lhe o governo da Ordem. 

Foi escandalosamente revolto o período, breve felizmente, 
dessa administração. Descomediu-se o Coronel, ultrapassando 
os termos da procuração e chegando ao excesso de responsa- 
bilizar o secretário da Ordem por violências e êrros que êle 
próprio praticara. 

Os documentos, a que vou abrir espaço, falarão com van- 
tagem dêsse episódio, ou de mais êsse passo desagradável da 
história da Ordem. 

"Copia dos Requerimentos e Despachos mandados pela Meza re- 
gistar pelo Termo de 25 de Março de 1824 em o L.° delles afls. 233 e 
seguintes — (Copiador 149 v.) : 

limo. Sr. Dr. Provedor = Dizem os Vogais da Congregação da 
Meza e Difinitorio da Venerável Ordem 3. a de Penitencia de Sam 
Fran. co de Assis desta Imp. ' 1 Cidade q. as deliberaçõins da Meza cons- 
tantes do termo lavrado no dia 28 de fevereiro próximo passado, ten- 
do p. r fundamento as propostas do Procurador Geral, fiscal, da Meza 
e Ordem (como se mostra dos Estatutos, cap. 17, § 1.°) feitas a bem 
da m. ma e seus direitos, e sendo acordadas, á pluralidade de votos p. a 
attender-se a uzurpaçam de jurisdiçoens e desordem com q. tem pro- 
cedido o ex-procurador do nosso actual Ministro, praticando sem ob- 
servância dos Estatutos as mais escandalosas violências, tem com bas- 
tante magoa dos 8upl es sido tratados com desprezo, e publica offença 
da Meza, figurando os factos criminozos aquelle ex-Procurador Irmão 
Marçal, q. procurando de tantos promover as discórdias e disgostos dos 
Irmaons, tem chegado ao excesso de se fazer parte contra a m. Ilia Or- 
dem, desfazendo o q. ella em Meza detreminou e uzando de dispotis- 
mo no governo que é repartido p. r outros Irmaons e arrogando a si 
huma authoridade do Difinitorio q. jamais pode tolerar-se: Os moti- 
vos do Protesto feito pello Procurador Geral c. a os factos do d.° ex- 
Procurador Marçal José de Araujo justificão a sua inabilidade p. a 
exercer como tal o seu officio de q. se axa expulço; mas sem embargo 
de ser notória ao m. mo Cor. 1 Marçal a maneira com que se deliberarão 
em Meza as providencias q. ocorrerão como necessárias, elle em no- 
me do nosso actual Ministro q. actualmente vive infermo, teve o Cd- 
rater de requerer hum auto criminal sobre o mesmo q. elle praticou 
com erro e violência, senhoriando-se de hua xave da Secretaria da 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉ TO 121 

mão do Escriturário desta, o Irmão Lucio Moreira, feito pella Meza, a 
q. m dispoticamente despedio o d.° Coronel à perto de hum mes pes- 
soas estranhas q. não são Irmaons na Secretaria e Arquivo da Or- 
dem, e tirando delle livros para fora, e motivando q. a Meza determi- 
naçe abrir a porta e pôr nova chave, e esquecendo-se do q. detremina 
as obrigaçoins do Irmão Ministro em os nossos Estatutos no cap. 14, 
§ 5.°, os quais sam Confirmados por Sua Mag.' Imperial e servem de 
regimen invariável a esta Corporaçam Franciscana: Elie Ministro 
desta Ordem de Caridade e humildade chama o q. foi ajunta- 

mento de Irmaons Vogais, congregados em Meza plena e p. a os fins 
declarados no Termo de q. prova o documento n.° 1, e pellas razoiíio 
exprecadas no Protesto constante do documento n.° 2; e conseguio 
que outra vez ficasse a Ordem privada da porta, tirando-se a fexadu- 
ra fj. se havia pregado e levado a chave p. a hum deposito, existindo 
parado o expediente da Ordem, e debaixo desta chave existe a caixa 
de cera em tocos e encenço p. a o uzo de Sacrifício da Igreja, tendo sido 
precizo ao Procurador Geral comprar semelhantes géneros, e the não 
ittender a deliberaçam da Meza pelo Termo de 25 de Janr. 0 do cor- 
rente anno, em q. authorizou ao d.° Procurador e Secretario p. a o 
arranjo e dispoziçam da porciçam de Cinza feita a tres do corr.° mez 
debaixo de todos os tropessos, quando se fexou a porta do Consistó- 
rio onde residem alfayas e mais aprestos em guarda do Vigário do 
Culto e Sachristam e q. eram precizos p. a a d. a porciçam cuja chave, 
sendo pedida pella Meza, a não quiz mandar o d.° Ministro, obtendo 
no dia 2.° do conv mez obrreticio e sobrreticio pello requerimento q. 
fez (menos verdadeiro) o Desp. 0 de V. S. a p. a o aucto criminal contra 
todos os Irmaons da Meza, e clepozito da chave do Arquivo delia. Este 
procedimento destruidor da armonia q. deve permanecer na Irman- 
dade de hua Ordem tam santa e q. tanto tem offendido a m. ma e ao 
publico: permite q. os Sup. s Irmaons 3. s humildemente se aprezen- 
tem perante V. S. a e persuadidos de q. hão de merecer toda a consi- 
deraçam: requerem a entrega da chave depositada p. a q. em obser- 
vância do Capitulo dezaceis dos Estatutos desta Ordem seja o Secre- 
tario o seu único depozitario p. a q. cumprindo as suas obregaçoens 
se possão dar aos negócios da Ordem a sua devida expediçam, man- 
dando V. S. a que este se junte ao requerimento do seu Ministro com 
os documentos q. offereçem, estando o m. mo auctuado p. a se pôr a vis- 
ta delles perpetuo cilencio ao procedimento escandlozo de q. rezultou 



122 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



o depozito da chave p. a se compo-em a acuzação feita aos Vogais da 
meza e Ordem, sem suspençam da entrega da chave do Arquivo e dos 
Livros q. se axam fora, p. r ser tudo isto comforme a deliberaçam dos 
Estatutos e satisfaçam da Ordem. Em testemunho de tudo, abaixo 
assignão. Imperial Cidade do Ouro Preto Nove de Março de 1824 no 
q. RR. M. re = o Pe. Gomes José dos Reis Coitinho, Vice-Com. 0 — Ma- 
noel Fernandes da S. a , ex-Ministro — Camilo de Castro Per. a de An- 
drade, Secretario actual — Manoel José Barbosa, ex-Vice-Ministro — 
Lourenço Corr. a de Mello, Procurador Geral — o Pe. José da Cunha 
Mello, ex-Definidor — o Pe. lzidoro Pinto de Rezende, Definidor — o 
Pe. João Moreira Duarte, ex-Definidor — Joaquim José Benavides, Di- 
finidor — João José Per. a de Alm. da , Definidor — Serafim José dos 
Santos, Difinidor — Manoel Pinto Cardozo, ex-Difinidor — Antonio 
Xavier Duarte, ex- Vigário — José Roiz Pinto de Souza, ex-Difinidor — 
Vicente Baptista Roiz, ex-Sindico — José Giz. Pimentel, Difinidor — 
Fran. co Ilario Ais. Guimês, Difinidor — Joaq. m José da Costa Neves, ex- 
Procurador — José Fernandes da Silva, ex-Sindico — Custodio José da 
Silva, Difinidor — José Antonio Ribeiro, Difinidor — Manoel de Jesus 
Passos, Difinidor — Manoel PirihP de Faria, ex-Difinidor — Manoel 
Gonçalves Neves, ex-Difinidor — Marcelino Corr. a de Andrade, ex-Vi- 
gario = Despacho: Junte aos requerimentos do Ministro. Ouro preto 
16 de março de 1824 = Augusto Monteiro = Replica = Imo. S r D. or 
Ouv. or e Procurador = Dizem os Sup. es q. p. r motivos de diversas deli- 
beraçoins da Meza, e sendo necessárias algúas providencias nellas de- 
triminadas sobre objetos q. tem servido de desordens, e procedimentos 
escandalozos, praticados pello Ex-Procurador do Ministro actual, com 
tal offença da Ordem q. chegou a requerer um auto de corpo de de- 
lito na Igreja, desprezada a sua imunidade, levaram os Sup. es ao co- 
nhecim.' 0 de V. S. a os motivos das d. ns deliberaçoins, e sendo indispen- 
çavel a beneficio da Ordem, q. a m. ma Ordem seja restituida ao uzo de 
sua Secretaria, escoem de hua vez as perturbaçoins de jurisdiçoins 
com q aquelle ex-Procurador em nome do actual Min.° fexou a porta, 
pondo hua xave e fexedura dispoticamente, e a depozitou sem causa 
justa e com a mayor indecencia e escândalo, sendo elle o motor de 
toda a inobservância dos Estatutos, requererão a V. S. a não só a en- 
trega da chave depozitada, mas a dos livros e Estatutos p. r elle tirados 
do Arquivo: e como do Desp. 0 de V. S. a só mandou juntar o seo re- 
querimento ao daquelle Ministro pella pessoa do seu ex-Procurador, 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



12", 



e convém que exista no Cartório do Tabeliam do Auto onde se não 
axa tal procedim. to : p. r isso tornam os Sup. cs a implorar a V. S. a se 
digne m." 1 " q. o depozitario entregue a chave depozitada, visto q. do 
fixamento da porta e acto impraticável, tem rezultado ao Expedien- 
te da Ordem e esta esteje, como está privada dos seus Direitos, fir- 
mado nos Estatutos q. se devem observar = P. a V. S. a seja serv. 0 
deferir aos Sup. 08 com Justiça, providenciando sobre tantas desor- 
dens = E receberão Merçe = Despacho = O Escrivam da Provedoria 
intime ao Ministro ou Vice-Ministro e mais Mezarios p. a q. amanhã 
pellas tres horas da tarde se ajuntarem em Meza Geral, afim de ele- 
gendo-se novamente Mezarios, se ponha termo a tam escandalozos 
procedimentos. Ouro preto 22 de março de 1824. Augusto Montr.° - 

0 docum. to n.° 1 hera a Cert. am do thior do Termo de 28 de Fevr. 0 
de 1824, transcrito em o livro delles a fls. 283 e segs. = o docum. to 
n.° 2 é o theor da Pat. am , e protesto feito pelo Proc. or Geral ao Ex-Mi- 
nistro Cor. 1 Marçal J. e de Ar. 0 do theor seg. te = 

1 — PETIÇÃO = Ulmo. Sr. Dr. Provedor = Liz Lour. 0 Corr. a de 
Mello, Proc. or G. 1 da Ven. 1 Ordem 3 a da Penitencia de S. Fran. co 
D'Assis desta Imp. al Cid. e q. o Ex-Min.° da Ordem o Cor. CI Marçal J. 9 
de Ar.° q. serve de Min. 0 pelo impedim. to do actual o Capp. m Panta- 
lião Alz. da S. a p. r Pro. am deste, procedento contra o determinado nos 
Estatutos da Ordem, confirmados por S. Mag. e Imp. al , e abuzando dos 
poderes q. nelles lhe são conferidos tem feito a maior e a mais escan- 
daloza perturbação na Ordem, de q. nascem os desgostos dos Irmaons, 
insultos públicos e particulares, alem dos prejuizos q. a m. m:l Ordem 
sofre, e pode ainda sofrer sem remédio, e arrogando a si o d.° Ex-Min.° 
authorid. es q. lhe não competem despohem do Arquivo delia a seu ar- 
bitrio, senhoriando-se da chave e p. r consequência dos L. os Docum. ,os , 
créditos e outros Papeis nelle existentes e utilizando-se de hum Escri- 
tuario proposto p. a o q. he relativo ao trabalho do Arquivo p. a as suas 
particulares escritas em sua Caza. E tendo-se em Meza deliberado so- 
bre diversos objectos reprezentados pelo actual Min. 0 p. a se melho- 
rar a desordem de contas antigas p. r meio de hum Balanço q. só tem 
lugar recolhidas as relaçoens de todas as Prezidias de fora e p. a pro- 
moverse o meio da indanização tem aquelle ex-Min.° retardado este 
trabalho necessário com o reprezam. 10 do Escriturário eleito pela Meza 
o Ir. Lucio Mor. a em sua caza, como fica dito, bem como nas dife- 
rentes determinaçoens q. dispoticam. te tem dado aos Andadores da 



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CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Ordem, dispoticam. ,c já p. a o girio de cobranças, já fazendo avizar a 
membros da Meza p. a não comparecerem nella, e a outros mandando-os 
sahir da m. mA p. a fora e pertendendo diversa marcha contra a vont." 
da Meza no Consistório da Ven. 1 Ordem, praticando insultos tocantes 
ao Difinitorio, deu causa a q. se separassem os Irmaons e elle se apo- 
derasse da chave do Arquivo q. só compete ao Secr.° constando q. nelie 
se tenha introduzido e sem assistência daquelle e admitindo outros, 
e hum Escriturário não eleito, sem ser Irmão p. a suprir o lugar do 
outro q. dispoticam. tc o despedio sem dependência da Meza, bem como 
incarregando faturas de obras ao Sacristão q. competem ao Sup. e na 
qualid. e q. reprez. ta , como já tão bem praticou o Ex-Secretr.° da m. raa 
Ordem, Proc. or e Sindico pretérito da m. ma Ordem, todos estes factos 
vem o Sup. e reprezentar na qualid. 0 de Proc. m P. 1 da Ordem, como dei- 
ies q. são todos contra os Termos, a Lei dos Estatutos e de offensa a 
Ordem podem resultar damnos irreparáveis pelos quais não deve o 
Sup. c ser responsável, deixando em silencio tantas desordens e abu- 
zos, p. r isso q. r protestar p. r si e em nome da Ordem, não aprovar 
quanto tenha praticado aquelle Ex-Min.° contra os Estatutos q. se 
acham no Arquivo e pela uzurpação de jurisdição do Difinitorio e re- 
tenção da chave do Arquivo, e mais protestar, não ser sugeito a al- 
gua responçabilid.*' pela falta do q. existia no m. mo Arquivo e p. r dam- 
nos de q. 1 q. r modo cauzados pelos procedim.* 08 do d.° Ex-Min.° — P. 
a V. S. a seja serv.° mand. ar q. se tome o seu protesto e q. p. r carta do 
Escrivam da Provedoria sendo intimado dentro em duas horas pe- 
rentorias q. correrão na mão do Escr. am se entregue esta com o d. u 
Termo e Certidão ao Supp.° p. a conservação dos seus direitos e pena 
ou suspenção ao Escr. am não cumprindo assim. E.R.M. == Despacho 
= Lavrado o protesto seja intimado em termos. Ouro Preto, 21 de 
Fevr.° d' 1824 = Aug. t0 Montr. 0 = 

2 — TERMO DE PROTESTO = Aos vinte e hum dias de Fevr." 
de 1824 annos nesta Imp. al Cid. 0 do Ouro Preto em o Cartório da Pro- 
vedoria de Auz. tos delia e sendo ahi prez. te Lour.?° Corr. a d'Mello, como 
Proc. or G. 1 da Ordem 3 a de S. Fran. co d'Assis e p. r elle me foi dito q. 
na forma da sua petição retro Protestava não ser sugeito a responça- 
belid. € algua da falta do q. existia no Arquivo p. r damnos cauzados 
pelos procedim. tos do d.° Min. 0 o Cor.' 1 Marçal J. e de Ar.° e nem elle 
ser responçavel per si nem pela Meza, tudo na forma da Petição re- 
tro, q. aqui havia por encorporada ao prez. te como p. te essencial delle 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÈTO 125 

e de como assim o disse aqui abaixo se assigna perante mim João 
Nunes Mauricio Lx. a Tab. am q. no impedim. to do Escr. 0111 da Provedoria 
o escrevi = Lour.ç° Corr. a de Mello = Certifico q. intimei o protesto 
supra ao Cor. 01 Marçal J." de Ar. 0 de q. dou fé. Imp. al Cid. e do Ouro 
Preto 21 de fevr.° d'1824 = João Nunes Mauricio Lx. a = 

Com um andador 

João Rodrigues Pombo foi por muitos anos andador 
(mensageiro e sobretudo cobrador) da Ordem. Contra êle, 
acusado de desonestidade nas suas contas, se procedeu em 
1823. Foi exonerado. Vinte e um anos depois, em 1844, a reque- 
rimento de seu filho, José Rodrigues Pombo, o processo foi 
revisto. Uma comissão de que foi secretário João Ferreira de 
Ulhoa Cintra, depois de meticuloso exame, lavrou sobre o caso 
o seguinte "Parecer": 

"1.° Que se dêem por liquidadas tôdas as contas do finado 
Andador João Rodrigues Pombo". 

"2.° Que se pague aos herdeiros a quantia de 215$856, sal- 
do verificado a favor do mesmo Andador, como consta do Livro exa- 
minado pela Comissão, deduzindo-se desta quantia o que estiver 
devendo à Ordem de anuais, tanto o finado Andador, como sua fi- 
nada esposa; o pagamento do restante terá lugar logo que hou- 
vessem os necessários meios". 

3.° Que os herdeiros percam todo e qualquer direito que 
possam de obter da Ordem o pagamento dos 1$200 por cada uma 
entrada de Irmãos cuja profissão agenciasse o referido Andador, 
uma vez que tôdas as contas (se dão) por liquidadas". 

"4.° Que se lavre têrmo de todo o referido que será assinado 
pelos herdeiros; finalmente que o Parecer da Comissão seja com- 
petentemente registado. Imperial Cidade do Ouro Preto, 14 de 
janeiro de 1844 = João Ferreira de Ulhoa Cintra = José Antonio 
Ribeiro = Antônio Daniel da Costa". 



CAPÍTULO IV 



PROVINCIAIS 

De 1746, quando nasceu a Ordem Terceira em Vila Rica, 
até 1824, ano em que cessa (a guiar-nos pelo arquivo), qualquer 
ação da Província (18) sôbre a congregação seráfica vilarri- 
quense, manteve esta uma correspondência mais ou menos 
regular com os religiosos que, nesse período de quase 80 anos, 
se sucederam no provincialado franciscano da Imaculada Con- 
ceição do Rio de Janeiro. 

Dêsses Provinciais e dessa correspondência consignarei 
a seguir as notícias que ainda guardaram até nós os documen- 
tos da Ordem. 

1 — Fr. Antônio da Conceição. Eleito em 7 de agosto de 
1745. Fora professor de Teologia, no Rio; Guardião no Rio e 
em Itu. Depois de Provincial volveu ainda ao guardianado em 
Taubaté. 

No seu govêrno erigiu-se a Ordem Terceira em Vila Rica. 
Desobrigo-me agora da promessa exarada no capítulo pri- 
meiro dêste livro de estampar aqui a patente com que êste 
Provincial proveu Fr. Antônio de Santa Maria no cargo de seu 
comissário em Minas. 



(18) A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Rio de Janeiro, 
ereta em 1675 por breve de Clemente X, de 15 de julho, e instalada no Convento 
de Santo Antônio dois anos depois, teve por seu primeiro Provincial um religioso 
brasileiro, Fr. Eusébio da Expectação, carioca. 

O primeiro franciscano, mandado por esta Província às missões das Minas Ge- 
rais, foi Fr. Arcanjo da Ascensão, em 1705, o qual nesse tempo turbulento duas ve- 
zes fôra ameaçado de morte quando tratava de restabelecer a paz entre ambiciosos 
do ouro. Rower — O Convento de Santo Antonio do Rio de Janeiro, ed. 1945, págs. 
58 e 71. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



127 



Ei-la como se encontra no Livro de Patentes e Profissões, 
a fls. 2: 

PATENTE 

"Frei Antônio da Conceição, Pregador, ex-Leitor da Sagrada Teo- 
logia, Ministro Provincial atual e servo dos Religiosos Capuchos desta 
Província da Imaculada Conceição da Senhora do Rio de Janeiro: 
Ao nosso Caríssimo Irmão, ex-Leitor da Sagrada Teologia e ex-Custó- 
dio, Fr. Antônio de Santa Maria, saúde e paz em Nosso Senhor Jesus 
Cristo. 

Porquanto com grande mágoa do nosso espírito sabemos que al- 
guns de nossos irmãos, esquecidos de Deus, de si e da nossa Profis- 
são, vivem dispersos e apóstatas pelas Minas gerais e seus novos des- 
cobrimentos, sem que bastassem os amorosos brados de nossos an- 
tecessores para os reduzir ao grémio da Religião e cederem da sua 
apostasia, e desejando Nós caritativamente e quanto incumbe ao nos- 
so ofício atraí-los à vida religiosa e trazê-los ao caminho da salvação: 
como confiamos, mediante a misericórdia divina, na capacidade, boa 
inteligência, prudência, letras e virtudes de V.C. que obrará nesta di- 
ligência com o último esforço em serviço de Deus, Nosso Senhor, como 
bom filho desta Santa Província e amante da Religião para maior 
mérito seu lhe mandamos por Santa Obediência, em virtude do Es- 
pírito Santo, que tanto que receber estas Nossas Letras Patentes, ha- 
vida primeiro faculdade do limo. e Exmo. Sfir. General e do Exmo. 
e Revmo. Snr. Dr. Vigário Geral, Governador do Bispado, e implora- 
do todo o seu favor para obra tão pia e meritória parta logo para as 
ditas Minas, e em nosso nome e do nosso Rdo. Definitório convoque 
a todos os Religiosos que andam dispersos e apóstatas, e conferindo- 
lhes o benefício da absolvição os admoeste benignamente da nossa 
parte e os persuada a que se recolham a qualquer dos nossos conven- 
tos de sua maior consolação, livres e perdoados de tôdas as penas me- 
recidas por seus excessos, porque só queremos que cada um arrepen- 
dido dos escândalos, com que até aqui viveram, se doam e, mudando 
de vida, façam voluntária penitência, lembrando-se de que são filhos 
de tão Santo Padre. E porque, pelas distâncias, não será possível a 
V.C. acudir pessoalente a tôdas as partes, lhe concedemos que possa 
levar por seu companheiro ao Irmão Sacerdote Fr. João de Santa Ca- 
tarina e por êste lhes mandará V.C. intimar estas Nossas Letras, exor- 



128 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



tando-os a que não desprezem êste último brado de seu Pastor que 
benigna e caritativamente os convoca ao rebanho de Deus. 

E outrossim, como nas minas do Ouro prêto e em outros vários 
lugares se acham alguns noviços terceiros que, com impaciência nos 
suplicam a Profissão, também nomeamos e constituímos a V.C. nosso 
Comissário cum plenitudine protestatis para os professar, praticar- 
lhes a forma e obrigações da nossa Venerável Ordem Terceira da Pe- 
nitência, segundo os Estatutos da mesma e instruí-los com seus bons 
exemplos nos santos exercícios que esta Venerável Ordem costuma 
para salvarem melhor as suas almas, que é o fim para que Nosso Será- 
fico Padre São Francisco a instituiu e lhe concedemos nossa auto- 
ridade ativa e passiva em todo o tempo que exercitar esta nossa Co- 
missão, e completa que seja com a brevidade possível voltará para 
êste nosso Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. 

Dada no mesmo Convento em 28 de outubro de 1745, e selada 
com o sêlo maior da Província. Frei Antônio da Conceição, Ministro 
Provincial//Lugar do + sêlo //Por mandado do Nosso Caríssimo Ir- 
mão Ministro Provincial, Frei João do Rosário, Pro-Secretário." 

Desempenhando-se de parte da missão que o trouxe à 
Capitania da qual o investia a Patente que se acaba de ler, eri- 
giu Fr. Antônio de Santa Maria a Ordem Terceira em Vila 
Rica. O solene e auspicioso acontecimento ficou registrado no 
livro das Profissões e consta do termo seguinte: 

"Frei Antônio de Santa Maria, Religioso de Seráfico Patriarca 
São Francisco da Província da Imaculada Conceição da Sfira. do Rio 
de Janeiro, Pregador, Lente na Sagrada Teologia, ex-Custódio, Exa- 
minador Sinodal e Comissário Visitador cum plenitudine potestatis 
pelo Rm. P.M. Frei Antônio da Conceição, Ministro Provincial atual da 
mesma Província, 

Faço certo que sendo enviado por obediência do mesmo Rmo. P. 
Provincial a estas Minas gerais para efeito de criar, erigir e formar 
Ordem Terceira de Nosso Seráfico P.S. Francisco, assim e na mesma 
forma que recomendam os Sumos P.P. se estabeleçam esta nos luga- 
res onde não há Conventos de Nossa Religião pelos muitos serviços 
que a Deus resultam de exercícios tão santos; querendo dar princípio 
a esta santa obra, nesta capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões, fi- 
lial da Mrtriz de N. S. da Conceição desta Vila Rica, se juntaram gos- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 129 

tosa e voluntàriamente (entre as pessoas principais da mesma Vila) 
mais de oitenta irmãos terceiros da dita Venerável Ordem, professos 
segundo suas patentes em várias Províncias do nosso Reino e seus es- 
tados; os quais em santa e devota conferência, com grande prazer do 
seu espírito e estimável aceitação, mostraram o quanto era de seu 
agrado êste seráfico e tão santo instituto, de que resultaria a conver- 
são de muitas almas, em cuja congregação, por salvar melhor as suas, 
queriam ser admitidos e encorporados, protestando concorrer e aju- 
dar com suas esmolas para os divinos cultos, e venerações de N.S. Pa- 
triarca; e assistir devotos aos santos exercícios e práticas de sua San- 
ta Regra, de que se achavam esquecidos; pedindo em fé de tudo isto 
?e lhes escrevessem seus nomes, cognomes e domicílios de que se fará 
menção no fim dêste livro a fl. 278. E presidindo outrossim a esta 
Santa Conferência o Rdo. Dr. Félix Simões de Paiva, Capelão Fidalgo 
de S. Majestade, Comissário da Bula da Santa Cruzada e Vigário Co- 
lado da mesma Matriz e seu coadjutor com vêzes de Vigário o Rdo. 
Pe. João Soares de Albergaria, com louvável devoção, moto próprio de 
sua vontade, ofereceram a dita capela ou qualquer das de seu domí- 
nio, e a mesma Matriz para os exercícios santos, colocação de ima- 
gens dos Santos, suas solenidades e para todos os mais atos desta 
Santa e Venerável Ordem que com fervorosos desejos queriam esta- 
belecida nesta Freguesia, em fé de que suplicaram pública e devota- 
mente o Santo Hábito que logo lhe dei precedidos os seus desp. os e 
mais diligências que os estatutos da Regra desta Venerável Ordem 
para isso dispõem, de que se lhe fizeram assentos, como abaixo se vê 
neste livro que há de servir das recepções e profissões, como se verá 
adiante a fl. 106. E para constar desta verdade mandei escrever êste 
têrmo de atestação pelo Irmão Professo de nossa Província, Manuel 
Rodrigues Abrantes, Secretário deputado por mim para testemunhar 
em. todos os atos solenes e particulares enquanto se não elege Irmão 
Ministro e mais oficiais da Mesa. e escrever todos os assentos assim 
de profissões como de recepções e tudo o mais necessário a bem dêste 
Santo instituto, o que tudo se haverá por firme e valioso; e peço a tô- 
das as pessoas Eclesiásticas e Seculares assim o queiram observar. 
Vila Rica em a Capela do Sr. Bom Jesus dos Perdões aos nove dias de 
janeiro de mil setecentos e quarenta e cinco anos, digo quarenta e 
seis anos. E eu Manuel Rodrigues Abrantes, Secretário deputado pelo 



130 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



sobredito Rmo. Pe. Comissário que o escrevi e assinei//Manuel Ro- 
drigues Abrantes. 

Pela autoridade que temos, aprovamos e assinamos este termo, 
sanando a falta de aSinação do M.R.P. M. e Frei Antônio de Santa Ma- 
ria, 1.° Comissário Visitador desta Congregação. Em visita aos 20 de 
novembro de 1758./ /Frei Manuel do Livramento, Comissário Visita- 
dor Geral//." 

O nome de Fr. Antônio da Conceição, bem como o de Fr. 
Antônio de Santa Maria, recomendam-se ao reconhecimento 
dos Terceiros Franciscanos de Ouro Prêto. 

2 — Fr. Agostinho de São José. Provincial por eleição de 
17 de agosto de 1748, mostrou-se em todo o tempo de sua admi- 
nistração à altura do cargo com que o distinguiram os seus 
eleitores. Tomou a defesa dos índios nos Campos dos Goita- 
cazes; protegeu enèrgicamente seus confrades de Itu, calu- 
niados pelo Juiz de Fora da comarca; e determinou a recons- 
trução desde os alicerces do Convento de Santo Antônio, obra 
que foi rigorosamente executada de acordo com o projeto por 
êle próprio concebido. 

Com relação à nossa Ordem Terceira o que há, emanado 
deste Provincial, é uma Patente confirmando o Padre Bernardo 
Madeira no comissariado, e providenciando na sua possível 
sucessão. 

Eis na íntegra o texto da referida Patente: 

"Frey Agostinho de São José, Ministro Provincial e Servo dos Re- 
ligiozos de N.P.S. Francisco nesta Província da Immaculada Concei- 
ção do Rio de Janeiro &. Ao nosso Caríssimo Irmão em enristo o Re- 
verendo Doutor Bernardo Madeira commissario vizitador da venerá- 
vel ordem Terceira da Penitencia em vila Rica Saúde e paz em Nosso 
Senhor Jezus christo. O paternal affecto com que attendemos as jus- 
tas reprezentaçoens dessa venerável Ordem, nos motiva a que com 
entranhavel caridade condescendamos com as suas Suplicas, e lhe 
franqueemos benignamente os provimentos necessários segundo a or- 
dem dos tempos, tanto para o seu augmento espiritual de prezente, 
como para a sua subsistência no fucturo, e a que quanto nos hé pos- 
sível lhe ministremos para os progressos do Servisso de Deos, todo o 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 131 

nosso favor e auxilio: E porque nos hé manifesto, o zello, Religião, 
prudência, e actividade com que v. C. procede no actual exercicio de 
nosso Commissario vizitador nessa venerável ordem, primeiro que tu- 
do o confirmamos, e de novo o reelegemos no mesmo exercicio em- 
quanto lhe for possivel, e as forsas do espirito lhe ministrarem alentos 
á fragilidade da natureza, e não detreminarmos o contrario: e lhe 
louvamos e gratificamos as laboriozas fadigas com que hâ servido a 
essa venerável ordem, e outra vez lhe recomendamos a sirva, favore- 
ça, e Doutrine de hoe em diante com mais vigorozas forsas para maior 
gloria accidental de Deos nosso Senhor, complacência de N.S.P., é me- 
to singular seu. Em segundo lugar como nos consta que V. C. está 
diantado em annos e com decadência na saúde, nos pareceo eleger, 
nomear, e instituir, faltando V.C., por nossos Commissarios Vizitado- 
res nessa venerável ordem cum plenitudine potestatis, assim e na mes- 
ma conformidade que determinão os Sumos Pontifices nas terras onde 
não há conventos da nossa ordem, aos nossos carissimos Irmaons em 
Christo ao Reverendo Doutor Antonio Jozé Correa e faltando este, ao 
Reverendo Padre Antonio Jacome, aos quaes e a cada hum concede- 
mos a nossa benção, e todos os mais poderes in solidum para o pleno 
exercicio de nossos Commissarios vizitadores assim como está deter- 
minado pelos Summos Pontifices expressos na Palestra da Peniten- 
cia, esta mesma nossa Patente queremos e mandamos, que faltando o 
Reverendo nosso Commissario o Doutor Bernardo Madeira, fique su- 
bstabelecida cum eádem plenitudine potestatis no nosso Reverendo 
Irmão o Doutor Antonio Jozê Correa, e faltando este no Reverendo 
nosso Irmão o Padre Antonio Jacome, o que nos farão a saber. A to- 
dos e a cada hum recomendamos a vigilância, zello e affecto Pater- 
no sobre esse rebanho de Jezus christo, sendo instrumentos affectivos 
e effectivos de que cada hum dos nossos Irmaons existentes e futuros 
instruidos com seus bons exemplos nos santos exercicios dessa Vene- 
rável ordem consigão o ditozo fim, para que nosso S.P. a instituio e 
criou; e para que mais mereção lhe impomos o mérito da Santa obe- 
diência e com o mesmo mandamos a todos os nossos Irmaons aos 
quaes será lida esta no primeiro acto da ordem, os reconheção por 
seus legitimos Commissarios Vizitadores, e lhes tributem aquella obe- 
diência directiva segundo determinão a regra e constituçoens da mes- 
ma Ordem. Vltimamente nos pareceo eleger e criar e instituhir para 
Secretários em primeiro lugar ao nosso Irmão Francisco Barbosa de 



:32 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Figueredo por exacta informação que temos da sua capacidade, ageli- 
dade, e merecimentos, e faltando este, ao nosso Irmão Antonio Jor- 
ge Martins, e por falta deste, ao nosso Irmão o Lecenciado Jozê Felix 
Moreira: a todos e a cada hum recomendamos o individuo exercicio, 
e especial desempenho de suas obregaçõens: e para lhes augmentar- 
mos o mérito, lhes mandamos com o da Santa Obediência acceytem 
com promptidão este honorifico officio, succedendo hum na falta do 
outro na conformidade da nossa determinação expressa nesta nos- 
sa Patente; porque assim florecerâ a ordem em virtude, e conseguirão 
nossos Irmãons carissimos o fim para que a buscarão: tendo certa a 
protecção de Nosso S. Patriarcha que a todos os seus verdadeiros fi- 
lhos, que são os humildes e obedientes, encaminha a eterna Bemaven- 
turança. Dada neste Convento de Santo Antonio do Rio de Janeiro 
aos trinta de Novembro de mil setecentos quarenta e nove, e sella- 
da com o sello mayor da Provincia = Frey Agostinho de Sam Jozê — 
Ministro Provincial = Loco + Sigili = Frey Jozê de Santa Maria Sil- 
va = Pro-Secretario." (Livro de Patentes, 7). 

3 — Fr. Manuel de São Roque. Provincial de 1751 a 1754. 
A Ordem não teve correspondência com este seu superior, o 
que lhe foi a ela duramente exprobrado pelo Provincial do 
triénio seguinte, como iremos ver em continuação. 

4 — Fr. Arcângelo Antônio de Sá. Religioso de apreciada 
cultura. Leitor de Teologia em São Paulo e no Rio de Janeiro. 
Provincial de 1754 a 1757. 

Em Vila Rica, por êsse tempo, lavrara a discórdia no seio 
da Ordem. Bem que procure defender-se incriminando "qua- 
tro malévolos" que não menciona (19) é fora de dúvida que a 
Ordem não se inocenta de haver interrompido relações com a 
Província, tornando-se por isto culpada de nulidades e privan- 
do-se da orientação e das bênçãos do seu prelado. 

Ciente do que ia por Vila Rica, procura o Provincial ata- 
lhar os males do presente e preveni-los para o futuro. E vale- 
se de um ensêjo que se lhe oferece no momento oportuno. 

Jornadeava para Goiás o Governador e Capitão General 
daquela capitania, Conde de São Miguel, que incluirá Vila Rica 
no seu intinerário. 



(19) Serão Frei Manoel do Livramento, Padre Vila Nova, Rodrigues Abram 
tés • A. Jor«e. 



SÃO FRANCISCO DK ASSIS DI OURO PBÊTO )38 

Desde Lisboa trazia o conde como seu capelão um frade 
franciscano. Serve-se Frei Arcângelo do coirmão, a que o 
acaso de uma situação de destaque revestia de incontestável 
prestígio, e comete-lhe de concêrto com aquêle Titular o en- 
cargo de visitador extraordinário da Ordem em Vila Rica. 

Coroou-se de inesperado êxito a visita de Frei Luís de 
Santo Agostinho. Assim se chamava o capelão de Dom Álvaro 
José Botelho Xavier de Távora. Devia ter se revestido de desu- 
sada e impressionante solenidade a visita inaugural à Ordem, 
assistida que foi pelo referido Conde, acompanhado de certo 
das mais graduadas autoridades de Vila Rica. 

De tudo dar-nos-ão pormenorizada notícia os documentos 
que seguem: 

"Frei Arcângelo Antônio de Sá, ex-Leitor de Prima em a Sagrada 
Teologia, Qualificador e Comissário de Santo Ofício, ex-Custódio, e 
Ministro Provincial desta Província da Imaculada Conceição do Rio 
de Janeiro, e servo de todos os Religiosos. 

Aos nossos Caríssimos Irmãos Terceiros, assistentes em Vila Rica 
e seus distritos, saúde e paz em N. S. Jesus Cristo que de todos é ver- 
dadeiro remédio e salvação. 

Por quanto, não sem grande aflição do nosso espírito, se tem fei- 
to pública e notória a grande decadência e deplorável estado em que 
se acha essa Venerável Ordem Terceira pelas malignas sugestões com 
que o comum inimigo das nossas almas procura perturbar os obedi- 
entes e zelosos ânimos de VV. CC. sugerindo em seus benignos e pie- 
dosos corações altivos e soberbos pensamentos para que neguem a de- 
vida obediência aos seus legítimos superiores, e assim padeça o re- 
banho do Senhor a êles cometido. 

Isto sucede na presente ocasião nessa Venerável Ordem, pois de- 
vendo W. CC. em todos os Capítulos e Congregações desta Santa Pro- 
víncia a quem são sujeitos fazer a sua postulação, como se costuma, 
mandando a nominata de três Irmãos Sacerdotes professos na mes- 
ma Ordem para seus Comissários, para que o Prelado maior com o 
seu Definitório, segundo o Breve Apostólico que alcançaram as Or- 
dens Terceiras, lhe nomeie dos três postulados por VV. CC. o que me- 
lhor lhe parecer para seu Comissário Visitador e presidente das suas 
eleições, o fizeram W. CC. tanto pelo contrário que em todo o triénio 



134 



CÔNEOO RAIMUNDO TRINDADE 



de nosso antecessor celebraram eleições, aceitaram noviços, fizeram 
profissões e exerceram todos os mais atos da Ordem tendo expirado 
a jurisdição de seu Comissário Visitador no Capítulo Provincial ante- 
cedente, sem recorrerem nem conhecerem ao novo Prelado para que 
os prove, se de Comissário que, com jurisdição, presidisse e confirmas- 
se os seus actos Capitulares, e sendo VV. CC. advertidos de todos es- 
tes erros e nulidades pelo nosso antecessor continuaram com manifes- 
ta displicência do seu Prelado e da obediência que lhe deviam na sua 
tenacidade, e ainda a nós fizeram o mesmo, porque depois de os ad- 
moestarmos por uma carta das suas nulidades e lhe suspendermos 
tôda nossa jurisdição, exerceram W. CC. os atos que lhes pareceu 
sem apresentar em Mesa, nem fazer caso das letras em que com pa- 
ternal amor e só com os olhos em Deus e no bem das suas almas os 
advertíamos. O que visto por nós e desejando como vigilante pastor 
obviar a tantos males, com que o demónio intenta a perdição daque- 
las almas que no rebanho seráfico nos estão cometidas; e pela gran- 
de distância em que estamos não podemos pessoalmente remediar 
nem acudir a tanta ruína espiritual: pedimos e suplicamos ao M.R.P. 
M. e Frei Luís de Santo Agostinho, religioso observante e professo em 
nossa Seráfica Religião e filha de Santa Província de N. Pe. São Fran- 
cisco da Cidade de Lisboa, que, por essas Minas vai de passagem, qui- 
sesse por serviço de Deus aceitar o ofício de N. Comissário Visitador, 
a quem delegamos todos os nossos poderes, pro hac vice tantum, em 
semelhantes casos necessários para que cum plenitudine potestatis, 
que lhe cometemos nessa Venerável Ordem Terceira de Vila Rica pos- 
sa fazer-lhes nova eleição de moto próprio, para a qual lhe concede- 
mos a nossa autoridade e como nosso verdadeiro Comissário Visita- 
dor presidir-lhe em todos os seus atos enquanto não partir dessa Vila; 
nomear-lhe por seu Comissário Visitador em sua ausência um dos 
Rdos. Irmãos Sacerdotes, professos nessa Venerável Ordem, que mais 
digno e capaz lhe parecer, sanar-lhe algumas nulidades e finalmente 
serenar-lhe as suas consciências; pois fiamos do seu grande zêlo, ciên- 
cia e prudência obrará em tudo como verdadeiro filho de N. Sto. Pa- 
triarca. 

E para que W. CC. não fiquem sem mérito lhe mandamos por 
santa obediência aceitem e reconheçam ao sobredito Rdo. Pe. Mes- 
tre Fr. Luís de Santo Agostinho por nosso legítimo Delegado e seu 
verdadeiro Comissário Visitador; como também ao Rdo. Sacerdote que 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 135 

em sua ausência deixar eleito, ao qual concedemos a nossa bênção e 
todos os mais poderes in solidum para o pleno exercício de nosso Co- 
missário Visitador, assim como está determinado pelos Sumos Pon- 
tífices, expressos na Palestra da Penitência; o qual poder exerçerá áté 
se celebrar Congregação intermédia na Província : à qual devem man- 
dar a sua nominata e fazer a sua postulação de Comissário Visitador 
ao Rdo. Definitório, como é uso e costume em tôdas as nossas Ordens 
Terceiras. E com paternal afeto e caridade advertimos a W. CC. se 
abstenham em cair em outros erros semelhantes para não dar gôsto 
ao demónio; porque desta sorte florescerá a Ordem em virtudes, e 
conseguirão W. CC, meus Irmãos Caríssimos, o fim para que a bus- 
caram; terão certa a proteção de N.Sto. Patriarca que a todos os seus 
erdadeiros filhos, que são os humildes e obedientes, encaminha para 
a Eterna Glória. Dada neste Convento de Santo Antônio do Rio de Ja- 
neiro, aos 28 dias do mês de maio do ano de 1755, sob nosso sinal e 
sêlo maior do nosso ofício. Fr. Arcângelo Antônio de 5á//L.-f S.// Por 
mandado do N.C.I. Ministro Provincial, Fr. Manuel da Conceição, Pro- 
Secretário da Província." (L.° de Profissões, 5 v.). 

"Nossos Caríssimos e Snrs. Irmãos Terceiros: A graça do Espíri- 
to Santo assista a W. CC. Como se me pedem os papéis que dessa Ve- 
nerável Ordem nos remeterão os nossos Caríssimos Irmãos que atual- 
mente servem de Ministro e Comissário; serve esta de os acompanhar 
e dizer a W.CC. que o grande respeito e valimento do limo. e Exmo. 
Sr. Conde de São Miguel, Governador das Minas, acabou comigo o 
dar eu uma Patente minha, em a qual concedo todos os meus pode- 
res ao seu Rdo. Capelão, o Pe. Fr. Luís de Sto. Agostinho, para que, 
como meu comissário visitador delegado possa fazer nova eleição e 
serenar as grandes confusões e nulidades com que o demónio tem per- 
turbado essa Venerável Ordem e a seus filhos, como tudo melhor 
constará da dita Patente, à qual se W. CC, como verdadeiros filhos 
de N. Seráfico Patriarca, quiserem obedecer, e reconhecerem a obe- 
diência que devem a seu verdadeiro Superior, alcançarão a bênção 
do mesmo Santo Patriarca, e nossa; aliás, lhe suplico pelo amor de 
Deus busquem o melhor caminho da salvação das suas almas e não 
procurem distrair a nossa com perturbações do serviço de Deus que 
nos está cometido na Vinha do Senhor e govêrno desta Santa Pro- 
víncia. 



CÓNEGO BAIMUNBO TRINDADE 



O meu zêlo e espírito que me levava com os olhos em Deus a se- 
renar essa Ordem era só por meio de uma pauta que me mandassem 
com tôda a clareza e não confusa, como ma remeteram, de todos os 
Irmãos dessa Ordem, as suas antiguidades e os lugares que tinham 
servido para eu então fazer eleição de moto próprio; porém, por aten- 
ção ao dito senhor, cometo a minha autoridade, e com as maiores en- 
tranhas de piedade, como se verá nas nossas Letras Patentes; o que 
não devia fazer, por não servir de exemplo às mais Ordens Terceiras, 
que para o diante por ilusões do demónio venham a desobedecer-nos, 
a Nós ou aos nossos sucessores, vivendo os nossos Caríssimos Irmãos 
com tanto gravame das suas conciências, que era o que mais sen- 
tíamos; agora só pedimos a Deus Nosso Senhor que, reconhecendo 
W. CC. o seu êrro fiquem pacificados e em graça do mesmo Senhor 
que os guarde. Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 15 de 
junho de 1755.// De W. CC. Ir. e servo em o Sr. Fr. Arcângelo Antô- 
nio de Sá, Min. Provincial". (Doe. avulso-Pasta 140). 

Termo de Visita de Frei Luís de Santo Agostinho 

"Aos cinco dias do mez de julho deste presente anno de 1755, na 
Casa do Capitulo da Venerável Ordem Terceira da Penitencia de N. 
P.S. Francisco ereta nesta Igreja Matriz de N.S. da Conceição de 
Vila Rica, onde se acharão presentes o M.R.Pe. Mestre Frei Luiz de 
Sto. Agostinho, religioso observante, filho da Sta. Província de Por- 
tugal, e também o Rdo. Pe. Bernardo Madeira, o Capm. José Gomes 
da Rocha, o Rdo. Pc. Antonio Jacome, Manuel da Silva Couto, o Te- 
nente João de Siqueira, Miguel José Lopes, Luis Pita Loureiro, Do- 
mingos Dias Lopes, João Soares, Bento Leite, José da Mota Araujo, 
que dizem serem Comissário, Ministro, Ministros e mais oficiais da 
Mesa e logo, sendo lida por elle dito R. Pe. Mestre Fr. Luiz de Santo 
Agostinho as Letras Comissárias do Rmo. Pe. Mestre Fr. Arcângelo 
Antonio de Sá Ministro Provincial da Santa Província da Immacula- 
da Conceyção de N. Senhora do Ryo de Janeiro pelos quaes consti- 
tuhia Commissario Vizitador pro hac tantum vice, cum plenitudine 
votestatis, para como seu delegado vizitar e emendar todos os erros, 
excessos e nulidades, que achasse introduzidas nas eleyçoens e mais 
actos da dita Venerável Ordem Terceira principalmente para eleger 



Sû FRANCISCO DE ASSIS D E OURO PRETO 



137 



comissário que legitimamente ficasse prezidindo na dita Ordem e as- 
sistir as eleyçoens e mais exercidos dos Estatutos delia, o que tudo 
constava das letras da referida Comissão, que ao diante será copia- 
da, ficando conservada no Archivo a própria Letra Comissária ou 
Patente; e sendo pelo dito R.Comissario, ministro e mais officiaes 
da Meza, ouvida a referida Comissão logo por elles foy dito que obe- 
dientemente reconhecião a elle M.R.Pe. Me. Fr. Luiz de Santo Agos- 
tinho por seu legitimo Comissário Vizitador e que com a maior hu- 
mildade e reverencia se sujeytavão a toda a reforma, que a Sua Rma. 
lhe parecesse justa e necessária e mais conforme ao aumento e es- 
tabilidade e conservação da Venerável Ordem Terceira que professa- 
vão e que suposto a elles ditos Irmãos parecia que estavão canoni- 
camente eleytos para officiaes da prezente Meza por virtude da legi- 
timidade do Rdo. Pe. Comissário Bernardo Madeira e confirmado 
pelo M.R.Pe. Fr. Antonio de Santa Maria, Comissário cum plenitu- 
dine potestatis e instituhidor da mesma Ordem, e pelo Rmo. P. Me. 
Fr. Antonio da Conceyção, Ministro Provincial da mesma Provincia 
e concentim. to de seus Sucessores sem limitação de tempo. Com tudo 
para mayor demonstração da sua resignação e obediência querião e 
instantem. te suplicavão e postulavão elegesse o Comissr. 0 que jul- 
gasse maz idóneo p. a lhes preziclir e os dirigir santamente em to- 
dos os seus actos assim no Espiritual como no temporal, como tam- 
bém não duvidavam que elles dittos off. es ficassem supprimidos dos 
empregos em q. actualm." estavão servindo naquella Meza se assim 
foce conveniente ao mayor serviss de Deos cm rezão de q o se a 
mayor zello e empenho hera o aum.'" e concervação da sua Venerá- 
vel Ordem, para q. esta crescesse e florecesse em fructos do agrado 
do mesmo Sfir. e de N. Pe. São Fran.'" o que sendo ouvido pelo M. R. 
P*. M. p Fr. Luiz de S.<" Agostinho e bem informado da Capacidade, 
Merecim. to e Virtudes do R. P.« Bernardo Madr. a que com especialís- 
simo e notório espirito tinha servido e serve a mesma Venerável Or- 
dem novam. ,e , se nessr. 0 foce, o nomeava por Legitimo Com. 0 delia, 
p. a lhes prezidir e dirigir na forma dos Estatutos e Capitulos de Vi- 
zita, e outrosim nomeava p. a Ministro e mais off. ,s os mesmos Irmãos 
3. 0S que prez. ,e m.' 2 se achavão servindo cada hum no emprego em que 
, 3 stá por tempo de hum anno entrando neste o tempo que tem corri- 
do desde o dia da sua posse declarando por validos todos os actos, 
asseytaçoens de Novissos e Profiçoens, e sarando todas as nulidades 



1*8 



(ÍÔNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



que nelles tenha havido no d.° tempo, e isto em attenção aos ânimos 
sinceros dos mesmos Irmãos, e fervorozo dezejo de servirem ao N. P. 8 
São Fran. co sobmetendo-se louvavelm. te ao precyto e obediência q. de- 
vem dar ao Rm.° P. e Prov. al seu Supprior, para q. por meyo desta 
Comissão e Vizita ficarem revalidados e constituhidos de novo, se 
ness. 0 foce, os meyos mais conducentes p. a a boa concervação e 
aum. to desta Venerável Ordem afim também de se destruhirem e 
desvanecerem as inquietaçoens, e dezordens, que se tinhão fomen- 
tado sem duvida por diabólicos sujestoens dirigidas à aruinarem as 
almas e a diciparem o grande fruto espiritual que rezultava da exis- 
tência da mesma Ordem: em fé, e verdade de todo o referido, eu Fr. 
Caetano da Soledade como Secretario da Vizita nomeado pelo M. R. 
Pe. M. e Fr. Luiz de Santo Agostinho Com. 0 Viz. or fiz este tr.° que as- 
signou com os ditos Irmãos para ante o Ill. mo e Ex. mo S. r Conde de 
São Miguel Alvaro Jozé Bottelho X. er de Távora Gov. or e Cap. am Gen. al 
da Capitania de Gouyaz e do D. r Fran. co Angelo Leytão Ouvidor G. al 
desta Com. ca que se acharão prez. tes á publicação da Patente ou Le- 
tras Comissorias e á conformidade e rezignação dos mesmos Irmãos 
que com reverencia e humildade as asseytarão, e prometerão em todo 
o tempo aprezentar quando for precizo, p. a constar da sua verdadr. a 
cauza e effeyto. Eu Fr. Caetano da Soledade Secretario nomeado para 
esta diligencia o escrevi. V. a Rica em Meza 5 de Julho de 1755. 

Fr. Luiz de Sancto Agostinho — Com. Viz. or 

Conde de São Miguel 

Franz 0 Angelo Leitão 

Bern. do Madr. a — Com.° Viz. or 

Joze Gomes da Rocha — Ministro 

P. e Antonio Jacome — Vice Min. 0 

Manoel da S. a Couto — Secretr. 0 

Miguel Jozê Lopes — Sindico 

Domingos Dias Lopes 

André da L. a e Costa 

João Soares de Carv. 0 " (L.° de Eleições — 8 v.). 

"Rmo. Snõr. Pe. M.* Fr. e Arcangello Antonio de Sá, Digm.° Min ° 
Prov. aI 

Aos 29 de junho chegou a esta villa o Ulmo. e Exmo. Sfior. Con- 
de de Sam Miguel e com elle o m.'° R. do P. e M. e Fr. e Luis de Santo 
Agostinho Religioso observante e tendo Nos notissia que os ditos Se- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 139 

nhores trazião poderes de V. Rma. p. a fazer tudo o que estivesse a 
bem desta vn. el ordem logo sem demora foi nosso P. e Com. 0 e o Irmão 
Sfir. Ministro dar obediência em nome de toda a Meza e sujeytar-se 
ao que Sua Rma. com o Sfir. Conde quizesse fazer detriminar o d.° 
R. do P. e M. e Fr. e Luiz de Santo Agostinho a vizita em 4 de Julho e 
com infeito se fez e que em 5 se achasse a Meza p. a sertas cauzas 
que tinha para alegar. Aceitamos a visita com toda a humildade. No 
dia seguinte juntouce a Meza, e chegando o Sfior. conde junto com 
o Rdo. P. e Vizitador e o Rdo. P. e Dom Antonio e o Dr. Ouvidor geral 
Francisco Angello Leitão e na presença de todos leo o dito Rdo. P. e 
Vizitador as Letras Comissárias de V. Rma. em que lhe dava todos 
os poderes nesta Venerável Ordem e ouvidos por todos Nos as ditas 
Letras Nos sujeitamos com a mais prefunda humildade e tudo o que 
o dito Pe. e Snõr Conde quizesse fazer e ouvidos por elles ditos esta 
nossa obediência detreminarão o que consta da copia do tr.° que re- 
metemos como também a dos Capitulos da vizita que o dito P. e Vi- 
zitador Nos deixou e da aprovação das contas; também remetemos 
o L.° dos Estatutos por onde nos regemos tirados fielmente dos da 
venerável ordem 3. a da cidade (do Rio de Janeiro) para V. Rma. os 
mandar confirmar e comferir e aprovar, ou reprovar os que lhe pa- 
recer e no fim dos que tiramos das dessa Ordem fizemos também al- 
guns novos comforme o estado de pains que no dito L.° vão a fl. 60 
the fl. 61. A 8 do corrente recebemos a carta de V. Rma. escripta em 
15 de junho do prezente anno e com esta as patentes que a V. Rma. 
tínhamos mandado da qual fizemos toda a estimação por vir emre- 
quecida de amor Paternal como empenhada no bem espiritual desta 
Santa ordem e com a mais perfunda humildade recebemos os amo- 
rozos comçelhos que nos Dã como filhos obedientes. E no mais atra- 
zado não fallemos por não mulestarmos a V. Rma. sô nesta rendidos 
e prostados aos pês de tão Benigno Pay e Meritissimo Prelado lhe 
rendemos as graças da mercê que nos fez em nos mandar Vizitador 
que vice e examinasse Nossa innocencia e que constasse por este 
meyo a todo este povo e a V. Rma. que tudo o que coatro malebolos 
nos emputavam hera falso e em the aquy Snõr ouvirão estes indig- 
nos filhos com toda a humildade as queixas de hú Pay irado contra 
elles e com a mais perfunda sumição pedem perdão de todos os erros 
passasos e portestão não cahirem em outros e p. a o fazerem com 
mais segurança visto hirem o L.° dos Estatutos p. a V. R. comfirmar 



140 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



esperamos que com amor de Pay nos mande por no dito livro o que 
havemos de observar com os nossos Prelados para não suceder outra 
de se queixar desta ordem o seu Prelado ao mesmo tempo que esta- 
mos na fê que não tinhamos dado causa e se aos filhos lhe não está. 
mal pedir a seu Pay o que lhe precizo nem os Pais se podem quei- 
xar desta ação por terem de obrigação secorrelos; pedem estes filhos 
a V. Rma. como Pay que não olhe para queixas que contra elles fa- 
cão ânimos mal intencionados sumergidos talvez pelo inimigo cruel 
desta Sta. Ordem pellos mtos. servissos que a Deos resulta dos Exer- 
ci cios que ao mesmo D. s se faz nella antes sim se informe exatamen- 
te de quem tem a rezão que sô desta forma não padecerá aos nossos 
sinceros ânimos a aSim esperamos da innata piedade de tão Be- 
nignino Pay e Meritissimo Prellado a quem estes indignos filhos ren- 
dem as grassas pellas merçes recebidas e ficão pedindo a Deos e a 
nosso Patriarcha lhe aumente os annos da vida com muitas enchen- 
tes de Graça. Villa Rica em meza de 13 de julho de 1755 annos. De 
V. Rma. os mais indignos súbditos e servos em o Sr. — Bernardo Ma- 
deira, Com. 0 Vizitador//.7o2ê Gomes da Rocha, Ministro/Pe. Antonio 
Jacome, vice-Min. 0 / /Manoel da Silva Couto, Secretrio/ /Miguel José 
Lopes, Sindico//Definidores Luis Pinto Loureiro de Sousa/ /Antonio 
José de Lima Couto/ /Domingos Dias Lopes/ /João Soares de Carva- 
lho/ /Bento Leite José da Mota Araujo, vigário//." 

5 — Fr. Francisco da Purificação (1758-1761). Foi êstc 
Provincial quem nomeou Fr. Manuel do Livramento Comissá- 
rio e Visitador Geral das Ordens Terceiras da Penitência em 
Minas, e por isto irá pesar sôbre êle boa parte das responsa- 
bilidades daquelas lutas de que foi motor o frade do Sumilouro. 

6 — Fr. Manuel da Encarnação (1761-1764). Iniciou-se a 
administração dêste Provincial quando em Vila Rica ia mais 
inflamada a guerra provocada por Fr. Livramento e prosse- 
guida pelo comissário Vila Nova. 

Vimos já que não corresponderam totalmente a seus votos 
e esperanças as medidas que Fr. Encarnação tomou para a paci- 
ficação dos espíritos. 

Também vimos que tocou a Fr. Encarnação sofrer pri- 
meiro as demonstrações de franca rebeldia por parte de nossa 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



141 



Ordem, ufana em excesso de suas conquistas, junto ao ministro 
Geral da Ordem. 

Há no arquivo, relativos ao tempo dêste Provincial, uns 
autos de apelação ante omnia (20) processados no juizo ecle- 
siástico do bispado. São quase ilegíveis, mas percebe-se, atra- 
vés do que se pode interpretar, que a Ordem quis precaver-se 
contra possível reação do seu prelado, o que constituía uma 
nova e gravíssima afronta. 

Uma questão começou a agitar-se nessa época — a das 
mortalhas — em que a Ordem, dizendo-se estribada em seus 
privilégios e concessões, afrontou a autoridade de seus pro- 
vinciais. 

Tão manifesta, em suma, a atitude provocadora dos nos- 
sos Terceiros que o bondoso Fr. Manuel da Encarnação chegou 
a insinuar-lhe que se desligasse de uma vez da obediência à 
Província (Cf. Capítulos II e III). 

Entretanto Fr. Manuel da Encarnação, como sucederá a 
outros Provinciais, talvez mais enérgicos, ao fim de seu 
governo, encontrava-se surpreendentemente manso e condes- 
cendente, rendido francamente à Ordem. 

Registemos aqui alguns documentos desse período: 

Carta do Provincial (Copiador 18 v.). 

"M. R. P. Comissário, Sr. Irmão Ministro e mais Irmãos da Mesa: 
O Rdo. Pe. Joaquim de Sena me entregou uma carta de VV. CC. 
acompanhada com o treslado dos Estatutos, digo, dos capítulos que 
lhes ordenei me apresentassem, ação que lhes louvo, porque os meus 
irmãos terceiros merecem muito obediência aos seus Supe- 

riores e por isso o demónio, leão sagaz que, como diz São Paulo sem- 
pre anda circuindo as nossas almas para devorar aquela que encon- 
trar descuidada tanto cuida em as separar da obediência e privá- 
los dêste inefável merecimento, qual é uns homens seculares volun- 
tariamente se sacrificarem à obediência do seu Superior, figurados 
èstes que são VV. CC. naqueles quatro misteriosos animais que viu 
o profeta Ezequiel tirando pela carroça da glória de Deus sem prizão 



(20) A apelação aiitc omnia corresponde ao preceito cominatório do direito 
moderno. 



142 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



alguma ou instrumento que à carroça os ligasse, caminhando sem- 
pre sem voltarem jamais atrás, advertência que faz o mesmo Profe- 
ta porque o espírito do Senhor em que levavam os olhos assim os di- 
rigia levando atrás de si a ostentação da glória de Deus, na qual 
carroça se vê decifrada a Ordem Terceira de Nosso Smo. Patriarca 

da qual em todo o mundo de Deus a glória mais fina e 

por isso o comum inimigo que melhor conhece o fino dessa glória 
naquele voluntário arbítrio com que os filhos terceiros de São Fran- 
cisco principiam a tirar pela carroça dessa glória com os olhos no 
espírito do Senhor que na realidade existe dos seus superiores põem 
tôdas as suas forças para que voltem obras e deixem de ser pregoei- 
ros da glória daquele Sumo Bem que os criou e com tanto amor as 
remiu em sua cruz. 

Êste, pois, o motivo por que lhes louvo esta ação primeira da 
sua obediência e quero também louvar a segunda que pelo manda- 
rem-me W. CC. um fiel transunto de algumas graças especiais que 
lhes concedeu o N. Rmo. Pe. Comissário Geral, como na sua discreta 
e compendiosa carta me afirmam, porque os filhos não devem ocul- 
tar aos pais o que êles lhe inquirem para própria utilidade sua e nes- 
tas concessões pode haver coisa que prejudique ao seu bem espiri- 
tual, como v.g. uma que me dizem ser concedida que é o enterra- 
mento em seus hábitos, poderia ser, mas não pôr-lhes anexa a indul- 
gência, que pode só conceder o Sumo Pastor, que só a concedeu aos 
hábitos da Ordem Primeira para algum género de alívio à pobreza 
que esta professa. 

Tendo lido todos os Capítulos da sua confirmação e também a 
discreta carta que os acompanhou e não posso por agora dar a tudo 
cabal resposta e satisfação pela pressa com que me pedem e ocupa- 
ções sem número anexas a êste lugar, hoje na realidade pesado; ve- 
nham as concessões referidas e a tudo darei cabal resposta, protes- 
tando-lhe da parte de Deus e N.P. São Francisco que não é minha 
tenção cavilosa ..." 

E prossegue, afirmando que não queria diminuir-lhes favo- 
res que fossem úteis à Ordem e ao bem espiirtual de seus fi- 
lhos. Esta carta é datada de 29 de abril de 1761. 

Em sua resposta, de 24 de maio do mesmo ano, discute a 
Mesa o caso das mortalhas e conclui por afirmar, com autori- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 143 

dade, costumes c concessão do Geral, que continuará na posse 
em que se acha. . . 

l. a ELEIÇÃO FEITA PELOS NOVOS ESTATUTOS 

Carta ao Provincial acompanhando a eleição 

"Nosso Muito Reverendissimo Padre Ministro Provincial = Com 
a chegada da aprovação dos Estatutos que esta Meza inviou ao Nos- 
so Reverendissimo Padre Geral e com a confirmação delle de trinta 
de Janeiro de mil sete centos e secenta procedemos na forma do dis- 
posto no Cap.° 14 § 1 e 3 a Eleição do Reverendo Commissario e Vice 
Commissario em a qual sahirão Eleitos a mais votos; para Comissá- 
rio Vizitador, o Reverendo Padre Manoel Pinto Freyre e para Vice 
Commissario o Reverendo Beneficiado João Baptista Cayado de Ma- 
cedo, como tudo consta da Eleição e Certidam dos ditos §§ dos Esta- 
tutos que nesta ocazião enviamos a V.P. M. Rda. para que se digne 
aprovar e haver por boa a dita Eleição: ficamos pedindo a Deos 
guarde a pessoa de V.P.M.Rda. pelos annos de seu dezejo. Villa Rica 
em Mesa de treze de Fevereiro de mil setecentos e sessenta e hum = 
De V.P.M. Rda. obedientíssimos Súbditos e Servos em o Senhor = 
Felipe Gonçalves Sam Thiago, Ministro// Domingos Thomé da Cos- 
ta, Vice Ministro// Jozé da Motta Araujo, Secretario//AfanoeZ Fer- 
nandes de Carvalho, Procurador Geral// Bento Leite, Sindico//-án- 
tonio Teyxeira Chaves, Definidor/ /Manoel Dias Guimarães, Defini- 
dor//7oam Ferreira da Silva Braga, Vigário do Culto Divino//Domm- 
gos da Rocha Ferreira, ex-Ministro/ /Antonio de Souza Mesquita, ex- 
Secretario //Jozé Freira da Fonseca, ex-Procurador Geral/ /Louren- 
ço Pires Ramalho, ex-Secretario //Francisco Jozé de Barboza Fruão, 
ex-Definidor//AfarcoeZ Ribeiro Alcanede, ex-Procurador// Pedro Gon- 
çalves Lamas, ex-Sindico/ /Manoel de Torres Lima, ex-Definidor// 
Bernardo Gonçalves Veiga, ex-Sindico//ManoeZ Alves de Azevedo, ex- 
Definidor/ /Custodio Francisco Moreira, ex-Definidor//. 

ELEIÇÃO 

Em nome de Deos omnipotente Padre Filho Espirito Santo; trez 
pessoas distintas e hum só Deos verdadeiro, e da Purissima Virgem 
Maria Senhora nossa Concebida sem Macula de pecado Original, e de 
Nosso Seraphico Patriarcha São Francisco = Esta hé a Eleição que 



144 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nesta Igreja e consistório desta venerável ordem Terceira se fez em 
o dia treze de Fevereiro deste prezente ano de mil setecentos sessenta 
e hum, pelo Irmão Ministro o Sargento mor Felipe Gonsalves Sam 
Thiago; estando completo o numero da Meza e seu Diffinitorio pre- 
cedendo o prepor o mezmo Irmão Ministro trez Reverendos Irmaons 
Sacerdotes dos quaez a mais votos sahio Eleito para Comissário Vizi- 
tador e Irmão Reverendo Padre Manoel Pinto Freyre, e para Vice 
Comissário o Irmão Reverendo Beneficiado João Baptista Cayado de 
Macedo, observandose em tudo o disposto no capitulo 14 § 1.° e 3.° 
dos Estatutos e assim se houve por feita finda e acabada a sobredita 
Eleição e logo selhe deo posse de seus cargos de que aSignarão termo, 
como consta do Livro delles, Villa Rica em Meza de treze de Fevereiro 
de mil setecentos e sessenta e hum annos, Eu Jozé da Mota Araujo 
Secretario no impedimento do actual Francisco Xavier de Souza, e 
por concepção da Meza a fis, escrevy e aSigney — Com o + sello — 
Felipe Gonsalves Sam Thiago (e os demais que assinaram a carta su- 
pra". (Copiador — 16). 

Carta de Fr. Manuel da Encarnação 

"M. R. Pe. Comissário, Sr. Irmão Ministro e mais Srs. da Mesa — 
A pressa com que se me pede a resposta de uma de 22 de abril que de 
VV CC. recebi a 27 de maio, não dá lugar a que expresse o amor com 
que venero a essa Ordem Venerável de Vila Rica, depois que experi- 
mentei a sua obediência e tive a certeza da paz com que vivem e da 
união com que edificam aos puros seculares com seus santos exer- 
cícios. 

Agradeço muito a VV. CC. o sentimento com que acompanharam 
a minha passada moléstia, de que já Deus me livrou, ainda que sem- 
pre mais ou menos gemendo com o pêso daquelas que comumente 
acompanham a sessenta e dois anos acompanhados de estudos e mais 
trabalhos e fadigas com que Deus quis sempre provar a minha pa- 
ciência. 

Não menos agradeço a VV. CC. o sincero afeto com que louvam a 
prudência que me querem atribuir, e quando assim seja de Deus é e 
só acho seja dado todo o louvor. Eu, meus Caríssimos Irmãos, sem- 
pre clamei, ainda que sem fruto, que os nossos irmãos terceiros não 
eram religiosos professos com aquela exata obediência que têm os Re- 
ligiosos aos seus Prelados, motivo por que deviam ser tratados com 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



145 



muita particular urbanidade, pois com esta os fariam obedientes 
como os mesmos religiosos; assim o experimentei em três anos que 
fui Comissário nesta cidade e agora com W. CC. sem que se agra- 
vem quando repreendidos no que é necessário, porque o mesmo es- 
pírito de Deus, que os guia a seguirem com liberdade à vida religio- 
sa e seráfica, os anima a sofrerem quando há modo no superior que 
os repreende. 

Vai a confirmação que pedem no seu Rdo. Pe. Vice-Comissário e 
vai em patente à parte, a qual W. CC. lhe darão, se assim fôr von- 
tade sua. 

Recebi o papel com os provarás do Libelo que W. CC. justamen- 
te puseram contra as loucuras e temerária ousadia dêsses pardos. Es- 
tão bons e doutamente ponderados; ficam em meu poder para fazer o 
que puder na matéria, quando venham por apelação ou agravo para 
esta cidade; cá está o mesmo pleito da Ordem da cidade de Mariana; 
falei aos três desembargadores a quem compete; são amigos e fica- 
ram de fazer justiça, porque era um desaforo, como um afirmou ti- 
nha visto no Rio das Mortes, porém que lhe parecia que não estava 
bem fundado o agravo, por falar só na procissão e não em os mais 
abusos, como W. CC. suponho será sôbre tudo; vai a procuração que 
W. CC. me pedem e de boa vontade lhes mando para que persigam 
com todo fundamento a tôdas as loucuras a que deu princípio a im- 
prudência do Rdo. Vigário do Rio das Mortes. 

Recebi a oferta que se contém na sua carta que muito lhes agra- 
deço por ser na ocasião da frota em que os Prelados maiores desta 
Província também têm suas remessas de despesas e quero dever a W. 
CC. que mandem o rascunho da certidão das Missas para ir muito 
conforme ao que é necessário para a sua aceitação em juízo. 

Eu fico como sempre muito certo para lhes dar gosto em tudo 
que fôr de seu serviço e bem espiritual de suas almas, mas também 
da glória de N. Smo. Patriarca, cuja bênção lhes envio e do agrado 
de Deus que os guarde por muitos anos. 

Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 27 de maio de 
1762. 

De W. CC. Irmão e servo muito venerador 

Fr. Manuel da Encarnação." 



146 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Despedidas de Fr. Manuel da Encarnação — ( Copiador — 37) 

"M.R. Pe. Comissário, M.R. Sr. Irmão Ministro e mais Irmãos de 
Mesa — Recebi a de W. CC. de 9 de outubro com a notícia da nova 
eleição que se fêz nessa Venerável Ordem e a certeza de que foi com 
tôda a paz e quietação, como esperava no zêlo dos Eleitores do que 
dou a Deus as graças pois só dêle pode dimanar tudo aquilo que é 
bom, a quem rogo lhes continue com os seus influxos para que nêles 
e com êles vão W. CC. seguros e alumiados ao pôrto de sua salvação, 
fim último a que os guiou a serem voluntàriamente e filhos do nosso 
Smo. Patriarca na sua terceira ordem, na chaga do seu lado figu- 
rada. 

Também recebi o extrato dos novamente eleitos, que suponho se- 
rão dignos e capazes para os lugares que essa Venerável Ordem dêles 
fia, aos quais recomendo muito que se lembrem daquela obediência 
que a Deus prometeram e guarda de seus divinos preceitos e nas mãos 
de um sacerdote nosso Comissário; e para que assim lembrados se- 
jam as suas operações dignas da vida eterna lhe envio a bênção de 
N. Smo. Patriarca e a tôda essa Venerável Ordem, e com júbilo inte- 
rior de minha alma confirmo a sua nova eleição e lhe dou todo o vi- 
gor, dispensando, quando seja necessário, em qualquer parte que se 
operasse por necessidade contra as leis e estatutos da Ordem. 

Em a mencionada carta suplicam VV. CC. que mande Patente de 
Visitador para visitar essa Ordem ao P. Pregador Fr. Fernando de 
São José, porque dizem W. CC. que lhes tem atraído os corações com 
o seu religioso procedimento, no que muito me glorio. Eu desejo do 
meu coração servir a essa Ordem Venerável, não só porque lhe vivo 
obrigadíssimo às suas atenções; mas também e muito principalmen- 
te pela notícia que me tem chegado, e tenho por infalível, segundo 
a qualidade dos denunciantes, que vivem os filhos dessa Terceira Or- 
dem como nosso Santíssimo Patriarca quer, com muita paz e sossê- 
go, sem escândalo, de tal sorte que são exemplares aos mais, motivo 
por que lhe desejo muito fazer a vontade em tudo, e ainda sendo as 
suas súplicas por ordem à sua reforma como é esta, só uma dúvida 
se me oferece que é a proibição real de religiosos irem às Minas, e di- 
zer-se que está a chegar o Governador para essa Capitania, sem em- 
bargo de que e de saber eu que na Côrte de Lisboa me capitularam 
por dar licença a Frades para irem a Minas: remeto a W. CC. a Pa- 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 147 

tente que quero ter o gôsto e jactar-me que em nada faltei ao que me 
pediam. Eu daqui a três meses acabo o meu governo; desejo deixar- 
Ihe no lugar quem os conserve com a mesma paz com que eu os dirigi. 
Está isto cá bastantemente embaralhado; rogo-lhe que nas suas ora- 
ções e atos em que merecem em sua Ordem roguem a Deus que tudo 
se faça conforme a sua divina vontade, que é o que só apeteço: o 
mesmo Senhor lhe dê a sua graça e guarde por muitos anos. Conven- 
to de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1763. De W. 
CC. Irmão e servo e especial venerador — Fr. Manuel da Encarna- 
ção." 

7 — Fr. Inácio da Graça Leão (1764-1767). As relações, 
pouco pacíficas a princípio, deste Provincial com os Terceiros 
de Vila Rica ficam bem definidas nos documentos que abaixo 
se transcrevem. 

Cansado por fim e de certo convencido da inutilidade de 
sua energia, rendeu-se, como seu predecessor, às pretensões da 
Ordem. 

Apesar do que decidiu o Capítulo Geral de Mântua a que 
Fr. Inácio faz referência na carta que se vai ler, os Estatutos 
aprovados em Madri mantiveram-se em pleno vigor e foram 
até reformados para melhor em 1788, como vimos no cap. II 
in Une. 

E agora leiamos os documentos seguintes que me pare- 
ceram os mais interessantes, relativos ao governo de Fr. Inácio 
da Graça. 

Carta do provincial 

"Caríssimo Irmão Ministro e mais Irmãos da Mesa da Venerável 
Ordem Terceira de Vila Rica: A paz e concórdia do Espírito Santo 
assista em W. CC. e disponha os seus corações para receberem as mi- 
nhas paternais exortações como devem ser recebidas em o Senhor. 

Poucos dias antes de partir para a visita desta dilatada Provín- 
cia recebi uma carta da Mesa pretérita dessa Terceira Ordem com a 
eleição do Rdo. Pe. Comissário e Vice-Comissário inclusa, à qual não 
dei logo resposta, porque, além dos cuidados da Visita me advertirem 
de outros cuidados, reconheci que, para responder de espaço, como de- 
via, o não podia fazer senão quando me recolhesse a êste Convento 



143 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



da laboriosa peregrinação a que me destinava o meu emprêgo, pois 
instava já o tempo que para ela tinha consignado. 

Sem ainda me ter recolhido ao retiro e sossêgo da minha cela, re- 
cebi outra de W. CC. em caminho, porque impacientes da demora 
não poderem sofrer o martírio da tardança; nela vejo a cópia da pri- 
meira e da dita eleição e juntamente a tábua capitular das eleições 
de Ministro, Definidores e mais oficiais que se elegeram no capítulo 
que celebrou essa Venerável Ordem no mês de setembro passado, pe- 
dindo-me a confirmação de tôdas as eleições sobreditas; e da mesma 
carta passei recibo a um negro que ma entregou, por entender que 
êsse instrumento lhe seria necessário para bem de seus requerimen- 
tos, pois não ignoro que com êste projeto intentaram W. CC. man- 
dar entregá-la por um Notário Apostólico e sem dúvida que se eu ti- 
vesse previsão dos futuros me anteciparia a essa diligência só a fim 
de lhe poupar as despesas. 

Agora que me vejo recolhido a êste Convento, com algum des- 
canso de tão contínuas fadigas, tomei a resolução de responder a W. 
CC, não somente sôbre as eleições de Comissários, mas também sô- 
bre seus Estatutos particulares e, além disto, sôbre as graças que, por 
Patente sua, facultou a essa Ordem o nosso Rmo. Ministro Geral, sem 
dúvida instado das suas súplicas e delas mal informado. 

Estranhou esta Província e estranhará sempre que, sendo essa 
Ordem filial sua, fêz uns Estatutos tão extravagantes que, pelas am- 
plas faculdades que contêm, ou se quer insentar dela, ou pretende go- 
vernar-se por umas leis que são contraditórias do regime ordinário, 
com que em todo o mundo se costumam reger as mais Ordens, que- 
rendo singularizar-se entre tôdas com prejuízo das regalias desta Pro- 
víncia e da autoridade de seus Prelados e ainda com desprêzo da mes- 
ma Regra que professa; e sendo os Ministros Provinciais autoridade 
para fazerem Estatutos em favor das Ordens Terceiras e acomodados 
à qualidade do país em que existem, quiseram VV. CC. recorrer clan- 
destinamente aos Prelados de longe, deixando os de perto, talvez por- 
que aquêles, como distantes, não podem examinar os inconvenientes 
que êstes examinam. 

Por esta razão os PP. Pro-Ministro e Custódia desta Província, 
no Capítulo Geral celebrado proximamente na cidade de Mântua, de 
que foram vogais, em que foi segunda vez eleito em Ministro Geral 
de tôda a Ordem o nosso Rmo. Pe. Fr. Pedro João de Molina, expuse- 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 149 

ram a Sua Rma. que da execução de semelhantes Estatutos e graças 
resultou a esta Província notável gravame e prejuízo; e que Sua Rma. 
se dignasse suspender a sua execução enquanto a mesma Província 
não fôsse ouvida, o que de fato se conseguiu, ordenando por seu des- 
pacho que nada de inovasse nessa Ordem, sem segunda resolução sua. 

Não se publicou até agora esta determinação do nosso Rmo. por 
descuido do Pe. Custódio que, trazendo-a do Capítulo Geral, a conser- 
vava em seu poder sem dela se lembrar. Agora, porém, a faço a W. 
CC. presente por ocasião de uma carta de 9 de março do ano preté- 
rito que pelos navios do Porto recebi do mesmo Rmo. na qual me diz 
que, tendo-se-lhe feito em Capítulo Geral aquela súplica não tivera 
até agora informação da Província, e que vendo-se instado de W. 
CC. sôbre a resolução dos seus recursos, se veria precisado a dar-lhe 
providência sem esperar informação minha, no caso que dentro de 
um termo competente lhe não fôsse enviada. 

Nestes têrmos pretendo na primeira ocasião, por via de direito, 
expor ao dito Rmo., em um Manifesto, que W. CC. não podem eleger 
Comissários, porque nas suas eleições não têm mais do que uma sim- 
ples nomeação, e muito menos elegerem Comissários Visitadores a 
Sacerdotes seculares, porquanto as Ordens Terceiras somente podem 
ser visitadas por Religiosos Franciscanos: que as visitas feitas por 
Religioso da Ordem Seráfica, de dez em dez anos, com as circunstân- 
cias que prescrevem os Estatutos são repugnantes ao Concílio Tri- 
dentino, às Bulas Apostólicas à mesma Regra e aos Estatutos gerais; 
e finalmente que seus hábitos não devem servir de mortalhas, nem 
lucram indulgência alguma as almas dos que nêles se sepultam amor- 
talhados. E no caso que em Castela se fechem os ouvidos aos racio- 
nais clamores desta Província, pretendo prosseguir a causa até a pôr 
na presença da Sé Apostólica, donde virá a última decisão, se W. CC. 
me não dispensarem dêste projeto na resposta que espero; ainda que 
não presumo que o nosso Rmo., sendo tão perito in rebus agendis, dei- 
xe de atender ao direito incontestável que assiste a esta Província 
para reclamar, nem o mesmo Rmo. podia permitir semelhantes 
concessões senão enganado dos irmãos terceiros dessa Ordem nas do- 
lorosas súplicas que lhe fizeram viciados com obrepções e sobrepções, 
as quais nos mesmos Estatutos se manifestem para facilitar o con- 
cesso. 

Pelo que, em virtude do despacho do nosso Rmo., do qual remeto 



Í50 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



a W. CC. êsse autêntico tirado do próprio original por um Notário 
Apostólico, não deve essa Mesa inovar coisa alguma pertencente aos 
Estatutos e graças concedidas; porquanto o mesmo Rmo. suspende a 
sua execução enquanto não fôr ouvida esta Província; e porque W. 
CC. já praticam as eleições de Comissários Visitadores em seculares, 
e as mortalhas de defuntos nos seus próprios hábitos, deve tudo re- 
duzir-se ao estado e costume antigo, porque nem os seus hábitos de- 
vem servir de mortalhas daqui por diante, nem W. CC. devem elegar 
Comissários, aliás será atentado tudo o que obrarem contra esta de- 
terminação. 

Por êste motivo não aprovo nem confirmo as eleições dos RR.PP. 
Comissário e Vice-Comissário feitas por VV. CC. na conformidade de 
seus Estatutos, antes as infirmo e reprovo. Mas para que essa Ordem 
não padeça detrimento na falta de diretor espiritual que a dirija ele- 
jo ao Mesmo Rdo. Dr. Pedro Pereira da Silva em Comissário, para que 
êste possa continuar o seu emprêgo em virtude da eleição que faço 
na sua pessoa, enquanto W. CC. me não remeterem uma nominata 
de três sacerdotes nomeados por sua Ordem, em primeiro, segundo e 
terceiro lugar para eu e o Definitório desta Província elegermos um 
dêles em Comissário e outro em Vice-Comissário, e o terceiro para 
substituir as vêzes na falta do primeiro e segundo e que exeeutar-se 
na primeira ocasião. Porém aprovo e confirmo tôdas as eleições de 
Ministro e Definidores e mais oficiais que se celebraram nessa Vene- 
rável Ordem no Capítulo pretérito, segundo a tábua capitular que 
W. CC. me dirigiram para que cada um no seu emprêgo respectivo 
continue no serviço de Deus e do N. Seráfico Pe. São Francisco com 
muitos provimentos espirituais para as suas almas. 

Tudo mais, meus Caríssimos Irmãos, que W. CC, fora desta dis- 
posição, intentarem não é outra coisa senão orgulho de alguns indi- 
víduos dessa Ordem, mal induzidos do demónio, que os incita a mo- 
ver litígios e contendas, para encontrarem o precipício aonde pro- 
curam o refúgio, e para acharem o veneno aonde buscam a triaga; 
porque assim como do mesmo orvalho, de que fabricam as abelhas o 
mel, fazem as aranhas veneno; assim a mesma Ordem que para uns 
é oficina de virtudes, é para outros oficina de pecados, ódios e vin- 
ganças; procedendo tudo não da Ordem, pois é muito santa e louvá- 
vel, mas sim de alguns filhos seus que, animados do espírito de so- 
berba e vaidade, mais querem que ela floresça em privilégios do que 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 151 

nos santos exercícios da obediência, e por isso a cada passo suscitam 
discórdias e contendas, sem lhe causar pendor na consciência a dis- 
tribuição das esmolas da Ordem mal aplicadas, as quais devendo ser- 
vir unicamente para o culto divino e exercício da caridade servem so- 
mente para dar de comer a letrados, requerentes, ministros e outros 
muitos que lhe chupam a substância. 

Eu não quero dessa Ordem senão as almas de W. CC. para Deus 
e por esta razão pretendo êste fim pelo caminho da obediência verda- 
deira que W. CC. devem ter a esta Província e aos seus Prelados pelo 
direito de a fundar e renuncio totalmente à sujeição que prescrevem 
os seus Estatutos, porque, além de ser oposto àquele direito, é tam- 
bém injuriosa a todos os Prelados; pois consistindo esta unicamente 
em se lhe confirmarem as eleições feitas por VV. CC. e em mandarem 
os Prelados de dez em dez anos um frade visitar a Ordem sobre a ob- 
servância da Regra e Estatutos sem ingerir-se em outras dependên- 
cias, não pode haver maior injúria. Finalmente remeto a W. CC. au- 
tenticado pelo mesmo Notário Apostólico o capítulo da carta em que 
o nosso Rmo. me fala proximamente na mesma matéria, referindo- 
re ao mesmo despacho que em Capítulo Geral deu à súplica dos PP. 
vogais desta Província e nêle verão W. CC. com evidência o que te- 
nho expressado. 

Na mesma carta me recomenda o Rmo. que extirpe os abusos das 
Confrarias do Cordão que, sem legítima autoridade, erigiu nessas Mi- 
nas o Dr. Matias Antônio Salgado; e para êste efeito remeto a W. 
CC. êsse Manifesto feito em resposta de uma carta escrita pelo Dr. 
Teodoro Ferreira Jácome ao Provincial meu antecessor, o qual dei- 
xando de responder em tempo oportuno permitiu com o seu silêncio 
que se radicassem tanto os abusos, para crescerem mais as conten- 
das. Nêle se mostram as nulidades das ditas confrarias e invalidez 
das suas ereções; que os confrades não lucram indulgência alguma 
por serem criados por autor apócrifo. 

Rogo a W. CC. que façam público o dito manifesto para que a 
todos se faça notória a sua verdade, e quando nem assim êste remé- 
dio aproveite, nem queiram desistir os confrades de trazerem hábitos 
talares, manto, capelo e corda grossa, nem queiram deixar as deno- 
minações de Ministro, Síndico e as mais pertencentes à Ordem Ter- 
ceira, de que usam nas suas Mesas, VV. CC. me avisem para usar de 
outro remédio. 



152 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Dou a W. CC. a Seráfica Bênção, estimando que Deus Nosso Se- 
nhor os guarde e conserve em sua divina graça e seu santo amor. 

Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 
1766. = De W. CC. Irmão e humilde servo em o Senhor = Fr. Inácio 
da Graça, Ministro Provincial. 

Remeto também êsse Manifesto a respeito das mortalhas de de- 
funtos nos hábitos de Portugal e das Ilhas, W. CC. o façam público 
e notório." 

Resposta da Ordem à carta precedente (Copiador — 49 v.) 

"N.M. Rmo. Pe. M. e Ministro Provincial Fr. Inácio da Graça Leão. 
A graça do Divino Espírito Santo assista a V.P.M. Rda. e como luz di- 
vina ilustre no seu coração as paternais admoestações com que nos 
adverte na sua de 21 de janeiro dêste presente ano, que esta Venerá- 
vel Ordem recebeu do Secretário desta por mão do Andador da cidade 
a quem passou recibo da sua entrega em 28 de março, fazendo-se-nos 
comum a sua abertura em Mesa do primeiro de abril, acompanhan- 
do a esta os discretos e doutíssimos expressos; o que muito solenizou 
esta Venerável Ordem, tanto pelos altivos conceitos de que se fun- 
dam, como por serem prendas de um Pai providente, a quem pelo 
modo possível vai tôda esta Venerável Ordem beijar-lhe os pés e rece- 
ber a seráfica bênção, e fica pedindo a Deus o conserve em seu santo 
amor para com êle nos comunicar muitas consolações espirituais. 

Queixa-se V.P.M.Rda. de se lhe mandar por um Notário entregar 
a carta e que êste o fizera por um negro, primeiro que recolhido se 
tivesse ao sossêgo de sua cela e que nisso excedesse a recomendação 
que se lhe tinha feito, fica sendo indubitável pelas expressões exces- 
sivas com que nos consta se tem portado no livre dizer de que se lhe 
tinham oferecido doblas; quando êste se reconhece do limitado pre- 
ço de quatro mil réis pelo qual entregou o nosso Procurador a certi- 
dão do Notário e depois o recibo do Secretário da Província, não para 
a consideração dos requerimentos, a que na sua se atribuem, só sim 
para a justificação da correspondência que parece devia haver da pri- 
meira carta que esta Venerável Ordem escreveu a V.P.M.Rda., cuja 
falta por ser continuada pelos antecessores de V.P.M.Rda. por isso 
mesmo é que dá lugar a semelhantes desconfianças, e se estas são por 
já têrmos requerido e impetrado do N. Rmo. as confirmações que na 
sua nos diz parece-nos que nossos antecessores com alguma razão o 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉ TO 158 

fizeram, e para que esta se exponha e seja julgada por V.P.M.Rda. 
permita-nos a sua religiosa modéstia e a sua alta compreensão o di- 
zemos que vindo a estas Minas o Pe. M. e Fr. Antônio de Santa Maria 
por comissão do Pe. M. e ex-Ministro Provincial Fr. Antônio da Concei- 
ção nelas erigiu e levantou esta Venerável Ordem, sucedeu que ha- 
vendo dúvida em alguns de seus indivíduos nas letras de sua comis- 
são: recorreram logo êstes escrupulosos, a quem o ex-Ministro Provin- 
cial com grande celeridade proveu com sua Patente increpando-os, e 
sanando-lhes tôda e qualquer nulidade que pudesse haver com ex- 
pressões tão claras como da mesma se manifesta, sem que estas fos- 
sem bastantes para que o Pe. M. e Fr. Manuel do Livramento e o ex- 
Ministro Provincial dêsse tempo os conhecesse, como em seu lugar se 
dirá; sucedeu àquele o ex-Ministro Provincial o Pe. M. e Fr. Manuel de 
São Roque, a quem por descuido ignorante não recorreu esta Vene- 
rável Ordem senão quase no fim do seu Provincialado, a que com jus- 
ta razão respondeu que, visto não o reconhecerem mais cedo, recor- 
ressem a seu sucessor que daria as providências necessárias: suce- 
deu a êste o Pe. M. e ex-Ministro Provincial Fr. Arcângelo Antônio de 
Sá, a quem, reconhecido o êrro passado, se é que assim se pode cha- 
mar por lhe faltarem antecedentemente as paternais admoestações, 
recorreram logo com reverentes a humildes súplicas e incessantemen- 
te pedindo-lhe lhe comutasse em saudáveis penitências aquela trans- 
gressão passada, em a qual ignorantemente por descuido do seu (sic) 
tinham caído, e parecendo esta tão digna de perdão, como dito fica, 
foi tanto pelo contrário que sucedeu mandar-lhe por uma carta sua 
suspender tôda a Ordem, e alegando esta com sólidas e reverentes 
preces o prejuízo que se seguia ao serviço de Deus e a tôda a Ordem, 
foi tanto pelo contrário que não as querendo abrir para o despacho 
que parece por direito devia como Ministro dar, na mesma forma as 
tornou entregar a seu Procurador, o Dr. Antônio José Correia, Pro- 
motor nessa Cidade, o qual, vendo-se desatendido, se valeu do patro- 
cío do Exmo. Sr. Conde de São Miguel, o qual lhes apresentou de que 
procedeu o passar-lhe uma Patente de comissão sua para que o seu 
capelão o Rdo. Pe. M. e Fr. Luís de Santo Agostinho, religioso seráfico 
da Província de Portugal, visitasse a esta Venerável Ordem, instruin- 
do-o para que em seu nome, motu próprio, fizesse Mesa nova, além 
de outras instruções particulares, as quais examinadas tôdas e vistas 
por êle desse as providências necessárias, o que melhor constará da 



154 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



carta que o dito Exmo. Sr. lhe escreveu e da cópia do têrmo autêntico 
que se remete e juntamente deixou em um capítulo de visita se lhe 
remetessem os Estatutos que nesta se observavam, o que com efeito 
logo se fez, remetendo-se-lhe para os aprovar, e foram despachados 
no Capítulo intermédio, celebrado em 24 de abril de 1756, ibi que só 
a êle pertencia dar Estatutos que se governassem pela Palestra da Pe- 
nitência; que só aprovava os catorze capítulos pertencentes às esmo- 
las, e isto se acha rubricado com o seu nome e selado com o sêlo me- 
nor da Província, e como por esta muito mal se podia governar esta 
Venerável Ordem, por não ser acomodada ao país, além de acrescer 
que o mesmo Ministro Provincial, mandando-se-lhe a eleição de três 
Irmãos Sacerdotes, escolheu êste no segundo por empenho do Mto. 
Rdo. Pe. M. e Fr. Agostinho de Boa Memória, remetendo-lhe a êle pró- 
prio a Patente de Comissário sem que a Mesa fôsse ciente, do que re- 
sultou gravíssimo prejuízo por não fazer ao primeiro, como mais be- 
nemérito, do que sucedeu a aprovação do N. Rmo. nos Estatutos que 
hoje se observam, sem obrepção, nem subrepção, como na sua se diz: 
obtendo-se a instâncias da Mesa de 1758, que a instâncias do motu 
próprio do Mto. Rdo. Pe. Fr. Manuel do Livramento, visitador que foi 
nesta Ordem por Patente de comissão do Ex-Ministro Provincial Mto. 
Rdo. Pe. M. e Fr. Francisco da Purificação pelo pejo que nêle teve de 
reter em seu poder nove meses as letras de sua comissão, passando por 
esta Vila, foi primeiro à Cidade de Mariana erigir e levantar Ordem 
Terceira, desmembrando a todos os Irmãos desta que nela se acha- 
vam, sem que a esta o fizesse a saber, e agravada a Mesa desta sua 
imprudência, o rejeitou de seu Comissário, dando de tudo parte ao 
ex-Ministro Provincial, o qual não dando providência alguma man- 
dou uma Pastoral para que a auxiliasse por Sua Excia. Rma. e rece- 
bendo-a êste a tempo que a Mesa nova tinha feito aceitação da sua 
visita, a qual havia já executado a sua posse em casa particular de 
um irmão desta que tem sido o objeto de todas as discórdias e sinis- 
tras queixas nessa sagrada religião. Passados oito dias publicou a dita 
Pastoral a tôda a Congregação, ou para melhor dizer a tôda a Vila 
e a todos pareceu mais carta difamatória e sem jurisdição pelo que 
continha, do que edificativa, e não se contentando com esta publici- 
dade, deixando somente a cópia, levando consigo o original a man- 
dou publicar em freguesias distantes desta com muito horror dos ir- 
mãos desta que nelas se achavam, e não satisfeito ainda com as mui- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



155 



tas nulidades que acrescentavam, não se lembrando da lei da reli- 
gião que proíbe, com privação do seu ofício, que nenhum tome conhe- 
cimento das culpas que já foram visitadas; assim associado com o tal 
irmão fabricou um proêmio de vilipêndios e nulidades, querendo com 
èste título estabelecer uma nova fundação, não se lembrando que a 
sua primeira fundação estava muito bem fundada na segunda Pa- 
tente que êle como Primaz queria pospor a sua, querendo por isso fa- 
zer da firmeza a maior mudança no estabelecer a coisa mais instá- 
vel para ficar sendo desejo baldado ou empenho impossível no querer 
deslustrar ao mais ativo Prelado na doutíssima pessoa de seu funda- 
dor que, por ser falecido, lhe aprovou tudo o ex-Ministro Provincial, 
querendo antes que o poder de jurisdição vacilasse no formulário das 
Patentes do que faltar ao gôsto do seu delegado, e a tudo isto se opu- 
seram alguns indivíduos, mais por crédito religioso do que próprio, 
como a seu tempo se verá julgada a sua apelação na Nunciatura; e 
todos êstes fatos se podem ver no cartório do Cónego João de Sena 
Gomes. Estas razões sobreditas reverá não são bastantes para têrmos 
recorrido ao N. Rmo. por nos têrmos visto neste labirinto de varieda- 
des nas quais se vê confundida a jurisdição de uns com a de outros, 
sendo na igualdade os mesmos. Respondemos assim a V.P.M. Rda. ou 
a seus antecessores só pertence motu próprio o dar Estatutos parece 
que muito melhor, como Prelado Supremo, pertence ao N. Rmo. a 
quem todos, como filhos, devemos obedecer debaixo das penas em di- 
reito cominadas, nem obsta o autêntico despacho do dito, porque no 
contexto da Petição se acha menos verídica a sua narrativa: ibi — 
"sem que se apresentem aos Prelados da Província", o que com efei- 
to se fêz à Província em 29 de abril de 1761, como consta da certidão 
do Notário Joaquim de Sena Gomes, como êle mesmo dirá, e esta é a 
mesma madura consideração com que o N. Rmo. despachou; e muito 
menos obsta o autêntico da carta do N. Rmo., porque o requerimen- 
to que em Mântua se fêz foi por parte desta Ordem Terceira a respei- 
to da Ordem Terceira da Cidade, como bem se conhece do mesmo 
cap. da carta e o mesmo nos avisa de Portugal o Procurador que o 
fêz, nem o Ministro e Custódio dessa Província podem dizer o con- 
trário. Enfim, Senhor e Prelado Nosso, nós em nada queremos pre- 
judicar a Mãe que nos gerou e menos o fazemos nas mortalhas, por- 
que se aos nossos hábitos se lhe conferem as mesmas bênçãos que aos 
dos religiosos, e como Terceiros, filhos do mesmo Pai, gozamos do pri- 



156 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



vilégio do cânon, em nada prejudicamos a Província, porque os não 
distribuímos, senão cada um com o seu próprio, como manda o N. 
Rmo. que se amortalhe cada um no seu próprio hábito; e assim o or- 
dena o Dr. Oliveira no seu Compêndio Seráfico, alegando muitas bu- 
las e prática louvável de Portugal, como nêle se pode ver e no livri- 
nho intitulado Origem da Ordem Terceira, e isto parece ser aplicação 
própria e não distribuição alheia; porém, suposto isto: se há título, 
ou autoridade, ou Bulas, em a qual se autorize ou devaneça que o 
Terceiro, amortalhado no seu próprio hábito, V.P.M.Rda. nos fará a 
honra e esmola de o remeter, porque só assim deixará de se obrar, 
respondendo a êle o mesmo Dr. Oliveira para o nosso desengano. E 
no que respeita às visitas, o que nós pedimos fôra de três em três 
anos, e se o N. Rmo. doutíssimo in rebus agendis, no-las concedeu de 
dez em dez anos, sem dúvida que acharia autoridade que não encon- 
trasse o Direito, e é sem dúvida que, como douto, o não encontraria, 
se a não tivesse, nem nós queremos coisa alguma que encontre o Di- 
reito, pois nunca foi nem é nossa intenção prejudicar a Província e 
muito menos desatender aos Prelados dela, pois como a Pais os de- 
vemos reverenciar na consideração de que somos filhos seus, de quem 
tivemos o ser de Terceiros, que a não ser esta consideração tôda a 
nossa obediência, sem dúvida estaríamos já agregados à diferente Pro- 
víncia, por nos livrarmos de tantas desigualdades de jurisdição, como 
os que nesta Congregação se têm experimentado, porém como nunca 
foi nem é nossa intenção o queixarmos dêles, nem em tempo algum 
há de constar o tenhamos feito ao N. Rmo., só sim o faremos por nos 
livrarmos de algumas infâmias que se nos imputam; no caso que V. 
P.M. Rda. não mude de projeto para que com êle se nos comunique 
a paz pela qual se faz suave o jugo da obediência a cujos pés todos 
a rendemos pedindo a Deus o conserve na sua graça para com ela 
proteger e espiritualmente dirigir no serviço de Deus em paz a êstes 
humildes filhos. 

A religiosíssima pessoa de V.P.M. Rda. guarde Deus por muitos 
e felizes anos. Vila Rica, em Mesa de 14 de abril de 1765 anos. O Pe. 
Pedro Pereira da Silva, Comissário Visitador//o Pe. Antônio Jácomo, 
ex-Ministro// João Rodrigues de Sousa, Vice-Ministro//Pedro Teixei- 
ra Murça, Secretário//o Alferes Antônio de Sousa Mesquita, ex-Vice- 
Ministro//Bernardo Gonçalves Veiga, Procurador Gerai/ /Domingos 
Ferreira Simões Val, Síndico/ /Bernardo de Araújo Franco, ex-Pro- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 167 

curador //Domingos Perez, Definidor //Manuel Dias Ribeiro, Defini- 
dor/ /Joseph Francisco Rodrigues, Vigário do Culto Divino//." 

MANIFESTO DIRIGIDO AO MINISTRO GERAL FR. PEDRO JOÃO 
DE MOLINA PELA MESA DE 1765: 

"N. Rmo. Sfír. Pe. Geral — Com a mais profunda humildade e 
reverente submissão, por êste modo prostrados aos pés de V. Rma., 
recorre a Mesa da Venerável Ordem Terceira da Penitência de Vila 
Rica, sita em o Brasil, para que V. Rma., como providente Pai, os 
isente da violência e perturbação que lhe faz o Ministro Provincial 
Frei Inácio da Graça Leão, da Província da Conceição do Rio de Ja- 
neiro, sem atenção à Patente de V. Rma. 

Consiste a presente queixa que, sendo ereta esta Venerável Or- 
dem no ano de 1746 por delegado do Mto. Rdo. Pe. M. e ex-Ministro 
Provincial da predita Província, passados alguns anos, lhe moveram 
os RR. ex-Ministros Provinciais daquele tempo prejudiciais dúvidas, 
querendo fazer Comissários, motu próprio, toties quoties, por seu de- 
legado, mandar visitar a Congregação, suspendendo do seu emprêgo 
a quatro irmãos de Mesa, sem asenso da mesma, por êstes não quere- 
rem consentir nas prejudiciais e violentas coações que o Rdo. Visita- 
dor Fr. Manuel do Livramento lhe fêz e ainda no anular a visita do 
seu antecessor e recorrendo êstes à providência do ex-Ministro Pro- 
vincial daquele tempo, Fr. Francisco da Purificação, êste lhe dene- 
gou tão violentamente que sucedeu haver despesa excessiva com o 
pleito que inadvertidamente se acha apelado para a Nunciatura. Com 
estas e outras muitas sem razões nascidas de despotismo voluntário, 
havendo-se antecedentemente por cap. de visita recorrido ao ex-Mi- 
nistro Provincial, Fr. Arcângelo Antônio de Sá, para que aprovasse 
os Estatutos que serviam de govêrno, êste lhe negou a sua aprovação, 
mandando se governassem pela Palestra, como consta do autêntico, 
fl. 1, que esta servia mais para confusão do que para o govêrno tem- 
poral, por ser contrária ao uso do país, e vendo-se esta Congregação 
flutuar em um labirinto de jurisdições, aflitos, ainda que de tão lon- 
ge, recorreram à inata liberalidade de V. Rma. para que com entra- 
nhas de Pai piedoso os provesse de remédio, e foi tal a piedade de V. 
Rma. que, com Patente confirmativa, nos confirmou os 29 capítulos 
de nossos Estatutos com a pena de nulidade do que em contrário 
se obrasse. Acrescendo a esta Patente de V. Rma. pela qual se con- 



15S 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



signava o tempo das visitas com a confirmação de Comissário e Vice- 
Comissário, reconhecendo a todos os indivíduos, presentes e futuros, 
desta Congregação por filhos seus, e que todos participassem dos je- 
juns, disciplinas e mais obras pias que se fizessem em tôda a cismon- 
tana família, e que pudessem ser amortalhados nos próprios hábitos 
de que usavam, e ultimamente que de tudo se mandasse um autên- 
tico instrumento ao Ministro Provincial para que êste a nenhum tem- 
po alegasse de ignorância. O que logo se fêz, remetendo-se ao ex-Mi- 
nistro Provincial da predita Província um instrumento autêntico de 
todos os Estatutos, e depois outro instrumento da Patente, o que tudo 
consta dos autênticos de fls. 2 e 3. E assim, Senhor, na forma man- 
dada observou aquêle Mto. Rdo. ex-Ministro Provincial, Fr. Manuel 
da Encarnação, todo o triénio do seu Provincialado, recomendando- 
nos edificativamente que assim o observássemos, como consta das car- 
tas que se acham no arquivo desta Congregação; e estando nós nesta 
paz e sossêgo nos faz perturbação e violência o Mto. Rdo. Ministro 
Provincial, Fr. Inácio da Graça Leão, mandando-nos os autênticos, 
fls 4 e 5, para que, à vista dêles, não praticássemos as faculdades por 
V. Rma. concedidas assim o ordenar (sic), na madura consideração 
de que não teríamos cumprido com o que se nos tinha ordenado, e 
pelos autênticos ditos se reconhece do autêntico da petição a sua fal- 
sidade e da introdução do outro Cap. da carta ser a sua introdu- 
ção indiferente por ter sido feita a requerimento de nossos anteces- 
sores pelo nosso Procurador o Mto. Rdo. ex-Definidor Geral, Fr. Fran- 
cisco da Azurara, e que êste Mto. Rdo. Ministro Provincial nos quei- 
ra perturbar da posse do nosso Comissário anualmente corrigir e 
emendar tôdas as faltas e transgressões de seus indivíduos, parece 
ser contra a Santa Regra e querer obrigar a si a jurisdição de V. Rma., 
como consta do autêntico fl. 6 e que sendo êste Comissário Terceiro 
Presbítero do hábito de São Pedro, pela proibição régia que não con- 
sente nestas terras, debaixo de gravíssimas penas, religioso de qua- 
lidade alguma, também parece ex vi dêste impedimento o podê-lo 
ser, o que muito desejaríamos se pudesse ser Religioso, concedendo- 
nos para isso S. Majestade Fidelíssima esta graça, com a faculdade 
de V. Rma. Enfim, Rmo. Sfir., parece que como a filhos que recorrem 
à proteção de um Pai providente deve êste provê-los de remédio na 
conservação de seus Estatutos e privilégios; porque nos hábitos em 
nada prejudicamos à Província que por dilatada não pode suprir a 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



169 



esta terra, e se alguma vez o faz é pelo excessivo preço de doze mil 
réis, a que não pode suprir a muita pobreza desta Ordem que como 
a tal se lhe deve conceder esta faculdade que tanto querem escurecer 
por ser já concedida por tantos Pontífices, como manifestamente de- 
clara o cronista seráfico, o Rdo. Dr. Manuel de Oliveira Ferreira no 
seu Compêndio Seráfico a fls. 48, n.° 126, cuja providência deve ser 
provida por V. Rma. mandando que com observância de tudo não 
perturbe a êste pequeno rebanho do Senhor, coneedendo-lhe por Pa- 
tente sua que o Comissário ou Vice-Comissário, presente ou futuro, 
possa lançar o cordão a tôdas as pessoas que lhe pedirem, fazendo 
assento de seus nomes em um livro para isso destinado e receberão 
a esmola e neste assinou-se toda a Mesa." (Do Copiador fl. 51). 

Carta que esta Venerável Mesa mandou ao N. Rmo. Geral 
(copiador 52) 

"N. Mto. Rmo. Pe. Ministro Geral Fr. Pedro João de Molina: 
A graça do Divino Espírito Santo assista a V. Rma. cuja carta de 
10 de janeiro de 1764, escrita o nosso Procurador, Mt.o Rdo. Pe. M. e 
ex-Definidor Geral, Fr. Francisco de Azurara, êste por sua nela fêz 
comua, em 20 de junho dêste presente ano, com tão vivas expressões 
de amor, não só de tôda esta Mesa, mas também de todos os seus 
indivíduos na consideração de que em V. Rma. têm um Pai tão provi- 
dente, que em tão grande distância os socorre de remédio, pela provi- 
dência que concede a nosso Comissário para lançar os bentinhos da 
Conceição, e não só por esta graça, mas por outras muitas já rece- 
bidas; por êste modo, com a mais reverente submissão, prostrados aos 
pés de V. Rma., pedindo-lhe a seráfica bênção, lhe rendemos as gra- 
ças, e novamente pela exposição junta rogamos a V. Rma. que com 
entranhas de Pai atenda a nossa justiça, como reverá se manifesta, 
para que nos não perturvem da paz e sossêgo com que em té o pre- 
sente íamos vivendo e para que esta melhor se obtenha tornamos a 
pedir-lhe nos queira fazer a esmola de nos dizer uma Missa pelo au- 
mento espiritual desta Congregação para que Deus a livre de seus 
inimigos, de cuja mandará V. Rma. receber do dito nosso Procurador 
a esmola de dez doblas e se nisto houver alguma censura de culpa 
ficará esta julgada por V. Rma. por sincero afeto de filhos para com 
um Pai por quem incessantemente ficam pedindo a Deus o conser- 
ve em seu santo amor, para com êle proteger e amparar a êste peque- 



160 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



no rebanho. Feita nesta Casa dos Despachos da Matriz de Nossa Se- 
nhora da Conceição de Vila Rica, em os vinte de agosto de 1765. E 
está assinada por tôda a Mesa." 

Despedidas de Fr. Inácio da Graça Leão de Sá (copiador 60) 

"Meus Srs. Irmãos Ministro e mais Senhores da Mesa: Inclusa 
nesta envio a W. CC. a confirmação de sua eleição; não tenho pala- 
vras para agradecer a W. CC. o zêlo e espírito que conservam nessa 
Venerável Ordem da Penitência como verdadeiros filhos que devem 
ser do nosso Seráfico Patriarca São Francisco e com razão assim o 
devem fazer por que como foi a primeira nessas Minas que levantou 
o estandarte da religião seráfica, sendo as mais tôdas seráficas imi- 
tadoras dessa Venerável Ordem, bem é que tôdas essas tenham o 
exemplar em vossas caridades no que hão de obrar no serviço de Deus 
e da Religião. Eu tenho quase acabado o meu ofício de Ministro Pro- 
vincial, e a todos peço perdão dos meus defeitos e negligências, pois 
os meus muitos anos a tudo me desculpam; fico sim mui agradecido 
e obrigado e lhe rendo a W. CC. a graça das quatro doblas, que fize- 
ram a esmola a esta Província, que foi para ajudar a fábrica de de- 
zoito imagens que se mandaram fazer de novo em lugar das que ti- 
nha esta Província feitas para antiguidade, tão defeituosas e inde- 
centes: elas rogarão a Deus por nós, ficando eu sempre muito obri- 
gado em pedir em meus santos sacrifícios pelos aumentos dessa Ve- 
nerável Ordem e também para que o mesmo Senhor prolongue a W. 
CC. felices anos de vida para os empregar em seu serviço e manda- 
rem-me ocasiões do seu agrado, a quem o céu guarde. Convento de 
Sto. Antônio do Rio de Janeiro, quinze de novembro de mil setecentos 
e sessenta e seis anos. De W. CC. irmão o mais amante e servo em o 
Senhor — Fr. Inácio da Graça Leão 1 '. 

8 — Fr. José dos Anjos (1767-1770). Foi Guardião do Con- 
vento de Santo Antônio e nesta qualidade levou à sepultura o 
grande Servo de Deus Frei Fabiano de Cristo. Ocupou a cadeira 
de Teologia no Convento de São Paulo. 

Suas relações com a nossa Ordem Terceira constam dos 
documentos que seguem. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



161 



Carta do Provincial Fr. José dos Anjos (copiador 62 V.) 

"Nosso Caríssimo Irmão Ministro e mais Irmãos da Mesa: On- 
tem recebi a de Vossas Caridades e nela vejo o que obraram em virtu- 
de do Cap. décimo quarto, parágrafo primeiro dos seus Estatutos: e 
como o que êles dispõem é somente para obviar o caso de ficar essa 
Ordem sem Comissário, guardando-se o recurso para depois de com- 
pleto o triénio, em razão da grande distância em que essa Ordem se 
acha fundada; segue-se não ter lugar a dita disposição estatutária, 
quando podem VV. CC. dar a tudo providência sem que haja falta de 
Comissário, nomeando com tempo antecipado (como nós fazemos), 
de seis ou oito meses, três irmãos clérigos, escolhidos e aprovados pela 
maior parte da Mesa, para lhes mandarmos Patente, na qual lhes 
será concedida jurisdição para a Visitadoria, e Presidência do Capí- 
tulo, pois desta sorte fica obviado o receio em que se funda o seu Es- 
tatuto. 

Reparo também em serem trienais os seus Visitadores, o que po- 
dia ter lugar se os seus Capítulos andassem juntos com os nossos; 
porque a não ser assim, não sei como possam obrar os Visitadores 
com jurisdição que um Provincial não pode conceder fora do tempo 
do seu govêrno. Ainda quando no decurso de três anos faz um Visi- 
tador nessa Ordem três Capítulos: e como podem ocorrer causas pe- 
las quais seja conveniente a W. CC. novo Visitador e Presidente, nes- 
tes têrmos e para cautela de controvérsias que podem acontecer (e 
eu as discorro) pelo tempo futuro entre VV. CC, mais útil é a W. 
CO, e mais seguro para a jurisdição, terem VV. CC. a liberdade de no- 
mear Visitadores e Presidentes na forma acima dita para todos os Ca- 
pítulos anuais. Por darem nesta matéria, que lhes proponho com os 
olhos unicamente no seu bem espiritual e pacífica conservação, e 
obrem o que Deus melhor lhes inspirar. E por ora dou por bem fei- 
tas e aprovadas, e portanto confirmadas, tanto as suas novas elei- 
ções como a nomeação do Visitador e Presidente de Capítulo pelos 
dois anos a que se estende o meu govêrno, caso que W. CC. não se 
resolvam a querer novo Visitador para o ano de mil setecentos e ses- 
senta e nove. E para o mais que fôr do serviço e bem de W. CC. fico 
com a vontade pronta. Deus guarde a W. CC. muitos anos. Rio de Ja- 
neiro, vinte e nove de março de mil setecentos e sessenta e oito. De 
W. CC. irmão e servo em o Senhor — Fr. José dos Anjos." 



1G2 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Resposta à carta precedente 

"Rmo. Sr. Ministro Provincial Frei José dos Anjos: A graça do 
Divino Espírito Santo assista a Vossa Paternidade muito Reverenda 
para que com divinal luz lhe ilustre o entendimento para os acertos 
do seu govêrno. Recebeu a Mesa desta Ordem Terceira da Penitência 
a de V. Rma. com a data de 29 de março passado e na verdade nos 
causava alguma desconsolação a falta de resposta à l. a via que logo 
remetemos, aonde ia a tábua do Capítulo das nossas eleições por pes- 
soa fiel e segura que, parece, não podia deixar de entregar nesse re- 
ligioso Convento, feitas canonicamente conforme a nossa lei e Esta 
tutos particulares, aprovados pelos Reverendos Ministros Gerais, con- 
firmados por outros e pela Santa Sé Apostólica. Veneramos, como de- 
vemos, a alta piedade de V. Rma. nas insinuações que nos participa, 
respectivas tanto a eleições do Comissário, como outros; porém, não 
deixamos de reconhecer que são opostas às determinações dos ditos 
Estatutos particulares, cujos nos não é lícito transgredir, aliás sería- 
mos pouco fiéis às nossas Profissões e a nossos Primeiros Prelados, 
quando um dêles, na aprovação dos mesmos, no primeiro parágrafo, 
diz assim: "Primeiramente que tôdas as eleições de Comissário, Vice- 
Comissário, Ministro e mais oficiais que se fizerem desde o dia da 
confirmação dos Estatutos, se em tudo e por tudo conforme a êles. . ."; 

e no segundo parágrafo, diz que os Rdos. Ministros Provinciais so- 
mente possam enviar visitador religioso de dez em dez anos, assinan- 
do-lhe o tempo fixo de três meses, os quais acabados, fica sem facul- 
dade alguma, ainda que a visita esteja por acabar, e no penúltimo pa- 
rágrafo, diz: "E finalmente ordenamos e mandamos que se lhe dê in- 
teiro cumprimento, assim pelos irmãos da dita terceira ordem, como 
pelos Reverendos Padres Provinciais", como melhor constará a V. 
Rma. da cópia que necessàriamente se há de achar nesse religioso ar- 
quivo. Em nada nos temos desviado da direção dêles. E no que res- 
peita o dizer V. Rma. que não sabe como um Comissário possa fazer 
três Capítulos, quando só pode aprovar pelos dois anos que lhe res- 
tam do seu govêrno, respondemos a V. Rma. muito sinceramente que 
a jurisdição do nosso Caríssimo Irmão Comissário lhe é comunicada 
pelos Rmos. Gerais, e a nossa obrigação é fazermos remeter a V.P.M. 
Rda. a tábua do Capítulo, ao que não faltamos, nem faltaremos. En- 
tre nós não há discórdia e menos se temem, porque o espírito de re- 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 163 

belião deve estar longe de quem professa humildade. Beijamos as 
mãos a V. Rma. pela aprovação das nossas canónicas eleições (sem 
embargo destas não voltarem confirmadas, como é costume) e sempre 
V. Rma. achará muito prontas as nossas vontades, ainda que inúteis 
para lhe dar gôsto, a quem pedimos a sua santa bênção e rogamos 
encomende a Deus êste pequeno rebanho. Deus guarde a V. Rma. por 
muitos e felices anos. Vila Rica, em Mesa de 29 de maio de 1768. De 
V. Rma. afetuosos servos em o Senhor — José Valente de Vasconcelos, 
Comissário Visitador = Manuel José Veloso, Vice-Ministro = Manuel 
Fernandes Pinto, Secretário. E o mais Definitório se achava assinado." 

Carta da Mesa com a tábua da eleição em 1768 para 1769 ao Pro- 
vincial — 9-10-1766 

Resposta do Provincial 

"Rdo. Pe. Comissário, Sr. Irmão Ministro e mais irmãos da de 
Mesa — A paz do Senhor lhes assista para com todo o fervor aspira- 
rem à maior perfeição e inteiro complemento das obregações em que 
os constituíram os novos empregos que nas pessoas de W. CC. fize- 
ram os irmãos dessa Venerável Ordem. Eu que tanto desejo contri- 
buir para a tranquilidade de seus espíritos e a W. CC. muito amo 
em Jesu Xpto lhes envio minha paternal bênção e juntamente a con- 
firmação do seu Capítulo canonicamente celebrado em o dia 17 de 
setembro do presente ano. Desejarei muito que nessa Venerável Con- 
gregação permaneça sempre aquela concórdia e harmonia que serve 
de promover os créditos da Venerável Ordem da Penitência que esta- 
beleceu Nosso Seráfico Patriarca para exemplo do mundo e edifica- 
ção das gentes; para que desta sorte conservem a formosura da paz 
santa, que entre W. CC. deve resplandecer. VV. CC. me advertem não 
terem recebido a confirmação da eleição que no ano passado me re- 
meteram, tanto da nova Mesa respectiva, como do seu Rdo. Pe. Co- 
missário. Afirmo a W. CC. que me não lembra se dela fui entregue, 
e se fui, poderia fàcilmente não dar resposta pela muita confusão de 
negócios e embaraços de que frequentemente me vejo preocupado; 
mas para que fiquem plenamente satisfeitos e possam mostrar in- 
teireza e fidelidade lhe confirmo a presente eleição e penúltima e a 
do dito Rdo. Pe. Comissário. N.S.P. os abençoe e receba debaixo de 
sua proteção para fazerem relevantes serviços a Deus Nosso Senhor, 



164 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



que os guarde e conserve com permanentes felicidades em seu divino 
amor e graça. Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 4 de no- 
vembro de 1769. De W. CC. Irmão muito amante e ven. cr — Fr. José 
dos Anjos." 

9 — Fr. Inácio de Santa Rita Quintanilha (1770-1773). 
Regia este ilustre franciscano a Província da Imaculada Con- 
ceição quando em Vila Rica se procedeu à primeira bênção da 
capela da Ordem Terceira (1771). 

Suas cartas de mais destaque encontram-se neste trabalho 
nos capítulos III e V. 

10 — Fr. Cosme de Santo Antônio (1773-1776). Religioso 
de grande prestígio na Província. Sua correspondência é des- 
tituída de valor histórico. 

11 — Fr. José de Jesus Maria Reis. Não me parece que 
tenha sido êste o sucessor imediato de Fr. Cosme. Em carta 
— primeira e única e datada de 9 de janeiro de 1778, agradece 
os cumprimentos que a Mesa lhe mandou pelo fato de sua 
eleição. 

Vítima do governo regalista que, como é sabido, vivia a 
entravar a administração eclesiástica, foi êste Provincial de- 
posto a 29 de agosto de 1780, quando faltavam apenas três 
meses para acabar seu Provincialado. Substituiu-o o Vigário 
Provincial Frei Antônio de São Vicente Ferrer. O grande 
crime que lhe imputavam fora admitir ao noviado candidatos 
brasileiros em número que excedia o dos portuguêses. Acusa- 
ram-no ao vice-rei, e esta acusação partiu de co-irmãos seus, 
de pretender aumentar na Província o partido brasileiro! Cfr. 
O Convento de Santo Antônio, Rõwer, 175, ed. 1945. 

12 — Fr. José dos Anjos Passos. Tomou posse a 21 de 
agosto de 1781. Não fora eleito em Capítulo Provincial, como 
é da Regra, mas nomeado pelo Núncio Apostólico. O que signi- 
fica que se fazia sentir ainda a intervenção abusiva do regalis- 
mo nos negócios domésticos da Província. 

Dêste Provincial o que de mais interessante existe no 
arquivo da Ordem Terceira é o seguinte: 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



165 



"Pastoral, dirigida a esta Venerável Ordem, do N. Rmo. Min. 0 
Provincial Frey José dos Anjos Passos. 

Frey Joze dos Anjos Passos, Pregador, ex-Definidor e Ministro 
Provincial da Prov. a da Imaculada Com.?™ da Sra. & Aos N.N. Ama- 
dos Irm. 8 os RR. Com. 03 das Vener. es Ordenz tercr. as da penitencia de 
N.S.P.S. Fran. co das Minas Ger. eB Saud. e pas em N. Senhor Jezus Cris- 
to q. de todos hê verdadr. 0 remédio e salvação. Fazemos saber a W. 
CC. que os Sumos Pontifices Inoc. 11 e 12 consederão privativam. te aos 
Prelados da N. Seráfica Religião autorid. e p. a erigir Via sacras p. r sy 
ou p. r seus súditos pregadores ou ao menos confessores aprovados 
afim de q os fieis q. as vizitassem assim eretas em q. al q. r parte do 
mundo lucrassem as mesmas indulgências e graças q. estão consedi- 
das ao q. vezitão a Via Crucis de Jerusalém. E porq. por uma p. te mui- 
to precizamos p. a este devoto exercicio em q. nos recordamos das fi- 
nezas de um D. 8 humanado q. por nossa redenção padeceu e afronto- 
zam. te morreu em uma cruz e sumam. te desejamos que todos os Cató- 
licos se empreguem nestas piedosas consideraçoenzs em q. agradam ao 
mesmo D. 8 e dezonerão as suas almas por meio das indulgências das 
penas que por divina ordenação devem corresponder as suar. culpas. 
E por outra parte sabemos que por haverem muitos lugares aonde ao 
prezente não ê permetido o chegarem religiosos a q. m deleguemos a 
nossa autoridade nesta matéria vivem os seus habitadores privados 
deste singular beneficio: Por estes motivos acordamos dirigir as nos- 
sas suplicas ao S. mo P. e Pio 6.° q. D. 8 prospere e guarde p. a q. em se- 
melhantes casos se servisse ampliar-nos esta graça concedendo-nos 
autorid. e p. a podermos delegala em quaesq. r sacerdotes regulares ou 
seculares; e com efeito Elie se dignou ouvir nossos rogos e anuir á 
nossa petição q. nos foy enviada munida com o beneplácito régio; e 
querendo Nós reduzir á pratica esta graciosa concessão de q. depende 
um avultado interesse das almas, e tendo por principal objeto as que re- 
zidem nessas Minas aonde prezentem. tc não podem viajar Religiosos, 
nem nos consta q. ahy rezida algum nosso súdito, salvo no infeliz esta- 
do da apostazia q. o inabilita p. a exercitar dignam. te qualq. r ato de Reli- 
gião, porisso em virtude dos prezentes nossas Letras delegamos a so- 
bred. a faculd. e em W. CC. p a q. durante o tempo da sua comissão 
possão erigir Vias Sacras em q. al q. r decente lugar publico ou priva- 
do, precedendo p. a aquelle as licenças q. req. r o SS. mo Pe. Clemente 12. 
Não ê porem nossa intenção q. W. CC. uzem desta graça no cazo ac 



166 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



aparecer nesses contin.™ algum Religioso da Nossa Santa Ordem, que 
conste andar debaixo da obediência de seus Prelados, pois a este, 
posto que não seja nosso súdito, sendo pregador ou confessor, facul- 
tamos a d. a graça estando por então em exercicio do que em sua fal- 
ta concc demos a W. CC. como dito ê por ser este cazo excetuado na 
Apostólica concessão: Outro sim q. naquelles lugares remotos aonde 
W. CC. não puderem chegar sem graves incómodos avizem aos impe- 
trantes q. recorrão a Nós nomeando-nos um sacerdote ahy rezidente 
p. a lhe conferirmos a igual jurisdição p. a o d.° efeito. E porq. esta 
graça não se limita som. te ao tempo do nosso governo, mas sim se es- 
tende a todos os nossos sucessores, sucedendo vagar p. r falecimento 
ou outra q. a, q. r cauza o lugar de algum de VV. CC. no recurso q. fizer 
a respectiva congregação p. a q. se lhe eleja novo Comissário suplicará 
q. na mesma Patente se lhe conceda autorid. e p. a erigir Vias Sacras. 
Também não deixamos de advertir q. constando acharem-se nessas 
partes algumas erectas sem a necessária autorid. e de q. m a pode con- 
ceder ou p. r ignorância facultada a sujeitos inábeis, cuidem W. CC. 
sem perda de tempo em erigilas de novo; pois ê sabido q. faltando-se 
as condições q. como forma prescreveu, todo o ato ê nullo e de ne- 
nhum vigor. Ultimamente exortamos a W.CC. com as mais vivas ex- 
pressões de nosso animo, q. lembrados de q. são filhos de um Pai cuja 
vida foy toda empregada em meditações das amarguras da Cruz, me- 
recendo por este meio aquelle singular privilegio de lhe serem im- 
pressas as mesmas chagas do Redentor, procurem W. CC. entrar no 
empenho de que não haja igreja ou capella, ainda cazas particulares 
de pessoas devotas privadas do signal da nossa Redenção, e com igual 
fervor promovão este Santo exercicio, não só a respeito dos membros 
das suas corporações, mas também de todos os fieis q. habitão em 
outros lugares. Esta nossa Pastoral depois de lida pelo 1.° Rdo. Co- 
missário a q. m a dirigimos será transcrita no livro compet. e da sua 
congregação de q. se fará termo abaixo delia e depois será remetida 
de um a outro circulara!.* q. obrarão o mesmo e das maons do ultimo 
se fará voltar as nossas com os testemunhos por onde conste se exe- 
cutou esta nossa determinação. Dada neste nosso Convento de Santo 
Antonio do Rio de Janeiro aos 14 de outubro de 1783, sobre nosso 
signal e sello mayor de nosso officio//Frei/ Joze dos Anjos Passos — 
Min.° Provincial. Lugar + do sello. P.M.P.N.C.I.M.P. — Frey Joze do 
Desterro, Definidor actual e Secret. 0 da Provincia." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 167 

13. _ Fr. Fernando de São José Meneses (1784-1787). "De 
sua gerência em prol da corporação consta não somente que 
zelou amorosamente pela disciplina e pureza da profissão será- 
fica, mas que também impulsionou fortemente os estudos" 
(Rõwer — O Convento, 182). 

Em 1763, estando em Minas "com a justíssima causa de 
acudir a extrema e bem manifesta necessidade em que viviam 
seus pais", foi aproveitado por Fr. Manuel da Encarnação, Pro- 
vincial do triénio, para visitador e reformador de todas as Or- 
dens Terceiras de Minas. No desempenho desta comissão visi- 
tou a de Vila Rica. 

No Livro de Patentes, precioso por mais de um título, que 
Fr. Meneses abrira, numerara, rubricara e encerrara, deixou 
êle o seguinte têrmo de visita: 

"Frei Fernando de São José Meneses, Religioso de São Francisco 
da Província da Imaculada Conceição da Senhora do Rio de Janei- 
ro, Pregador, Comissário Reformador e Visitador Geral de tôdas as 
Ordens Terceiras de N.S.P.S. Francisco, sitas em Minas Gerais de Pa- 
tente de plenitudine potestatis, passada pelo N.M.R.P.M., ex-Leitor de 
Prima na Sagrada Teologia, ex-Definidor, Examinador Sinodal Fr. 
Manuel da Encarnação, Ministro Provincial dos Religiosos reforma- 
dos: a todos os nossos amados irmãos terceiros assim existentes, 
como futuros, desta congregação de Vila Rica, Saúde e Paz em Nosso 
Senhor Jesus Cristo. Porquanto vindo nós a visitar esta Ordem e 
achando com grande aflição de nosso espírito preterida em alguns 
dos nossos Irmãos a guarda da Santa Regra; e nas Mesas algumas 
inadvertências na observância de seus Estatutos, tanto recomenda- 
da pelo N. Rmo. P. ex-Comissário Geral debaixo de nulidade, dese- 
jando aplicar o mais saudável remédio para evitar aquêle dano que 
costuma causar o mau exemplo que, como mal contagioso, tanto pre- 
judica ao bem de nossas almas, tomamos ao nosso cuidado mostrar aos 
nossos amados irmãos debaixo de que ervas se oculta a Serpente ve- 
nenosa para que, advertidos, sigam aquêle caminho que sem embara- 
ços nem tropeços nos conduz à possessão da vida eterna para cujo fim 
instituiu nosso SSmo. Padre as suas três Ordens e como os primeiros 
passos que se dão para o céu é entrando pelo caminho do noviciado, 
por êle principiarão as minhas advertências e determinações. Primei- 
ramente interpondo tôda a nossa autoridade, mandamos que todos 



168 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



os irmãos noviços que, completo o seu ano de noviciado, não quise- 
rem professar, sendo passados seis meses, serão chamados e admoes- 
tados a que dêem cumprimento à sua primeira vocação, e não que- 
rendo professar, buscando frívolos pretextos para sua escusa, serão 
riscados da Ordem: Que não sejam admitidos à profissão sem faze- 
rem primeiramente o seu testamento e entregá-lo à Ordem: Que se 
não admita à venerável Ordem homem que fôr casado com mulher 
parda ou preta: Que todo o irmão que fôr remisso e não quiser vir ao 
noviciado a fazer os atos de humildade que a Santa Regra determina 
seja castigado e advertimos ao Irmão Mestre seja obrigado a prati- 
car-lhes com muito cuidado a Santa Regra para que saibam ao que 
se obrigam, administrando-lhes penitências em tôdas as faltas que 
nêles achar por leves que sejam, porque desta boa educação pende e 
depende o ser bom terceiro e verdadeiro filho de N.P.S. Francisco, e 
o aumentarem-se no serviço de Deus, sendo-lhes muito exemplar, e se 
algum por sua negligência lhe desobedecer (o que Deus tal não per- 
mita) o fará saber à Mesa para logo ser castigado conforme a culpa 
merecer. E para que melhor se instruam e conheçam a obrigação de 
terceiros, a Venerável Mesa lhes dará uma cópia dos Estatutos para 
dêles em tôdas as ocasiões lhes ser lido um ou dois capítulos, para 
que assim fiquem sabendo as obrigações de seus empregos quando a 
êles forem promovidos: Virando os olhos para os irmãos professos e 
conhecendo que muitos desprezam o Santo Instituto que professa- 
ram não querendo acudir aos atos da Ordem passando anos sem que- 
rerem pagar os seus anuais, mandamos que sejam pela Mesa corrigi- 
dos, e não havendo emenda serão riscados da Ordem, porque não é 
justo que esta reconheça por filhos aqueles que não a querem conhe- 
cer por mãe: Que os irmãos que forem eleitos nos empregos da Ordem 
e fizerem rejeição dos seus cargos sem causa que a Mesa julgue ser 
justa se proceda contra êles com a pena determinada pelos Estatutos. 
Que o irmão que depois de professo se casar com mulher parda ou 
preta seja também riscado da Ordem. E porque também achamos que 
muitos irmãos professos devendo causar exemplo aos modernos, já na 
humildade com que devem obedecer aos superiores, já na compostu- 
ra com que se devem portar em todos os atos da Ordem obram pelo 
contrário, mostrando-se escandalosos falando nos lugares onde de- 
viam praticar o mais rigoroso silêncio, convertendo muitas vêzes a 
ordem em desordem deixando os lugares que por sua antiguidade lhes 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



L69 



competem, de tal sorte que se não conhece qual seja mais velho, nem 
quem seja o mais moço, pela pouca formalidade que praticasse nas 
suas comunidades; mandamos com tôda a nossa autoridade que a 
Mesa tenha especialíssimo cuidado de cumprir o que acima determi- 
namos, e castigar com as penas impostas nos Estatutos como a per- 
turbadores da observância regular aos que não guardarem o silêncio 
e modéstia nas comunidades e fazer que o Irmão Vigário os acompa- 
nhe em seus lugares conforme os seus anos, para que formados com 
tôda a compostura, se conheça o que é ordem, a qual se deve praticar 
na terra, assim como se usa no céu que onde os anjos se não mistu- 
ram com os arcanjos, nem os Querubins com os serafins, mas antes 
todos formados em seus lugares competentes louvam ao Rei da Gló- 
ria. E se algum irmão repugnar êste concêrto que tanto edifica ao 
mundo e agrada a Deus, o Irmão Vigário fará aviso à Mesa para que 
lhe dê o castigo determinado. Empregando também tôda a nossa vis- 
ta nas operações da Venerável Mesa, conhecendo que do bom exem- 
plo dos Superiores resulta a perfeição dos súditos, lhe recomendamos 
que tendo sempre os olhos em Deus, e o coração preocupado de zêlo 
e caridade dirijam sempre as suas operações para o que melhor fôr 
do serviço de Deus e bem da Ordem porque desta sorte evitam nos 
súditos o horrível mal da murmuração. E para que se extinga total- 
mente e se veja tudo perfeito sem que se divise coisa defeituosa; fa- 
rei algumas advertências que ainda que acidentais delas depende a 
conservação da substância da perfeição. Primeiramente mandamos 
aos nossos Irmãos de Mesa que ponham todo o seu cuidado em dar in- 
teiro e fiel cumprimento às testamentárias a que a Ordem fica obri- 
gada, cuja demora tanto prejudica as almas dos defuntos, quanto 
ofende ao bom crédito da mesma Ordem. Que não aceitem testamen- 
tárias sem ser convocada a Mesa imediata para em consulta se ajustar 
se convém ou não a aceitação dela. Que daquelas coisas mais notá- 
veis que obrar a Mesa se faça têrmo como determinam os Estatutos 
para que constem em qualquer tempo as suas determinações. Que o 
Irmão Secretário faça tôdas as clarezas que em razão de seu ofício 
está obrigado. E finalmente que façam dar inteiro cumprimento a 
tôdas as providências que pusemos nos têrmos que nesta Visita man- 
damos lavrar nos livros da Ordem; e tudo quanto nesta nossa Pasto- 
ral se contém, fazendo registrar na parte onde tocar, extraindo-se pelo 
Irmão Secretário uma cópia que se porá em uma tábua pública no 



170 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Consistório para de todos em todo o tempo ser vista e observada. 
Dada, nesta Visita Geral na Casa do Consistório aos dezoito de dezem- 
bro de mil setecentos e sessenta e três, sob nosso sinal e sêlo maior 
desta Venerável Ordem. Eu Frei Bento de Santa Ana, Secretário da 
Visita que a fiz escrever, subscrevi e assinei em o mesmo dia e era 
acima — Frei Fernando de São José Meneses, Comissário Reformador 
e Visitador Geral, Loco -f- Sigili = P.M.D.N.C. Ir. Comissário, Visita- 
dor Reformador Geral = Frei Bento de Santa Ana, Secretário da Vi- 
sita =." 

14 — Fr. José do Destêrro (1787-1790). Quando Secretário 
Geral, cargo que exerceu a partir de 1781, organizou o Tombo 
da Província, fonte preciosa para a história da Ordem Fran- 
ciscana, no sul do país. 

Foi eleito Provincial a 2 de agosto de 1787. Esgotou-se 
profundamente no exercício do cargo e num acesso de loucura 
tentou o suicídio de que não faleceu logo, tendo-se confessado 
e recebido a Extrema Unção. E assim, a I o de setembro de 
1791, acabou lamentàvelmente um dos filhos mais beneméritos 
da Província. 

Limitou-se sua correspondência com a nossa Ordem Ter- 
ceira à aprovação e confirmação de eleições. 

15 — Fr. Lourenço Justiniano de Santa Teresa (1790- 
1793). Deste Provincial não se encontra a mais leve referência 
no arquivo da Ordem. 

16 — Fr. Joaquim de Jesus Maria (1793-1796). Foi um 
zeloso Provincial. Manifestou um carinho particular para com 
as Ordens Terceiras de Minas, às quais dirigiu a edificante 
Pastoral que se vai ler: 

PASTORAL 

"Fr. Joaquim de Jesus Maria, Pregador, ex-Definidor e Ministro 
Provincial desta Província da Imaculada Conceição da Senhora em o 
Brasil — A todos os nossos Irmãos e filhos da Terceira Ordem da Pe- 
nitência que habitam nas Minas Gerais sujeitos a nossa direção, saú- 
de e paz em Nosso Senhor Jesus Cristo. A grande consolação que re- 
cebe nosso espírito com as notícias que repetidas vêzes chegam aos 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 171 

nossos ouvidos do zêlo de VV. CC. no culto divino, no esplendor com 
que fazem celebrar as festividades santas, a magnificência dos tem- 
plos que erigem ao Senhor, as decorações e ornatos com que os as- 
seiam, exige façamos esta pública demonstração do nosso gôsto para 
certificar a W. CC. que as obras de edificação que fazem nossos Ir- 
mãos servem de motivo para rendermos graças ao Todo Poderoso pe- 
las dignações da sua misericórdia para com êles e ao mesmo tempo 
de urgente estímulo para que nosso pastoral cuidado procure excitá- 
los a emulação santa, a eficazes desejos de melhores carismas. Sim, 
Veneráveis Irmãos, pois se tanto se acredita de grande a piedade de 
VV. CC. no culto exterior da Religião, será coisa muito alheia dessa 
piedade, coisa bem estranhável em os sujeitos que a praticam um re- 
laxamento de vida, uns costumes pouco cristãos. Se nos atos exterio- 
res, se nas solenidades do culto divino fazem VV. CC. tão pomposa os- 
tentação de adoradores do Deus crucificado, se na sua generosa re- 
solução de vestirem o humilde, o santo hábito da Terceira Ordem da 
Penitência do nosso Seráfico Pai dão um público testemunho de sec- 
tários da mortificação, do abatimento, de desprezadores das vaidades 
do mundo, não será coisa bem digna de riso (melhor disséramos de 
amargosas lágrimas) se a dissipação em seus gestos, se a imodéstia 
em seus vestidos, se a profanidade das suas conversações nesses mes- 
mos atos e festividades de religioso culto os fizerem reconhecer por ho- 
mens de pouca fé, por homens que não adoram ao Senhor, que fes- 
tejam em espírito e verdade. Ah! Irmãos meus amados, que o receio 
só de que o homem inimigo semeie nessa seara do Senhor o joio e a 
sizania para sufocar a semente boa, faz que não sejam perfeitos nos- 
sos gostos, nem completas nossas consolações. Apartai, Deus de pie- 
dade, destas corporações santas, fazei que estejam sempre longe dc 
cada uma delas êstes vícios, estas abominações. Se começaram bem, 
Irmãos meus, a edificar o mundo com o hábito da Penitência que ves- 
tiram, se declararam guerra à soberba pela profissão de humildade 
que fizeram; se se gloriam de ser filhos e imitadores do chagado Pa- 
triarca pelo instituto que abraçaram, empenhem-se mais e mais em 
seguir com passo firme esta feliz derrota e estejam sempre advertidos 
a corresponder com fidelidade as grandes obrigações que dêstes glo- 
riosos títulos lhes resultão. E então, como florescerá no campo da 
Santa Igreja essa pequena porção da grande herança do nosso Deus! 
Com que júbilo não colherá nosso amante e amável Pai os suaves fru- 



\72 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



tos de boas obras dessa corporação para os oferecer entre os perfuma 
do incenso de orações fervorosas com os agradáveis enfeites dos chei- 
rosos, dos roxos lírios da penitência ante o sublime trono de Deus de 
Majestade. E quantas bênçãos celestes não derramará sôbre essa fe- 
liz corporação o Deus de misericórdia, muito fiel em remunerar su- 
perabundantemente aquêles que o servem. E que firmeza de espe- 
rança não animará a cada um de VV. CC. nas vizinhanças de sua 
morte de acharem nela um valedor tão grande e a quem o Todo Po- 
deroso caracterizou com sinais do seu especial amor como Francisco 
para os apresentar ante o tribunal terrível do Juiz Supremo e para 
aí interceder e patrocinar a seus amados filhos! Como lhes suavizará 
os temores naturais daquela triste hora com a consolante memória 
de terem trilhado em sua vida aquêle caminho pelo qual se conduziu 
uma multidão de justos que agora depois de sua morte em brilhan- 
te côro de glória rodeiam e como nosso grande Pai fazem rogativas ao 
Deus de misericórdia, de piedade e de indulgência para que se pro- 
picie e digne absolver de tôda a culpa e perdoar tôda a pena a seu 
irmão agonizante: Oh! felicidade dos que são verdadeiros filhos de 
Francisco, que grande és! Pelo contrário, amados irmãos, que espe- 
rança podem ter de achar tanto favor e patrocínio aquêles que, con- 
tentando-se somente com vestir o hábito santo de Terceiros, com pro- 
fessar sua santa regra, nem observam essa regra, nem tratam seu há- 
bito com decência. Falamos igualmente daqueles e daquelas que no 
mesmo arraial da humildade tem a ousadia de levantar o estandar- 
te da soberba; daqueles e daquelas que profanam o hábito da Peni- 
tência, que vestem com adornos de vaidades que lhe ajuntam que- 
rendo sacrilegamente colocar no mesmo trono a arca santa e o ído- 
lo abominável. E não é isto o que fazem os Irmãos Terceiros que com 
hábito humilde de sua Ordem aparecem em público com anéis ricos, 
com punhos e babados, com cordas enfeitadas, com trajes de sêda, 
com cabelos riçados e polvilhados, ao mesmo tempo que os homens 
os devem trazer em uma simples compostura, e as mulheres trazê-los 
cobertos com honestas toucas; falamos com aqueles e aquelas que 
não frequentam as rasouras, que não acompanham as vias sacras, 
que não assistem aos atos da Ordem, sem outro impedimento mais 
que a sua indolência e frouxidão. Ora, amados Irmãos, êstes maus ter- 
ceiros encontrarão ao N. Padre S. Francisco interessado a seu respei- 
to? Poderão confiar com alguma provável confiança na intercessão 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



173 



de seus Irmãos Santos, que estão reinando com Nosso Senhor Jesus 
Cristo na Glória; de São Francisco de quem se constituíram em vida 
indignos filhos pela irregularidade de sua conduta, pelo nenhum caso 
que fizeram de seus respeitáveis documentos; de seus Santos Irmãos 
de quem despregaram os exemplos e se apartaram da estrada lumi- 
nosa com as resplandescentes obras que fizeram a perfumada com o 
cheiro das virtudes que praticaram, estrada feliz pela qual os cha- 
mavam para a Bem aventurança! Oh! e qual será a grandeza de suas 
angústias, a abundância de seus receios: atrever-se-ão a invocar em 
seu favor ao nosso grande Pai, a nossos veneráveis Irmãos, sem que 
temam ouvir como as Virgens Loucas um funesto Néscio vos! Eu não 
vos conheço por filhos, temerão ouvir da bôca de São Francisco: 
porque vossas obras escandalosas não vos acreditam por discípulos da 
minha doutrina; porque o hábito vaidoso que trajastes não é aque- 
le com que se distinguem os da minha amada Terceira Ordem: o 
mesmo grande temor os fará apreender que soam a seus ouvidos de- 
sagradáveis clamores de seus santos Irmãos, que dizem: clamais de 
muito longe para serdes bem ouvidos; os estranhos ou errados cami- 
nhos que seguistes vos alongaram muito de nós para serdes nesta ne- 
cessidade prontamente socorridos. Eis aqui, amados Irmãos, a dife- 
rente crise em que estarão os bons Terceiros nas vizinhanças de sua 
morte daquela em que se acharão os maus Terceiros: aquêles nadan- 
do no meio de esperanças consoladoras pela fidelidade com que cor- 
responderam aos seus deveres; estes abismados em um mar de an- 
gústias pelas suas negligências e relaxações; aquêles esperando em 
paz, cheios de ânimo e confiança em o Senhor; êstes entre devoran- 
tes aflições, cruéis desassossegos e penetrados do maior horror, es- 
perando a cada instante que sôbre êles caia a fulminante e extermi- 
nadora espada da ira do Senhor. Que catástrofe tão desgraçada é a 
dêstes. Quisemos ponderar nesta nossa Pastoral estas e diferentes 
sortes dos bons e maus Terceiros, a fim de que perseverem constan- 
tes em sua resolução virtuosa os que seguem os caminhos da verda- 
de e para que os que dêles se apartam e entraram pelo caminho da 
mentira e vaidade (se entre W. CC. se acham alguns indivíduos que 
laborem em tanto desacêrto), procurem em quanto é tempo remédio 
ao seu dano e a seu êrro, para que, reconduzidos ao grémio e socie- 
dade dos bons, possam esperar com êles a bênção do céu com o qual 
se prosperem e santifiquem suas obras na vida e a intercessão do 



171 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nosso Seráfico Padre e de seus bem-aventurados filhos nas vizinhan- 
ças da morte, a qual com êstes meios e socorros não deixará de ser 
preciosa na presença do Senhor o que a todas W. CC. deseja nosso 
paternal afeto. Dada neste Convento de Santo Antônio da Cidade do 
Rio de Janeiro a oito de novembro de 1796, sob nosso sinal e sêlo 
maior do nosso ofício. 

Esta nossa Encíclica, depois de lida em plena comunidade na Or- 
dem Terceira da Vila de São João dei Rei, será transcrita no Livro 
competente para que o Rdo. Comissário a possa mandar ler algumas 
vêzes, julgando conveniente, e assinada pelo Secretário da Mesa, o 
qual dará fé de se ter assim executado, com a firma do Rdo. Comissá- 
rio e Irmão Ministro, será remetida à Ordem Terceira mais vizinha, 
a qual da mesma sorte a remeterá à última para que nela também se 
execute o que determinamos. Fr. Joaquim de Jesus Maria, Ministro 
Provincial = L. + S. D.M.D.S.P. Rma. = Jr. João Capistrano de São 
Bento, Secretário da Província. Reg. em V. Rica a 12 de fevereiro de 
1797." 

Nesta Pastoral, como nas suas cartas, assinou-se sempre 
Fr. Joaquim de Jesus Maria Brados. 

17 — Fr. Antônio de São Bernardo Monção. Em 1800 a 
Mesa elegeu por Ministro o Comissário, Padre Manuel de 
Abreu Lobato, ficando assim acumulados na mesma pessoa 
dois cargos, um e outro de grande responsabilidade. 

Invocando leis da Ordem que proíbem semelhantes 
acumulações, o Provincial reprova o fato e determina se eleja 
imediatamente novo Ministro sem o que ficará nula e Patente 
por êle então expedida ao referido Padre Lobato, confirman- 
do-o na função de comissário. 

Volta a Mesa e, asseverando a canonicidade da eleição, 
contesta o Provincial com os controvertidos privilégios que lhe 
conferem os seus Estatutos. 

Frei Monção não replica. E como o Comissário exerceu 
o cargo de Ministro no ano para o qual fora eleito, conclui-se 
que a Mesa, mais uma vez, levou a melhor na contenda com 
seus Provinciais. 

Contrariando as razões do seu Superior, alega a Ordem: 

"Foram presentes em pleno Definitório desta Venerável Ordem as 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 175 

respeitáveis Letras de V.P. Rma. em que nos fêz ver (não sem pouca 
mágoa) a repugnância que tem em aprovar a Eleição de Ministro que 
canonicamente fizemos na pessoa do Ir. Rdo. Manuel de Abreu Lo- 
bato, Comissário atual da dita Ordem, fundamentando a causa da 
sua reprovação com a proibição que se persuade haver nos Estatutos 
Gerais das Ordens Terceiras, cujo fundamento, prostrados aos pés de 
V. Rma. e falando com a mais profunda reverência e humilhação, não 
pode produzir o efeito que nos anuncia, olhando-se com atenção para 
os Estatutos que foram particularmente concedidos e aprovados para 
esta nossa Ordem, de que há de haver no arquivo dessa exemplar Re- 
ligião uma fiel cópia. Além disto não é esta a primeira vez que temos 
levado ao emprêgo de Ministro o nosso Padre Comissário, tanto pela 
decadência do país, quanto por não haver nesta nossa corporação tão 
grande número de irmãos abundantes que possam sofrer sem estí- 
mulo, repetidas vêzes, um dispêndio avultadíssimo, como é a expensa 
do Irmão Ministro, causa por que se elegeu o dito Rdo. Comissário 
como um dos irmãos mais beneméritos, o qual, conhecendo com pru- 
dência o estado da nossa Ordem, com louvável zêlo aceitou o dito em- 
prêgo de Ministro, e tanto êste como o de Comissário, que já era, tudo 
exerce de boa vontade, e com grande prazer nosso, sem que, por cau- 
sa de se acharem duas jurisdições unidas em uma só pessoa, nos fal- 
te a pronta providência do que em cada uma delas nos convém..." 

18 — Fr. João de São Francisco Mendonça. Tôda a sua 
atuação junto à Ordem se resume numa carta (março de 1805) 
em que confirma eleições e louva os eleitores. 

19 — Fr. Joaquim das Santas Virgens Salazar. Foi exami- 
nador da Mesa da Consciência e Ordens. 

Dele há, no arquivo de São Francisco, apenas uma carta 
sem importância, datada de 10 de janeiro de 1806. 

Ainda regia a Província quando aportou ao Brasil a Famí- 
lia Real. 

20 — Fr. Francisco Solano Benjamim. Companheiro e 
amigo de Fr. Veloso, o botânico, ilustrou com magníficos dese- 
nhos a Flora Fluminense do ilustre frade mineiro. 

Fr. Solano Benjamim debateu com a nossa Ordem a inter- 
minável questão dos Estatutos, como ficou registrado ao fim 
do cap. II. 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



21 — Fr. José Carlos de Jesus Maria Destêrro (1818-1821) 
Fr. Basílio Rõwer faz no O Convento uma justa apologia 
dêsse ilustre franciscano. Era natural do Pôrto, mas fêz no 
Brasil os estudos filosóficos e teológicos. Professou em Cam- 
pos no afamado Convento de Macacu. 

Desempenhou na Província os cargos de confessor, pre- 
gador, lente, Comissário das Ordens Terceiras (repetidas vê- 
zes), guardião, definidor, custódio e provincial. 

Esteve presente à execução do Tiradentes, circunstância 
em que falou à assistência; mas sua exortação não agradou. 

Teve o seu atritozinho com a Ordem. Esta, como sempre, 
se defendeu. E, como quase sempre, o Provincial não replicou, 
ou porque anuiu às razões alegadas, ou porque julgou convir 
melhor o silêncio ao bem da paz. 

Dêsse atrito nos informará bem a correspondência que 
segue: 

"Caríssimos Irmãos Ministros e mais Irmãos de Mesa 

Não he mistério que tenho goardado hum profundo silencio a 
resp. t0 de W.CC, mas he necess. 0 q eu agora falle para não parecer 
insencivel. Não ignorão W.CC. q a sua Ordem está sugeita ao Prela- 
do maior desta Província por mt. as Determinaçoens Apostólicas q só 
m. tl ' a este compete detreminar-lhe hum Comissr. 0 por Patente sua, 
e q. sem estas condiçoens bem se poderá dizer q. todos os seus actos 
são illegitimos e por conseg. te contra a vont. e de Deos. Sendo esta a 
verd. e , permittão-me W.CC. dizer-lhes q. tendo eu já perto d'hum 
anno de Provincialado, ainda aqui não aparecerão Letras q testemu- 
nhassem a manr. a de outras Ordens o Estado dessa Ven. el Ordem, nem 
tão pouco q me fizessem conhecer q. em W.CC. existia aquelle Espi- 
rito de submissão e humild. e q o N. S. t0 . Patriarcha deixou a seos filhos 
como huma p. te , digo huma gr. de p. te de sua herança. Este procedimen- 
to q. tal-ves não seja concebido por Espirito de orgulho, como pia m. te 
devo crer, me obriga com tudo, em rezão de meo menistr. 0 a estra- 
nhar a W.CC. acçoens tão contrarias ao verdadr. 0 Espirito do S. Ins- 
tituidor a q. m W.CC. tomarão por modelo e exemplar. Sendo isto com 
effeito motivo bast. e p. a magoar meo coração, ainda aparecem moti- 
vos mais poderosos de afflição, quando me recordo q não querem W. 
CC. conter-se dentro dos Limites de seos deveres, faz. d0 tranzitar hum 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 177 

Proc. r pela Com. ca do R.° das Mortes, em fraquecendo desta Sorte a 
Ordem de S. João d'ElRey pela seducção q este fáz de pessoas quali- 
ficadas q. aquella Ordem pode conciliar p. a o seo m. mo Lustre e enve- 
licendo essa pela facilid. e com q. admitte induvidozos, sem distinção 
de costumes e qualid. e8 . Meos amados Irm. 8 he digno de horrorizar-se 
este modo do obrar, e VV.CC. devem lembrar-se q. huma e outra Or- 
dem he obra do m. mo Patriarcha, q. todos são Irm. 8 , filhos do m. mo 
Pay e q. todos devem mutuamente concorrer para o seo augm. t0 e não 
p. a a sua destruição. Eu espero portanto q. cada huma das Ordens se 
contenha nos Limites de sua Com. ca e q sece de huma vez esse abuzo 
q. deve ser reprehencivel, e em q. infalivel m te não deixão de cometer- 
se mil peccados, sendo pois tudo isto tão contr. 0 aos dezejos piedozos 
do N.S.Pe., não poderá nunca essa Ordem conservar seo brilho, nem 
florecer sem q. haja paz, concórdia e quitação. Fico serto q. esta m. a 
Paternal admoestação será bast. e , sem lançar mão de outros meyos 
para persuadir a W.CC. de q em mim falia unicam. te o amor e affecto 
q. tenho a essa, assim como a todas as outras Veneráveis Ordens de 
q. m sou Prelado, posto q. indigno. Desde já me dou o parabém por ter 
feito esta conquista Espiritual por meyo da qual ficarão sem duvida 
mais tranquilizados as suas consciências e mais brilhante a sua Or- 
dem. Eu aqui fico sempre a sua Ordem, digo, fico sempre prompto 
p. a tudo q. me poder prestar em seo beneficio: assim como tão bem 
p. a empregar-me no serv. 0 de cada hum de W.CC. de q. m me prezo 
ser = De W.CC. o mais att.° V. r Ir. e s. = Fr. Jozé Carlos de Jesus Ma- 
ria Desterro, Min.° Prov. aI = Convento de S. Ant.° do R.° de Janeiro 
2 d'Abril d'1819." 

Resposta da Mesa à precedente 

"limo. e Rmo. Senf. Min. 0 Prov. al Jozé Carlos de Jezus Maria Des- 
terro — Temos a honra de receber a Carta de V.P. Rma. de 2 de Abril 
corr. te anno, em Meza do dia de hoje, e nella vemos os justos motivos 
da sua extranheza ao letargo em q supõem este membro da corpora- 
ção de N.S.P.S. Fran. co , de que V.P. Rma. he bem digno Prelado, de 
q. nos congratulamos e a nos m. mos damos o parabém de tão relevan- 
te escolha e esperamos das suas luzes, e prudência, q. saberá descul- 
par as nossas faltas, imitando ao N.Sto. Patriarcha; pois q. humilha- 
dos aos pez de V.P.Rma. imploramos a sua S. 111 Benção, e rogamos 
qr a aceitar estes tt. 09 da nossa obediência, nascidos de huns coraçoens 



178 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



puros, filhos da Nossa Augusta Protetora Immaculada Sta. Maria 
Raynha dos Anjos. Os incómodos q. temos soffrido com o fallecim." 
de nuns, e moléstias de outros nossos Irm. 8 Secret. 0 * e a falta de Irm.* 
práticos p. a este import. to Cargo, nos tem comprometido, e dado mo- 
tivo as faltas de q. V.P. Rma. com tanta prudência e amor, nos ad- 
moesta, por lhe não termos remetido a copia da Eleição, a q se proce- 
deo a 17 de Septbr. 0 de 1818, q. agora aprezentamos por Copia ex- 
trahida do L.° respectivo, como he costume, de cuja falta rogamos a 
V.P. Rma. o perdão próprio da sua m. u bond.' e p. a com estes seos hu- 
mildes filhos, aprovando-nos ao m. mo tempo a nossa Eleição. 

A 28 annos q. ellegemos ao M. 10 R. do Manoel de Abreu Lobato, por 
nosso Com. mo tendo sido desde então reeleito de 3 em 3 anos, e ultima- 
m. te o foi em Meza Geral de 19 de julho de 1818, o q. temos praticado 
por bem das imunid. M e regalias a Postolicas, q. nos forão concedi- 
das, e tivemos a honra de pôr na prezença dos Rm. mo8 Senr. M Prela- 
dos, antecessores de V.P.R. 1 " 8 , como por outro sim. te motivo participa- 
mos ao Rmo. ex-Provincial Fr. Fran."' Solano Benjarnim por carta de 
14 de mayo de 1815 q. tudo se ade achar no Arquivo desse Real Con- 
vento, o qual aprovou, e abençoou nossas Catholicas intençoens, dei- 
xando-nos tão captivos e satisfeitos, q desde então dirigimos nossas 
deprecaçoens ao Ceo para que o propspere nesta vida e depois na Eter- 
na; e o m. mo faremos por V.P. Rma. afim de q nos faça conservar na 
paz q. gozamos com hum Com. 0 q. pelas suas virtudes, qualidades e 
id. e se faz digno das nossas contemplações e o será também de V.P. 
Rma. quando se digne refletir que a boa harmonia he necessária para 
gloria, e bem da Religião. Desde a Creação desta Corporação, primei- 
ra q. houve em toda a Capitania, temos Irm. 8 espalhados em diversas 
Comarcas, até m. mo nessa Côrte do Brazil, onde se conservão sugei- 
tos aos Cargos desta Ordem 3 a , sendo por isso q temos Prezidias, e 
fazemos tranzitar pelos seos Domicilios hum cobrador q ao m. mo tem- 
po nos participe os q. vão falescendo para serem sugragados, e se ha 
falta de Visses Com. 08 para os soccorrermos, pois q. nos não he licito 
tolher-lhes a liberdade de se estabelecerem onde lhes for mais cómo- 
do, e o q. levou á prez."* 1 de V.P. Rma. o contr. 0 disto, quiz esmagar 
a verd. e e fomentar a entriga contr. a ao Espirito da Religião q pro- 
fessamos; e o tempo mostrará a V.P.Rma. dentro do m. mo Claustro a 
mão oculta q. procura inquietar-nos, por não termos anuido á indis- 
cretas pertençoens. Graças ao Omnipotente q. pode abrir os olhos a 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



179 



verd. e , e iluminar a V.P.R. ma , como iluminou ao seo Predesseçor, para 
não preferir o capricho de hum só homem ao dessabor geral de cen- 
tenares de Irm. 8 de q. se compõem esta Ordem 3. a Antigamente se 
desputavam geraçoens e se não admitião Irm. 8 q. (como dizião) se 
não mostrassem limpos de sangue, motivo este q. desapareceo a v. u 
das Pias intençoens de Sua Santidade, para com os Eclcleziasticos, e 
de Sua Mag. de F., q tem consedido o distentivo da Medalha de varias 
Ordens a pessoas menos alvas na cor, porem limpos de coração e m.* 
beneméritos para a socied. e , e úteis para a Religião, a cujo exemplo 
nenhuma das Ordens 3. as desta Capitania e Reino do Brazil tem du- 
vidado admitir Irm. 8 daquelas q. o incidente da cor em outro tempo 
os desterrava das nossas corporaçoens, privando-os de receberem o 
nosso Santo Hábito, antes confessamos a V.P.R. ma q. os temos admi- 
tido, procedendo informaçoens sobre os seus costumes, e nem por isso 
se encontra na nossa corporação Ir. algum q. por mais trigueiro a des- 
lustre, e parece q. este modo geral de proceder, he conforme os tempos 
e lugares, em augmento da Religião Christã a q. nos aproxima á Di- 
vindade, e solicita eternas recompenças. Desde o anno de 1815 que 
lutamos na Meza da Con. cia e Ordens, para sermos conservados na 
Santa obediência, q. prestamos a V.P.Rma., de q. o Proc. or Geral das 
Ordens nos pertende exbulhar, e sugeitar ao Ordr.° e Parrocho terri- 
torial, como a numa simples Irm. de , negando-nos o titulo de Ordem 
3. a , sem dependência algúa do Prelado da Religião Franciscana, cujos 
direitos desputamos e desputaremos té o fim dos Séculos, e são estes. 
S. or , os filhos de V.P.Rma. e do N. S. l ° S.P., q. procedem com Espirito 
de Orgulho e dezobediencia. Não, S. r , esta Ordem, 3. a , e l. a na sua 
fundação tem dado bastantes provas de humildade, obediência e Re- 
ligião, e se faz digna de q V.P.Rma. a acolha debaixo dos seus auspí- 
cios, ternura, e carid. e , abençoando as nossas puras intençoens, para 
nos fazer dignos do Reino da Gloria. Deos felicite a V.P.Rma. e a to- 
dos os nossos Irm. 8 , filhos do N.S.P." (Sem data e sem assinatura, no 
Copiador fl. 128 J. 

22 — Fr. Ângelo de São José Mariano (1821-1824). Carioca, 
nascido na freguesia da Candelária. 

Foi o Provincial da Independência, à qual com seus fra- 
des, à frente o notável Frei Sampaio, deu a mais entusiástica 
adesão e intrépida contribuição. O seu Convento era um ninho 



180 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



de patriotas. Numa circular em que ordenava usassem os reli- 
giosos o distintivo da Independência, ponderava: "...para que 
a nossa Província apareça aos olhos de todos cheia de verda- 
deiro sentimento de gratidão e de respeito que é devido a tão 
grande Príncipe, e que em tudo nos conformemos com a Sua 
Vontade, dando as últimas provas de adesão a uma causa tão 
justa e tão sagrada". 

Não escreveu por sua mão à Ordem de Vila Rica. O único 
documento, emanado de sua autoridade, existente no arquivo, 
e que versa até sobre acontecimento de vulto na história dos 
Franciscanos, está assinado pelo seu Secretário. 

Diz assim o aludido documento: 

"limos. R. Irmão Ministro e mais Sfs. da Mesa — O nosso Rmo. 
Padre Provincial Fr. Angelo de São José Mariano, querendo, quanto 
lhe é possível, fazer constante a tôda esta Província as notícias glo- 
riosas que ultimamente se houveram do N. Patriarca São Francisco, 
promovendo desta maneira o amor e respeito que se deve tributar a 
tão grande Pai, me determinou que, em qualidade de seu Secretário, 
fizesse expedir para todas as Ordens Terceiras um exemplar do Bre- 
ve que o Santíssimo Padre Pio VII fêz publicar por ocasião da feliz 
invenção do Corpo do mesmo Seráfico (21) o qual será conservado no 
arquivo dessa Ordem como um monumento o mais respeitável e digno 
de tôda a veneração. Em consequência pois desta ordem remeto o dito 
Breve e nada mais tenho a participar a VV.SS. a quem Deus guarde 
por muitos anos. De W.SS. o mais atento e certo venerador Fr. José 
Cupertino de São Francisco Vilaça//Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 
1822." 

Resposta de Mesa: 

"limo. e Rmo. Sr. Padre Mestre Fr. José Cupertino de São Fran- 
cisco Vilaça — Pelo correio recebi a carta de V. Rma. que foi aberta 
em Mesa no dia de hoje, bem longe de encontrarmos nela o estimável 
tesouro do exemplar do Breve que Sua Santidade fêz publicar pela fe- 
liz aparição do Corpo do Nosso Santo Patriarca: eu já vi transbordar 
a alegria em todos os nossos Caríssimos Irmãos, que cheios de júbilo 
verteram lágrimas, e passamos já a convocar todos os nossos Irmãos 



(21) Êsse Breve dá-lo-ei em apêndice. 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



181 



para se juntarem, e darmos graças ao Onipotente por nos felicitar 
com a notícia de tão inexplicável tesouro, e então rogaremos a Deus 
que prospere ao Santíssimo Padre e a todos os que se empregaram na 
santa diligência, mãe da felicidade que gozamos. Deus guarde a pes- 
soa de V. Rma. como lhe desejamos todos e eu com todo o respeito 
sou = De V. Rma. humilde servo = Carlos de Assis Figueiredo — Se- 
cretário. Vila Rica. 20 de dezembro de 1822//." 

Frei Ângelo é o último Provincial de que rezam os livros 
da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto. 

Se, como parece, cessou efetivamente, desde 1824, a indis- 
pensável correspondência com a Província, indispensável para 
a vida espiritual da Ordem Terceira, esta em realidade já não 
existe, há mais de um século, em Ouro Prêto. 



CAPÍTULO V 



COMISSÁRIOS 

Sabe-se o que é comissário — uma pessoa que se encar- 
rega de certa missão outorgada por outrem. 

Nas Ordens Terceiras é o sacerdote que dirige espiritual- 
mente a congregação depois de canonicamente investido no 
cargo pelo seu comitente, isto é, pelo Provincial, seu superior 
imediato. 

Legitimamente jurisdicionado, o Comissário é, portanto, 
o traço de união entre a Província e a Ordem. Sem êsse dele- 
gado, sem essa ligação com os Superiores da Província é fora 
de dúvida que nenhuma Ordem Terceira pode subsistir. (22) 

Em Vila Rica, posteriormente Ouro Prêto, 30 sacerdotes 
sucederam-se no Comissariado de São Francisco de Assis. Mui- 
tos dêles, os mais recentes, teriam exercido o cargo sem legí- 
tima jurisdição, vindo-lhes esta de uma eleição realizada por 
leigos, inidôneos por isso para conferir poderes espirituais. 

Darei em seguida a relação desses comissários, lamen- 
tando não poder ilustrá-la com algumas informações biográ- 
ficas, porque estas minguaram quase totalmente. Apenas de 
um ou outro consegui avaras notícias que hei de consignar nos 
lugares respectivos. 

1 — Padre Dr. Bernardo Madeira 

Era dos mais antigos moradores de Vila Rica, onde já 



(22) Os Vigários, como tais, ainda que religiosos da respectiva Ordem, se não 
têm delegação legítima, não são comissários: seus atos são absolutamente nulos. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



18"! 



assistia em tempos do Conde de Assumar. (23) Cêrca de 40 
anos teriam corrido, quando faleceu em 1756, desde que o velho 
sacerdote emigrara de sua pátria, a aldeia de Nossa Senhora 
da Conceição da Várzea, no Conselho de Santarém, e se insta- 
lara em Vila Rica. 



(23) O Padre Madeira presenciou por certo o espetáculo horrível daquele pa- 
voroso incêndio que varreu do morro, célebre desde aquela noite histórica, as pro- 
priedades de Pascoal da Silva, o sedicioso que procurava, com seus comparsas, opor- 
se às medidas administrativas do intrépido Governador. O intrépido tira-se de uma 
carta do Senado da Vila do Carmo, endereçada a El-Rei, da qual destaco o perío- 
do que diz: "Pela obrigação de nossos oficios e de nossas pessoas nos achamos pre- 
cisados a por na real noticia de V. Magestade o que sucedeu em Vila Rica, onde 
seus moradores em 28 de junho p. passado se sublevaram inteiramente juntando- 
se em grande número e todos armados e o primeiro impulso da sua desordem foi ir 
a casa do Ouvidor Geral desta Comarca Martinho Vieira e como o não achassem 
nela por se haver retirado precipitadamente fugindo ao furor do povo (*) se 
ocupou este em lhe destruir os moveis q. tinha e romperlhe os livros e papeis do 
seu ministério depois do q. mandarão húa proposta ao conde g. or declarando nella 
não consentir por nenhum modo cazas de moeda ou fundição, e como esta mataria 
offendia grandemente o zello do conde g. or q. com j).^ anciã e disvello se emprega 
na execução das ordens de V. Mag. e lhe regeitou por varias vezes a dita proposta, 
o que vendo o dito povo e temendo algum prompto castigo se foi engroçando de to- 
das as forças dos destrictos vezinhos em numero de mais de mil homens armados 
e marchou para esta Villa do Carmo sem q. bastassem para dillatallos as muitas 
deligencias q. o Conde g.° r fez mandando para este effeito a encontrallos ao cam.° 
esta Camara, o Sarg.'° Mor de Batalha Seb.<™ da Veiga Cabral pes- 
soas de distinção 

sospeitas q. havia q. este fosse ainda de peores consequên- 
cias se prevenio o conde g. or na forma q. o breve tempo lhe e os 

esperou mui rezoluto e eon8tantem. te dispondo a deffensa com húa grandeza de ani- 
mo própria de suas grandes obrigações, e chegando o d.° povo a esta Villa e na 
prezença do d.° conde g. or repartiu a sua proposta pellos seos procuradores, o qual 
vendo a sua teima e q. geralmente todo o paiz estava interessado a favor dos so- 
blevados assim grandes como pequenos por ser interesse commum de todos de tal 
sorte q. já os moradores da comarca do Sabarâ e matto dentro estavão prevenidos 
esperando o sucesso p. a q. não sendo como desejavão virem ao soccorro dos de Vila 
Rica e assim por mais q. o g. or fez não pode deixar de ceder ao povo concedendo- 
lhe o que pedia porque do contrário entravão os povos destas minas em hua geral 

soblevação " Do L.° 1.° da Câmara da V. a do Carmo — fl. 212. A carta é de 6 

de julho de 1720. 



(*) "Não é tal, que os fiz esperar", notou à margem o Ouvidor quando, maia 
tarde, em visita de correção à Câmara. 



184 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Quando se inaugurou o bispado, exercia êle o cargo de 
capelão da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pre- 
tos, na freguesia de Antônio Dias. 

Ao ausentar-se de Vila Rica confiou-lhe Frei Antônio de 
Santa Maria a Ordem que, com tamanho carinho, acabava de 
fundar, certo de que a deixava bem amparada, visto como reco- 
nhecia no Comissário eleito "exata capacidade, inteireza de 
espírito, devoção, prudência firme e todos os mais requisitos 
aderentes a êste ministério". Valha o testemunho do austero 
religioso, que o conheceu de perto e com êle conviveu por 
espaço de quase dois anos, de prevenir o mau juizo de quem 
pretenda descobrir nas entrelinhas do seu testamento alguma 
feia mácula a enodoar-lhe a vida. 

No cargo de comissário, que desempenhou com zêlo e dedi- 
cação, manteve-se por mais de oito anos, somente o abando- 
nando quando, a 5 ou 6 de abril de 1756, veio a morte e cortou- 
lhe o fio da vida. 

Conforme pediu, deve estar sepultado em Santa Ifigênia, 
ao pé do altar de Nossa Senhora do Carmo. 

Seu testamento, a que aludi há pouco, está redigido da 
forma seguinte: 

"Copia do Testam. 40 com que Faleçeo R P comiss. 0 desta ven. el 
ordem Bernardo Madr. a de q. ra am. a Ven. el ordem he tt. ra 

Inv.° no L.° deles p 11. 

Em nome da Santiçima Trind. e Padre, filho Espirito Santo tres 
pesoas destintas hum só Deos verdadeiro — Saibam quantos este 
instrom. 0 virem que no anno do Nassimento de Noso Senhor Jesus 
enristo de mil esete centos esincoenta e seis anos aos sinco dias de- 
mes de Abril do d.° anno neste freguezia de Nosa Senhora da Con- 
ceisão desta villa, estando eu o P. e Bernardo Madr. a indigno filho do 
Princepe dos Apóstolos Sam Pedro doente em hua cama mas em meu 
perfeito Juizo e entendimento que Deos medeu, etemendome da mor- 
te por ser mortal, enão sabendo ahora emque Deos sera servido levar- 
me desta vida para a outra edezejando por minha alma nocaminho 
da Salvasão Ordeney fazer este meu Testam. 10 naforma Seguinte — 
Primr a mente emeomendo minha alma a Santíssima Trindade que a 
criou, E logo ao Padre Eterno pella sagrada morte epaixão de seu Uni- 
génito filho, aqueira receber como recebeo a sua estando para mor- 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 185 

rer na Arvore da vera crus; ea meu Senhor Jesus christo pesso pellas 
suas devinas chagas que ja que nesta vida me fez m. e dar seu pre- 
ceiozo sangue e merecim. , ° 8 de Seus trabalhos mefaça, também m. 00 
navida que esperamos de ter opremio deles que he agloria; Pesso e 
rogo aglorioza sempre virgem Maria Madre de Deos Senhora nosa e 
a todos os santos e santas da corte do ceo, principalm. te do Anjo da 
minha Goarda ao Santo do meu nome Sam Bernardo e ao meu Glo- 
riozo Patriarcha Sam Fran. co eSão Joze e a gloriozaSanta Anna 
aquém tenho devoçam queirão por mim entreceder e rogar a meu Se- 
nhor Jezus Christo agora equando minha alma deste corpo partir que 
como verdadeiro christam protesto viver e morrer na santa fé espero 
salvar minha alma não por meus merecim. tos mas pelos do unigénito 
filho de Deos — Rogo aminha may aSr. a ven. el ordem trec. a de meu 
grande Padre Sam Fran.° desta V. a que por serv. 0 de Deos epor me 
fazer m. ce queira ser minha Testamentr. a e esta he aultima esmolla 
que lhe peso por ser asim minha ultima vontade. 
Meu corpo sera sepultado de bayxo do Altar de N. Sr. a do Carmo cita 
na capella do rozario do alto da cruz para que ninguém tenha mais 
notiçia deste escandalozo Sacerdote, e amortalhado nas minhas ves- 
timentas Sacerdotais, que as tenho em minha caza ha m. tos annos 
acompanhado pelo meu Rd. 0 Parocho e mais doze Sacerdotes, e se 
fara hum officio docorpo prezente com os mesmos Sacerdotes, eselhe 
dara a Esmolla custumada E no mesmo off.° asitera muzica que seja 
boa esedará adita muzica dezaseis oitavas, enão querendo seme digão 
trinta eduas Missas, e hira o meu corpo em hu caixão com toda a li- 
gueireza — Declaro que sou natural e Baptizado na Frg. a de N. Sr. a 
da Conceisão da varge Termo da villa de Santarém do Patriarcado de 
Lx. a filho legitimo de Mathias Madr. a e de sua m. er Joanna Collasa 
ambos já defuntos. 

Declaro que deyxo a meu afilhado alberto Madr a , crioulo que em mi- 
nha caza está cem mil reis de esmolla — 

Deyxo a Madalegna crioula filha de Jozefa Roiz preta forra outros 
cem mil reis de Esmolla 

Deyxo a Bernarda Madr. a Crioula cazada com Dom.°s Per. a crioullo, 
oitenta mil reys de esmolla 

Deyxo mais p. a a Terra Santa doze oitavas de Ouro, Quero que estas 

deyxas sejão do pr. 0 ouro que se fizer dadas logo. 

Declaro que os bens que pessuo são os seguintes. Estas duas moradas 



186 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



de cazas Térreas emque vivo, estas ditas cazas as deyxo aminha co- 
madre Jozefa Roiz preta forra que aSiste aqui junto comigo, p. a nellas 
Asistir emq. t0 viver emais suas tres filhas crioulas, aSaber: Sebastia- 
na, Madalegna, eVicencia faço isto tão Som. te pello amor de Deos 
epor morte delias todas Tomara posse delas alrmd. e do Rozario dos pre • 

tos do Alto da Crus filial de Antonio Dias 

Declaro que pesuo Sinco escravos a saber Fellis mina, Feliphe Mina, 
Franc.° Mina, Antonio Mina, Joaquim cr. 0 e este dito fellis o deyxo 
coartado em duzentos eSincoenta mil rz que asim me custou A vis- 
ta: Também deyxo coartado Feliphe em cem mil reis, e Franc. 0 o dey- 
xo quartado em xincoenta mil reis e o Antonio o deyxo forro e liberto 
pellos servissos que dele tenho recebido elhe passey carta deAlforria 
da factura deste, e Joaquim servira hum anno ao meu afilhado criou- 
lo por nome Alberto epassado o dito armo o coarto em cem mil reis 
edeyxo atodos estes coatro escravos p. a darem os seus nomeados em 
coatro annos enão os dando por maliçia sua aminha venerável Or- 
dem 3. a farão o que melhor lhes parecer 



Tenho um rancho de pedra cuberto de telha ao pe do Ld.° Bento da- 
Cunha com suas canoas emais pertençes de que sou Senhor epesuhidor 
há trinta e sete annos, e este rancho e canoas odeyxo emq. t0 for vivo o 
tal Antonio mina nomeado atras p. a este trabalhar e morar e isto emqt. 0 
for vivo e por sua morte odeyxo ao d.° meu afilhado Alberto — e asim 
mais pessuo em ouro empó que em meu poder está húa Libra etantas 
oitavas — Tenho mais emeu poder cento e quarenta etantos mil reis 
em hua Barra — Tenho mais em créditos que se me devem por cré- 
ditos Manoel carv. 0 Morera dos S. tos da q. ,ia decento evinte ehú mil 
e tantos rs como milhor constara, eoutro credito de Joze da Motta 
Araujo deduzentos etantos mil rs como milhor constara dod.° cred. 0 — 
Deveme maiz oRd.° Pe. João Soares de Albergaria duzentos etantos 
milrs como milhor constara do credito eaSim os maiz que seacha- 
rem — Declaro que tenho hú cordam deouro que peza quarente e seis 
oitavas etanto, tenho mais hum paliteyro deouro que peza doze oita- 
vas etanto emaiz hum copo de prata com sua corrente mais hua Tas- 
sa de prata emais húa Cuya de prata, e aSim tenho mais vinte etrei 
pessas de culheres, garfos e facas com cabos de prata lavradas emais 
tres facas lizas, e maiz hú Oratório com húa Imagem de xpo crucifi- 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



187 



cado e húa Imagem de Sam Fran. co com seu resplendor deouro e duaz 
Imagens de N.Sr. a do Carmo. 

Tenho em hú baul quatro castissais de prata grandes com seu crucifi- 
xo todo de prata e hum cortinado de veludo cramezim que isto per- 
tence a Nossa Sr. a do Carmo do Alto da cruz q seentregara a q. m to- 
car — Deveme a minha Venerável ordem 3 a seis mezes de porção e 
desta se pagaram sinco oitavas a Antonio Per. a da Rocha por sincoen- 
ta Missas que memandou dizer no Reyno — 

Deyxo sedigão trinta Missas pelas Almas de meus escr. 0 » e sedigão no 
Reyno com esmolla cada húa de cento evinte rs. — Deyxo pelas almas 
de meus Pays e de q. B tenho obrig. am sincoenta Missas dietas no Reino 
com esmolla de cento ev. te rs. — Deyxo maiz duzentas missas por mi- 
nha alma a saber sincoenta ditas nestas Minas eas cento e sincoenta 
em Portugal com a esmolla de cento evinte reis cada húa e as das mi- 
nas de meya oitava. Deixo o meu catre com toda a roupa que seacha 
ao meu afilhado Alberto — Tenho mais húa meza deduaz gavetas re- 
donda e hú banco grande, epor não nomear tudo quanto tenho de 
moveis de caza deyxo tudo a carga serrada ad. a minha com. 0 Jozefa 
Roiz preta forra = 

Tenho mais hú cavallo sellado e enfreado, e mais outro que está na 
rossa do capp. am Manoel Alz de Azevedo que foy p. a lá a quinze de Mar- 
ço ese pagará ao d.° capp. am o milho que elle diçer. — 
Declaro que se algíia pessoa diçer lhe sou devedor de algúa couza man- 
do selhe pague sem contenda de Just. a . — 

E aSim maiz pessuo húa bastam de cana da índia em castoado em 
prata e húas esporas de prata lizas = 

Declaro que depois de cumpridos os meus legados e deyxas que aSima 
declaro que dos remanecentes de meus bens deyxo a minha alma por 
minha legitima e vniversal herdr. a e que se diga tudo em Missas por 
ella ditas no Reyno com a esmolla cada húa de cento evinte rs cada 
húa — 

E para cumprimento dos meus legados edo mais que neste tenho 
declarado torno pedir e rogar a sobre d. a minha ordem 3 a minha 
Testamet. ri queira por serviço de Deos e por me fazer m. e ser minha 
Testamentr. a para o que lhe dou sinco annos p. a darem contas para 
o que lhe deyxo de esmolla hú relicário de prata de Expor o Smo. Sa- 
cram^ que em meu poder está; e adita ordem anomeyo por procura- 
dora eadmenistradora de todos os meus bens com poder g. aI e especial 



188 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



de os poder admenistrar os ditos sinco annos elhe concedo todos os 
poderes que em dir. t0 meSão concedidos p. a que cada Irmão dela de 
persy ensolidum poSa tomar contade todos os meus bens eadmenis- 
tralos como lhe ordeno p. a o que afaço minha Testamentr. a e bem 
feitora e bastante procuradora — Declaro que adita minha ordem 
meacompahara a sepultura — Declaro que nunca fis testam. 10 nem 
codicilio equando algú apareça o hey por revogado eSó quero que a 
este sede toda avalidade força e vigor por ser aSim minha vitima von- 
tade do modo que tenho dito — E nesta formão hey por findo este 
meu testam. 10 — E no cazo que para mayor validade lhe falte algúa 
clauzula ou clauzulas em dir. t0 necessárias as hey aqui todas por ex- 
pressas e declaradas como se de cada húa delias fizera expreça e de- 
clarada mensão, e peSo as Just. aB de S. Mag. de q. D 8 g. de aSim Eclez. as 
como Seculares lhe dem e fação dar a este meu testam. 40 entr.° cum- 
prim. t0 na mesma maneira que nelle se contem havendo por suprido 
qual quer falta ou nullid. e que nelle for achados: E aSim com efeito 
o hey por findo e acabado que quero valha como ad causas pias em o 
d.° mes e armo atras declarado e por firmeza everdade pedi a manoel 
Luis Bernardes que este fizece e como test. a aSignasse e eu me aSyg- 
ney com o meu signal costumado de que vzo aSignou o ttt. dor Bernar- 
do Madr. a e como test. a , que o fes a rogo do Rdo. ttt. dor Manoel Luis 
Bernardes — 

Aprovado pello Tabalião Domingos Thome da Costa em sinco 

de Abril de 1756 a. 8 

Lavrado o tr.° de abertura pello escr. am Jozê de Seyxas na prez. a 

do Dr. Prov. or dos Reziduos Franc.° Angelo Leitão em seis de Abril do 

ditto anno de 1756 a. 8 Reg. d0 na prova em 23 do d.° mes no L.° 16 afl. 

54" — (2 a parte do L.° de Testamentos de Irmãos Terceiros, fl. 2). 
Inventario dos bens do def. t0 Rdo. Comissário o Dr. Bernar- 
do Madr. a os quais recebeo o d.° Sindico e o ttt.° esta reg. d0 no 



L.° do Reg.* 0 dos Testamentos a fl 

P. 192 / 8.as de ouro empo a 1200 rs 230$400 

" 1 Barra n.° 3.626 que pello seu toque 

valle 145$447 

1 Dita n.° 5.307 q peza 1 m. co e 54 gr." de 

22 q. teB e 3 gr 100$435 476$282 

" 1 Cordão de ouro que peza 46/8as., ava- 

luado a 1$400 65$100 

" 1 paliteyro de ouro com 4 palitos peza 

10/8as. a 1$500 15$000 80$100 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



189 



1 Copo de prata com sua corrente peza 

160 8as. a lOOrs 16S000 

1 Resfriadeira liza que peza 36 8as. a 

100 rs 35600 

1 Dita lavrada que peza 36 8as. a 100 rs 3S600 
1 Par de esporas de prata peza 32/8as. 

a 100 rs 3$200 

1 par de fivelas de sapatos outro de ligas 

e botões pezão 23 8as 25300 

16 Culheres e 13 garfos que pezão 498 / 

8as 493800 

1 Cana e seu castão avaluada em 35600 

1 Volta de cabeção avaluada 33000 

1 Boceta de prata que peza 19 8as. e 3/4 

a 100 rs 1S975 117S075 



" 1/4 de tabaco de S. Domingos em hum fras- 
quinho 23700 

1 Livro Escudo Mariano 3750 

1 Sobrepelis avaluada 95600 

1 Dita vsada avaluada em 35000 

1 Oratório com húa Imagem de xpe e ou- 
tra de S. Fran. co 165000 

" 136 Livros nuns em pasta outros em pre- 
gam. 0 avaluados em 545380 865430 



Credito que deve o Rdo. Pe. João Soa- 
res de Albergaria passado em 26 de 
agosto de 1754 evence juros a 6 e 1/4 2015903 
Credito de Joze da Motta de Ar. 0 paSa- 
do em 21 de Janr 0 de 1756 que vence 

juros de 6 e 1/4 por cento 2035198 

Cred. 0 que deve Manoel carv. 0 Mor. a dos 

Santos 1205480 525S581 



1 cavallo sellado e enfreado avaluado . . 405000 

1 Dito mt.° inferior avaluado 45800 

1 Cabra com sua cria 35600 485400 



Húa Estante p. a livros 15500 

Deve Ant.° Gomes de Mello boticário sem cla- 
reza 12S000 

Deve Antonio Gracia preto forro da m. a sorte 43800 16S800 



Soma o Inventario 1:352S168 



190 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Acréscimos ao Inventario 



Acreceo nas rematações evendas dos bens 27$720 

1 habito de 3.° vendido por 8/8as 9$60U 

24/8as. e 1/4 que deve a Irmandade dos 

pretos de resto de cappelania 29$100 

7/8as. cobradas do Rdo. coadjutor de hú 

acompanham. 10 e o officio 8$400 

3/8as. cobradas de Joze Felles Mor. a de 

acompanham. 10 3$600 

2/8as. e 3/4 cobradas de húa restituhi- 

ção 3$300 81$720 



Soma toda a receita pertencente a testa- 
mentária de defunto Rdo. Pe. comis- 
sário Bernardo Madr. a hum conto 
quatro centos trinta etres mil oito- 
centos oitenta eoito reis 1:433$88S 



Como vimos no capítulo precedente, ao fim do comissa- 
riado do Padre Madeira a Ordem foi visitada por Frei Luís 
de Santo Agostinho, capelão do Conde de São Miguel. 

2 — Padre Dr. Manuel Pinto Freire 

Quando Dom Frei Manuel da Cruz chegou a Mariana já 
o Pe. Pinto Freire se encontrava na diocese, onde, em 1748, 
exercia o cargo de capelão do Rosário dos Brancos em Antô- 
nio Dias e, na mesma freguesia, havia sido capelão-cura do 
povoado de Santa Rita. 

Foi comissário duas vezes, de 1756 a 58 e de 1761 a 63. 

3 — Padre Dr. Luís de Almeida Vila Nova 

Vide cap. III, I o e 2 o 

4 — Padre José Fernandes Leite 

Tomou parte na primeira turma de sacerdotes ordenados 
por Dom Frei Manuel da Cruz em 3 de junho de 1847. Era natu- 
ral de São João de Ver, comarca da Feira e bispado do Porto. 
Fundou em Antônio Dias a capela de Bom Jesus dos Perdões, 
da qual foi patrono. Doou-a à Irmandade das Mercês por escri- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



191 



tura de 22 de março de 1760. Faleceu em 3 de outubro de 1768 
e está sepultado no adro da igreja que fundou. 
Vice-comissário em exercício de 1763 a 64. 

5 — Padre Pedro Pereira da Silva 

Natural de Caeté. Ordenado em Mariana a 28 de dezem- 
bro de 1751. Comissário de 1763 a 1767. 

6 — Padre José Valente de Vasconcelos 
Comissário de 1767 a 1770. 

7 — Padre Luís Vieira da Silva 
Vide o capítulo seguinte. 

8 — Padre Tomás Machado de Miranda 

Era português, mas foi ordenado em Mariana a 20 de 
março de 1757. Coadjutor em Antônio Dias em 1762. Comis- 
sário desde 1773 até 1779. 

9 — Padre Antônio Correia de Sousa Melo 

Comissário de 1779 a 1783. A Ordem, neste triénio, foi 
visitada canonicamente pelo Padre José Carneiro de Barros 
Cerqueira e Sá. 

10 — Padre Inácio José Correia 

Coadjutor do Vigário de Antonio Dias em 1767. Comissá- 
rio de 1779 a 1791. 

11 — Padre Manuel de Abreu Lobato 

Comissário de 1791 a 1823. Largou o cargo a 11 de maio 
de 1823 por haver sido nomeado capelão do Regimento de Ca- 
valaria Paga. Reassumiu-o em 1826 e o exerceu até a morte, 
que se deu em 1829. 

Em 1797 a Ordem recebeu a visita canónica e muito hon- 
rosa de Fr. Francisco de São Carlos, o notável pregador do 
reino unido e o épico da — A Assunção. 

O eminente franciscano teve com a Ordem a seguinte cor- 
respondência : 



192 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"Muito Rdo. Snr. Padre Comissário e Senhores Ir. Min. 0 e Defi- 
nitorio. Havendo nós chegado a esta Capitania em qualidade de Co- 
missário Visitador das Veneráveis Ordens Terceiras do N.P. Sam Fran- 
cisco, e tendo Beneplácito Régio para entrar na dita Capitania, dese- 
jamos dar princípio a nossa Comissão. Para o que fazemos conhecer 
a VV. CC. que hajam de fixar dia certo para a abertura da nossa vi- 
sita. E como não a poderíamos fazer sem Secretário, temos rogado para 
êste ministério ao Rdo. Padre Francisco José Flores. Deus Guarde a 
VV. CC. por dilatados anos. Vila Rica, 9 de outubro de 1797. De W. 
CC. Irmão e Servo em o Senhor — Frei Francisco de São Carlos." 

Resposta da Mesa: 

"Rrao. Sfir. Frei Francisco de São Carlos — Recebemos a Carta de 
V.P.M. Rma. em que nos anuncia a autoridade que tem para visitar a 
esta Venerável Ordem e que para dar princípio a esta diligência lhe 
destinássemos dia, ao que cingidos do mais profundo respeito a hu- 
milhação respondemos que no dia 15 do corrente pelas 9 horas da ma- 
nhã esperamos a V.P.M.Rma. na Capela da dita Ordem para o pre- 
tendido fim, em cuja ação mostraremos eficazmente a nossa submissa 
obediência. Deus Guarde a V.P.M.Rma. felizmente. Vila Rica, 10 de 
outubro de 1797. De V. Rma. Irmãos e Servos em o Senhor — Manuel 
de Abreu Lobato, Comissário — Antônio Ribeiro da Costa, ex-Minis- 
tro — José Gonçalves Reis, secretário". 

Frei São Carlos subira às Minas (onde se demorou até 
1781) na comitiva do Conde de Sarzedas, Dom Bernardo José 
de Lorena. 

Em 1815 Frei Luís de São Libório apresentou-se à Ordem 
com Patente de Visitador, passada pelo Provincial Fr. Solano 
Benjamim. O leitor estará lembrado de que a Mesa recusou 
receber a Visita de Frei São Libório. 

12 — Padre Manuel da Costa Ferreira 

Comissário de 1823 a 1826. Neste triénio, por eleição de 
17 de setembro de 1823, foi o Bispo de Mariana, Dom Frei José 
da Santíssima Trindade, constituido Protetor Perpétuo da 
Ordem. 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 193 

13 — Padre Felix Antônio Lisboa 

Sucedeu ao Comissário Manuel de Abreu Lobato em 1829 
e exerceu o cargo até 18 de maio de 1831. 

Era filho de Manuel Francisco Lisboa. Rodrigo Bretas, 
no seu magnífico estudo biográfico do Aleijadinho, estampado 
por Xavier da Veiga na Rev. do Arch. Publ. Min., diz o seguin- 
te com relação ao Padre Felix: "Manuel Francisco Lisboa 
tinha da mãe do Aleijadinho mais dois filhos, e alguns outros 
houvera de legítimo matrimonio. Entre estes achava-se o Pa- 
dre Félix Antônio Lisboa, que faleceu nesta cidade a 30 de 
maio de 1838. Tinha-se aplicado à estatuária sob as vistas do 
Aleijadinho que dêle dizia que só podia esculturar carrancas e 
nunca imagens. Entretanto, diz-se ter sido obra sua, sofrivel- 
mente executada, a imagem de São Francisco que existe na res- 
pectiva capela. Afirma-se que o dito Padre Felix fora instruido, 
para o fim de receber ordens sacras, a expensas do mesmo 
Aleijadinho, a quem tratava com deferência (Rev. cit. I, 173, 
nota)". 

No A. B. C. — dário, caderno suplementar de despesas da 
Ordem, a fls. 45 verso, está registrado o seguinte: "Deixou (o 
Padre Félix) de ser Comissário da Venerável Ordem da Peni- 
tência de São Francisco a 18 de maio de 1831, apesar de se ver 
no Livro 3 o das deliberações da Mesa, a fls. 72, que tomou 
posse de Comissário o Rvmo. Francisco José Ferreira da Silva 
a 19 de junho do mesmo ano de 1831, porque o dito Comissário 
Félix Antônio Lisboa abandonou a sua obrigação de dizer as 
Missas do Espírito Santo e suas oitavas para as ir dizer no 
Rodeio, e por isso logo daquela data de 18 de maio ficou sus- 
penso de seu exercício de Comissário — O Secretário 
Cipriano". 

14 — Padre Francisco José Ferreira da Silva 
Comissário de 1831 a 1833. 

15 — Padre João Moreira Duarte 
Vice-Comissário em exercício de 1833 a 1834. 



194 



CÓNEGO RAIMUNDO T íl I N D A D È 



16 — Padre Álvaro José de Cerqueira e Araujo 

Natural de Antônio Dias de Vila Rica. Vigário colado de 
Cachoeira do Campo da qual foi privado por deliberação da 
Mesa da Consciência e Ordens, em tempos de Dom Frei 
Cipriano. 

Comissário de 1834 a 1844. 

As eleições de 1841 para 1842 foram presididas pelo Vice- 
Comissário, Padre João da Silva Sobreiro. 

17 — Padre Fernando Augusto de Figueiredo 

Vice-Comissário em exercício de 1844 a 47 e em seguida 
Comissário até 1851. Às eleições de 1851 presidiu na qualidade 
de Comissário interino, por impedimento do proprietário, o 
Padre Emerenciano Maximino de Azeredo Coutinho. 

18 — Padre Camilo Martins Pereira de Andrade 

Comissário de 1851 a 56. 

19 — Padre Antônio Augusto França 

Comissário em 1856. Ordenado em Mariana a 9 de maio 
de 1847. 

20 — Padre Isidoro Pinto de Resende 

Comissário interino de 1856 a 1861. Durante êste período 
recebeu a Ordem a visita do afamado missionário capuchinho. 
Fr. Francisco Coriolano de Otranto. O piedoso franciscano 
presidiu aí as eleições de 1861 . 

21 — Padre Joaquim da Rocha Fiusa de Matos 
Português. Comissário de 1862 a 1863. 

22 — Cónego Jerônimo Emiliano de Araujo 



1863-1876. 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



195 



23 — Cónego Luís Tirézio da Costa Braga 

Era Ministro e simultâneamente serviu o cargo de comis- 
sário, diríamos melhor de capelão. Era o cónego natural de 
Antônio Dias de Ouro Preto. Foi ordenado a 3 de janeiro de 
1864 e dois anos depois vestiu a murça do Cabido Diocesano, 
ocupando a vaga do Cónego José Bonifácio de Sousa Barradas 
(1876-1881). 

24 — Padre Dr. Miguel Sálvia 

Era italiano. Comissário eleito e empossado em 1881. Fun- 
cionou até 1885, quando regressou à pátria. As eleições de 1885 
foram presididas pelo deputado provincial, Cónego Manuel 
Alves Pereira, por ser em Diamantina, sua diocese, Comissá- 
rio Visitador da Ordem Terceira. 

25 — Cónego Américo Augusto Ribeiro de Carvalho 

Interino em 1885; não pôde aceitar a eleição "por ser 
empregado na Sé de Mariana". 

O Cónego Américo, nascido em Antônio Dias de Ouro 
Prêto em 1845, era filho de Valeriano Manso de Carvalho e 
Antônia Lopes da Cruz. Ordenado a 30 de abril de 1871, no 
ano seguinte, a 3 de julho, colou-se, devidamente apresentado, 
numa das cadeiras capitulares da Sé de Mariana, benefício que 
renunciou em 1889, a 3 de setembro. Faleceu no primeiro decé- 
nio dêste século como vigário da paróquia do seu nascimento. 

26 — Padre Pedro Árbues das Chagas Conceição 

Sacerdote de proclamadas virtudes. Natural de Ouro 
Prêto. Ordenado a 12 de abril de 1885. Comissário desde 2 de 
dezembro do ano de sua ordenação até 1890. Faleceu em 1906. 

27 — Padre Camilo de Lelis Ferreira Veloso 

Natural de Ouro Prêto. Ordenado a 4 de setembro de 1870. 
Administrou por alguns anos o Santuário de Congonhas do 
Campo. Exerceu o paroquiato em Antônio Dias, e, como páro- 
co, serviu interinamente de comissário (1890-1895), porque a 
igreja da Ordem é filial da matriz de Antônio Dias. Faleceu 
em Ouro Prêto no ano de 1895. 



196 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



28 — Padre José Marcos Pena 

Nascido no distrito da Passagem de Mariana. Ordenado 
a 15 de abril de 1895. No mesmo ano, a 10 de setembro, entrou 
em exercício do cargo de comissário. Serviu, ao que parece, 
menos de um ano, visto como silenciam a seu respeito os livros 
da igreja a partir de 1896. Se lhe sucedeu outro sacerdote, 
deste não reza o arquivo de São Francisco. O Padre Pena fale- 
ceu em Belo Horizonte em 1941. 

De direito e com legítima jurisdição o último comissário 
da Ordem Terceira da Penitência, em Ouro Preto, terá sido 
o Padre Abreu Lobato, falecido em 1829. 



CAPÍTULO VI 



CÓNEGO LUÍS VIEIRA DA SILVA — 7 o Comissário 

Não devia faltar ao Cónego Luís Vieira o bonum perse- 
cutionis (24), de que tantas vêzes se vale a Providência Divina 
para conduzir seus escolhidos ao fim a que de antemão os 
destinou. 

E o ilustre sacerdote sofreu. Sofreu sobretudo da medio- 
cridade rasa que o rodeava, que não o enfrentaria nos prélios 
da inteligência e que se picava de inveja ante os triunfos de 
sua cultura e com a acolhida honrosa que lhe faziam os inte- 
lectuais da capitania (Cf. seus amigos em Autos da Devassa, 
IV-291). 

Feria-os ainda — a êsses êmulos do eminente eclesiástico 
— o brilho com que êle realçava sua cadeira de Filosofia no 
Seminário de Mariana e os púlpitos de maior responsabilidade 
da igreja marianense. (24 bis). 

Sua cultura, de que era índice significativo a maior e mais 
bem selecionada biblioteca das Minas Gerais, essa cultura que 



(24) Bonum persecutionis qua Deus utitur, velut instrumento, ad perducen- 
dos suos electos in finem ad quem predestinati sunt (Fabri, Canciones, III-493). 

(24 bis) Sabe-se que pregou na inauguração da igreja de São Francisco de 
Assis em Vila Rica e ainda em Vila Rica, já denunciado, pregou nas exéquias do 
Príncipe do Brasil. Pronunciou em Sabará o elogio fúnebre do Dr. Lourenço José 
de Queirós Coimbra, nas exéquias solenes que ali se celebraram no 30.° dia do fa- 
lecimento do ilustre Vigário de Freguesia, e da Vara daquela comarca (Vide esta 
oração em Archidiocese de Mariana, II, 1052). 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



o próprio Visconde de Barbacena reconheceu e mais tarde pro- 
clamou, (25) irritava os adversários do emérito professor e 
pregador afamado. 

Se temos notícia bem documentada de seu talento e de 
seu preparo intelectual; mais documentada e mais segura notí- 
cia temos dessa perseguição continuada de que foi alvo e que 
culminou na "tragédia" da Inconfidência. 

Três lances de sua existência chegaram nítidos ao nosso 
conhecimento: são exatamente os passos de sua vida em que 
o encontramos vítima, nunca abatida contudo, dessa constante 
perseguição. 

Historiando a vida do inditoso sacerdote, destacaremos 
em breve êsses três episódios que tornam mais interessante a 
biografia do ilustre inconfidente. 

★ 

Filho do Alferes Luís Vieira Passos e Josefa Maria do 
Espírito Santo, o Cónego nasceu no povoado de Soledade, hoje 
estação de Lôbo Leite, em cuja capela foi batizado a 20 de feve- 
reiro de 1735. Seu pai, como o avô paterno, João Gaspar, era 
natural de São Miguel de Vilela, arcebispado de Braga; sua 
mãe e a avó materna, Joana da Silva, eram de Santo Ildefonso, 
intra muros do Pôrto. A avó paterna, Ana Francisca, e o avô 
materno, Miguel Luís da Costa, eram, respectivamente, de 
Lanhoso (Castelo de Lanhoso) e de Santa Maria das Medas, 
então do conselho de Aguiar de Sousa e atualmente de Gon- 
domar. 

Seus pais casaram-se em Minas, na mencionada capela da 
Soledade, onde viviam da agricultura. Tal capela integrava, 
em 1735, o território de Congonhas do Campo, freguesia que 
naquele ano ainda era de instituição episcopal. 

Em 1752, quando se procedia à sua habilitação para 
ordens, o candidato Luís Vieira afirmou-se natural de Congo- 
nhas. Reza assim a petição inicial do habilitando no aludido 
processo: 

"Diz Luiz Vr. a da S. a Seminarista actual no Seminário desta cid.* 
e bap. d0 na Freg. a da S. a da Conc. am das Congonhas do Campo, f.° 



(25) Cf. documento posto mais adiante, neste capítulo. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



199 



leg.° do Alferes Luiz Vr. a Passos e de sua m. ei Jozepha Maria do Es- 
pirito S. to q. elle se acha admettido por S. Excia. Rma. a fazer as dili- 
gencias nec. as p. a ser promovido a ordens; e porq. entre algúas q. tem 
feito, e anda fazendo lhe seja nec.° fazer a de moribus na freg. a sobre- 
dita, porem como o destricto da,freg. a das Cong. as do Campo onde o 
Supp. e algum tempo assistia, hoje pertence á freg. a do ouro branco, 
e por evitar algumas duvidas — P. a V.M. seja servido mandar q. au- 
thuada esta se lhe passem as ordens nec/ ,s hindo segredo de publican- 
dis p. a ambas as freg. 88 e Commissão som.' p. a a freg. a do ouro bran- 
co p. a o R. d0 Par. 0 da mesma perguntar as tt. as q nomear, e as q no- 
mear também o R. do par. 0 das Cong. as no m. do de segredo q lhe foi 
commettido q o remeterá em carta fechada ao d.° Par. 0 de ouro bran- 
co.E.R.M." 

Em junho de 1782, 30 anos depois, quando se habilitava 
ao canonicato, ainda reafirmou sua naturalidade, como na 
petição de 1752. São formais palavras suas: "Diz o Padre Luiz 
Vieira da Silva, n. al da Freguesia de N. Sra. da Conc. am de Con- 
gonhas do Campo e morador nesta cid. e que, p a requerimentos 
q tem, precisa mostrar-se sem culpa, p. a o q — P.a Vm.se digne 
mandar-lhe passar Alvará etc." (26). 

Entretanto, quando, no processo da Inconfidência, pres- 
tou os primeiros depoimentos, o Cónego Luís Vieira declarou- 
se natural de Ouro Branco, comarca de Vila Rica (Autos da 
Devassa, II, 118; IV, 219). 

Não faltam, contudo, a Congonhas bons títulos para rei- 
vindicar, se quiser, a honra de haver sido o berço do ilustre 
mártir do ideal republicano no Brasil. 

Ia pouco além dos 15 anos quando se matriculou no Semi- 
nário de Mariana, donde em 1752 se despediu para ir continuar 
e concluir em São Paulo, no Colégio da Companhia, o seu curso 
eclesiástico. Teria influído nessa deliberação o seu mestre Pa- 
dre José Nogueira, que, de resto, o acreditou junto aos seus 
coirmãos da capitania bandeirante com o atestado do teor 
seguinte: "José Nogr." Sacerdote Professo na Comp. a de 
JESUS, Lente atual de Moral e M. c de Latim neste Seminário 
de Marianna e Examinador Synodal do mesmo Bispado — 

(26) Arquivo da Çúria Marianense: Habilitações e Oposições, letra L. 



200 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Certifico que o Seminarista Luis Vieyra da Sylva, desde que 
entrou neste Seminário aos dezesette de Agosto de 1750, sem- 
pre procedeo com m. ta exemplarid. c de costumes na frequência 
dos Sacramentos e mais exercicios de espiritual devoção con- 
forme a obrigação dos Seminar. tas , sem que nestes dous annos 
e quatro meses tivesse queixa algúa delle assim in genere 
morum, como na applicação proficua dos seus estudos, nascido 
hum e outro proveito do seu bom génio e engenho — E para 
q. conste desta verdade, lhe passei esta por mim feita e assig- 
nada, e jurada in verbo sacerdotis — Seminário de N. Sra. da 
Boa Morte, sette de Dezembro de 1752 — Jozê Nogr a ". 

Tornou à diocese em 1757 e logo, antes mesmo de haver 
tomado as ordens de presbítero, lhe foi confiada a cadeira de 
Filosofia, disciplina em que se graduara e que regeu daí por 
diante, quase ininterruptamente, até o dia de sua prisão. Ainda 
existem perto de Lôbo Leite as ruínas do seu patrimônio ecle- 
siástico — o sítio do Guido. 

Em 1762 habilitou-se em concurso para se opor s igrejas 
de Catas Altas e Rio de Pedras; mas desistiu dessa pretensão 
e não se opôs. 

Foi vigário encomendado da Vila de São José, hoje cidade 
de Tiradentes, e ali, em março de 1777, transmitiu a adminis- 
tração paroquial ao vigário colado Carlos Correia de Toledo 
e Melo, 12 anos depois seu camarada de infortúnios. 

Para completar o que dos arquivos se apurou com relação 
ao Padre Luís Vieira, nada mais me cumpre senão expor os 
três episódios de sua vida a que, há pouco, fiz alusão. 

I — SUA ELEIÇÃO PAA COMISSÁRIO DA ORDEM TERCEIRA 
DA PENITÊNCIA 

Por eleição da Mesa, realizada a 19 de agosto de 1770, foi 
o Padre Luís revestido das funções de Comissário. Algo de 
extraordinário houve nessa eleição visto como o sacerdote 
eleito não era do clero de Vila Rica e desempenhava um cargo 
público em Mariana. 

Parece-me lícita uma conjectura. O Conde de Valadares, 
por essa época Governador das Minas, julgo que dispensava 
merecido aprêço aos homens de letras da capitania. Terá sido 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 201 

esta a razão por que Cláudio lhe dedicou a primeira edição de 
suas poesias e se animou a buscá-lo — "superior Mecenas" — 
para patrono de seus versos. Pelo mesmo motivo teria o Conde 
patrocinado, teria mesmo sugerido, a eleição para Comissário 
de sua Ordem (27), da "maior ilustração colonial da época", 
do orador por excelência que ilustrava os púlpitos mais respei- 
táveis da diocese. 

Vinha-se aproximando, de resto, o dia da inauguração 
(parcial embora) da igreja da Ordem e ao Protetor, que cola- 
borava de certo no programa da cerimónia projetada, teria 
acudido logo o nome do ilustrado professor marianense como 
do único pregador em condições de pronunciar, como convi- 
nha, o sermão circunstancial da insigne festividade. 

Competia ao Comissário ou a seu substituto canónico 
(Estatutos, n. 19) o ministério do púlpito em solenidades da 
Ordem. 

E aí está, satisfatoriamente explicada, a eleição que pode- 
ria, à primeira vista, parecer estranha. 

Houve no entanto quem a malsinasse e a acoimasse de 
nula. Alguém, que acompanhava com tristeza e raiva a ascen- 
são gloriosa do ilustrado sacerdote, delatou-o ao Provincial 
como impedido de ocupar o honroso cargo a que o chamava 
com aplausos da congregação e do Capitão-General, a Ordem 
Seráfica da capital das Minas. 

Veremos dentro em pouco que derivava da inveja e do 
ódio "de algum ânimo apaixonado" essa denúncia antecipada- 
mente desfeita com documentos que o candidato em tempo 
oportuno apresentara à Mesa. 

Foram dizer ao Prelado Franciscano que o Padre Luís 
"não era professo em alguma das Ordens Terceiras da Peni- 
tência", o que, fosse verdade, era suficiente para inquinar de 
nula a eleição de 19 de agosto. Levaram ainda ao Provincial 
"outras notícias mais individuais que tôdas qualificam de vio- 
lento atentado a pretendida eleição". 

Apesar de desfeita a intriga, somente, corrido um ano, foi 



(27) Por eleição de 17 de setembro de 1769 o Conde fôra constituído Protetor 
da Ordem. 



202 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



a eleição confirmada e ainda assim ad duritiam cordis, como 
por miúdo contarão os documentos que transcrevo a seguir: 

"Em nome de Deus Onipotente Padre Filho Espírito Santo, três 
pessoas distintas e um só Deus Verdadeiro e da Santíssima Virgem 
Maria N. Sfa. concebida sem mácula de pecado original e de N. S. P. 
S. Francisco. 

Esta é a eleição que em esta Matriz de N. Sra. da Conceição des- 
ta Vila Rica, no Consistório que serve de Casa do Despacho desta Ve- 
nerável Ordem Terceira da Penitência de N. P. São Francisco, se fez 
em o dia 19 de agosto de 1770, em Capítulo Geral pelo Irmão Ministro, 
e Capitão-Mor da Rocha Ferreira, estando completo o número dos ofi- 
ciais e Definitório, com todos os mais irmãos graves infra escritos, que 
comodamente se puderam ajuntar, precedendo a propor o Irmão Mi- 
nistro, com aprovação do Ilustríssimo e Exmo. Snr. Conde General, 
nosso Digníssimo Protetor, três Irmãos RR. Sacerdotes, dos quais cor- 
rendo primeiramente o vaso para a sua aprovação, depois de aprova- 
dos segunda vez, se votou para sua eleição, observando-se em tudo o 
disposto no cap. 14, §§ 1.° e 3.° dos nossos Estatutos, saiu a mais vo- 
tos para nosso Comissário Visitador o Rdo. Luís Vieira da Silva. E nes- 
ta forma havemos por finda e acabada, legítima e canonicamente fei- 
ta esta nova eleição, dando-se logo posse do seu cargo, e assinou têr- 
mo no livro dêles, para de seu ofício usar com as obrigações dêle na 
observância da Santa Regra e Guarda dos Estatutos. E prometeu fa- 
zer tudo para maior honra e glória de Deus e de N.S.P. e aumento da 
Venerável Ordem. E em firmeza da verdade assino esta que vai selada 
com o sêlo de que uso, para assim ser remetida ao N.R.M. Provincial, 
para que se digne confirmar. Vila Rica, em Mesa Geral, aos 19 de 
agosto de 1770. E não se continha mais na dita eleição que aqui co- 
piei fielmente e eu João Moreira Coelho, secretário que o subscrevi e 
assinei. 

João Moreira Coelho, Secretário". (Copiador — 68). 

"Muito Rmo. P. Ministro Provincial Frey José dos Anjos = A 
graça do Divino Espirito S. t0 assista a V.P. M.'° Rma. com m. {as felici- 
dades p. a q com a lux Divina afervore nossos corações na mayor exac- 
ção dos honoríficos empregos a q. novamente fomos conduzidos na 
eleição feita por nossos antecessores q. querendo por sua caridade dis- 
tinguir-nos entre os mais irmãos em o dia próprio do nosso SSmo. P. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



203 



aos empregos das nossas obrigações e nestas constituídos se nos faz 
mais necess. a e obrigatória a obediência em rendimento da q.' como 
súbditos pelo modo possivel himos aos pés de V.P.M.Rma. que no re- 
conhecimento de filhos como Prellado e Pay Spiritual nos queira por 
sua Piedade frequentem. 1 * admoestar com a doçura do seo Spirito de 
cujo meyo tão singular resultara a Deos Gloria e a este pequeno re- 
banho merecer lavar as manchas de suas imperfeiçoens. Remetese a 
V.P.M.Rma. a urbana oblação da Taboa do nosso Cap.° q. uniforme- 
m. te por Eleição canónica se celebrou a 17 de setembro próprio das 
chagas e na m. a que determina o cap. 26 dos nossos Estatutos dos 
quais a copia se achará no Arquivo dessa Sagrada Religião hú auten- 
tico instrum. 10 p. a q V.P.M.Rma. com a inata liberalidade q. costuma 
se digne de a confirmar por cuia Exc. a se nos fará e a todo este mis- 
tico corpo comunicável m. 13 consolação spiritual na q. 1 inflamados in- 
cessantem. te pediremos a Deos o conserve em seo S. to amor p. a q por 
meyo deste e por intercessão do N. Smo. P. meressamos obter de V.P. 
M.Rma. a Seráfica benção segundo e com. a mais profundo reverencia 
debaixo da obed. a de seos altissimos preceitos e Religiosissima Pessoa 
de V.P.M.Rma. q Deos g. de por muitos e felices an. s p. a vivamente pro- 
teger e reger estes humildes filhos. V a Rica em Meza de 14 de 8br.° 
de 1770. De V.P.M.Rma. os mais humildes f. os e afetuosos em o Se- 
nhor ss Conde de Valladares = Feliciano J." da Camara. V. Min. 0 
= Luis Vr. a da Silva, Comissr. 0 Viz° r = Fran. co Correia Fortuna, Se- 
cret. 0 ". 

Resposta à Carta precedente [do Provincial] (Copiador 71 v.) 

"Senhores Irmãos de Mesa da Venerável Ordem Terceira de Vila 
Rica = Não me posso capacitar que a carta que tenho nas mãos, sen- 
do tão incurial, seja de uma Ordem Terceira que elegeu para seu di- 
retor um Rvdo. Sacerdote, o mais civilizado e atento. Como suponho, 
ficaria e devia ficar a cópia; nela podem W. CC. advertir os descuidos 
para a correção, enquanto eu passo a notar os defeitos da eleição que 
se me remete, a qual não devo, nem posso confirmar por ser absolu- 
tamente nula. A 10 de janeiro que me recolhi da visita dos Conven- 
tos, recebi as cartas e eleição dessa Ordem, e logo depois outras que 
me avisavam terem VV. CC, contra todo o Direito, Leis da Ordem e 
próprios Estatutos, eleito para Comissário Visitador a um Reverendo 
Sacerdote que não era professo em alguma das Ordens Terceiras Se- 



204 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



ráficas da Penitência: diferi a resposta por me informar, e achei ser 
certo o que me avisavam, e também outras notícias mais individuais 
que todas as qualificam de violento atentado a pretendida eleição 
que de Comissário Visitador fizeram, porque além do sobredito, para 
a fazerem, substituiu o Irmão Ministro em seu lugar outro que pre- 
sidisse, sendo contra o Direito da Seráfica Família semelhantes subs- 
tituições, e muito mais havendo Vice-Ministro da Ordem, a quem per- 
tencem as operações tôdas que são próprias do Ministro ausente: tam- 
bém consta que o Irmão Ministro substituto propôs para eleição su- 
jeitos diversos daqueles que o Irmão Ministro constituinte por carta 
lhe insinuou, e algum que por não ser irmão terceiro professo, ou 
apresentado nessa Ordem, conforme o cap. 14 dos Estatutos dela não 
podia ser proposto e menos eleito e empossado do ofício, e como na 
confirmação dos mesmos Estatutos manda o Noss Rmo. Padre Geral 
se observe tudo quanto nêles se contém sob pena de nulidade de tudo 
quanto se obrar, fica sem dúvida sendo nula a eleição de Comissário, 
feita em sujeito não terceiro qual é o Rdo. Pe. Luís Vieira da Silva: e 
como êste foi o que presidiu à eleição de oficiais da Mesa e a outros 
muitos atos, como evidentemente consta, e ainda se acha intruso 
nessa Ordem, fica nula a eleição, que não posso nem devo confirmar, 
e também nulo tudo quanto debaixo da direção do dito Rdo. Padre 
se tem obrado e obrar. É o que por agora posso dizer a W. CC, a quem 
desejo paz sincera, caridade perfeita e inteira observância de sua San- 
ta Regra e Estatutos para maior glória de N, Seráfico Patriarca, au- 
mento dessa Ordem e serviço de Deus Nosso Senhor que a W. CC. 
guarde como desejo. Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 
8 de abril de 1771 = De VV. CC. irmão e servo em o Senhor Fr. Iná- 
cio de Santa Rita Quintanilha." 

Resposta da Mesa à carta precedente (Copiador 72) 

"Rmo. Sr. Pe. M. e Ministro Provincial = A paz de Jesus Cristo 
assista a V. Paternidade Rma. com enchentes da sua graça, e a luz 
do Espírito Consolador se derrame sôbre seu coração para que conti- 
nue nos acêrtos com que tem dirigido a todos os que temos a felicida- 
de de seus súditos pelas santas regras do Nosso Santíssimo Patriarca. 
Os irmãos terceiros da congregação de Vila Rica de joelhos beijam as 
mãos de V.P.Rma. e com tôda a humildade recebem a correção dos 
seus descuidos como admoestações paternais; mas, se é lícito (sem 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



205 



faltarem à devida submissão que professam) defender-se de uma im- 
postura, que algum ânimo apaixonado suscitou contra a sua inocência, 
será V.P.Rma. servido ouvir a sua justa defesa. Tendo acabado os seus 
três anos de Comissário a nosso Irmão, o Rdo. José Valente de Vas- 
concelos e tratando a Mesa a necessidade de se proporem novamen- 
te três Irmãos Sacerdotes para o dito Ministério, discorrendo pelos que 
há na Congregação, se acharam poucos com as qualidades compe- 
tentes para êle; e lembrando o Rdo. Luís Vieira da Silva se lhe man- 
dou insinuar que se apresentasse nesta Ordem com a Patente que 
havia ter da de Mariana, onde é professo: e com efeito a apresentou 
no mesmo dia em que foi eleito como consta do documento número 
primeiro. Depois disto se procedeu à eleição, na qual, merecendo a plu- 
ralidade de votos, como se verifica do documento número segundo, 
foi reconhecido por esta Ordem por seu legítimo Comissário na forma 
do cap. 14, por V. Rma. apontado na sua carta de 8 de abril do cor- 
rente ano e conteúdo nos nossos Estatutos, confirmados por Nosso 
Reverendíssimo Ministro Geral. E quem poderá duvidar da legitimi- 
dade desta eleição, sendo feita conforme o referido cap. 14 que diz 
per formalia verba: 

O Reverendo Padre Comissário será Irmão professo desta Ordem, 
e sendo professo em outra não será admitido por forma alguma ao 
cargo de Comissário, sem que nesta primeiro tenha apresentado a sua 
Patente &. De sorte que o dito cap. em todos os seus parágrafos não 
declara o tempo que deva ter de irmão apresentado já pode ser Co- 
missário: e sendo isto assim, como na verdade é, aonde está a nuli- 
dade? Mas se esta em substituir-se em lugar do Ministro, o outro que 
já o tinha sido, também esta substituição é conforme às nossas leis e 
estatutos, que no já referido cap. 14, § 1.° se dispõe que para a elei- 
ção de Comissário se inteire o número da Mesa, substituindo em ou- 
tros a falta dos ausentes, ib: "Determinamos que, havendo necessida- 
de de eleger Padre Comissário, o Irmão Ministro, convocada tôda a 
Mesa completa de todo o seu número, substituindo a falta de alguns 
nos irmãos mais graves e antigos, e além dêstes o Ministro imediato 
&.", cuja substituição louvàvelmente costuma esta Venerável Ordem 
fazer em outros que tenham servido os mesmos cargos que substi- 
tuem, o que tudo inteiramente se observou. E nestes têrmos parece 
que também aqui não está a nulidade, como não está. Pois o caso 
estará na chamada nómina, que o Irmão Ministro, que era, insinuou 



206 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



ao seu substituto? muito menos parece que está pelas razões que ago- 
ra diremos. Em primeiro lugar o Irmão Ministro não tem voto na 
Mesa por carta, e só pessoalmente o deve ter; em segundo lugar per- 
suadia a esta Mesa e aos Irmãos dela, que então serviam, a que a for- 
ça elegessem o mesmo Rdo. Comissário que então acabava, pois ou- 
tra coisa se não pode entender da proposição de três sujeitos entre 
os quais só o dito Reverendo Padre era apto para o mesmo exercício, 
por serem os outros dois incapazes, um por muito idoso e achacoso, 
de sorte que já não pode dizer Missa; e o outro porque havendo mui- 
to poucos dias se havia ausentado desta Vila para a distância de mais 
de cem léguas, por ordem do Reverendíssimo Ordinário, a paroquiar 
a freguesia de Jacuí, além de conter outras inabilidades para o em- 
prêgo, e se a eleição se fizesse por aquela chamada nómina, quem du- 
vidaria da sua nulidade pelo claro suborno? Finalmente, sendo pro- 
postos outros dois juntamente com o atual, que então servia, pela 
concorrência dos votos ficou eleito, óptimo iure, o existente canónica e 
legitimamente, como tudo se patenteia dos documentos 2.° e 2.°. Esta 
foi a forma da eleição do nosso Reverendo Padre Comissário, que por 
ser tão conforme com os nossos Estatutos, em que nada se omitiu do 
disposto dêles bem merece a aprovação de legítima: e se ela, como se 
tem mostrado, foi canónica, por que razão o não será a que se fêz 
da presente Mesa? feita por pessoas legítimas e por vogais que em 
tudo se conformaram com o disposto nos ditos Estatutos desta Or- 
dem. Mas, dato et non concesso que houvesse alguma nulidade, es- 
perava esta Ordem que V.P.Rma. paternalmente nos mandasse ouvir 
sobre qualquer queixa, e depois de respondermos a ela, como obedien- 
tes filhos, castigar as nossas omissões e sanar qualquer defeito que 
houvesse, porque assim o persuade a boa razão, e o amor que se deve 
esperar de um Pai espiritual para com seus filhos, intimamente, fi- 
cam os nossos corações bem magoados pelo escândalo que V. P. Rma. 

toma da nossa obediente carta de 14 de outubro do ano passado, sen- 
do certo que ela foi lavrada pelo Irmão Secretário desta Mesa que a 
fêz na forma de um formulário antigo, que se acha no Copiador des- 
ta Ordem, usado sucessivamente desde o ano de 1762 até o presente, 
como se verifica do documento n.° 4. E se por todo êste tempo seme- 
lhantes cartas não escandalizaram os Apostólicos zelos dos antecesso- 
res de Vossa Paternidade Reverendíssima, menos se poderá conside- 
rar que fôsse o projeto na presente ocasião, antes ainda ago- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



201 



ra ficamos bem persuadidos que o nosso irmão secretário não ofendeu 
a religiosíssima autoridade de Vossa Paternidade Reverendíssima em 
escrever-lhe pela cópia de uma carta que, suposto seja defeituosa de 
retórica, é comedida, e explica o que se pede, que é o que basta para 
merecer a Paternal atenção. De todos os nossos descuidos, omissões 
e comissões impetramos humildemente perdão, e ainda prostrados 
aos pés de V.P.Rma. rogamos queira aceitar esta nossa carta como 
satisfação à culpa que se nos atribui, ficando assim no seu conceito 
a suposta malícia que em nossos ânimos não há; e finalmente supli- 
camos por amor de Jesus Cristo e merecimentos de nosso Seráfico Pa- 
triarca São Francisco nos lance a sua bênção como a filhos, que nós 
entanto rogamos incessantemente ao mesmo Seráfico Patriarca en- 
cha de bênçãos celestiais a religiosa pessoa de V.P.Rma. que Deus 
guarde felizmente. Vila Rica em Mesa de 14 de julho de 1771 — Rmo. 
Sf. Pe. M.*' Ministro Provincial, Fr. Inácio de Santa Rica Quintani- 
lha — De V.P.Rma. mto. reverentes e obedientes filhos em o Senhor 
— Luís Vieira da Silva, Comissário Visitador/ /Feliciano José da Câ- 
mara, Vice-Ministro//<á7i£ómo de Sousa Mesquita, ex-Vice-Ministro// 
Francisco Correia Fortuna, Secretário/ /João Barbosa de Amorim, Pro- 
curador Geral/ /Martinho Fernandes, Definidor./ /José da Mota Araú- 
jo, ex-Secretário/ /Diogo Lopes, Definidor//Pedro Gonçalves Lamas, 
ex-Secretário// João Ferreira da Silva, Definidor//João Coelho da Sil- 
veira, Síndico/ /José Pereira da Fonseca, ex-Procurador//." 

"Petição, Despacho e Certidão de que faz menção a carta retro 
et supra, que com ela inclusa foi remetida: 

Senhor Irmão Ministro e mais Definitório = Diz o Procurador 
Geral da Venerável Ordem Terceira de Nosso Seráfico Padre São Fran- 
cisco desta Vila Rica que para bem da mesma é necessária que o Ir- 
mão Secretário lhe passe certidão extraída dos livros, onde se achar, 
o seguinte: O dia, mês e ano em que se apresentou à Mesa desta Con- 
gregação o Rereverendo Luís Vieira da Silva, nosso Comissário atual, 
declarando se foi por Patente, e esta em que Congregação passada; e 
outrossim passe também certidão do dia, mês e ano em que se fêz 
eleição do dito Reverendo Padre para Comissário, declarando o nú- 
mero de votos que tem cada um dos propostos: como também do li- 
vro Copiador ateste se a carta de folhas setenta, escrita por esta Me- 
sa, em 14 de outubro de 1770, ao nosso Reverendíssimo Padre Ministro 



20S 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Provincial é ou não conforme a outra que se acha no mesmo Copia- 
dor a folhas vinte e nove escrita ao mesmo fim; declarando finalmen- 
te que sempre se usou da forma dita em tôdas as eleições sucessiva- 
mente desde o dito ano de 1762 té o dito dia 14 de outubro de 1770. 
= Pede a Vossas Caridades lhe façam mercê mandar passar a dita 
certidão, com tôda a individuação e clarezas pedidas = E receberá 
mercê = Certidão = Francisco Correia Fortuna, Secretário atual des- 
ta Venerável Ordem Terceira da Penitência da Vila do Ouro Prêto, 
ereta na Matriz de Nossa Senhora da conceição da mesma Vila por 
eleição canónica &. Faço certo a todos os Senhores que a presente 
certidão virem e lhes fôr apresentada: que revendo os livros que atual- 
mente servem nesta Venerável Ordem e se acham no arquivo dela 
consta apresentar-se nesta Venerável Ordem o Reverendo Padre Luís 
Vieira da Silva em o dia dezanove de agosto do ano próximo antece- 
dente de mil setecentos e setenta, com Patente da Venerável Ordem 
Terceira da Penitência da cidade Mariana. = Item também consta 
dos mesmos livros ser elegido o mesmo Reverendo Luís Vieira da Sil- 
va, Comissário desta Ordem no mesmo dia, mês e ano de sua apresen- 
tação por ter a seu favor vinte e cinco votos, e o Reverendo Padre Jo- 
sé Valente de Vasconcelos catorze votos, e o Reverendo Tomás Ma- 
chado de Miranda oito votos, os quais todos três foram propostos para 
o dito honorífico emprêgo, e na pluralidade de votos saiu eleito o dito 
Reverendo Luís Vieira da Silva: Item que a carta que se acha copia- 
da a folhas setenta do livro Copiador desta Ordem é a própria em 
seu contexto que a do formulário a folhas vinte e nove do mesmo li- 
vro, da qual se costuma usar acompanhando as eleições, quando se 
fazem anualmente e remetem ao nosso Rmo. Ministro Provincial des- 
de o ano de mil setecentos e sessenta e dois té o presente, cuja carta 
pela cópia do dito formulário acompanhou a eleição que se fêz no 
dito ano precedente de mil setecentos e setenta no dia catorze de ou- 
tubro do dito ano e se remeteu ao Rmo. Ministro Provincial ao Con- 
vento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, onde é costume remeter- 
se: Passa todo o referido na verdade e consta dos ditos livros aos quais 
me reparto no arquivo desta Venerável Ordem, em fé de quê e por 
firmeza da verdade passei a presente por bem da súplica retro e seu 
despacho, no Consistório da dita Venerável Ordem, aos catorze dias 
do mês de julho de mil setecentos e setenta e um, e eu Francisco 
Correia Fortuna, Secretário que a subscrevi e selei com o sêlo grande 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



209 



da Ordem e assinei = Francisco Correia Fortuna = estava o sêlo 
maior = Fortuna = E o despacho proferido na petição para se pas- 
sar a certidão é do teor seguinte// Passe do que constar. Vila Rica, 
em Mesa de vinte e três de junho de mil setecentos e setenta e um 
= Miranda, Vice-Comissário//Câraara. E não se continha mais etc. 
Muito Reverendo Sr. Padre Comissário e Senhores Irmãos Ministros 
e mais senhores Irmãos da Mesa da Congregação de Vila Rica. A fu- 
tura eleição que se há de fazer da nova Mesa para essa Congrega- 
ção seráfica e a dilação de mais de quatro meses que tardarão estas 
e tardarão outras respostas não deixão lugar para qualificar as ope- 
rações do comum e particular dela das quaes se controverte e só per- 
mittem attender ao prompto remédio que pedem suas espirituais en- 
fermidades: pelo que attendendo somente ao bem espiritual dessa 
Congregação Seráfica e deixado o mais para seu tempo = Confirma- 
mos a eleição de comissário Visitador feita pela junta de 19 de agosto 
de 1770 na pessoa do R. d0 P.' e Irmão Luís Vr. a da Silva. Item con- 
firmamos as Eleições da nova Mesa celebrada pelo ditto R. d0 P. e Co- 
missário Luís Vr. a da Silva feitas no dia 17 de 7br.° de 1770 

Convento de S. Ant.° 26 — Agosto de 1771 — Fr. Inácio de Santa Rita 
Quintanilha." 

Os inimigos do ilustre sacerdote, encobre-os ainda, no epi- 
sódio que venho de delinear, a reserva dos documentos; atente, 
;)orém, o leitor e há de ver que não se manterão já tão escon- 
didos no lance que passarei a referir. 

II — CALUNIADO DE SIMONÍACO 

Em 1781, ao romper o ano, estava em concurso, a que se 
opuseram vários candidatos, a igreja paroquial de Nossa Se- 
nhora da Conceição do Rio de Pedras. 

O exame sinodal para a classificação dos opositores, ou 
concorrentes, realizou-se, em dias de fevereiro, em Sabará, a 
cuja comarca pertencia a igreja referida. 

Um dos examinadores fôra o Padre Luís Vieira. 

Pouco antes havia ele concorrido a uma vaga no Cabido 
Diocesano e, em face de sua notória e comprovada competên- 
cia, impôs-se a proposta de seu nome. 

Seus adversários, que não haviam conseguido obstar a que 



210 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



a proposta (28) se fizesse e a que, consequentemente, fôsse 
apresentado, e ele efetivamente o foi por Carta Régia de 20 de 
setembro de 1781, coligaram-se a fim de frustar-lhe a colação. 
Para impedir, porém, uma colação era preciso opor-lhe um 
obstáculo real e de grave ponderação. Exigiam-no os Sagrados 
Cânones e o acatamento devido à apresentação régia. 

Mas êsse obstáculo não existindo, não havendo esse im- 
pedimento, inventaram-no, criaram-no, para o que não recua- 
ram da vileza de uma falsidade e deslizaram até a ignomínia 
da calúnia! 

Vejamos como a infâmia se processou. 

Munido da Carta de Apresentação, iniciou logo o Padre 
Luís Vieira o processo de sua Instituição Canónica. 

Conclusos a 1 de junho de 1782, nesta mesma data subi- 
ram os respectivos autos à presença do Provisor — o Chan- 
tre Vicente Gonçalves Jorge de Almeida — o qual, quarenta 
e oito horas depois, os despachou com vista ao Promotor, o 
Padre Doutor João Ferreira Soares (29). Aí, retidos pelo 
Promotor contra a praxe louvàvelmente seguida no juizo 
eclesiástico, encalharam os autos pelo longo espaço de cinco 
meses, de 3 de junho até 31 de outubro. 

Tem explicação êsse ilegal protraimento. Falando nos 
autos, assevera o Procurador da Coroa, Francisco Gregório 
Pires Monteiro Bandeira: "Foi Vossa Majestade servida pro- 
vê-lo (Padre Luís) em um canonicato da Sé de Mariana: esta 
graça e mercê sacrificou o Recorrente ao ódio, inveja e detra- 
ção dos seus inimigos que, esquecidos da caridade e amor fra- 
ternal que tôdas as leis divinas e humanas recomendam; 
esquecidos do preceito do Evangelho e dos Sagrados Câno- 



(28) Quatro fases havia outrora no provimento de um benefício: l. a Con- 
curso; 2. a Proposta ao Padroeiro dos três concorrentes classificados com o maior 
número de pontos, ou, como hoje se diz, com as melhores notas; 3. a Apresentação 
por parte do Padroeiro do opositor que êle houvesse por bem eleger entre os três 
que lhe fossem propostos; 4. a Instituição ou Colação pelo prelado de cuja jurisdição 
dependesse o benefício e que teria sido o autor da proposta. 

(29) Mineiro, natural de Casa Branca, comarca de Vila Rica. Proprietário 
ali da fazenda do Vira Saia que legou em testamento a Agostinho Nogueira Peni- 

do. Cf. Archidiocese de Mariana, II — 704. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



211 



nes, forjaram de mão comum a mais injuriosa e horrível difa- 
mação, atacando o crédito do Recorrente com uma bateria 
igualmente injusta e furiosa". 

E prossegue o Procurador da Corôa: "Apanhando uma 
boa aberta no exame a que se procedeu para o concurso da 
Igreja do Rio das Pedras, para o qual foi o recorrente nomea- 
do examinador com mais dois, se aproveitaram dela e assoa- 
lharam por toda esta Capitania que o Recorrente tinha reve- 
lado os pontos do exame a um dos concorrentes, o Padre Joa- 
quim José de Alvarenga por intervenção de umas mulheres (30) 
que com o Recorrente tinham amizade, cometendo por isto uma 
Simonia Real". 

Continua falando o mesmo Bandeira: "Ainda não satis- 
feitos com esta pública difamação, tal houve (31) que tomou 
o trabalho de a pôr na respeitável presença do Superior, afe- 
tando aquêle zêlo que lhe seria louvável sendo verdadeiro e 
nascido de princípios justos e conformes às Leis Canónicas. 
Procedeu-se a uma devassa..." 

E aí está por que se retardaram os autos em mãos do Pro- 
motor (malogrado candidato à murça capitular) : para dar 
tempo a que em Sabará se urdisse a trama da simonia, que em 
Mariana se projetara detalhadamente. 

A imputação do feio crime sobre que ia devassar-se era 
falsa. 

Negou-a o suposto réu, quando em documento solene afir- 
mou: ". . .ainda que por impossível se achasse inodado no dito 
crime, o que sempre nega o Suplicante..." 

Negaram-na as próprias autoridades eclesiásticas, visto 
como lhe concederam fôlha corrida, quando já iniciada a de- 



(30) No acórdão lê-se: "... Vê-se que não jurando testemunha alguma que 
u reverendo Recorrente tenha sido participante de dinheiro ou sabedor do trato; e 
jurando unicamente algumas que êle revelara os pontos do exame por obséquio a 
certa pessoa que por isso se interessava ..." 

(31) Há no processo, em mais de um lugar que apontarei no texto: indícios 
veementes de que êsse "tal" não passaria de um testa-de-ferro do Cónego Santa 
Apolônia, autor intelectual da aludida carta, então Vigário Geral de Dom Frei Do- 
mingos da Encarnação Pontével, o "Superior" da passagem supra, que, parece tam- 
bém tinha má vontade ao futuro inconfidente. 



212 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



vassa, e lhe continuaram o uso de ordens, do qual o simoníaco, 
por excomungado ipso facto, deve ser imediatamente privado. 

Negou-a o resultado do concurso: o Padre Joaquim José 
de Alvarenga, o beneficiado pela inventada simonia "não fêz 
um exame superior aos outros concorrentes, ficando unica- 
mente aprovado e sendo preferido aos outros, não pela bon- 
dade do seu exame, só sim em atenção aos seus maiores ser- 
viços. . ." 

Acresce que era inimigo não disfarçado do Padre Luís o 
juiz que se ofereceu (32) para presidir à devassa — o Cónego 
Santa Apolônia. Sobre isto não deixa dúvida o processo no 
corpo do qual encontra-se amiudadas vezes, afirmada e não 
contestada, essa animadversão do Vigário Geral ao acatado 
professor. Vejamos algumas dessas afirmações: 

1 — "Debalde (o Vigário Geral, Santa Apolônia) quer per- 
suadir a boa-fé com que procede na administração da justiça e 
que só o amor dela e não outra paixão o guia: bem se vê da 
curiosidade que tomou de responder em um ponto que lhe não 
pertencia diretamente, rogando ao Reverendo Provisor demi- 
tisse parte de sua jurisdição para responder a sua vontade". 

2 — A resposta do Reverendo Juiz Recorrido bem mostra 
que ainda o seu ânimo não está satisfeito com o ilegal e escan- 
daloso procedimento que houve com o Reverendo Recorrente, 
preterindo-se nele a forma e ordem do direito: ainda não sacia- 
da a sua paixão, quer sustentar erradas, falsas e sediciosas dou- 
trinas. . . à fôrça se quer ingerir parte na devassa". 

3 — "... a malevolência é que excogitou todos os meios 
os mais detestáveis para violentar, oprimir e vexar o Recor- 
rente." 

4 — "A data da pronúncia, a dilação do espaço de tempo 
que durou o exame, a escandalosa pesquisação sem respeito à 
legislação régia que prescreve o tempo e o modo, o número 
excessivo de testemunhas inquiridas, o papel de Holanda, em 
que com maiores vistas se escreveu o processo, o excesso das 
custas e, o que é mais, a dificuldade da defesa entre as distân- 
cias da Metrópole, tudo está persuadindo a injusta e violenta 



(32) A colação ou instituição de igrejas e canonicatos processava-se perante 
o Provisor, que era o chantre Vicente Gonçalves. Santa Apolônia era Vigário Geral. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 213 

opressão que padece o Recorrente, para sobressair às mãos 
poderosas, que de comum acordo se tem armado em seu dano". 

5 — "Vê-se que passando o Reverendo Vigário Geral à 
Vila do Sabará para tirar a devassa de Simonia, chegou o dese- 
jo de achar culpa a movê-lo a que formasse um corpo de delito 
por umas cartas dolosamente extorquidas para êsse fim, que, 
além de nada dizerem, se mostram datadas muitos meses de- 
pois do concurso em que se diz cometera semelhante crime." 

6 — "Vê-se que se admitiram a juramento os próprios 
inimigos e até aquêle mesmo que espalhou a voz da Simonia e 
escreveu a indecente carta da chamada denúncia. . ." 

Uma alfinetada do Vigário Geral no Ouvidor: " . . .concluo 
ser incompetente o Agravo presente e esperanço-me que Vossa 
Majestade por todos os princípios deduzidos, com as mais que 
costuma suprir tão autorizado Tribunal, se digne reformar o 
seu Respeitável Acórdão. Nem entendo necessário protestar 
que as angústias do tempo não permitem polir os descuidos 
da pena ou do discurso e que estes indispensáveis ofícios da 
Justiça se me não capitulem em novos artigos de inimizade, 
pois sempre entendi que o amor de Platão devia ceder ao amor 
da verdade e justiça que se me propôs evidente; e também se 
não ignora que a qualidade dos Poetas faz parecer algumas 
vêzes Guerreiro ao homem que só nutre a Paz no seu coração". 

Também o Promotor era inimigo não dissimulado do 
Padre Luís Vieira. Já vimos que. "apenas se pronunciou ao 
Reverendo Recorrente na vila do Sabará, logo se levantou o 
Reverendo Promotor do seu letargo e veio com sua resposta, 
em que declarou que não duvidava da colação, mostrando o 
Reverendo Recorrente que lhe não tinha resultado culpa da 
devassa realizada em Sabará". 

Outro adversário do futuro capitular foi o Cónego Joa- 
quim Cardoso de Camargo (33). A êste e a Santa Apolônia 
(como punge essa maldade!) não lhes calmou a raiva, nem lhes 
silenciou o despeito, a grande desgraça que mais tarde desa- 
bou sôbre o adversário; não lhes despertou piedade e respeito 



(33) Natural de Cotia, São Paulo. Apresentado por CR. de 29 de julho de 
1779. Faleceu em Mariana a 9 de outubro de 1804. Cf. Silva Leme, Gen. Paulista- 
na, 1-216. 



214 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



o pesado infortúnio do conterrâneo exilado; não lhes apazi- 
guou o ódio a imensa desventura do colega. 

Numa sessão capitular, havida a 7 de janeiro de 1794, o 
Cónego Antônio Amaro protestou contra a eleição de Santa 
Apolônic para secretário e de Joaquim Cardoso para fabri- 
queiro. aiegando razões expendidas em acórdão anterior. Con- 
tra-protestaram os dois, baseando-se em que "tal acórdão não 
tivera execução e fôra suspenso em razão de proceder da 
intriga e revolução que causou nesta comunidade, com pre- 
juizos ulteriores da Fábrica e partes interessadas, o Rvdo. Luís 
Vieira da Silva, preso por inconfidente em uma das Torres de 
Lisboa, de quem o Rdo. protestante foi sempre amigo apaixo- 
nado, como acaba de confessar neste mesmo ato, declarando-se 
desde êsse tempo público inimigo dos contraprotestantes. 

Fica-se sabendo, por êste incidente, que, além do Cónego 
Luís, havia no Cabido daquele tempo outro brasileiro digno, 
êste simpático Cónego Amaro, que assina destemidamente o 
protesto em que defende a honra do colega ausente e em des- 
graça (34). 

Foi caluniosa, como ressai dos autos, a imputação de simo- 
nia; dado, porém, que o Padre Luís a houvesse cometido, ainda 
neste caso tal simonia não podia ser objeto de devassa, nem 
se devia negar ao acusado a colação de seu canonicato. Era 
o que a êste respeito dispunham as leis eclesiásticas e civis 
em vigor no regime do Padroado. "O Direito Canónico (afir- 
mou no Recurso o Procurador da Coroa) expressamente ordena 
que, no caso de simonia, se não proceda a uma inquisição parti- 
cular, sem que primeiro se prove a pública difamação, e não 
se podendo reputar difamação pública o dito de uma só pessoa, 
fica provado que a devassa, a que se procedeu por virtude de 



(34) 0 Cónego Dr. Antônio Amaro de Sousa Coutinho nasceu na Vila do 
Carmo, onde foi batizado a 16 de março de 1721. Filho do Dr. Tomé de Sousa 
Coutinho Botafogo e Francisca Josefa Coutinho, primos entre si e naturais do Rio 
de Janeiro. Ordenou-se a 20 de dezembro de 1749. Protonotário Apostóico, Cónego Pe- 
nitenciário, Reitor do Seminário. Foi o 2.° Vigário Capitular por falecimento de 
Dom Frei Domingos da Encarnação Pontével, eleito a 13 de agosto de 1795. Menos 
de um ano depois renunciou "por bem da Igreja e sossego dos povos". 

O pai do Cónego Amaro morreu assassinado em Vila Rica e o assassino, Fran- 
:jsco de Vasconcelos, condenado à morte, foi degolado. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 215 

uma só carta, foi tirada contra a expressa disposição dos mes- 
mos Sagrados Cânones". Mais: "Ainda que a devassa que se 
tirou fôsse legal e conforme com a determinação do Direito 
Civil e Eclesiástico, mesmo assim se não deveria impedir ao 
Reverendo Recorrente ao ingresso do seu Benefício por uma 
pronúncia de Simonia antes de um formal conhecimento e deci- 
são da causa pelo inviolável preceito da lei natural de não se 
poder condenar pessoa alguma antes de ser convencida". 

Afinal a inocência do Cónego Luís foi reconhecida e pro- 
clamada por dois acórdãos, o segundo dos quais, que se reporta 
ao primeiro, diz assim: "Acordam em Junta etc. que sem em- 
bargo da Resposta do Reverendo Recorrido (o Vigário Geral 
Santa Apolônia) (35), julgam bem passadas as primeiras cartas 
rogatórias e mandam se passem segundas pelas quais lhe roga 
a mesma Senhora que cumpra as ditas cartas; e não as cum- 
prindo no termo de vinte e quatro horas, o que dele não espe- 
ram mandam se proceda a temporalidades sequestro 

e embargo nas Rendas Eclesiásticas e seculares do Reverendo 
Juiz Recorrido, e nos bens que lhe forem achados fora da casa, 
excetuando-se a cavalgadura em que fôr montado; e que se 
notifiquem os seus criados e mais pessoas seculares que forem 
do seu serviço, tanto de casa como de fora, para que não o sir- 
vam debaixo de pena de prisão e do mais que merecer segundo 
a desobediência e sendo necessário se fixem editais para que 
nenhuma pessoa o sirva. Vila Rica, sete de março de mil sete- 
centos e oitenta e três. Doutor Gonzaga, Sousa, Rodrigues." 

Intimado o acórdão a 11 de março, a 12 lançou o Provisor 
nos respectivos autos o seguinte despacho: "Cumpra-se, com 
o protesto de se tomar Assento no Desembargo do Paço, e em 
seu cumprimento desçam os autos da habilitação para êste 
Juízo, onde lhe será esta junta para efeito de ser o Revdo. Re- 
corrente instituído e colado no Canonicato em que fora apre- 



(35) 0 Chantre Santa Apolônia veio a gozar mais tarde de destacada posi- 
ção na política provincial. Isto, contudo, não expunge sua biografia de nódoas in- 
deléveis. Cf. Archidiocese de Mariana, vol. II, págs. 649 a 653. 0 Vigário Capitu- 
lar, a que ali se alude, era o Arcediago Marcos Antônio Monteiro de Barros, sa- 
cerdote que, por muitos títulos, dignificou o clero de seu tempo. Também êle teve 
contra si a má vontade de Santa Apolônia. 



216 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



sentado. Mariana, aos 12 de março de 1783 — Vicente Gonçal- 
ves Jorge de Almeida. (36) 

O Padre Luís foi colado a 24 de março, paraninfando-lhe 
o ato o Dr. Inácio José de Sousa Rebelo, Juiz de Fora da co- 
marca de Mariana, e o Tenente-coronel Bernardo Vasco. 

Até aqui, como temos visto, dos transes aflitivos por que 
a fortuna o fêz passar, saiu-se bem o nosso Cónego. Do último 
embate, porém, dêsse que ora vai travar com o despotismo, 
opressor de sua terra e de sua gente, êle não irá sair-se bem 
tão-sòmente: sair-se-á triunfalmente para o culto enternecido 
do mineiro, para a canonização definitiva da História. 

III — O CÓNEGO LUIS VIEIRA — INCONFIDENTE 

Mantendo-se ainda hoje em segrêdo a sentença proferida 
contra os eclesiásticos envolvidos na Inconfidência Mineira, 
ignora-se qual participação lhes foi atribuída, a cada um, no 
crime de haverem amado com ardor a liberdade de sua pátria. 

É certo, todavia, que, legítimos conjurados, tramaram com 
os demais inconfidentes (37) a independência de sua terra e 
de seu povo. E essa independência queriam-na total e perfeita 
com a república, vazada nos moldes da democracia norte-ame- 
ricana. E' o que resulta da devassa, cujo testemunho podemos 
reforçar com estoutro, firmado 30 anos depois pelo Govêrno 



(36) 0 Recurso à Coroa contra uma sentença eclesiástica em matéria espiri- 
tual, embora tolerado pro bono paris, foi sempre condenado pela Igreja. Não há dú- 
vida que o Cónego Luís recorreu à Coroa, mas fê-lo com a seguinte ressalva, cons- 
tante de sua petição: "Êstes princípios substancialmente apontados em matéria tão 
extensamente tratada entre os Doutores, levam o Recorrente à Presença de Vossa 
Majestade, não a pedir que se conheça do seu crime enquanto à sua natureza e es- 
tado; pois não ignora que dele só pode conhecer legitimamente o Fôro Eclesiástico, 
em que se lhe forma a culpa. Êle dirige a sua queixa fundado meramente na gran- 
de violência e injustiça que se lhe faz em se lhe imporem as penas irrogadas em 
Direito por execução de sentença antes de ouvido com as suas exceções, e de se 
fraudar por semelhante modo a graça que de Vossa Majestade tem recebido pela 
mera oposição do Rvdo. Doutor Fiscal (ou Promotor) cuja severidade canónica, se 
fôsse séria, também se lembraria do Tit. 3.°, cap. 20 do Liv. 5.° das Decretais It. 
ref. ord. Archid., que traz Gonzales, etc." 

(37) Embora injurioso na sua estrita significação, o vocábulo inconfidente 
está consagrado na história nacional como título de honra para êsses precursores da 
democracia brasileira. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



217 



da Província, no qual se reafirmam, com recriminação aos 
ínclitos inconfidentes, os sentimentos republicanos que os 
animavam. 

O Padre Rolim, restituído à pátria, reduzido a extrema 
pobreza, suplicou ao Príncipe-Regente D. Pedro a restituição 
de seu patrimônio eclesiástico, abusivamente confiscado. À 
petição do inditoso mártir dá o referido govêrno a informação 
seguinte: limo. e Exmo. Síir. Manda S. A. R. o Príncipe-Re- 
gente, pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, que 
o Govêrno Provisório desta Província informe sôbre o objeto 
e requerimento do Padre José da Silva de Oliveira Rolim que 
pede a restituição dos bens sequestrados pelo crime suposto, 
como diz, e relatado Aviso de 1.° de fevereiro do corrente 
ano, n.° 4. 

"O que podemos e devemos informar à face dos documentos jun- 
tos e da sentença da Alçada do Rio de Janeiro, proferida a 18 de abril 
de 1792 sôbre o Projeto formal e manifesto por fatos e conventículos 
em que interveio e concorreu o Padre José da Silva, com outros Ecle- 
siástico e Seculares de se mudar em 1788 o Govêrno Monárquico das 
Minas em democrático quando se alcançasse a derrama das arrobas 
que faltaram nas Fundições, segundo o encabeçamento de 1734 ou 
1751, pela notoriedade do dito crime, e expressa Ordem do Liv. 5.°, Tit. 
6.° §§ 4.°, 5.° e 10.° foram sequestrados os seus bens a 26 de junho 
de 1789." 



"Vila Rica, 3 de agosto de 1822. limo. e Exmo. Snr. José Bonifácio 
de Andrada e Silva; Dom Manuel de Portugal e Castro, Presidente; 
Francisco Pereira de Santa Apolônia; Custódio José Dias; Luís Maria da 
Silva Pinto, Secretário (Rev. do Arch. Publ. Min., IX-624)." 

Pela mesma aversão à República só muito tarde começou 
no Império o culto dos Inconfidentes. (38) 

(38) A 3 de abril de 1867, em Ouro Prêto, estando na presidência da provín- 
cia o Conselheiro Saldanha Marinho, erigiu-se à memória dos heróis de 1789 um 
monumento em cuja face principal, em placa de metal (hoje recolhida ao Museu da 
Inconfidência) , se lia: seus nomes, infamados pelo despotismo, reabilita-os a liber- 
dade; sagra-os eternos a veneração e respeito dos homens livres de todas as na- 
ções. 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Quanto ao Cónego Luís Vieira, sua co-participação no 
projetado levante infere-se do que se passou em Cabido a 7 
de janeiro de 1794, como referi há pouco, e ainda das seguintes 
passagens dos autos, duas das quais lhe atribuem a prioridade, 
senão da conjuração propriamente dita, pelo menos do movi- 
mento pro independência nacional: 

1. Da denúncia de Basílio de Brito, escrita a 15 de abril de 
1789: me disse o Capitão Vicente Vieira da Mota que 
via as Minas em muita desordem e que todos os nacionais 
delas se queriam ver livres, e que êle era amigo do Cónego 
Luís Vieira, mas que lhe ouvia falar umas tais coisas que se 
fôsse o Rei lhe mandava cortar a cabeça. . . {Autos da Devas- 
sa, I, 27)". 

2. "Falando depois com o Cónego Luís Vieira, êste não 
encobre a paixão que tem de ver o Brasil feito uma República; 
abonou o Tiradentes de homem animoso e que se houvesse 
muitos, como êle, que o Brasil era uma República florente . . . 
(Ib. pag. 28)". 

3. " . . . o tal Claro disse o outro que apanhara o Cónego 
Luís Vieira, o Coronel Alvarenga, o Dr. Cláudio, o Dr. Gon- 
zaga, o Tiradentes e outros a falar em um levante que está 
para se fazer em Minas (Ib. 29). 

4. Do depoimento de Domingos Vidal Barbosa: "Que o 
Dr. Cláudio, o Cónego Vieira e o Desembargador Gonzaga 
tinham já feito as leis para se governarem... (Ib. 169). 

5. "Que o Cónego Luís Vieira tinha feito um plano para 
por êle verem a segurança dêste país, e outro igual para por 
êle se regerem, dizendo que êste continente a natureza o tinha 
feito defensável por si mesmo; e que a entrada da banda do 
Rio de janeiro bastava guarnecê-la de diversas emboscadas,... 
(Ib. 170)". 

6. No depoimento do Coronel Francisco Antônio de Oli- 
veira Lopes: "... que o Cónego Luís Vieira, havia oito anos, 
tinha bem deitado as linhas ao negócio. . . (Vol. II dos Autos, 
pag. 40)". 

7. O Cónego "havia oito anos que tinha botado as suas 
medidas para se reger a mesma república livre e independente, 
o que tudo ouviu da boca do Vigário Carlos Correia. (Ib. 57)". 

8. Do depoimento de Basílio de Brito: "Que João da Cos- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



2l'J 



ta, estalajadeiro da Varginha, freguesia dos Carijós, (disse) 
que um oficial, ali mesmo naquele quarto dissera a um clérigo 
doutor — temos um grande homem e de muita ciência que nos 
ha-de encaminhar e é de caráter como Vossa Mercê" . . . (se 
se trata do caracter sacerdotal, como parece, êsse "grande ho- 
mem" será o Cónego Luís) Ib. Vol. III, pág. 301 ). 

Na pág. 305 do vol. III, afirma-se que o Cónego esteve 
presente aos conventículos. 

9. A propósito do depoimento do próprio Cónego: "Que 
tanto se instruía a fundo no govêrno e constituição da América 
Inglêsa, que estas eram as suas práticas cotidianas com os 
sócios da conjuração quando estava em Vila Rica; sem que em 
outra nenhuma matéria ordinàriamente falasse; o que che- 
gava a fazer escândalo e aborrecimento aos fiéis vassalos de 
Sua Majestade que o ouviam (Ib. vol. IV, 308)". 

10. De outro depoimento do infame Basílio de Brito: "que, 
já muito antecipadamente, havia anos, tinha êle Basílio ouvido 
ao Cónego Luís outras proposições quase semelhantes (Ib. 
316)..." 

De resto, o Cónego foi dos sacerdotes inconfidentes o mais 
severamente punido, tendo sido o último a ser libertado. No 
documento que se vai ler e que é uma informação dada a um 
requerimento do infeliz eclesiástico pelo Visconde de Bar- 
bacena, o ex-governador das Minas do tempo da conjuração, 
põe-se em certo relêvo a cultura do Cónego, o que fôra, con- 
fessa o informante, uma agravante no seu delito. 

Eis o documento, cujo texto devemos à gentileza do histo- 
riador Augusto de Lima Júnior: 

"Foi servido o Príncipe-Regente Nosso Senhor ordenar por aviso 
de V. Excia. de 12 dêste mês, que eu informasse sôbre o requerimento 
incluso do padre Luís Vieira da Silva no qual pede a S.A. Real, que se- 
ja servido mandá-lo pôr em liberdade. Vou portanto referir a infor- 
mação que me é possível conforme os conhecimentos que tive a res- 
peito e a lembrança que conservo. O padre Luís Vieira da Silva era 
cónego da Sé de Mariana quando fui governar a Capitania das Minas 
Gerais. Sucedendo logo à minha chegada descobrir-se que o contágio 
revolucionário, infestando também aquêles países, tinha feito maqui- 
nar uma rebelião, ficou êle de alguma forma culpado ou gravemente 



220 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



suspeitoso, em consequência das averiguações e mais diligências par- 
ticulares que mandei fazer para examinar como convinha tão impor- 
tante negócio. Achando-se o dito padre nestas circunstâncias foi prê- 
so, remetido para o Rio de Janeiro e entregue ao Juiz da Alçada que 
S. Majestade havia determinado para sentenciar os réus daquele de- 
lito que eram das principais pessoas da Capitania das Minas Gerais, 
e se achavam também já nas prisões da mesma cidade onde sendo 
ele inquirido, acresceu sôbre êle as mencionadas suspeitas à sua pró- 
pria confissão de ter tido alguma notícia concernente à mesma rebe- 
lião, por outro sujeito chamado Faustino Soares de Araújo, o qual ne- 
gou sempre esta comunicação e foi solto pela sentença da Alçada. 
Também de ter perguntado depois por essa novidade em casa do de- 
sembargador Tomás Antônio Gonzaga, outro co-réu sentenciado o 
qual respondera que se havia perdido a ocasião. Esta é a substância 
de quanto eu posso informar sôbre a causa da prisão e reclusão do 
padre Luís Vieira da Silva, porquanto nunca soube que êle intervies- 
se ou promovesse com fatos especiais e deliberados para a rebelião, 
nem concorresse nas conferências e deliberações dos conjurados, nem 
tivesse conhecimento certo e circunstanciado da conjuração. As or- 
dens mínimas da Alçada dispunham que os eclesiásticos fossem sen- 
tenciados em auto separado e a sentença remetida para Lisboa, an- 
tes de publicada o que assim se executou. Por esta causa vieram os 
ditos clérigos, e entre êles o suplicante, para esta Côrte, onde foram 
presos e guardados com algum rigor, conforme tenho ouvido dizer, e 
transferidos depois a vários conventos em que persistem, havendo fa- 
lecido um ou dois e tendo sido já sôlto outro, conforme adiante refe- 
rirei, porque esta graça é alegada no requerimento do suplicante. 

A sentença tendo ficado em segrêdo, suponho eu que nunca foi 
intimada a nenhum dos réus eclesiásticos, nem portanto lhes pude- 
ram constar os fundamentos e as penas da condenação, nem facilitar- 
se-lhes os meios dos embargos e dos recursos ao perdão Real para que 
fôra autorizado em têrmos prescritos o Juiz da Alçada, quando esti- 
vessem acabadas tôdas as deliberações ordinárias, conforme obtive- 
ram os réus seculares e assim creio que esta sentença a qual eu não 
vi, se guarda ainda na Secretaria de Estado, sem revisão nem aprova- 
ção expressa e sem intimação nem execução formal, do mesmo modo 
como veio da Relação do Rio de Janeiro. Porém fazendo comparação 
a respeito do suplicante e dos réus seculares, cuja sentença foi pu- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 221 

blicada e executada em seu tempo, entendo que seria condenado afi- 
nal a algum degrêdo temporário. É certo que o suplicante se acha 
prêso desde o ano de mil setecentos e oitenta e nove e me consta que 
tem a saúde muito enfraquecida e deteriorada, não só pela idade, 
mas pelos violentos incómodos e consequentes moléstias que acom- 
panharam a sua desgraça. Resta-me somente dizer que é certo tam- 
bém haver o Príncipe Nosso Senhor perdoado a outro clérigo mencio- 
nado no requerimento do suplicante de quem êle era co-réu chamado 
Manuel Rodrigues da Costa, recluso no Convento de São Francisco 
da Cidade, de onde foi sôlto há pouco menos de um ano, que eu in- 
formei a petição dêle por ordem do mesmo Senhor. E que o estado e 
merecimento da culpa de um e outro conforme a considero formada 
nos autos, me parece que bem se pode avaliar com igualdade. Mas 
as razões extra- judiciais de suspeita, foram diversas então no meu 
conceito, porque no suplicante Luís Vieira, cujos talentos e instrução 
eram notoriamente superiores aos do padre Manuel Rodrigues da Cos- 
ta, supus maiores capacidades de malícia e algumas disposições mais 
adequadas aos intentos temerários dos temerários maquinadores da 
indicada maldade que eu tive a satisfação de poder descobrir, inves- 
tigar e coibir com o mais feliz sucesso." 

Em virtude da informação supra, que foi datada a 29 de 
dezembro de 1801, recuperou a liberdade o Cónego Luís Vi- 
eira (39). Consta que, tornando ao Brasil, se fixou em Angra 
dos Reis, onde teria falecido poucos anos depois. 

E assim, não voltou a Minas. Pungia-o de certo a idéia de 
rever o berço natal, no qual e pelo qual curtira angústias incom- 
portáveis. De resto, já não vivia sua velha mãe e os raros 
amigos que se lhe mantiveram fiéis; mas, sobravam-lhe por 
certo impiedosos adversários — amigos da Coroa, mais do que 
da liberdade da pátria escravizada . 

* 

Na esperança de que farei coisa grata ao meu leitor, encer- 

(39) Cf. Xavier da Veiga — Ephcm. Min. II, 159. O Vigário Carlos Correia 
de Toledo, que o Barão Homem de Melo, confundindo-o com Luís Vieira, afirma ter 
voltado ao Brasil, é certo que faleceu em Lisboa, como assegura um assentamento 
feito no Liv. 2.° de Entradas da Irmandade da Caridade da Vila de São José (Ti- 
radentes) . Em tal livro se lê que o Padre Carlos se inscrevera nessa Irmandade em 
1777 e falecera em Lisboa em 1803 (Fl. 74 do cit. livro). 



222 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



rarei este capítulo, oferecendo-lhe uma relação dos livros que 
constituíam a Biblioteca do Cónego Luís Vieira (40) : : 



I — BÍBLIA — SANTOS PADRES — TEOLOGIA 

Vatable — Bíblia Sacra (cum figuris) 4 vols. 

Adricomius — Theatrum Terrae Sanctae et Biblicarum 

Historiarum 1 

Barradas — Commentaria in Concordantiam et Historiam 

Evangelicam 4 

Le Blanc — Analysis in Psalmos 6 

Menochius — Commentaria Sacrae Scripturae 2 

Potto — Mansiones Festaque Haebreorum 2 

— Concordantia Saerorum Librorum 1 

Scti. Thomae — Summa Theologica 3 

Scti. Ambrosii — Opera 2 

Scti. Bernardi — Opera 2 

Scti. Gregorii — Opera 4 

Scti. Hieronymi — Opera 6 

Divi Augustini — Opera 11 

Berti — De Theologicis Disciplinis 5 

Besombes — Theologia Moralis 1 

Bento XIV — Theologia Moralis (?) 1 

Duhamel — Theologia Speculatrix et Pratica 2 

Melchior Cano — Opera 1 

Reiffenstuel — Theologia Moralis 1 

Simão Marques — Brasília Pontifícia 1 

— Dictionnaire Portatif des Cas de Cons- 
cience 2 

— Conduta de Confessores 1 

— Pratica dei Confessionário 1 

— El Perfecto Confessor 2 

Colet — Institutiones Theologicae 7 

Becar — Manuale Controversiarum 1 

— Dictionnaire des Hérésies 2 

— Histoire des Religions 1 

— Espirito do Cristianismo 1 

II — DIREITO ECLESIÁSTICO E CIVIL 

Gratiani — Decretum Gratiani 2 

— Clementinae Constitutiones 1 

— Decretales, Gregorii, IX 1 

— Institutionum Canonicarum 1 



(40) Cf. Autos da Devassa — I, 445 e V, 282. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 223 

— Apparatus ad Theologiam et Jus Canonicum. . 1 

— Analyse des Conciles 5 

Galemart — Concilium Tridentinum (dois exemplares) ... 2 

Halle — Institutiones Canonicae 1 

Zoezius — Ad Institutiones 1 

Vinnius — De Jure Civili 1 

Thomassin — Disciplina Ecclesiae 3 

Scot — Vocabularium Utriusque Júris 1 

Schmalzgrueber — Jus Ecclesiasticum 3 

Reiffenstuel — Jus Canonicum Universum 3 

Pichler — Jus Canonicum 1 

Petra — Commentaria ad Constitutiones Apostólicas 5 

— Ordenações do Reino 2 

Mesquita — Elementos de Direito Natural 2 

Leitão — De Jure Lusitano 1 

Mably — Le Droit Publique de 1'Europe 3 

Domat — Lois Civiles 1 

Gonzalez — Decretales 5 

" — Commentaria ad Regulam Octavam Concella- 

riae 1 

" — Sacrae Rotae Romanae Decisiones 1 

Vattel — Droit des Gens 3 

Gibert — Corpus Júris Canonici 3 

Finetti — De Principiis Júris Naturae et Gentium 2 

Febronii — De Statu Ecclesiae 1 

Farinacii — Opera 2 

Burlatnaqui — Elementos de Direito Natural 2 

Schwarz — Institutiones Júris Publici Universalis 2 

Doujat — Praenotiones Canonicae 1 

— Doctrina Pandectarum 1 

— De Ecclesiarum Reconciliatione 1 

Nogueira — Quaestiones Singulares 1 

" — Expositio Bulla Cruciatae Lusitaniae Concessae 1 

Aulisii — In Quatuor Institutionum Libros Comentaria . . 1 

— L'Esprit des Lois et Grandeur des Romains .... 5 

Boehmer — Corpus Júris Canonici 2 

Berardii — In Cânones 4 

" — Jus Ecclesiasticum 2 

Bento XIV — De Synodo Diocesana 2 

Brunneman — De Jure Ecclesiastico 1 

Bossuet (?) — De Potestate Ecclesiastica 2 

Gravinae — Opera 2 

Corvini — Tractatus de Beneficiis 1 

Felicis — Potestatis Examen 1 



224 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



III — FILOSOFIA — CIÊNCIAS 



Aranha — Disputationes Metapliysicae 1 

Brixia — Philosophia Mentis 8 

" — Elementa Metaphysica 1 

Coutinho — Compendium Philosophicum et Theologicum . 1 

Falk — Mundus Exspectabilis Philosophis Consideratus ... 1 

Mayr — Philosophia Peripatetica 4 

Para — Éléments de Métaphysique 1 

Heineccii — Opera 10 

Descartes — Iter per Mundum 1 

Genuensis — Metaphysica 5 

— Lógica 1 

Verney — Opera 6 

" — Lógica 1 

Voltaire — Oeuvres 1 

Nonnotte — Les Erreurs de Voltaire 3 

— Encyclopédie 2 

— L'Esprit de 1'Encyclopédie 5 

Hugonis — Opera 8 

Séneca — Opera 1 

Condillac — Oeuvres 3 

De Real — La Science du Gouvernement 8 

Musschenbroek — Physica 5 

Bielfeid — Institutions Politiques 4 

Denovard — Abregé de 1'Embriologie Sacrée 1 

— Essais de Physique 1 

Gravesande — Physicae Elementa 2 

Zanezii — Physica 2 

Wolf — Elementa Matheseos Universae 5 

— Éléments de Docimastique 4 

— Nouveau Dictionnaire des Sciences 2 

De Bomare — Dictionnaire de 1'Histoire Naturelle 6 

— Memoires Instructives de l'Histoire Naturelle 1 

Juventii — De Ratione Discendi et Docendi 1 

Descartes — Geometria 2 

Campos — Elementos de Geometria 1 

La-Croix — Géographie Moderne 2 

— Dictionnaire Géographique 1 

Pinel — Institutions de Médicine Pratique 2 

Tissot — Avis au Peuple 7 

Cullen — Médecine Pratique 1 

Fabri — Traité des Maladies Vénériennes 1 

Winslow — Exposition Anatomique 4 

La Salle — Manuel d'Agriculture 1 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 225 

IV — HISTÓRIA 

Berti — História Eclesciástica 2 

Barreto — Discurso sôbre a História Eclesiástica 3 

Graveson — Opera 2 

Bossuet — Discours sur 1'Histoire Universelle 2 

— Histoire des Variations des Églises Protestantes 5 

Castelo Branco — Elementos da História 5 

— Dictionnaire Historique des Cultes Reli- 
gieux 5 

— Nouveau Dictionnaire Historique 6 

Fleury — Les Moeurs des Israélites et des Chrétiens 1 

Giannone — Deiristoria Civile dei Regno di Napoli 4 

Hume — Histoire de la Maison d'Autriche 6 

Lafiteau — Histoire des Découvertes et des Conquêtes des 

Portugais dans le Nouveau-Monde 4 

Laclède — Histoire Générale du Portugal 3 

Pothier — Histoire de 1'Amérique Septentrionale 4 

Lenglet — Tablettes Chronologiques 2 

Mably — De 1'Étude de l'Histoire 1 

Metreagan — Tableau de l'Histoire Moderne 3 

Robertson — Histoire de 1'Amérique 4 

— Histoire de 1'Écosse 3 

Turpin — Histoire Universelle 4 

Rezende — De Antiquitatibus Lusitaniae 1 

Sousa — Memórias Históricas e Genealógicas dos Grandes 

de Portugal 1 

— Discours sur l'Histoire de 1'Église 3 

B. Racine — Abregé de l'Histoire Ecclésiastique 13 

— Histoire de Theodose le Grand 1 

— Histoire Moderne 1 

— Abregé de l'Histoire Grecque 1 

— Histoire du Règne de 1'Empereur Charles V . . 6 

— Historia dei Regno di Luigi XIV 4 

— Compêndio Geral da História da Ordem Ter- 
ceira de São Francisco 1 

Figueiredo — Compêndio das Épocas e Sucessos da Histó- 
ria Geral 1 

De Brienne — Mémoires 3 

— Lettres de Clement XIV 4 

— Histoire des Tudor 6 

— Histoire du Prince Eugène 1 

Del-Castillo — De Ornatu et Vestibus Aaronis 1 

— Mémoires pour servir à l'Histoire des Égare- 
ments de 1'Esprit Humain 2 

Robillon e Banks — Voyages au tour du Monde 4 



22* 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



V — LITURGIA — ORATÓRIA 



Gavantus — Thesaurus Sacrorum Rituum 2 

— Thesaurus Sacrorum Rituum 2 

Niveport — Rituum Romanorum 1 

Sarmento — Instrução Litúrgica 1 

Petavius — Rationarium Temporum 2 

— Canticum Ecclesiasticum 1 

— Martyrologium Romanum 1 



— Pontificale et Caeremoniale Romanum 

— Rituale Romanum 

— Palestra Oratória 

— Diálogo sôbre a Eloquência 

Freire — Máximas sôbre a Arte Oratória 

— Novas Observações sôbre os Diferentes Métodos 



de Pregar 1 

Cambacères — Sermones 3 

— L'Art de Toucher le Coeur 3 

VI — CLÁSSICOS — LITERATURA 

Camões — Lusíadas (com notas de Faria e Sousa) 1 

Barros e Couto — Décadas 15 

Freire — O Secretário Português 1 

" — Arte Poética (trad. de Horácio) 2 

" — Arte Poética (sob o nome arcádico de Cândido Lu- 
sitano) 1 

Pereira de Castro — Ulissea ou Lisboa Edificada (edição 

em pergaminho) 1 

— Ulissea ou Lisboa Edificada 1 

Sá de Miranda — Obras 2 

Diogo Bernardes — O Lima (Éclogas) 1 

Jaboatão — Novo Orbe Seráfico 1 

— Nouvelle Histoire Poétique 1 

— Le Nouvelliste du Parnasse 2 

— Gradus ad Parnasum 1 

Virgilius — Opera 1 

" — " (ad usum Delphinis) 3 

Quintilianas — Institutiones Oratorum 2 

Suetonius — Opera 1 

Quintus Curcius — Opera 1 

Cornélius Nepos — Opera 1 

Ausonius — Opera 1 

Catullus, Tibullus et Propertius — ópera Poética 1 

Manilius — Astronomicon (ad usum Delphinis) 1 

Horatius — Obras 1 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 227 

— Carmina 1 

Ovidius — Heroides 1 

— Tristes 1 

Petronius — Opera (em latim e francês) 2 

Terentius — Comédias 1 

Cicero — De Officiis 1 

" — Orationes 3 

Julius Caesar — Opera (ad usum Delphinis) 1 

Anacreonte — Poésies 1 

Demóstenes — Orationes 1 

Séneca — Tragédia 1 

Fénelon — Les Aventures de Télémaque 1 

Racine — Oeuvres 3 

" — La Religion 1 

Comeille — Oeuvres 3 

B. de Saint Pierre — Études de la Nuture 3 

Bitaubé — Joseph (poema) 1 

Marmontel — Contes Moreaux 3 

Tasso — La Gerusalemme Liberata 2 

Metastásio — Poesias 10 

Tassoni — La Secchia Rapita 1 

Milton — Le Paradis Perdu 1 

Gessner — La Mort d'Abel 1 

Cordoni — Mélanges de Littérature Orientale 2 

— Jardim Doloroso 1 

— La Messiade 1 

— Le Père Avaré 3 

Sanctii — Minerva 1 

Vossius — Rhetorica Contracta 1 

La Cour — Le Nouveau Secrétaire 1 

— Graecae Linguae Radices 1 

— Gramática Inglêsa 1 

Calepinus — Dictionarium Septem Linguarum 2 

— Vocabulário das Línguas Toscana e Caste- 
lhana 1 

— Dicionário Português — Latino 1 

— Dicionário Português — Francês 1 

— Dicionário Italiano — Francês 1 

— Dicionário Francês — Italiano 1 

— Dicionário Alemão, Francês e Latino 1 

— Dictionnaire Français et Anglais 1 

VII — MISCELÂNEA 



De Marca — De concórdia Sacerdotii et Imperii 
Besombes — Moralis Christiana 



5 
2 



228 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



— La Verité de la Religion 1 

— Diarium Sacro-Profanum 1 

— Tesouro Carmelitano 1 

— Confrontação da Doutrina da Igreja com a 

dos Jesuítas 1 

Jean Oran — Princeps Christianus 1 

— Theatrum Terrae Sanctae 1 

— Catecismo de Montpellier 5 

— Les Nuits Clementines 1 

— Académie de Jeux 1 

— L'Art de Faire des Indiennes 1 

— Secrets Concernants les Arts et Métiers .... 2 

— Theatrum Magnum Vitae Humanae 8 

Feijoo — Teatro Crítico Universal 1 

— Museum Italicum 2 

— Elementos da Arte Militar 1 

— Livros em inglês 24 

— Um manuscrito — Tratado de Filosofia 



Breves Apontamentos sobre a biblioteca supra e sobre 
alguns dos autores que nela figuram. 

Constava a biblioteca do Cónego Inconfidente de duzen- 
tas e setenta e seis (276) obras distribuídas por seiscentos e 
doze (612) volumes. Algumas dessas obras estavam trunca- 
das. 

O confisco da preciosa biblioteca não aproveitou aos algo- 
zes do sacerdote mineiro, porque, como afirma o documento 
seguinte, muitos dêsses livros se dispersaram e nem a exco- 
munhão conseguiu descobri-los: "À Santa Madre Igreja quei- 
xa-se o Alferes Liberato José Justiniano de França Lira que, 
sendo depositário de vários livros sequestrados ao Reverendo 
Cónego Luís Vieira da Silva, dos mesmos se encarregou o Dr. 
José Pereira Ribeiro para os ter com melhor conservação, a 
fim de se não arruinarem, e sucedendo falecer apressadamente 
neste ato se sumiram várias obras dos mesmos livros, pede a 
quem dêles notícia tiver os descubra: aliás pretende tirar 
carta de excomunhão //Certifico que a queixa supra foi publi- 
cada em três dias festivos à estação da Missa Conventual da 
Catedral, e não apareceu pessoa alguma que notícia desse dos 
ditos livros, e nem eu o sei : o que afirmo in íide parochi. Cidade 
de Mariana, 31 de maio de 1803. O Cura Manuel Preto Rodrí- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



229 



gues (apud Barão Homem de Melo, in Rev. do Inst. Hist. e 
Geogr. Bras., tomo LXIV — Parte I — pág. 160). 

Sobre os autores lidos pelo Cónego Luís Vieira darei em 
seguida ligeira notícia. 

Vatable — François Vatable (Watebled, ou Gastebled, ou Ouateblé; . 
Sacerdote francês, abade de Bellozane. Escolhido por Francis- 
co I, ensinou grego e hebraico no Colégio das Três Línguas, pos- 
teriormente Colégio de França. Escreveu Scripturae Sacrae Cur- 
sus Completas, Annotationes in Psalmos, etc. Faleceu em Pa- 
ris em 1547. 

Adricomus — Christian Kruik von Adrichen (Christianus Cruzius 
Adricomius). (1535-1585). Sacerdote secular. Alemão. Teólogo. 
Escreveu e publicou Vita Jesu Christi, Theatrum Terrae San- 
ctae et Biblicarum Historiarum. 

Barradas — Sebastião Barradas (1543-1560). Jesuíta português. Exege- 
ta e pregador. Professor de Escritura em Coimbra e Évora. 
Além da obra acima relacionada, escreveu Itinerarium Filiorum 
Israel ex Mgypto in Terram Repromissionis. 

Menochius — Giovanni Stefano (1575-1655). Jesuíta. É autor de uma 
vasta obra que publicou sob diversos títulos, tôda versando so- 
bre a Sagrada Escritura. "Cest un des plus judicieux scoliastes 
que nos ayons, tant sur le Vieux, que sur le Nouveau testa- 
ment", afirmou Simon, o pai da crítica moderna. 

Berti — Giovanni Lorenzo (1696-1766). Teólogo agostiniano. Publi- 
cou De Theologicis Disciplinis. Acusado de jansenismo, defendeu- 
se escrevendo Augustinianum Systema de Gratia e In Opus- 
culum. Escreveu mais: Commentarius de Rebus Gestis Sancti 
Augustini, De Haeresibus Trium Priorum Saeculorum, Histo- 
ria Ecclesiastica. 

Duhamel — Jean Baptiste (1624-1706). Francês. Sacerdote Oratoria- 
no. É autor de: Philosophia Moralis Christiana, Astronomia 
Physica, De Meteoris et Fosilibus, etc. Brucker, na História da 
losofia : qualificou-o de "vir et judicii laude clarissimus et doc- 
trinae copia celeberrimus". 

Melchior Cano — (1509-1560). Espanhol. Dominicano. Bispo e Teó- 
logo. Obras que escreveu e publicou: De Locis Theologicis, De 
Sacramentis e De Poenitencia. 

Reiffenstuel — Johann Georg (em religião, Anacletus). 1641-1703. 
Teólogo e canonista alemão. Da Ordem Franciscana reforma- 
da. Ensinou Teologia na diocese de Freising. Ocupou cargos 
honrosos na sua Ordem. Escreveu Theologia Moralis, Proposi- 
tiones Damnatae a Summis Pontificibus, Jus Canonicum Uni- 
versum, Tractatus de Regulis Júris, Vita Sancti Francisci So- 
lani, etc. 



230 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

Simão Marques — Jesuíta português. Nascido em Coimbra em 1684. 
Foi reitor do Colégio do Rio de Janeiro, onde teria escrito o 
Brasília Pontifícia, tratado de Teologia e Cânones, com parti- 
cular aplicação no Brasil. 

Colet — Tohn Colet. Inglês. Teólogo anglicano. Deixou obras de Teo- 
log a, sermões, etc. Autor das Epístolas a Erasmo. 

Becan — Martin Becan (1563-1624). Jesuíta holandês. Seus traba- 
lhos, de polémica religiosa, foram dirigidos principalmente con- 
tra Calvino, Lutero e os Anabatistas. Dêsses trabalhos, que so- 
mam quarenta e seis volumes, os principais são o que possuía 
o Cónego Luís Vieira e mais êstes: Summa Theologiae Scho- 
lasticae, Controvérsia Anglicana de Potestate Régis et Pontifi- 
cis (o autor corrigiu esta obra, que esteve no Index, ãonec cor- 
rigatur), Aphorismi Doctrinae Calvinistarum ex Eorum. Libris, 
Dictis et Factis Collecti. 

Gratianus — Johannes Gratianus (século XII). Religioso Camaldu- 
lense. Contemporâneo de Pedro Lombardo. Nasceu em Chiusi 
na Toscana. É autor da Concordantia Discordantium Canonum, 
universalmente conhecida por Decretum Gratiani. Graciano 
foi o verdadeiro fundador da ciência do Direito Canónico. Fa- 
leceu pouco antes de 1179. 

Vinnius — Arnold Vinnen (1588-1657). Jurisconsulto holandês, mais 
célebre do seu tempo, escreveu e imprimiu De Origine et Pro- 
gressu Júris Romani; Tractatus de Pactis, Jurisdictione, CoUa- 
tionibus et Transactionibus e vários outros. 

Thomassin — Louis Thomassin (1619-1695). Teólogo francês. Religio- 
so Oratoriano. Professor no seminário de Saint Magloire em Pa- 
ris, onde faleceu. Suas principais obras: Ancienne et Nouvelle 
Discipline de VÉglise touchant les bénéfices et les bénéficiers; 
Dogmatum Theologicorum de Incarnatione, de Dei proprieta- 

tibus ; Traités historiques et dogmatiques; Glossarum uni- 

versale haebraicum. De Thomassin afirmou Hurter: "Vir stu- 
pendae plane eruditionis". 

Schmalzgruéber — Francisco Xavier (1663-1735). Canonista bávaro. 
Jesuíta. Escreveu Jus Ecclesiasticum Universum (resumido pos- 
teriormente para uso das escolas em Succinta Sacrorum Ca- 
nonum Doctrina), Compendium Júris Ecclesiastici, Judicium 
Ecclesiasticum, Clerus Saecularis et Regularis, Sponsalia et 
Matrimonia, Crimen Fori Ecclesiastici e Consilia seu Responsa 
Júris. 

Pichler — Vito Pichler (1670-1736). Ilustre canonista alemão. A prin- 
cípio padre do clero secular, ingressou depois na Companhia de 
Jesus. É autor de Examen Polemicum super Augustana Con- 
fessione; Lutheranismus constanter errans; Una et Vera Fides; 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS OE OURO PRÊTO 



231 



Theologia Polemicae Particularis; Cursus Theologiae Polemi- 
cae Universae; Candidatus Jurisprudentiae Sacrae; Universae 
e Manipulus Casuum Juridicorum. 

Leitão — Antônio Homem Leitão. Conhecido por Praeceptor Infelix. 
Professor em Coimbra. Apesar de sacerdote, por intriga de ému- 
los poderosos, foi acusado de cristão novo e condenado à mor- 
te, sendo queimado vivo a 5 de maio de 1624 (41) . 

Mably — Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785). Filósofo e historiador 
francês. Irmão do Abade de Condillac. Tomou ordens de sub- 
diácono. Um dos precursores da Revolução Francesa e do Co- 
munismo. Autor de numerosas obras. 

Vattel — Emmerick de Vattel (1714-1767) — Publicista e diplomata 
alemão. 

Gibert — Jean Pierre Gibert (1660-1736) — Canonista francês. Cléri- 
go apenas de Prima Tonsura . . . Estudou Teologia e Direito Ca- 
nónico em Toulon e instalou-se em Paris, onde vivia em retiro 
estudando e escrevendo. Publicou Doctrina Canonum in Corpo- 
re Júris Inclusorum, circa Consensum Parentum Requisitum 
ad Matrimonium Filiorum Minorum; Institutions Ecclésiastt- 
ques et Bénéficiales Suivant les Príncipes du Droit Commun et 
les Usages de France; Usages de VÊglise Gallicane Concernant 
les Censures et VIrregularité; Corpus Júris Canonici per Regu- 
las Naturali Ordine Digestas . . . 
Gibert foi galicano moderado. 

Febronius — Johannes Nicolaus von Hontheim (Justinus Febronius, 
pseudónimo). Bispo Auxiliar de Trier. Responsável pelo siste- 
ma político-eclesiástico denominado Febronianismo. Sua prin- 
cipal obra apareceu com êste título: Justini Febronii Juriscon- 
sulti de Statu Ecclesiae et Legitima Potestate Romani Ponti- 
ficis Liber Singularis ad Reuniendos Dissidentes in Religione 
Compósitos. 

Farinacius — Próspero Farinacci (1554-1618). Jurisconsulto italiano, 
lente na Universidade de Roma. Trabalhou na Cúria com Cle- 
mente VIII e Paulo V. Foram êle e Gravina as maiores autori- 
dades em Direito no seu século. Farinacci escreveu Praxis Cri- 
minalis. 

Burlamaqui — Jean Jacques Burlamaqui (1694-1748). Jurisconsulto 
suíço. 

Aulisius — Domênico de Aulisio (1639-1717). Jurisconsulto e polígra- 
fo italiano. 

Boehmer — Just Henning Boehmer (1647-1749). Jurisconsulto ale- 
mão. Conselheiro de Estado de Frederico I. 



(41) Assevera Camilo Castelo Branco em Mosaico e Silva, coleção lusitana, 
pág. 34, que o nome do Praeceptor Infelix era Antônio Homem Brandão. 



232 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Berardi — Carlo Sebastiano Berardi (1719-1768). Canonista. Sacerdo- 
te secular. Prefeito da Faculdade de Direito da Universidade de 
Turim. Escreveu Gratiani Cânones Gemini ab Apocriphis Dis- 
creti; De Variis Sacrorum Canonum Collectionibus ante Gra- 
tianum; Comentaria in Jus Ecclesiasticum Universum. 

Gravina — Giovanni Vincenzo Gravina (1664-1718). Jurisconsulto e 
poeta. Protetor de Metastásio. Escreveu numerosas obras. As 
principais são Institutiones Canonicae; Originum Júris Civilis 
Libri Tres; De Império Romano Líber singularis. Escreveu ain- 
da: Tragedie cinque; Della Ragione Poética, etc. 

Corvinus — Andreas Corvinus. Historiador protestante. 

Aranha — Silvestre Aranha. Jesuíta. 

Brixia — Bréscia. 

Para — François Para du Phanjas. Escritor francês nascido no caste- 
lo de Phanja Champsaur, Baixos Alpes, em 1724 e falecido em 
Paris em 1797. Ingressou na Companhia de Jesus em 1740. Esta 
extinta, o arcebispo de Paris e a princesa Adelaide constitui- 
ram-lhe uma pensão. É autor de Théorie des êtres sensibles, 
Théorie des êtres insensibles, Tableau Historique et Philosophi- 
que de la Religion, etc. 

Heineccius — João Teófilo Heinecke (1678-1753). Jurisconsulto e filó- 
sofo alemão. 

Gennuensis — Antônio Genovesi (1712-1769). Filósofo italiano. Escre- 
veu Elementos de Lógica e Metafísica, Cartas Académicas, etc. 

Verney — Luís Antônio Verney (1713-1792). Português. Acirrado ini- 
migo dos Jesuítas. A reforma da instrução, realizada por Pom- 
bal, teve grande contribuição por parte dêste filósofo. 

Hugo — Hugo de São Vítor (1096-1141). Teólogo, filósofo e místico. 
Natural de Hartingham na Saxônia. A despeito da oposição de 
seus pais vestiu o hábito dos Cónegos Regulares de Santo Agos- 
tinho. Sob sua direção a Escola de São Vítor alcançou brilhan- 
te nomeada. Foi chamado alter Augustinus em razão de sua fa- 
miliaridade com as obras do grande Padre e Doutor da Igreja. 
É vastíssima a obra filosófica, teológica e mística de Hugo de 
São Vítor. Menciono as principais: De Sacramentis Christianae 
Fidei; Eruditionis Didascaliae, libri septem; Explanatio in Can- 
ticum Beatae Mariae; Quaestiones et Decisiones in Epistolas 
S. Pauli; Commentariorum in Hierarchiam Coelestem S. Diony- 
sii Areopagitae secundum inter pretationem Joannis Scoti, libri 
decem; De Arca Noé Morali et Mystica; Summa Sententiarum 
etc, etc. 

Condillac — Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780). Filósofo fran- 
cês. Abade de Mureau. Irmão de Mably acima mencionado. Dei- 
xou escritos numerosos como Cours d'Études (ad usum Del- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



233 



phinis), Essai sur Vorigine des connaissances humaines, UArt 
d'Écrire, etc, etc. 

Musschenbroek — Pieter van. . . (1692-1761). Físico holandês. Além de 
seus escritos, deve-lhe a ciência a garrafa de Leyde. 

Gravesande — Guilherme Jacó ou Storm Van's. Gravesande (1683- 
1742). Matemático e filósofo holandês. 

Juventius — Joseph de Jouvancy. Jesuíta. Filósofo, historiador e poe- 
ta. Nascido em Paris em 1643 e falecido em Roma em 1719. Tra- 
duziu em versos as Comédias de Terêncio as Odes e a Arte Poé- 
tica de Horácio, os Epigramas de Marcial e as Metamorfoses de 
Ovídio. Traduziu também o De Officiis de Cícero. Escreveu Ins- 
titutiones Poeticae, Novus Apparatus Greco-latinus, cum inter- 
pretatione gallica, e Christianis Litterarum Magistris de Ratio- 
ne Discendi et Docendi. Figura na biblioteca do Cónego êste 
último trabalho, o qual foi proibido em França em razão de ata- 
car o regalismo e foi pôsto no Index — donec corrigatur — por 
contraditar o decreto pontifício De Ritibus Sinensibus. Foi cor- 
rigido, verificando-se mais tarde que o livro fora escrito antes 
que se publicasse o referido decreto apostólico. 

Pinel — Felipe Pinel (1755-1826). Médico francês. 

Tissot — Simon André (1728-1797). Médico suíço. 

Winslow — Jacó Benigno (1669-1760). Físico e anatomista dinamar- 
quês. 

Cullen — Guilherme (1710-1790). Médico escocês. 

Graveson — Jacinto. Teólogo e historiador francês. Dominicano. Es- 
creveu Historia Ecclesiastica Variis Colloquiis digesta, libri duo- 
decim, a qual foi continuada por Mansi. 

Castelo Branco — Pedro de Sousa (1678-1753). Militar português. Es- 
creveu a história naval portuguêsa e veneziana de 1717 (?). 

Fleury — Claude Fleury (1640-1725). Depois de haver exercido a ad- 
vocacia por alguns anos, fêz-se sacerdote. Pertenceu à Acade- 
mia. Escreveu História do Direito Francês, Catecismo Histórico 
e História Eclesiástica além da obra que possuía o Cónego Luis 
Vieira. 

Giannone — Pietro Giannone (1676-1748). Historiador italiano. Sua 
obra principal, precisamente esta catalogada na biblioteca do in- 
ditoso capitular marianense, acarretou-lhe a pena de excomu- 
nhão e a morte, apesar de se haver retratado. Cumpre obser- 
var que o responsável pela morte de Giannone foi o govêrno 
de Nápoles. 

Hume — David (1711-1776). Historiador escocês. Escreveu também uma 
História da Inglaterra. 

Lafiteau — Joseph François de. Jesuíta francês. Missionário no Orien- 
te. Escreveu o livro que aparece na biblioteca do Cónego e mais: 
Moeurs des Sauvages Américaines Comparées aux Moeurs des 



234 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

Premiers Temps. Antes de missionar o Oriente esteve alguns 
anos no Canadá. Um seu biógrafo disse dêle: "After Charle- 
voix, Lafiteau was the most remarkable historian and natura- 
liste ever sent to Canada by the Society of Jesus". 

Sousa — Dom Antônio Caetano de Sousa. Sacerdote português. Linha- 
gista muito conhecido. 

B. Racine — Boaventura Racine. Historiador francês. Jansenista. Pu- 
blicou em 1762 Abregé de VHistoire Ecclésiastique. 

Figueiredo — É o conhecido oratoriano, Padre Antônio Pereira de Fi- 
gueiredo, tradutor da Bíblia, autor do Novo Método' da Gramá- 
tica Latina. Amigo de Verney e inimigo dos Jesuítas. 

Del-Castillo — Diogo Henrique. Historiador espanhol do século XV. 

Gavantus — Bartolomeu Gavanto (1569-1638). Liturgista italiano. 
Religioso barnabita. A mais importante de suas obras é o The- 
saurus Sacrorum Rituum seu Commentaria in rubricas Missalis 
et Breviarii Romani, trabalho que dedicou a Urbano VIII. Fci 
consultor perpétuo da Sagrada Congregação dos Ritos. 

Petavius — Denis Petau (1583-1652). Um dos mais notáveis teólogos 
do século XVII. Em 1605, já com um grande nome, se fêz 
jesuíta. A relação da vastíssima obra de Petau enche vinte 
e cinco colunas do grande dicionário bibliográfico jesuítico do 
Padre Sommervogel. Escreveu sôbre cronologia, história, filo- 
sofia, patrística, história do dogma, etc, etc. 

Freire — Francisco José Freire. Tinha na arcádia o nome de Cândido 
Lusitano. 

Pereira de Castro — Gabriel Pereira de Castro (1571-1632). Poeta e 
jurisconsulto português. Escreveu, além da Ulissea o De Manu 
Regia, obra de Direito de grande voga e autoridade na época. 

Diogo Bernardes — Clássico português do século XVI. 

Jaboatão — Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1768). Cro- 
nista, linhagista e poeta brasileiro. 

Ausonius — Decimus Magnus. Poeta latino, cristão, do século IV. Es- 
creveu Epigrammata, Epicedion, Cupido Crucifixus, Gratiarum 
Actio, etc, etc. 

Manilius — Marcus Manilius. Poeta latino contemporâneo de Virgí- 
lio, Horácio e Ovídio. Autor do poema Astronomicon que o Cóne- 
go possuía. 

Marmontel — Jean François de (1723-1799). Beletrista francês. De 
seus numerosos trabalhos o mais apreciado é Memórias, escrito 
particularmente para a instrução e educação de seus filhos. 

Metastásio — Pietro Trapassi (1698-1782). Poeta italiano de origem 
modesta. Vincenzo Gravina, seu amigo e protetor, traduziu-lhe 
o cognome Trapassi pelo correspondente grego Meta-stasio. Foi 
o poeta mais querido de seu tempo. Era sacerdote. Faleceu em 
Viena. 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



286 



Tassoni — Alexandre (1565-1635). Discípulo de Aldrovandi em Bolo- 
nha. Publicou várias obras, mas a que o imortalizou foi La 
Secchia Rapita (O balde roubado). 

Gessner — Salomão (1730-1788). Escritor suíço, autor de Idílios, A 
Noite, Daphnis, A Morte de Abel (versos pastoris), O Primeiro 
Navegador, etc. Era também pintor e gravador. 

Sanctius — Francisco Sanchez (1523-1601). Gramático espanhol. Es- 
creveu Minerva seu De casis latinae linguae commentarius. 

Vossius — Gerhard Johann Voss. Sábio holandês. 

Calepinus — Ambrogio Calepino (1440-1511). Lexicógrafo italiano, 
nascido em Calepio, província de Bérgamo. Frade agostiniano. 
Escreveu Comucopiae, dicionário latino; Ambrosii Calepini 
Dictionarium Undecim Linguarum: respondent autem latinis 
vocabulis hebraica, graeca, gallica, itálica, germânica, belgica, 
hispânica, polonica, ungarica. O nome Calepino tornou-se sinó- 
nimo de dicionário, v.g. Septem linguarum calepinus vale por 
Septem linguarum lexicon. 

De Marca — Pierre de (1594-1662). Bispo francês de família distinta. 
Conselhero de Estado, presidente do parlamento de Pau e in- 
tendente do Béarn. Ficando viúvo com quatro filhos, em 1631, 
10 anos depois se ordenou e foi logo nomeado bispo de Sonse- 
raus, sendo porém confirmado em 1651, depois de se haver re- 
tratado de alguns erros que levaram ao Index o seu livro Con- 
córdia Sacerdotii et Imperii (escrito a pedido de Richelieu). 
Escreveu ainda Marca Hispânica e Histoire de Béarn. Foi no- 
meado arcebispo de Paris, mas faleceu três semanas antes de 
ser preconizado. 

Rezende — André de. Humanista, professor e arqueólogo português. 
Faleceu em 1573. Deixou as seguintes obras: De Antiquitatibus 
Lusitaniae, História da antiguidade da cidade de Évora, Vida 
de São Frei Gil, De Vita Aulica, etc. 

Nonnotte — Claude Adrien (1711-1793). Jesuíta francês. Escreveu Exa- 
men Critique ou Réfutation du Livres des Moeurs (contra Vol- 
taire), Erreurs de Voltaire, UEsprit de Voltaire dans ses Écrits. 
Dictionnaire Philosophique de la Religion (ainda refutando 
Voltaire), Réponse aux Éclaircissements Historiques et aux Ad 
ditions de Voltaire, Lettre á un Ami sur les Honnêtetés litterai- 
res. Assevera um biógrafo de Nonnotte que seus trabalhos pro- 
duziam uma profunda indignação em Voltaire, sobretudo por- 
que, como sucede por vezes em tais casos, êle não podia respon- 
der aos argumentos e à documentação do contendor. 



236 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Pelos livros que lia — escreveu judiciosamente Eduardo 
Frieiro (42), pode-se imaginar que era o Cónego Luís Vieira 
um espírito forte, o que não impedia fosse um sacerdote firme 
em sua crença católica, fiel aos deveres de sua vocação. 

Diabos havia, por certo, em sua biblioteca (em qual biblio- 
teca não se intrometem eles?). Um anjo, porém, ali assistente 
— Santo Tomás de Aquino (Doctor Angelicus) — não men- 
cionando São Bernardo e tantos outros, constantes da relação 
supra, neutralizaria triunfantemente as tentações do inimigo, 
como aliás reconheceu e lembrou o distinto escritor acima 
citado. 

E com os seguintes conceitos do mesmo ilustre beletrista, 
cerraremos êstes apontamentos relativos ao bibliófilo Cónego 
Inconfidente: 

"Homem instruído e noticioso", como a êle se referiu uma teste- 
munha da inquirição-devassa, o Cónego da Sé marianense era bem o 
tipo do leitor à la page, e leitor surpreendente, pois que, mesmo no in- 
terior da mal povoada capitania das Minas Gerais — atentemos bem 
nisto — e apesar do estado de pobreza em que vivia, soube encontrar 
alimento abundante e variado para o seu apetite livresco, a sua fome 
de saber. Êsse geralista letrado tinha talvez no coração a máxima que 
um escritor seu conhecido, o historiador Robertson, punha em todos os 
seus cadernos: Vita sine litteris mors est." (Op. cit. 80). 

Será sempre motivo de legítimo orgulho para a Ordem 
Terceira da Penitência de Ouro Preto haver tido por comis- 
sário o insigne Cónego Luís Vieira, sacrificado pelo despotis- 
mo ao amor e à liberdade do Brasil. 



(42) Frieiro, 0 Diabo na Livraria do Cónego, 74. 



CAPÍTULO VII 



ÚLTIMAS NOTAS 

I — Arquivo da Ordem 

Sem embargo do desaparecimento de alguns livros, parti- 
cularmente do terceiro de Têrmos que, aberto em 1768, con- 
teria a história do período mais interessante da Ordem — o 
da construção de sua igreja — encontra-se otimamente con- 
servado o Arquivo de São Francisco. Tal vantagem se deve 
à solicitude do senhor Manuel José de Paiva Júnior. O zeloso 
Procurador de São Francisco não o tem somente preservado 
dos males que têm arruinado tantos arquivos, senão que o tem 
estudado com vivo interêsse, e o tem catalogado inteligente- 
mente, pondo-o em condições de bem servir aos estudiosos e 
pesquisadores. 

Êsse arquivo tem também a sua história. Dela um lance 
há que deve ter sido outrora ruidosamente comentado. Vamos 
trazê-lo à tona, arrancando-o ao esquecimento a que se atirou 
com o dobar dos anos. 

Não andará esquecido o leitor de que, em 1758, estava por 
Vila Rica contendendo com a Ordem o frade do Gualacho, 
Frei Manuel do Livramento. 

A 30 de novembro do sobredito ano, por sugestão, sem 
dúvida, do mencionado religioso, resolveu-se em Mesa que a 
Ordem criasse um livro do tombo. Tal deliberação, que em 
outras circunstâncias seria bem inspirada e feliz, traduziu-se 
em realidade. O livro se criou. É chamado, ora livro da fun- 
dação, ora livro da capa de veludo. 

Algum tempo andado, descobre-se que nesse livro se re- 



238 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



gistrara coisa de muita gravidade, o que — infelizmente para 
nossa curiosidade — se escondeu em definitivo, como vere- 
mos, a qualquer investigação. O quer que fôsse, porém, produ- 
ziu escândalo grande e revoltou extremamente a Ordem. 

O fato foi largamente debatido, e um dia, levada ao auge 
a exaltação, se fez com o ilustre livro um divertido e solenís- 
simo auto-de-fé. 

Em sua linguagem pitoresca contarão melhor essa histó- 
ria os documentos que passo a transcrever. 

LIVRO DE PATENTES 

"Aos trinta Dias do mes de 9br.° de mil e sete centos e cincoenta 
e oito anos no consistório desta Nossa vn. el ordem prezedindo em Meza 
o Mto. Rmo. Pe. M. Fr. Manoel do Livramento com. 0 viz. or g. al e o sr. 
Irmão Ministro o Thenn. te João de Serq. ra ; e o mais do definitorio, e 
off.e* abaixo aSignados; ahy foi Requerido pello o Sr. Secretr.o, que 
careçia esta vn. el ordem de hum Livro com destinção, p. a nelle se re- 
ziztar a Patente da Erecção desta nossa Vn. el Congregação; e as mais 
que viessem ou tivessem vindo a ella; Pellos Nossos Rmos. Min. os Pro- 
vinciaes; como também os Breves Apostólicos que obtevessemos: o que 
visto e ponderado pello Rmo. Com.° Viz. or e mais Deffinitorio vnifor- 
memente por votos de todos que correrão o vazo se aSentou que o Ir- 
mão Sindico mandasse fazer o referido Livro tudo na mesma forma 
da proposição; E juntam. te o Saco de damasco Caramizim forrado de 
tafetá; e cordõis. J3 p. a constar mandamos fazer este termo e eu Fr. 
Ant.° Vr. a de S. D. os Secretario da Vizita que o Sobre escrevy Dia, era 
ut supra. — Fr. Livramento, Comm. 0 Viz. or // Fr. Antonio Vr. a de S. 
Domingos, Secretario da Vizita // João de Serq. ra , Min.° // Antonio 
Fran. 00 Campos, Secret. 0 // João de Amorim Per. a , Procurador G. al // 
João Soares de Caro. 0 , Sindico // João Moreira Coelho, Definidor // 
Dom. 0í F. Sim. ea Valle, Definidor // Joze Roiz de CarvP, Definidor // 
João Giz Braga, definidor // Amaro Alves Pinto, definidor // Bernar- 
do de Araujo Franco, definidor // Dom. 0 " dos Santos Lx. a , definidor // 

Dom. os Frz. Serra, definidor // Ant.° da Silva Braga, Vigário // 

" (Têrmos — fls. 18). 

Trecho de uma carta da Mesa, de 29 de março de 1761, já trans- 
crita em outro capítulo dêste livro: "... e nem o Tombo da Ordem 
que se acha com têrmo e patente de sua aprovação, como é costume, 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 239 

lhe (a Frei Livramento) impediu o desígnio de fazer um novo Tombo 
para destruir a Congregação; e para melhor favorecer àquele semea- 
dor (Abrantes) consentiu que êle por sua mão fizesse a eira, isto é, es- 
crevesse aquêle livro, nêle metesse o que pareceu para assim colhêr o 
fruto de sua sementeira; que tanto trabalho, prejuízos e desgostos tem 
dado em todo o tempo a esta Ordem, precisando-a a diligência de se 
extinguir tão péssima semente e apartando-a daquela que só pode 
produzir bons e sazonados frutos." 

Do têrmo de 28 de fevereiro de 1762, a fls. 53 verso: "... e outro- 
Sim que o livro com capa de veludo instromento de todas estas discór- 
dias ficasse como ao presente sem uso algum para sempre e só sim 
revalida vão (se necessário era) a aceitação dos estatutos: e por este 
para todo sempre firmes e valiosos e como assim o detriminarão man- 
darão fazer este tr.° em q. todos assinarão comigo Secretario — José 
da Mota Araujo." 

Do têrmo de 25 de setembro de 1763, a fls. 68 verso: " E ou- 
trossim sendo no mesmo ato requerido pelo Ir. procurador g. al q. esta 
Venerável Ordem devia mandar fazer um livro que tivesse por titulo 
= Origem e Fundação da Ordem (43) no coal se copiasse por sua or- 
dem todas as patentes que para o mesmo efeito se tem obtido dos Mi- 
nistros Provinciais sendo a primeira como principio e origem da d. a 
ordem a que trouxe por comissão do Rmo. Ministro Provincial Fr. An- 
tonio da Conceição o M.R. ex Leitor Frei Antonio de Santa Maria se- 
guindose a descrita no livro das Recepssõis com o próprio punho e 
selo menor do sobredito Ministro Provincial, a sua Pastoral, que são e 
servem de fundamento e que p. a este efeito se podia aproveytar o pa- 
pel do livro que o Pe. Mestre Vizitador Frei Manoel do Livramento 
pro suo libito tinha ordenado fazendose outro para o que requerido 



(43) Êste livro existe e se conserva em ótimo estado. Os documentos de que 
consta foram copiados pelo Capitão Francisco Alexandrino, conforme êste lança- 
mento feito a fls. 70 do Livro de Rec. e Despesas, ano de 1764: "Pg. ao Capp." 
Fran. co alexandrino da escrita que fez no L.° da Fundação, como consta do recibo 
— 8$625 rs". No mesmo livro, antes do têrmo de abertura, pintou Francisco Xa- 
vier de Meireles a efígie de São Francisco, ainda hoje perfeitamente conservada. 
No cit. livro de rec. e desp., a fls. 65, se lê: "Pello q. se despendeu em pintar hua 
imagem de N. Smo. Patriarca em o livro da fundação da Ordem, a Fr. co X. er do 
Meyreles — 3$000." 



210 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



tem. E que de toda a mais escrita por conter coisas de menos credito 
e opostas ao aumento e boa regularidade da d. a ordem e por isto não 
sendo aceitas, e em junta geral neste livro a fl. 53 v. julgadas a perpe- 
tuo silencio pelo gravissimo prejuizo que cauzado tinhão pelo mes- 
mo motivo instantemente requeria que logo se lhe fizesse acto de con- 
sumo e que pelo mesmo ficasse banida a copia que remetido se tinha 
p. a o Rio de Janeiro porque, como Fiscal da mesma Ordem, a recla- 
mava e pedia a restituição que o direito lhe concede, o que ouvido por 
todos o dito requerimento correndo o vaso geral.'" votarão que o ato 
de consumo se fizesse na forma requerida e que na mesma forma se 
mandasse logo fazer o dito livro ficando de nenhum efeito a copia que 
se achava no Rio de Janeiro p. a nunca mais nesta ven.' 1 ordem ser 
admitido porque reclamavão e com efeito reclamado tinhão toda a res- 
tituição que o direito lhe outorga Pe. José Fernandes 

Leite, V. com.°/ /Ant.° de Sousa Mesquita V. Min. 0 // José da Mota ArP, 
ex-Secretr.°." 

Do livro de Têrmos, a fls. 70 verso: "... Termo por donde na for- 
ma detreminada pela Meza se procedeo no consumo do Livro que se 
declara no tr.° retro." 

"Aos vinte e seis dias do mes de setembro de mil setesentos e ses- 
senta e tres annos nesta Vila riqua de nossa Sfa do Pilar do Ouro pre- 
to em a Igr. a Matriz de nossa Sr. a da Conceição da d. a V. a em o Con- 
sistório desta venerável ordem 3. a sendo prezentes o Sr. Vice Min.° o 
Ir. Antonio de Souza Mesq.'" comigo ex-secretr.° e o procurador da 
mesma Ordem João de Amorim Per. a e mais Irmãos abayxo assinados, 
sendo ahi foy por mim ex Secretr. 0 tirado da Secretaria da dita Ordem 
o libro de que faz menção o tr.° retro e logo sendo posto em sima de 
hua meza na prezença de todos foy aberto separando-se do mesmo 
tudo coanto nele estava escrito e na parte escrita sendo asseza huma 
bela com a mesma se lhe poz o fogo reduzindose a sinza tudo coanto 
nele se havia escrito goardandose todo o mais Papel que nele se acha- 
va em branquo do coal se fez, entregua ao d.° procurador p. a na for- 
ma do mesmo tr.° executar o que nele se declara, sendo de tudo isto 
testemunhas prezentes os nossos carissimos Irmãos Manoel Vr. a e 
Pedro Giz Lamas de q. p. a do referido constar fis este tr.° em q. assi- 
narão e eu Joze da Motta Ar. 0 ex Secretario q. o escrevi e assiney no 
d.° dia mes e anno. AntP de Souza Mesquita, vice Min. 0 // Jozé da 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



241 



Motta Ar. 0 , Ex-Secretr. 0 // João de Amorim Per. a , Proc. G. al // Pedro 
Giz. Lamas, ex sindico/ Manoel Vr. a , ex Vice Min. 0 //." 

No livro de Eleições encontra-se uma determinação de Frei Livra- 
mento assim redigida (a fls. 16 verso) : "... Vimos este livro que ser- 
ve de lansar as Eleyçoens e não temos que advertir senão som. ,e dizer- 
mos que seg.''° os Estatutos da Ordem senão dará o nome de Senr. 
nas Eleyçoens e outros lugares senão ao Ministro por Prelado desta 
Ordem seg. do depois do Comissário que he o seu pr.° Prelado. De que 
mandamos fazer este termo pelo Secretario da Vizita. No Consistório 
aos 25 de 9br.° de 1758. Fr. Manoel do Livramento, Com.° viz. or g.'// 
P.M.D.N.C.I., Cõm.° Viz°7/ Fr. Ant.° Vr. a de S. Dom. 08 , Secretario da 
Vizita". 

Livro de Receita e Despesa — Êste livro, precioso repositório de 
documentos relativos à construção da igreja, foi feito por Domingos 
José Marques, conforme êstes registros, lançados no mesmo livro, a 
fls. 3 verso: "Pg. 8/8* s — 3/4 e 6 v. de ouro q. se pagou de 8 mãos e 
dous cadernos de papel Imperial p. a se fazer êste L.° de Receita e des- 
peza a 3/4 e 4 v. = 8$325 rs"; "Pg. 4/8" 8 e 1/2 de ouro q. pagou a Do- 
mingos José Marques, Livr. 0 , de feitio e perparos do d.° L.° = 5$400 
rs". (Lançamentos dos anos de 1751 e 52). 

Pagamentos de despesas com outros livros. No citado livro a fls. 
33 e 33 v. lêem-se: "P. do q. despendeo com oito mãos de papel de 
olanda que comprou a Manoel de Lemos e Fran. 10 Per. a da costa p. a 
a fatura de dois L. os — 4$800". "P. q despendeo com Domingos Mar- 
ques dos Reis de fazer dois livros e encadernar outro pertencente a 
Ven.- 1 Ordem — 9$600". 

II — Ministros da Ordem desde a primeira eleição em 1751 

1751 — Lourenço de Amorim Costa e por seu falecimento em 14-1-752 

foi eleito para completar o tempo que iria findar a 17-0-752, 
Manoel Rodrigues Abrantes. 

1752 — Luís da Silva 

1753 — Bartolomeu Alves da Silva 

1754 — Capm. José Gomes da Rocha 

1755 — Capm. Domingos Moreira Granja 

1756 — André da Costa de Oliveira 

1757 — Capitão-Mor Domingos da Rocha Ferreira 

1758 — Tenente João de Sequeira 



242 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

1759 — Sargento-Mor Felipe Gonçalves Santiago 

1760 — 

1761 — Antônio Gonçalves Ferreira 

1762 — Cel. Estêvão Gonçalves Fraga 

1763 — Pe. Antônio Jácome 

1764 — Francisco da Costa Matos 

1765 — Sargento-Mor Tomé Alves Guimarães 

1766 — Domingos da Rocha Ferreira 

1767 — Martinho Alves da Silva 

1769 — Domingos Moreira Granja 

Protetor-Conde de Valadares, eleito 17-IX-1769; serviu até 
22-V-1773. 

1770 — Manuel Vieira 

1771 — T. e -C. el Feliciano José da Câmara 

1772 — Antônio Gonçalves Silva 

1773 — Pe. Manuel Ribeiro Soares 

1774 — C. eI João de Sousa Lisboa 

1775 — Francisco Vaz de Siqueira 

1776 — Capm. Manuel José Veloso 

1777 — Guarda-Mor Manuel da Mota de Andrade 

1778 — " " " " " " " reeleito 

1779 — Capm. Silvestre da Silva Araújo 

1780 — Adriano Machado Ribeiro 

1781 — T. te Luís de Amorim Costa 

1782 — Capm. Gervásio Gonçalves Pereira 

1783 — C. el Afonso Dias Pereira 

1784 — Bartolomeu Alves da Silva 

1785 — Capm. Manuel Fernandes de Carvalho 

1786 — C. el Estêvão Gonçalves Fraga 

1787 — Francisco João Ribeiro 

1788 — C. el Ventura Fernandes de Oliveira 

1789 — Furriel João Rodrigues 

1790 — Pe. Inácio José Correia 

1791 — Capm. Luís de Amorim Costa 

1792 — Capm. Manuel Fernandes Pinto 

1793 — C. el Antônio Gonçalves Ferreira 

1794 — Sargento-Mor Antônio José Dias Coelho 

1795 — Capm. Antônio Ribeiro da Costa 

1796 — Capm. Antônio José de Abranches 

1797 — Francisco Marques de Oliveira 

1798 — Cel. José Veloso Carmo 

1799 — João Batista Pinheiro Guimarães 

1800 — O Comissário Pe. Manuel de Abreu Lobato 

1801 — Manuel Francisco Reis 

1802 — Capm. João Pinto de Sousa 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



243 



1803 — Antônio Teixeira Chaves 

1804 — Domingos da Fraga e Melo 

1805 — Guarda-Mor Manuel Gonçalves Couto 

1806 — Pe. Gonçalo da Costa Pereira 

1807 — Capm. Tomé Fernandes Braga 

1808 — Diogo Lopes Monteiro 

1809 — Vig.o Vidal José do Vale 

1810 — C.° Dr. Inácio de Sousa Ferreira 

1811 — Pe. Pantaleão da Silva Ramos 

1812 — Capm. Manuel Fernandes da Silva 

1813 — Pe. Luís Teixeira Coelho 

1814 — Pe. Francisco de Almeida Pinto 

1815 — Tenente-C. el Maximiano de Oliveira Leite 

1816 — C. eI Marçal José de Araújo 

1817 — Cónego Marçal da Cunha e Matos; eleito, não aceitou, sen- 

do em nova eleição escolhido o seguinte: 

1817 — Manuel Ferreira da Costa 

1818 — Capm. José dos Santos Correia 

1819 — Manuel Caetano Valadão 

1820 — José Fernandes da Costa 

1821 — Jerônimo Nicolau de Carvalho 

1822 — Capm. Pantaleão Alves da Silva 

1823 — " " " " " reeleito em 17-IX-23 

(Nota — Em 4-X-1823 o Bispo de Mariana, Dom Fr. José 
da Santíssima Trindade, foi eleito protetor perpétuo). 

1824 — Sargento-Mor Manuel Fernandes da Silva 

1825 — Francisco João Martins 

1826 — C. el Carlos de Assis Figueiredo 

1827 — Chantre Francisco Pereira de Santa Apolônia 

1828 — Alferes André Fernandes da Silva 

1829 — Manuel Alves Carrijo 

1830 — C. el Antônio José Peixoto 

1831 — Pe. José Pinto Barbosa 

1832 — Pe. Manuel Rodrigues Jardim 

1833 — Pe. Manuel Teixeira Lage 

1834 — Pe. Manuel da Costa Ferreira 

1835 — Manuel Soares de Azevedo 

1836 — Capm. José Ferreira da Silva 

1837 — José Soares de Azevedo 

1838 — Pe. José Bonifácio Duarte Pinto 

1839 — Pe. José da Cunha Melo 

1840 — Pe. Antonio Ribeiro de Andrade 

1841 — José Fernandes da Silva 

1842 — Pe. Cândido Tadeu Pereira Brandão 

1843 — Pe. Francisco Antônio Ferreira Armonde 



244 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

1844 — Pe. Antônio José de Melo e Lima 

1845 — Tenente-C. eI Antônio Neto Carneiro Leão 

1846 — José da Costa Santos 

1847 — Capm. Joaquim Antonio Ribeiro 

1848 — Francisco de Assis Manso da Costa Reis 

1849 — Guarda-Mor Luís Gonçalves Heleno 

1850 — Dr. Manuel de Melo Franco 

1851 — Comendador José Batista de Figueiredo 

1852 — Pe. Antônio José da Silva 

1853 — Chantre Antônio José Ribeiro Bhering 

1854 — Herculano Ferreira Pena 

1855 — Pe. Manuel José Soares 

1856 — Bernardo de Paiva e Almeida 

1857 — Conselheiro Paulo Barbosa da Silva 

1858 — C. eI Francisco de Paula Ferreira da Silva 

1859 — Pe. Antônio Ribeiro de Andrade 

1860 — Conselheiro José Pedro Dias de Carvalho 

1861 — C. el José Ribeiro de Resende (44) 



1867 — Capm. Antônio Daniel Costa 



1872 — João José Ribeiro Bhering 



1874 — Pe. Jerônimo Emiliano de Araújo 

1875 — Francisco Afonso Painhas 

1876 — Antônio Luís Maria Soares de Alvergaria 

1877 — C. el Francisco Teixeira do Amaral 

1878 — Cónego Luís Tirésio da Costa Braga 



1880 — Miguel da Costa Braga 



1882 — José da Costa Braga 

1883 — Antônio Augusto de Oliveira 

1884 — Francisco de Paula Sousa 

1885 — Pe. Agostinho Resende de Ascensão 

1886 — Dr. João Vítor de Magalhães Gomes 

1887 — Dr. Carlos Tomás de Magalhães Gomes 

1888 — Pe. Tiago Mendes Ribeiro 



1892 — Domingos de Magalhães Gomes 

1893 — Eduardo Pereira Barbosa 



1896 — Pedro Teixeira da Mota 



(44) Por essa época a Ordem entrava em manifesta decadência. As eleiçies 
já não obedeciam aos estatutos, nem eram submetidas à aprovação do Província». 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



245 



III — Finanças da Ordem nos seus primeiros anos 

A fls. 122 do 1° L° de receita e despesa, está: "Resumo 
geral da conta de tôda a receita que tem havido nesta Venerá- 
vel Ordem Terceira da Penitência de São Francisco desta Vila 
Rica, dês a sua fundação, que teve princípio no ano de 1751 
para 1752 até o de 1774, é o seguinte: 



1751-53 
1753-55 

1755- 56 

1756- 57 

1757- 58 

1758- 59 

1759- 60 

1760- 61 

1761- 62 

1762- 63 

1763- 64 

1764- 65 

1765- 66 

1766- 67 

1767- 68 

1768- 69 

1769- 70 

1770- 71 

1771- 72 

1772- 73 

1773- 74 



Lourenço Pires Ramalho, 1.° Síndico 
Miguel Lopes, 2.° Síndico 
Pedro Gonçalves Lamas, 3.° Síndico 
Mateus de Afonseca, 4.° Síndico 



Bernardo Gonçalves Veiga, 5.° Síndico 
João Soares de Carvalho, 6.° Síndico 
Francisco Xavier de Sousa, 7.° Síndico 
Bento Leite, 8.° Síndico 
Domingos dos Santos Lisboa, 9.° Síndico 



Manuel de Torres Lima, 10.° Síndico 

André Nunes, 11.° Síndico 

Domingos Ferreira Simões Val, 12.° Síndico 

Antônio da Silva Braga, 13.° Síndico 

Manuel Nunes, 14.° Síndico 

Manuel Lopes Guimarães, 15.° Síndico 



João Gonçalves Pereira, 16.° Síndico 
Antônio Estêves Teixeira, 17.° Síndico 
João Coelho da Silveira, 18.° Síndico 
Antônio Martins Viana, 19.° Síndico 
Domingos Antônio Gonçalves, 20.° Síndico 
Manuel Ribeiro Coelho, 21.° Síndico 



21:9205362 



45:4635887 



40:713S952 



18:4215941 



Soma 126:5295142 

Em 1757 a Ordem emprestou a juros 800$000 ao Pe. Simão 
da Costa Xavier e em 1758, 1 :200$000 a Manuel Pereira Gui- 
marães e 1 :000$000 a Domingos Fernandes Gonçalves. Em 
1763 pagava foros de cinco casas. 



246 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



IV — Pleitos Principais 
A Ordem sustentou pleitos com: 

Domingos Moreira de Oliveira, construtor da igreja; 
Coronel José Caetano Rodrigues d'Horta. 
Francisco Domingos de Carvalho. 

Francisco Moreira de Oliveira, herdeiro do construtor. 
Inocência Moreira, filha do construtor 
a Ordem Terceira da Penitência, de Mariana, 
a Ordem Terceira do Carmo, de Vila Rica. 
a Arquiconfraria do Cordão, de Vila Rica. 
Antônio Jorge Martins, que se recusava a entregar a Secre- 
taria da Ordem 
o Provincial (Apelação ante omnia — 12 de março de 1761). 

De alguns destes pleitos tratarei em outra parte dêste 
trabalho. Nessas contendas aparecem as seguintes pessoas: 

José Caetano Pereira, notário. 
Francisco José Barbosa, letrado 
Tomás Soares de Aguilar, advogado. 
Manuel Pinheiro de Faria, solicitador. 
Manuel Manso da Costa Reis, advogado. 
José Manuel de Siqueira, advogado. 
Francisco Barbosa Truão, advogado. 
Luís de Sousa G. Palença, advogado. 
Manuel Teixeira de Carvalho, advogado. 
Manuel Brás Ferreira, advogado. 
Cláudio Manuel da Costa, advogado. 
Lázaro Moreira, advogado. 
Antônio da Silva e Sousa, advogado. 

O Dr. Tomás Antônio Gonzaga aprovou as contas de 1785. 

V — Irmãos de cor 

A Ordem Terceira da Penitência não admitia gente de 
cor em seu grémio. Tão rigoroso estatuto foi posteriormente 
abolido. Àquele rigor primitivo se refere o seguinte: 

"Termo por donde foy ademetido novamente a esta v. el ordem o 
Ir. Antonio Dutra Giz morador na Sismaria, freg. a dos Carijós na for- 
ma que no termo se declara: 

Aos quinze dias do mez de Julho de mil e sete sentos e sessenta e 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 247 

sinco annos, nesta Villa Rica de Nossa Senhora do pilar do ouro Pre- 
to, na Matriz de Nossa Senhora da conceyção desta villa, no conscis- 
torio delia que serve de caza de despacho desta venerável ordem Ter- 
ceyra de São Fran. co , adonde se achava prezente o N.° Rdo. Padre 
Commissario o Dor. Pedro Per. a da Silva e o Noso Irmão vice Ministro 
fazendo as vezes de Ministro por empedimento do autuai e todos os 
oficiaes e completo todo o numero do definitorio com prezença de to- 
dos foy lido por mim Secretario atual huma petição em nome do nos- 
so Irmão Antonio dutra, em que nella expunha que pela Meza pre- 
térita que servia a vários anos fora avizado para não vsar mais do 
N. S. t0 abito em todas as festas e funçõis da ordem com o pertesto de 
que se tinha cazado com Mulher parda ao depois de ser porfeço a m. to 
tempo, o que com efeyto está desquitado delia a mais de nove ou dez 
annos, e que nunqua mais a vio nem com ella converçara, e assim que 
pedia que pello amor de deos o ademetissem aos Santos exzercicios 

desta venerável ordem; e depois de assim ser lida " e à vista das 

informações que dêle havia foi readmetido. 

VI — Trasladação dos restos mortais do Padre Leandro 

Êsse apostólico missionário, a quem consagrei alguns pe- 
ríodos de Archidiocese de Marianna (vol. II, pág. 957), faleceu 
em Ouro Prêto, onde a instâncias do governo provincial fun- 
dara e dirigira até a morte o Colégio Assunção. Seu óbito veri- 
ficou-se na ex-capital mineira a 28 de agosto de 1841. 

O documento que se vai ler refere-se à trasladação de seu 
corpo do cemitério de São Francisco para o Caraça, onde está 
situada a casa-mãe da Congregação da Missão, no Brasil, casa 
que êle e o Padre Viçoso fundaram na ermida histórica do 
Irmão Lourenço (45) (Liv. 5 o de Termos, fls. 2 verso) : 



(45) Também ao Irmão Lourenço dediquei alguns tópicos do meu citado livro 
(11-927). Ali dizia eu do venerável ermitão mais ou menos o que segue: Lourenço, 
tendo calado sempre as suas origens e, demais, tendo-se feito ermitão, foi prêsa da 
lenda. Fizeram-no descendente dos Távoras, o próprio Dom Carlos de Távora, fur- 
tando-se nas agrestias da serra do Caraça ao ódio sanguinário do ministro de Dom 
José. Só muito tarde, quando ao conhecimento da história chegou o seu testamen- 
to, dissipou-se a lenda e ficou-se sabendo que êle era um modesto plebeu, nascido na 
freguesia de Nagoselo, na Beira Alta, comarca e concelho de São João da Pesquei- 
ra, filho de Antônio Pereira e Ana de Figueiredo. 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"Entrega dos restos mortais do Reverendíssimo Pe. Mestre Lean- 
dro Rabello Peixoto e Castro p. a ser conduzido à Serra do Caraça. 

Aos vinte seis dias do mez de Julho de 1859 reunidos em Mesa o 
Ministro e mais Deffinitorio desta Venerável Ordem Terceira da Peni- 
tencia de São Francisco d'Assis e também prezente o Rdo. Pe. Mestre 
José Joaquim Mendes de Moura Alves, congregado da Missão Brasileira 
de S. m Vicente de Paulo, depois de feita a encomendação solemne da Or- 
dem, com assistência das demais corporações religiosas da Cidade, e 
fieis, e todas as mais honras fúnebres aos restos mortaes do Veneran- 
do P. p Mestre Leandro Rebello Peixoto e Castro, na forma determina- 
da pela resolução de 28 de janeiro do corrente anno, forão os mesmos 
entregues em uma urna feixada ao predito Rdo. Pe. Mestre Moura 
Alves a fim de os conduzir ao seu ultimo jazigo na Serra do Caraça, 
segundo o pedido seu e dos demais congregados, sendo pelo mesmo 
Rdo. Pe. Mestre recitado no acto da entrega solemne uma alocução 
agradecendo a esta V. cl Ordem as provas de respeito, amor consagra- 
das ao Venerando morto, provas de que jamais se esquecião os Con- 
gregados, que se constituião gratos aos Franciscanos d'Assis. E para 
constar lavro o prezente termo, em que se assignão o Ministro, refe- 
rido Pe. Mestre e mais Irmãos prezentes, comigo Antonio Luis Maria 
Soares d'Albergaria, Secretario que o escrevi e subscrevi. 

O Pe. Isidoro Pinto de Rezende 

O Pe. José Joaquim Mendes de Moura Alves 

Carlos d'Assis Figueiredo, servindo de V. Ministro 

Antonio Luiz M. a Soares d'Albergaria, Secretario 

Eugénio Celso Nogueira 

Simão Antonio Beltrão 

Joaq. ,n Carlos de Figueiredo 

O Pe. Camillo Miz. Per. a de Andrade 

Manoel Corr. a d'Alvarenga 

Luiz Maria de Azevedo 

Carlos Fortunato de Meirelles 

Manoel Ferr. a da Motta 

Antonio José dos Santos 

José Baptista de Figueiredo, ex-Ministro 

Antonio Daniel da Costa, ex-Pr.*" Geral 

Manoel de Jesus Tonpcilo." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OUKO PRETO 249 

VII — O Bispo de Mariana, Protetor e Defensor Perpetuo da 

Ordem 

É o que confirma a carta que segue: 

"Pax Christi — Charissimos Irmaons Comissário Viz. ", Ministro, 
e mais Mezarios da Ven.'' 1 Ordem Terceira da Penitencia, a quem mui- 
to Amo em o Snr. 

Recebemos no dia 23 de Dezembro deste anno a participação dc 
VV. CC. que de acordo de toda a nova Meza no dia 4 de Outubro pas- 
sado havião Confirmado a Elleição que as duas Mezas pretéritas fi- 
zerão da Nossa Pessoa para Protector e Defensor Perpetuo da m. m " Or- 
dem 3. a da Imperial Cidade de Ouro Preto. Quizeramos manifestar o 
muito q. prezamos esta Lembrança pelo interesse Espiritual, que am- 
bicionamos na Communicação das suas Oraçoens e Santos Exercícios, 
em q. esta Corporação deve abundar p. a desempenho do m. ,n " honro- 
so Titulo com q. o Nosso Santo Patriarcha Sollicitou da Santa Sé Apos- 
tólica a sua Ereção. E sendo Eu Filho indigno da l. a com q. t0 praze>* 
me honro desta Santa Confraternidade e Comunicação com a 3. a , p. a 
p. r este modo adquirir as Mizericordias do Senhor pelas Oraçoens e 
fervorosos Exercícios de Piedade dos Nossos Irmaons. Aceitamos pois, 
a Elleição de VV. CC. com m. ta satisfação, esperando que esta Vene- 
rável Ordem, unida em perfeito amor e Caridade Fraternal cresça e 
prospere nas Virtudes diante de Deos, e edificação dos Filhos desta 
Igreja Mariannense. Permita o mesmo Senhor, pelos merecimentos do 
nosso Santo Patriarcha, que o seo Santo Espirito venha sobre os Co- 
raçoens de todos os Nossos amados Irmaons p. a prehencherem as 
obrigaçoens de huns verdadeiros Irmaons Christaons q. só aspirão 
florecer na perfeita observância da sua Divina Ley, e preceitos sau- 
dáveis, q. nos conduzão a Bênção Superabundante q. elle promete á 
seos filhos. Esta Nossa lhes envio em seo Santo Nome. Marianna 24 de 
Dezembro de 1825 = De VV. CC. Irmão e Servo = Frei José da S.'" 
Trind: , Bispo." 



2. a PARTE 
A IGREJA 



CAPÍTULO I 



PRELIMINARES DA CONSTRUÇÃO 

Entre as jóias arquitetônicas de que Ouro Preto se enfeita 
e que para a nobre cidade fazem convergir as atenções de 
artistas e estudiosos, avulta a obra-prima de Antônio Fran- 
cisco Lisboa — a igreja de São Francisco de Assis — onde 
pompeia a arte surpreendente daquele arquiteto, o festejado 
Aleijadinho. 

Da obra sem rival, que não perde em quilate artístico para 
nenhuma outra no Estado, ocuparam-se já os mais notáveis 
artistas e os mais autorizados críticos. Discutiram os ilustres 
mestres, sob vários aspectos, a inspiração dos artistas que nela 
trabalharam, a arte que presidiu à fábrica esmerada, e os esti- 
los que ali se mesclaram harmoniosamente, a fim de que da 
feliz combinação resultasse o precioso monumento. 

Vem, a seu turno, ocupar-se da construção monumental 
o obscuro cronista da arquidiocese marianense. Atendendo, 
porém, a que não tem voto nos levantados assuntos já versa- 
dos pelos competentes, adverte que a nada mais visa, no pre- 
sente trabalho, senão, simplesmente, a trasladar dos arquivos 
da Ordem para estas páginas a história da construção material 
do formoso edifício. 

1° — LICENÇA RÉGIA 

A obtenção da licença régia, indispensável para a constru- 
ção de sua igreja, custou à Ordem 19 anos de um lidar cons- 
tante e quase heróico, tal o menospreço com que nos ministé- 
rios do reino eram tratados os súditos brasileiros e suas peti- 
ções. 



254 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Desde 1752 um certo Dr. Francisco Xavier Ramos, procura- 
dor da Ordem em Lisboa, "trabalhando com todas as suas 
forças neste requerimento", ao cabo de três anos nada havia 
conseguido e o faz saber à Mesa em carta que veio na frota de 
1755. Comunicava outrossim aos seus constituintes que, pros- 
trado por moléstia grave, já não podia prestar assistência à 
causa da Ordem, e por isto declinava da incumbência a que 
dera um triénio de solícito, embora malogrado empenho. Par- 
ticipava, ainda, que em mãos de Francisco Dias Leal havia 
depositado a quantia de oitocentos e noventa e tantos mil réis, 
saldo credor da Ordem, que restava em seu poder. 

Lida em Mesa a ingrata missiva, o ex-Ministro Sargento- 
Mor João de Sequeira, com o louvável intento de levantar os 
ânimos abatidos e amparar, não menos, a causa que se via, 
assim de improviso, largada ao abandono, lembrou que êle 
podia dispor na corte de um amigo, o Capitão Francisco An- 
tônio Rodrigues Feio, "de quem tinha recebido extraordiná- 
rios favores e conclusão de negócios de muita importância", 
ao qual, se aprouvesse à Mesa, poderia êle dirigir-se, pedindo- 
lhe que, "por serviço de Deus e de nosso Padre São Francisco, 
quisesse empenhar todo o seu valimento para conseguir da 
Majestade o bom despacho de nossa rogatória, oferecendo 
todo o dinheiro que pairava na mão do sobredito Leal e todo 
o mais que fôsse necessário". 

"Com esta alegre notícia (prossegue a Mesa no documen- 
to que tenho à vista) recebemos tal consolação que nos pareceu 
ser mais inspiração divina que humana. . ." e desde aí — 13 de 
abril de 1755 — começa o Capitão Feio, com outorga da Mesa, 
a peregrinar pelas secretarias e pelos tribunais da metrópole 
a ver se alcança o despacho desejado. 

Ao referido capitão, com uma carta de data há pouco refe- 
rida, entregou-se o seguinte: 

"Memorial pelo qual pretendem os terceiros seculares da venerá- 
vel Ordem terceira de nosso Patriarca São Francisco alcançar da Mui- 
to Alta e Poderosa Majestade por decreto ou provisão a licença abaixo 
declarada: que os terceiros desta Venerável Ordem, instituída no ano 
de mil e setecentos e quarenta e seis, a instância do Rvmo. Provincial 
de Sto. Antônio da cidade do Rio de Janeiro, nesta Matriz de Nossa 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 255 

Senhora da Conceição de Vila Rica, Bispado da cidade de Mariana, se 
acham oprimidos pelo grande número de mais de mil irmãos para 
nela poderem exercer os seus atos, conforme lhe determinam seus Es- 
tatutos e Regra, pela pouca comodidade que para isso há na sobre- 
dita Matriz e muito menos para nela recolherem todos os paramen- 
tos de que a dita Ordem se acha enriquecida, por êstes se acharem 
dispersos por casas particulares dos irmãos, lugares pouco decentes 
para o seu culto: por cujas causas acima declaradas, pretendem de 
Sua Majestade lhe conceda licença para no distrito desta Vila faze- 
rem de novo sua Capela com o título de São Francisco, administran- 
do nela por seu Comissário um irmão sacerdote do hábito de São Pe- 
dro, como até o presente tem sido, concedendo-lhe mais Sua Majesta- 
de a graça de tomar a dita Capela debaixo de sua real proteção, con- 
cedendo-lhe todos os indultos e privilégios que tem concedido à Mise- 
ricórdia desta Vila, sem que em nada prejudique a Real Fazenda. 
(Copiador — 2)". 

Quase dois anos depois recebe a Ordem a carta do teor seguinte 
(em resposta a uma de 11 de julho de 1756 (46) : 

"Sr. Secrtr. 0 Lourenço Pires Ramalho e mais Srs. Irmãos da Meza 
da Venerável Ordem 3. a secular de São Franc. 0 . 

Com a devida veneração dou resposta a q. de Vmces. recebi vin- 
da na frota q D. 8 foi servido recolher ao porto desta Cid. e feita em 11 
de Julho do anno passado aq. al estimei muito p. la noticia da saúde de 
Vmces q Deos lhe continue e o nosso Pe. São Franc. 0 p. r lhe fazer 
m. 108 servissos p. a da minha desporem como forem servidos q acharão 
sempre pronta p. a lhe dar gosto e p. a tudo o q for do servisso do nos- 
so Pe. São Franc. 0 e de Vmces. delia veyo o dizerme q a frota passada 
não dei p. te do estado em q se achava o requerim. to da Venerável Hor- 
dem q sertam. te senti porem Vmces. devem desculparme porq naquel- 
la ocazião me faltou o tempo p. a ofazer pella brevidade da saida da 
frota e por outros particulares q me embarassarão : mas agora res- 
pondo a Vmces. dando-lhe p. te q antes do terramoto q houve nesta 
Cid. e emtrei no requerim. t0 da Venerável hordem com esperansas de 
bom sucesso cujo requerimento se queimou ou perdeu naquelle Dia 
em q todos cuidamos ser o do Juizo e despois deste fiz seg. d0 requeri- 
mento o qual se achava ja consultado em poder do secretr 0 Diogo de 



(46) Esta carta de 11 de julho não foi registrada no Copiador. 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Mendonça apadrinhado com empenho e com esperansa de ser bem su- 
cedido; porem como o dito Secretr. 0 por hordem de S. Magv foi de- 
posto do seu lugar dentro de 3 horas e degradado p. a fora desta cor- 
te ficou o nosso requerimento e os mais q em seu poder se achavão 
sumidos q em the agora não tem aparessido, tenho feito 3.° requeri- 
mento a S. Mag.' p.' ver se por hum decreto o podemos conseguir com 
mais brevidade q sendo assim hade haver despeza mayor porem com 
a mudansa dos novos secretr. 08 correm os despaxos m.'° de vagar, q. ,c 
a diligencia sobre este particular podem Vmces. estar descansados 
porq hessa fica da minha parte: e não me foi nem he necessário mais 
clarezas p. a o d.° requerimento porq tive a cautela de por todas as 
clarezas q. vmces. me mandarão em publica forma p. a me servir de 
governo no cazo q. ouvesse de um descaminho no d.° requerim. to e no 
q respeita aos Breves de Roma nesses não tenho cuidado por me pa- 
resser q em pr. 0 lugar se deve procurar a graça de S. Mag. e por se fa- 
zer a Capella e despois desta pedirce os Breves de Roma q me paresse 
se comseguirão com mais facilidade e q."° Vmces. queirão sem embg. 0 
do q digo se mandem pedir os Breves com avizo de Vmces. os manda- 
rei pedir; e he serto q eu tenho recevido do Cap. m Franc.° Dias Liai os 
948$082 rs. na forma do meu recibo os quais me entregou por hordem 
de Vmces. p. a o requerim. to q se pretende dos quais se tem despendi- 
do o q Vmces. verão da conta q em clusa lhe remeto entrando nes- 
ta despesa o custo dos compêndios 



• • a Vmces. G. lie D. 8 m. 8 a. s como lhe dez. 0 Lx. a 10 de Mar- 
ço de 1757 — De Vmces. o mais reverente venerador — FrancP AntP 
Roiz Feyo//." 

Deve-se de certo ao terceiro requerimento, a que alude 
Rodrigues Reio, a seguinte Carta Régia, primeiro passo por 
parte do governo em relação à licença pela qual, havia seis 
anos, batiam em vão à porta dos ministros os procuradores da 
Ordem: 

"Dom José, por graça de Deos Rey de Portugal, dos Algarves da- 
quem e dalém mar, Senhor de Guiné, & Faço saber a vos Governador 
e Capp. 1 " General da Capitania das Minas Geraes, que por parte dos 
Irmãos Terceiros da Venerável ordem de S. Francisco de V a Rica se 
me fez a petição, de que com esta se vos remete copia, em que pedem 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



257 



lhes faça mercê conceder licença para poderem erigir no destricto da 
d. a V. a numa Capella com o titulo de S. Francisco administrando nel- 
la por seu comissário hum irmão sacerdote do hab.° de S. F. co toman- 
do a d. a Capella debaixo da minha real proteção e concedendo-lhe to- 
dos os privilégios, que se concederão á Mizericordia da d. a Villa, e sen- 
do visto o seu requerimento, Me pareceo ordenar vos informeis com o 
vosso parecer, ouvindo os off. es da Camara e o Parocho da Matriz. El 
Rey N. Sr. o mandou pellos Concelh/ 08 do seo cons. 0 Ultram. 0 abaixo 
assinados ese passou por duas vias. Pedro José Correa a fez em Lisboa 
a vinte e quatro de Janeiro de mil setecentos, cincoenta, outo. O Se- 
cretário Joaquim Miguel Lopes de Lavre a fez escrever/ 

Franc. 0 X. er Assis Pacheco de Sampayo — Antonio Lopes da Cos- 
ta (DPHAN. Cod. 46 p. 138)". 

A 16 de abril de 1759, em carta ao Capitão Feio, a Mesa 
noticia que a informação pedida por El-Rei não podia ser pres- 
tada no momento e determina "o deixar-se destes requerimen- 
tos". De fato, porém, ao que se conclui de atos ulteriores, ela 
o que faz é dispensar o capitão, porque, quando escrevia, estava 
já escolhido um novo procurador, como logo veremos. A carta 
de 16 de abril rezava assim: 

"Snr. Capp. am Francisco Antonio Roiz Feyjo 

Nesta prezente Frotta que D. s foi Servido Recolher a Salvamento 
a 24 de Janr. 0 no porto do Rio do mesmo do preszente anno recebe- 
mos as cartas de Vm. re prim. a e 2 a via juntamente os compêndios e 
palestras e os dois Libros do Pe. Albriol em que lhe agradecemos m. r " 
o cuidado que teve de se lembrar de nosso Pe. Sam Fran. t0 nas suas 
dependências que a tantos annos vivemos em húa Esperança, porem 
como professamos obediência pobreza e humildade estamos sugeitos 
a tudo e por tudo o que D. 8 nosso S r . for Servido; E o nosso S. mo Pa- 
triarcha Sam Francisco, também recebemos as duas Cartas vindas 
pello o Comcelho a respeito do Nosso p.* r p. a informar o Exmo. Gen.° : 
e como este se acha nas Missões, mal nos pode informar p. a poder hir 
resposta na prezente Frotta. E o S. r Gov. m interino não tem poderes 
para abrir estas Cartas e como as mezas antecedentes desta ven. el or- 
dem tem suplicado a vm. M que vice se podia alcansar a m. ct de S. 
Mag. de por decreto por sima inda que desse de Lubas 400$000rs., mas 
como neste p. ar em todo o sentido temos sido m.'* mal afortunados e es- 



258 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



tamos certos que pello o Comselho nada havemos de com Seguir rezãõ 
porq. esta Ven. el ordem e meza se rezolveo e detriminou o deixarse des- 
tes Requirimentos e só quer que vm. ff satisfaça logo o Cap. mu Antonio 
Per. a da Rocha aubz. te a Manoel Roiz pontes a quantia de 886$062 rs. 
que he a quantia que consta parar liquida na mão de vm. ce e milhor 
o afirma as contas das despezas que tem feito por conta desta mes- 
ma ordem. E se poderá também pagar da despeza que tiver feito com 
os breves se bem os tiver em seu poder, e entregando estes ao mesmo 
Cap. am Antonio Per. a da Rocha ou a sua Aubz. ca p. a que passamos Le- 
tra segura sobre vm. ce p. a logo satisfazer ao d.° Per. a da Rocha aubz. 1 '' 
a Manoel Roiz Pontes. E pello mesmo remetemos o seu recibo q. para- 
va em poder desta ven. el ordem. E desejaremos q. vm. ce promptamente 
satisfaça a dita quantia de 886$062 rs. e logo na forma da mesma Le- 
tra e p. a isso leva procurações bastantes nossas: Em outras que já lhe 
escrevemos no q. só respeita ao dinhr. 0 que nesta ocazião remetemos 
por via de vm. ce pertencente á ttt. ria do defunto Alvaro Jozê Lx. a p. & 
nos fazer mercê emtregar á Meza da Ven. el ordem 3 a da Porta do Ceo 
de Telheyras que são 950$000 liquidos. Ja vão pagos hu p. 100 dos 
Reais Cofres da Nau de Guerra. 

Vila Rica em meza de 16 de abril de 1759 = De 

Vm. 1 * os mais humildes Servos em o Sfir. 

O Secret.° AntP Fran."> Campos (Cop. fl 11)." 

Para substituir o Capitão Feio elege a Mesa o Dr. Feliciano Pita 
de Castro, conforme êste têrmo (Livro II — 29) : 

"Aos dezaSeis Dias do mes de Abril do Anno de mil eSettecentos 
ESincoenta e nove annos, Sendo nesta Matriz de N. Sr. a da Come. 8 "' 
desta v. a nacasa do Noviciado daven. el ordem 3 a que também Serve de 
despacho donde Seachava oR. do Dr. Comissar. 0 e Sr. Irmão Min.° emais 
off. es EDeffinitorio; foi porposto pello osditos que p. a Sepoder Concluir 
aLicença que attantos annos pertende esta ven. el ordem deSua Mag. de 
todos juntos vottarão, Edetriminarão uniformem. 0 q. e se encarregasse 
esta dependência ao M. t0 Rd. 0 Dr. Felleciano Pitta deCastro vigr.° da 
freg. a daborda do Campo por esta ter pessoa indonia na cidade de Lis- 
boa p a comcluir adita dependência deLicença p. a afatura da Capella 
damesma ven.* 1 ordem e com effeito Selhe entregou oRequerimento 
em hú memorial ao Sobredito Sr. Rd.° eSelhe fez ofertta de oitenta 
digo de oito centos mil reis aos quais se obrigarão o Irmão Ministro 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 259 

João deSerqueira e olr. Procurador Manoel Frz da Costa e o Irmão 
Sindico João Soares deCarvalho com aComdição deque não Comclui- 
do odito Rd. 0 Sn. r Selhe não dar Cousa alguma; eAlcanssandoa adita 
Licença promptam. 0 Seçelhe Satisfazer adita q. ta de 800$000 rs. da 
ofertta que Selhefez por alcanssar adita Licença por Senão poder em- 
the opresente tel alcanssado. Epor todo aSim o detriminar» m, Com 
declaração porem que os ditos Ir. Ministro eProcurador eSindico Se- 
obrigarão ao Capp. am Manoel Rois da Costa por este Seobrigar ao Rd.° 
Pe. Dr. Fellecianno Pitta deCastro; eSeobrigarão pellos osbens e Lu- 
cros desta ven. el ordem que fica obrigada atodo otempo q. Selhe em- 
tregar adita Licença amesma ordem Satisfaser promptam. te edeComo 
todos juntos odetriminarão mandarão fazer este termo emquetodos 
aSignarão junto comigo Secret. 0 Antonio Frn. co Campos que este fis 
e aSignei e assinarão o que tudo aSim Sefez pello odito Rd.° Pe. não 
querer obrigação desta ven. el ordem. V. a Rica emes eanno ut supra. 
João de Serqueira, Ministro// Antonio Fran. co Campos, Secret. 0 // Ma- 
nuel Fernandes da Costa, Proc. dor Geral// João Soares de Carvalho, 
Sindico// Dom. 08 Fr. Sim. es Vale, Definidor// André Nunes Pereira, 
Definidor// Manuel Nunes, Definidor// Bernardo de Araujo Franco, 
Definidor//." 

"Cópia de húa carta q a esta ven. vel ordem e mesa escreveo o M. t0 
R. do Pe. Felleciano Pitta de Castro Vig. ro collado da freg. a da Borda 
do Campo em resposta de húa que a Mesa lhe escreveo a respeito da 
licença da nova Capella que esta Ven. Tel Ordem pertende de S. Mag. rtc 
Fedelissima: seu theor e forma he o seg. te Snr. Ir. Menistro e Mais 
offeciaes da mesa da venerável ordem da Penetencia. Aqui Recebi húa 
carta de vm.™ feita em 2 de Março e nella me remete hu memorial 
para ver se por minha via se pode comseguir de S. Mg. de o que nella se 
pede; Primeyramente rendo a vm. W8 profundamente as graças por me 
elegerem por procurador, de húa cousa tanto do serviço e agrado de 
Deos e do nosso Patriarcha Sam Fran.™ motivos tão forçosos que me 
obrigão a fazer os mais exactos deleg.c as para ver se se pode alcans- 
sar o que se pertendem, Porem também he precizo que Vm. W8 passem 
as obrigaçõins necessárias do que me mandão oferecer para a despe- 
sa ao Capp. am M. < " 1 Roiz da Costa pois este he o que a mim se me hade 
obrigar isto pella rezão de todos os annos haver novo governo na ven. 01 
Ordem que m. Us vezes seguem def rentes sistemas; e não estão pello 



260 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



que a Meza passada detriminou e p. a tudo o que for do serviço da 
ven. vel Ordem e de cada hú de vm. cps em particular fico m.° serto e 
prompto. D. 8 G. de a vm. ees Borda do Campo em 10 de Abril de 1759 a. 
De vra. ,í8 A. Ho Reverente servo e vm. dor Felleciano Pitta de Castro. Não 
se continha mais na dita carta que eu Antonio Fran.'° Campos se- 
cretr. 0 aqui fiz copiar bem e fielmente da propia a que me reporto a 
qual se acha em masso no arquivo desta ven. vel Ordem Villa Rica em 
17 de Abril de 1759 a. Antonio Francisco Campos Secret. 0 (PI. 9 do 
Copiador)". 

"Copia de hú Memorial que se entregou ao M.'° R. d0 Snr. Dr. Feli- 
ciano Pitta de Castro, Fidalgo de casa de S. Mg. de Fedelissima E Vig. ri0 
collado na freg. a da Borda do Campo destas Minas p. a o dito Snr. 
com seu préstimo e patroxino Evalimento por sy e anteposta pessoa 
nos Alcansase de S. Mg. de que Deos Goarde A licença para podermos, 
fazer nossa Capella com o tittulo de S. Francisco para esta ven. vel or- 
dem nella poder fazer os seus acttos asim públicos como particulares; 
deligs a em que tem Andado Esta ordem a tantos annos por via de va- 
rias pessoas e athe o presente nada se tem feito, por cujo motivo se re- 
corre a esta via tão excelente seg. do m. taB e varias emformações que fize- 
mos para cujo fim se escreveo ao dito R. d0 Dr. asima nomeado e nos 
respondeo a carta que infrente se acha copiada a qual aceitamos e lhe 
fizemos a oferta de 80035000 para se pagar vinda que fosse a dita licen- 
ça E não querendo o dito R. d0 Dr. fiar desta Ordem a dita quantia 
por obrigação que se lhe quiz pagar pella razão que expõem na mes- 
ma Carta; se obrigarão pellos os bens da ven. Tel ordem aquela quan- 
tia o thenente João de Serqueira e Antonio Francisco Campos, Ma- 
noel Frz. da Costa, João Soares de Carvalho, passando a Manoel Roiz 
da Costa húa obrigaçam para este a passar aquelle R. (1 ° Dr. E o que 
se pedio he o seg. te Copia de memorial que se deo ao Rdo. Dr. Feliciano 
Pitta de Castro Digninissimo Vig.° da freg. a da Borda do Campo: o fa- 
vor que se pede ao m.° Rdo. Snr. Dr. Feliciano Pitta de Castro he que 
S. R. ma por serviço de Deos e do Seráfico Patriarcha Sam Francisco te- 
nha a bondade empinhar todo o seu patroxinio e valimento per sy 
emtreposta pessoa para alcançar de S. Mag."° Fedelissima hum de- 
cretto ou provisão Regia pello o qual possa a ven. vel Ordem 3 a da pe- 
nitencia hereta em Villa Rica do ouro preto Bispado da cidade de Ma- 
riana fazer de novo em a dita Villa sua Capela com titullo de Sam 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



261 



Francisco em que possa fazer todos os seus actos públicos e particula- 
res dentro e fora delia sem empidimento da juridição ordinária nem 
dos Parrochos das Igrejas da dita Villa com aquelles previlegios con- 
cedidos aquellas ordens e Igrejas que asiste debaixo da proteção Real 
para cujo fim deseja muito a dita ordem que S. Magestade por ser- 
viço de Deos seja o seu protetor attendendo a que em a dita villa e 
Bispado não ha comvento algú dos Religiosos seráficos nem de outra 
algúa Religião o que a dita ordem em nada projudica a Rial fazenda 
e que para seu comissário viz. 01 possa Eleger a qualquer Irmão Sacer- 
dote do Habito de Sam Pedro sendo professo e aprovado pello o ordi- 
nário. E.R.M. E não se continha mais no dito memorial que eu Anto- 
nio Francisco Campos secretr. 0 actual aqui fiz copiar de minha letra e 
signal bem e fielm. te e para constar fiz este termo em que me asignei 
Villa Rica aos 17 de Abril de 1759. Antonio Francisco Campos Secret. 0 
(Fl. 10 do Copiador):' 

Três anos derivaram ainda de frustradas esperanças. Como 
os procuradores mais antigos, fracassaram também os prepos- 
tos em Lisboa do ilustre vigário da Borda do Campo. (47). 

Novos advogados dessa causa foram eleitos pela Mesa 
em 25 de abril de 1762, o Padre Antônio de Sousa Pinto e seu 
irmão Frei Francisco de Azurara, residentes em Azurara no 
Minho. O Memorial, entregue a Frei Francisco, estava assim 
redigido: "O que se pretende alcançar de Sua Majestade Fide- 
líssima por via do M. R. Sr. Pe. M. e Definidor Geral Fr. Fran- 
cisco de Azurara é o seguinte = Alcançar licença por decreto 
de S. Maj. de Fidelíssima para que a Ordem Terceira Secular 
de São Francisco, regida por sacerdote presbítero do hábito 
de São Pedro (48), ereta na Matriz de N. S. a da Conceição em 



(47) Por insti-umento de 18 de abril de 1759 foram constituídos procuradores 
da Ordem em Lisboa: Antônio Pereira da Rocha, Manoel Rodrigues Pontes, Miguel 
Fernandes de Afonseca, Francisco Gomes Braga e Antônio da Costa Ribeiro. O 
Memorial remetido a Pita de Castro tem, como vimos, a data de 17 de abril de 1759. 
Essa aproximação de datas leva-me a presumir que esses procuradores tenham sido, 
pelo menos, indicados pelo Vigário da Borda do Campo (Bai-bacena) . 

(48) As expressões "Ordem Terceira Secular", "sacerdote do hábito de São 
Pedro" eram aí exaradas com o fito de sossegar Sua Majestade: não era um con- 
vento de Franciscanos que se pedia. Aos frades estavam trancadas as portas das 
Minas! 



262 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Vila Rica do Ouro Prêto, Minas Gerais, possa fazer sua capela 
nos limites da dita vila, a sua custa, sem que em nada prejudi- 
que ao Real Erário, dignando-se o mesmo Senhor lhes conce- 
der, debaixo de sua real proteção, os indultos e isenções que 
tem concedido às Santas Casas de Misericórdia e os que se tem 
concedido às mesmas Ordens Terceiras e, alcançado que seja, 
terá o prémio de oitocentos mil réis, além de se atender a uma 
diligência e brevidade (sic). Vila Rica, 28 de abril de 1762 — 
O Padre Manuel Pinto Freire, Comissário Visitador" (outras 
assinaturas) Copiador — 26". 

Não foram mais felizes do que os precedentes os dois últi- 
mos procuradores. Em carta de 20 de março de 1766, quatro 
anos decorridos desde o início de seus trabalhos, o Padre An- 
tônio de Sousa Pinto, escusando-se, trazia à Mesa esta desa- 
lentadora notícia: "A VV. CC. dou parte que se não tem con- 
seguido té o tempo presente a licença para a Capela que pre- 
tendem fazer, não por minha culpa; pois a mim só incumbia 
aplicação que me não descuidava de o fazer, e não podia fazer 
diligência por outra parte sem ordem de VV. CC. e nosso Caro 
Irmão Manuel Vieira". E desistia da causa, visto que acres- 
centava: "VV. CC. determinem o que lhes parecer a respeito 
de 800$000, digo, oitocentos e setenta e quatro mil rs., tirando 
dois mil e tantos réis que se gastou na cobrança deles ..." 

Vivia por esse tempo em Lisboa o Dr. Francisco Ângelo 
Leitão que, cerca de 15 anos antes, exercera em Mariana o lugar 
de Juiz de Fora. A êle, que já patrocinava no reino outras cau- 
sas da Ordem, vai ser confiada agora a petição da licença (49). 
Respondendo ao Padre Sousa Pinto, determina a Mesa em 12 
de julho de 1767: "Recebemos a de V. M. em que nos assevera 
mandemos ordem para V. M. fazer entrega da quantia de oito- 



(49) A intervenção do Dr. Francisco Ângelo nos negócios da Ordem trouxe 
mais tarde aborrecimentos à Mesa, como consta do seguinte trecho de certa carta, 
que se mandou para Lisboa em fevereiro de 1777: "Vemos o que Vm. passou com 
a Sra. Dona Josefa Teresa de Quadros, viúva que ficou do Dr. Francisco Ângelo 
Leitão, e o modo com que ela recebeu a carta desta Ordem, porém como a dita Se- 
nhora se apaixonou quando recebeu a carta, e o seu génio é grande poderá ser que 
considerando na justa razão que tem de cumprir com o que esta Ordem lhe expres- 
sava... talvez que a ache já mais moderada..." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



263 



centos e setenta e quatro mil rs. que pára na mão de V. M. por 
ordem de nossos antepassados e como é preciso satisfazermos 
a esta rogativa, propondo-se em Mesa desta Venerável Ordem 
se assentou que V. M. entregue a dita quantia ao Dr. Fran- 
cisco Ângelo Leitão, morador em Lisboa, na rua da Barroca..." 

Falhando por sua vez o Dr. Leitão, deliberou a Ordem 
apelar para o Ouvidor da Comarca e o fêz, requerendo nestes 
têrmos: "Senhor Doutor Ouvidor Geral e Corregedor// Diz 
por seu Procurador Geral a Venerável Ordem Terceira de São 
Francisco desta Vila, ereta na Igreja Matriz de Nossa Senhora 
da Conceição da mesma Vila, que ela suplicante, para melhor 
exercitar os seus exercícios espirituais tão recomendados na 
sua Santa Regra, querem edificar uma Ermida nos Subúrbios 
desta dita Vila, e para assim o fazerem, requerem a vossa 
mercê que, atendendo a estarem em Igreja que não é sua, e 
nela não poderem cumprir com o seu instituto, lhe conceda 
licença para nos subúrbios desta dita Vila, e no caminho que 
vai para a Capela do Senhor dos Perdões, poderem fazer uma 
Ermida, pela qual, e do bem que se segue a todos os Irmãos, 
ainda a todo o mundo, receberá vossa mercê o pago do mesmo 
Santo Patriarca //Pede a vossa mercê em atenção ao referido 
conceder-lhe a dita licença na forma requerida// E receberá 
mercê//" À qual petição deu o Ouvidor êste despacho: "In- 
formem os oficiais da Câmara. Vila Rica, 13 de julho de 1767 
//Costa Fonseca". De sua parte mandou a Câmara que seu 
procurador informasse. Datou e assinou: "Vila Rica em Câ- 
mara e de julho 18 de 1767// Figueiredo/ 7 Castro// Vascon- 
celos// Coelho// Costa Pereira."// O procurador da Câ- 
mara deu a seguinte informação: "Senhores da Câmara// 
A licença que a Venerável Ordem Terceira de São 
Francisco desta Vila pretende (por seu procurador geral) para 
fazer a sua Ermida no caminho que vai para o Senhor dos Per- 
dões, subúrbios desta vila, em nada prejudica, nem poderá pre- 
judicar a Real Fazenda, e menos aos bens dêste Concelho e 
bem público, mas se seguirá no serviço de Deus para com os 
Irmãos da mesma Ordem e a todos os mais fiéis utilidade gran- 
de para salvação de suas almas, e por isso não duvido no reque- 
rimento; vossas mercês porém informarão ao Senhor Doutor 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Ouvidor geral e Corregedor o que mais justo lhes parecer. Vila 
Rica, a 21 de julho de 1767// O Procurador da Câmara — 
Veríssimo da Costa Pereira/ 7 ." 

À vista da informação de seu procurador, dá a Câmara ao 
Ouvidor a seguinte resposta: "Senhor Doutor Ouvidor geral 
e Corregedor da Comarca — A licença que pretendem de vossa 
mercê os Irmãos da Venerável Ordem Terceira de São Fran- 
cisco desta Vila para edificarem uma Ermida que expressam 
no requerimento junto em nada pode prejudicar ao Real Ser- 
viço de Sua Majestade, Sua Real Fazenda, bem comum e me- 
nos aos bens deste Concelho, mas antes servirá de grande utili- 
dade no serviço de Deus, tanto a mesma Ordem, como aos mais 
fiéis. É o que podemos informar a vossa mercê que mandará o 
que fôr servido. Vila Rica em Câmara a 22 de julho de mil sete- 
centos e sessenta e sete// Tomás Gomes de Figueiredo// 
Jerônimo de Castro e Sousa// Antônio José Coelho de Oli- 
veira// Veríssimo da Costa//." 

Eis, finalmente, o despacho do Ouvidor: 

"Concedo aos Suplicantes a licença pedida, visto ser a Ermida que 
pretendem erigir para honra e glória de Deus e para mais aumento 
de zêlo da sua Ordem, o que me consta por informação da Câmara 
em que foi ouvida, e serem obrigados a pedir a confirmação dentro 
em dois anos pelo Tribunal da Mesa da Consciência e Ordens por se- 
rem as terras onde querem erigir a Ermida do Padroado da Ordem 
de Nosso Senhor Jesus Cristo na forma dos Breves dos Santos Padres 
Gregório VIII e Clemente VII. Vila Rica, 23 de julho de 1767//Cosía 
Fonseca//." 

Conquanto provisória e condicionada com a cláusula de 
ser pedida para eia, dentro de prazo fixado, a confirmação 
régia, essa licença, outorgada pelo Ouvidor, é surpreendente, 
sobretudo quando, sem a mínima observação por parte do 
cioso Tribunal da Mesa da Consciência e Ordens, se vê expe- 
dida algum tempo além por êste mesmo Tribunal a confirma- 
ção exigida. 

É sabido que havia divergências, conflitos de jurisdição, 
ciúmes, (50) entre a Mesa da Consciência e Ordens e o Con- 

(50) Cf. Instituições de Igrejas do autor, pág. 17. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OUIÍO PItÊTO 265 

selho Ultramarino. Ora, êste, invadindo a jurisdição daquele 
Tribunal, intrometera-se numa causa que era privativa da 
Ordem de Cristo, de vez que se tratava da ereção: primeiro, 
de uma igreja, e segundo, em terras de seu padroado. 
Tal invasão evidencia-se na seguinte Provisão: 

"Dom José por graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, da- 
quém e dalém mar, em África Senhor de Guiné, etc. Faço saber a vós. 
Governador e Capitão-General da Capitania das Minas Gerais, que, 
por parte dos oficiais da Mesa da Ordem Terceira de São Francisco, 
sita na Igreja Matriz de N. Senhora da Conceição dessa Vila. se me 
fêz a petição de que com esta se vos remete cópia, em que pedem lhes 
faça mercê conceder licença para edificarem capela separada em que 
possam exercer as suas funções da mesma Ordem com maior aumen 
to do culto divino e benefício espiritual dos fiéis, e sendo visto o seu 
requerimento em que foi ouvido o Procurador de minha Fazenda, Me 
pareceu ordenar-vos informeis com o vosso parecer, procedendo para 
isso a tôdas as averiguações e diligências que julgardes necessárias. 
El Rei N. Senhor o mandou pelos Conselheiros do seu Conselho Ultra- 
marino, abaixo assinados, e se passou por duas vias. Pedro José Cor- 
reia a fêz em Lisboa a doze de agosto de mil setecentos e sessenta e 
sete. Pagou de feitio desta cem réis. O Secretário Joaquim Miguel Lo- 
pes de Lavre a fêz escrever//Dio(70 Rangel de Almeida Castelbranco 
//Francisco Marcelino de Sousa/ /For despacho do Concelho Ultrama- 
rino de 13 de julho de 1767." 

Parece provável, pois, que a licença do Ouvidor somente 
foi concedida em virtude de alguma sugestão da Mesa da 
Consciência, cujos direitos — sublinhe-se — vêm ressalvados 
no texto da própria licença. 

Demais, a Ordem Terceira andava já prevenida com o Con- 
selho Ultramarino, como se viu em carta, há pouco lida neste 
parágrafo, onde a Mesa ponderava: "neste particular em todo 
o sentido temos sido muito mal afortunados e estamos certos 
que pelo Conselho nada havemos de conseguir..." 

De fato pela Mesa da Consciência e Ordens é que se expe- 
diu, finalmente, a confirmação régia, em cujo texto aparece, 
outra vez, a cláusula que acautela a jurisdição da Ordem de 
Cristo, ou, o que vale o mesmo, da Mesa da Consciência e Or- 



266 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



dens, e que raro se frisa tão expressamente em documentos 
dêste género. 

É o seguinte o texto da confirmação: 

"Dom Joze por graça de Deos Rey de Portugal, edos Algarves, da- 
quem, edaLem mar em Africa Senhor de Guiné etc. Como Gover- 
nador; eperpetuo Admenistrador, quesou do Mestrado Cavallaria, 
eordem de Nosso Senhor Jezus christo. Faço Saber aosque esta minha 
Provizão virem, que atendendo amereprezentarem os Irmãos da Or- 
dem Terseira de São Francisco de Villa Rica deNossa Senhora doPil- 
lar do Ouro preto, pertenderem edeficar huma Ermida nos subúrbios 
damesma Villa, para melhor exercitarem os seus officios Espirituaes 
por estarem em Igreja, que não eraSua, na qual não podião Cumprir 
com oseu Instituto; eque requerendo ao Ouvidor dacomarca, este ou- 
vindo aCamara que não duvidou, lhes concedera Licença, para adi- 
ta Edeficação, ordenandolhes que dentro dedois annos, mepedissem 
aconfirmação delia, pello meu Tribunal da Meza daconciencia, eor- 
dens, por Seremda ordem dechristo asterras deUltramar, naforma dos 
BrevesAppostolicos de Gregorio Outavo, edeclemente Sétimo, pedin- 
dome os mesmos Suplicantes fosse Servido confirmar amesmaLicen- 
ça: O que Visto, eresposta do Dezembargador Procuradorgeral das Or- 
dens: Hey por bem fazer mercê aos Suplicantes delhes confirmar 
arefferida Licença, que oOuvidor dacomarca deVilla Rica lhes con- 
cedeu para edeficarem huma Ermida nos subúrbios damesma Villa, 
com adevida Sugeição ao Parrocho, esem offença do Direito da So- 
bredita ordem: eEsta Secumpra, eguarde Como nella Secontem, Sen- 
do passada pella chancellaria da Ordem: El Rey Nosso Senhor aman- 
dou pellos Deputados dodito Tribunal Gaspar deSaldanha de Albu- 
querque, Prellado da Santa Igreja Patriarchal, eFrancisco Antonio 
Marques Geraldes de Andrade ambos doSeu consselho. Jozé doNasci- 
mento Pereira afes emLisboa aos Sette de Fevereiro demil Sette cen- 
tos Settenta ehum annos Pagou desta quatro centos reis, ede asigna- 
tura outo centos reis = Francisco Antonio Marques Giraldes deAn- 
drade = Gaspar deSaldanha deAlbuquerque = Por dezpacho da Mesa 
daconciencia eordens devinte eseis de Janeiro de mil Sette Centos Set- 
tenta, ehum — Regiztada af olhas cento edes = Antonio Joze daFon- 
seca Lemos = Pagou quinhentos, equarenta e aos officiaes quinhen- 
tos, edes reis. Lisboa vinte, eseis de Fevereiro de mil Sette Centos Set- 
tenta ehum." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



2fi7 



A Provisão que acabamos de ler foi expedida à vista da seguinte 
informação : 

"Senhor — Hé V. Maj. de servido ordenar-me pela Provisão de doze 
de agosto de mil setecentos e sessenta e sete que informe com o meu 
parecer o requerimento dos oficiais da Mesa da Ordem Terceira de 
São Francisco, sita na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição 
de Antônio Dias, desta Vila, em que pedem licença para edificarem 
capela separada em que possam exercer as funções da mesma Ordem. 
Averiguando esta matéria achei que o sítio em que a mesma Ordem 
já tem principiado a tal capela fôra de umas casas de João de Ser- 
queira devedor à Real Fazenda as quais lhe foram sequestradas, e 
com faculdade do Provedor foram pela dita Ordem rematadas, e o 
seu produto se recolheu no cofre da Real Fazenda, como consta da 
certidão junta. Eu me persuado merecedora a dita Ordem Terceira 
da graça que pretende. V. Maj.' ] " mandará o que fôr mais do seu Real 
serviço. A muito Alta e Poderosa Pessoa de V. Maj. de Guarde Deus 
muitos anos. Vila Rica, trinta de agosto de mil setecentos e setenta e 
um//Conde de Valadares/ /José Luís Saião//" 

Estava finalmente liquidado o caso da licença, essa ener- 
vante questão com que a burocracia da época, ou, melhor, o 
desprêzo das coisas da colónia, provou por 20 anos a paciência 
de um milhar de brasileiros. 

Menos desatenciosa não era a justiça dos governadores. 
Como o atesta o documento que acabo de transcrever, um sim- 
ples pedido de informação jazeu por mais de quatro anos, total- 
mente esquecido, na secretaria do govêrno de Minas. 

Estava liquidada a causa da licença. O interessante, porém, 
interessante e perfeitamente estranhável, é que a Ordem, que 
contara os anos esperando resignadamente a licença mil vêzes 
impetrada, de um momento para o outro despreza essa licença 
e, sem ela, inicia abertamente a construção de sua igreja. De 
certo, a esta altura de sua história, a Ordem, com um número 
de irmãos professos superior a mil, angariados todos na melhor 
sociedade, e por isto mesmo em lisonjeira situação económica, 
estaria gozando de excepcional prestígio e se ampararia em 
alguma poderosa influência contra os melindres ofendidos do 
padroado e do poder absoluto. 



268 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



O certo é que a partir de 1765, dois anos antes que se lhe 
expedisse a licença do Ouvidor, já se trabalhava na construção, 
como iremos ver daqui por diante. 

2° — LOCAL DA CONSTRUÇÃO 

Foi a 21 de julho de 1765 que se fixou, por votação unânime 
do Definitório, o local em que havia de erigir-se a igreja da 
Ordem (Têrmos, II — 120). Retificou-se tal votação a 15 de 
dezembro do mesmo ano. Darei na íntegra, linhas abaixo, o 
termo desta data. 

O sítio escolhido margeava o caminho que levava ao Se- 
nhor Bom Jesus dos Perdões. Pertencera ao Sargento-Mor 
João de Sequeira, ex-Ministro da Ordem, falecido havia pouco. 
De Frutuoso Vaz de Sequeira, testamenteiro do Sargento-Mor, 
o adquiriu a Ordem pela quantia de 450$000, lavrando-se a 
competente escritura entre 15 de dezembro de 1765, data em 
que se reuniu o Definitório para assentar essa aquisição, e I o de 
fevereiro do ano seguinte, dia em que o preço estipulado e pago 
se recolheu à Tesouraria da Fazenda Real. (51). 

O têrmo de 15 de dezembro, a que acima me referi, não se 
ocupa exclusivamente da aquisição das terras de João de Se- 



(51) Falecendo João de Sequeira responsável por dívidas alheias, foram se 
qiiestrados os seus bens. É o que consta da seguinte certidão e do têrmo que trans- 
crevo no texto: "Aos Senhores que a presente certidão virem Constantino da Cost-i 
Leite contador da Junta da Real Fazenda nesta Capitannia de Minas Geraes, que 
sérvio interinamente de Escrivão do expediente da mesma// Certefico que sendo o 
sargento mor João de Siqueira morador, que foi nesta Vila, Senhor e possuidor do 
humas Casas com seo Terreno, e lougradouros pertencentes ás mesmas, citas nos 
subúrbios desta Vila por seo falecimento, e ser obrigado a Real Fazenda, como fia- 
dor do preço de vários contratos e Donativos de officios de Justiça se fes sequestro 
por parte da Real Fazenda nas referidas Cazas e ficando por seo Testamenteiro 
Furtuoso Vaz de Siqueira, com licença do Juizo da Provedoria, fez venda a Ordem 
Terceira de São Francisco para no mesmo Terreno edificarem a sua Capella com 
cem mil reis sobre o preço da sua avaliação, por cujo respeito se passou mandado 
de levantamento do sequestro, que nas mesmas se lhe havia feito, e satisfes o men- 
mo Testamenteiro a dita Real Fazenda quatro centos e sincoenta mil reis preço da 
referida venda que se carregarão ao Tesoureiro da mesma Feliciano José da Cama- 
ra no Livro de sua receita em o primeiro de Fevereiro de mil sete centos e secenta 
e seis. Passa o referido na verdade, de que paço esta por ordem vocal do Illustris- 
simo e Excellentissimo Senhor Conde de Valladares Governador e Capitão Gene- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



269 



queira; trata, outrossim, do desatêrro dessas terras, da cons- 
trução de muros ou paredões que arrimem o terrapleno, e da 
compra de um terreno anexo, necessário à obra projetada. 

O Termo aludido reza assim: 

"Aos quinze dias do mês de Dezembro de mil setecentos e sessen- 
ta e cinco nesta Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Prêto, 
na igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição da dita Vila, no con- 
sistório da Venerável Ordem Terceira de São Francisco e sendo aí es- 
tando presentes o nosso caríssimo irmão Vice-Comissário, o Reveren- 
do Padre José Valente de Vasconcelos, o irmão Ministro Manuel Viei- 
ra, com todos os poderes do Ministro atual o Sargento-Mor Tomé Al- 
ves Guimarães e mais irmãos atuais e Definitório Geral, na presen- 
ça dos quais, depois de lido o Cap. 9.° dos Estatutos foi dito pelo dito 
Ministro que, para a nova Capela que esta venerável Ordem há de 
lazer, se precisava muito de se comprarem as casas que foram do de- 
funto Sargento-Mor João de Sequeira, sitas no caminho que vai para 
o Senhor Bom Jesus dos Perdões por carecer muito daquele território 
para melhor área da mesma capela, inda que com efeito haja de ter 
verdadeiro êxito a compra das casas que foram do defunto Caetano 
Alves Rodrigues por ser certo que com estas somente se não poderá 
acomodar tudo quanto fôr decente à mesma capela e território para 
ela necessário e maiormente quando para melhor vista se carece do 
dito terreno, e que vendo todos os irmãos circunstantes, bem ponde- 
radas as circunstâncias que o dito Ministro expunha, maiormente so- 
bre o preço de quatrocentos e cinquenta mil réis que tanto quer o tes- 
tamenteiro do dito defunto Sequeira pelas ditas casas e chãos, hou- 
vesse cada um dos irmãos que se achavam presentes dar o seu voto 
por escrutínio de favas brancas e pretas, de sorte que o que quisesse 
que se efetuasse a dita compra fôsse o seu voto de fava preta e o que 
lhe parecesse não ser conveniente fôsse fava branca: o que assim pro- 



ral desta Capitania de Minas Geraes. Vila Rica a vinte e oito de Agosto de mil 
sete centos e setenta e hum anos. Constantino da Costa Leite que a fis escrever e 
asinei// Constantino da Costa Leite II (DPHAN — Cod. 46 — 173). 

João de Sequeira, natural de Santa Eulália de Redemoinhos, concelho de Ar- 
cos de Val de Vez, comarca de Viana, era filho de Bento Vaz e de Maria de Se- 
queira. Frutuoso, seu testamenteiro, era seu irmão. João de Sequeira faleceu em 
1764. 



270 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



posto indo o vaso à cabeceira da mesa nêle foram lançados pelos ditos 
irmãos os seus votos, os quais, sendo lançados em uma fôlha de pa- 
pel, foram achados trinta e cinco favas pretas de que se compunha o 
dito Definitório, e outros tantos irmãos, assentado todos uniformen- 
te não só ser precisa a útil a compra das casas e território para o que 
se pretende, mas também ser o preço muito conveniente à mesma Or- 
dem, visto o dito testamenteiro não querer dar a dita propriedade e 
território a ela pertencente por menos preço: e sendo assim concluí- 
do o acima determinado foi dito pelo Ministro que era justo que tra- 
tada a escritura da dita compra com as mais clarezas necessárias res- 
peito ao sequestro feito pela Fazenda Real nas ditas casas que entre 
o irmão Procurador desta venerável Ordem e o dito testamenteiro se 
concluíra que era justo que depois de assim celebrada a concluída a 
dita compra se fizessem logo os paredões que convenientes fossem 
para a área e território da dita obra, convocando-se para esta oficiais 
de pedreiro inteligentes que houvessem de dizer o que justo lhes pa- 
recesse para segurança da obra que se pretende fazer e que feitas as 
condições necessárias na presença dos ditos oficiais de pedreiro e dêle 
Ministro com quem mais lhe parecesse se houvessem de arrematar a 
pessoa que conforme as condições os houvessem de fazer; o que sen- 
do ouvido pela dita Mesa a dita proposição, foi o vaso à cabeceira da 
Mesa e na forma da primeira disseram se praticasse nesta segunda, 
o que com efeito praticando-se assim, depois de cada um lançar o seu 
voto, foram êstes lançados em uma fôlha de papel onde se acharam 
os mesmos trinta e cinco votos pretos, decidindo-se desta forma a 
compra das ditas casas e território de que era possuidor o dito defun- 
to, como também o fazerem-se os paredões que necessários forem na 
forma das condições que para êles se fizessem, e de como assim o dis- 
seram pelos ditos votos, mandou êle dito Ministro por execução dêles 
fazer êste têrmo que todos assinaram e que sendo necessário para me- 
lhor validade dêle e de ser irrevogável o determinado assim, antepu- 
nham quanto autoridade lhe era confirmada pelo nosso Reverendís- 
simo Padre Geral pelos nossos Estatutos e declarada com especialida- 
de sôbre o caso particular no cap. 9.° dos mesmos, e eu João Rodri- 
gues Martins, Secretário que o escrevi e assinei. José Valente de Vas- 
concelos, Vice-Comissário// Manuel Vieira, Ministro// João Rodrigues 
de Sousa, ex-Vice-Ministro// João Rodrigues Martins, Secretário// 
João de Amorim Pereira, ex-Procurador// Antônio da Silva Braga, 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



271 



Síndico// Cosme Damião Vieira de Sousa, Definidor// Manuel Vieira 
Lisboa, Definidor// João Rodrigues , Definidor// Francisco 

Carvalho Fortuna, Definidor// Francisco Correia de Melo e Albuquer- 
que, Definidor// José Ribeiro de Melo, Definidor// Eugênio de Morais 
Rêgo, Definidor// Manuel , ex-Procurador// Antônio 

de Sousa Mesquita, ex-Vice-Ministro// Antônio Francisco de Araújo, 
ex-Secretário// José Pereira da Fonseca, ex-Procurador Geral// Ber- 
nardo Gonçalves Veiga, ex-Procurador// Bernardo de Araújo Franco, 
ex-Procurador// Domingos Francisco Simões Vale, ex-Síndico// An- 
dré Nunes Ferreira, ex-Síndico// Pedro Gonçalves Lamas, ex-Síndico//' 
Coelho da Silva, ex-Definidor// Pedro Fernandes da 
Silva, ex-Definidor// José Francisco , ex-Definidor// Ma- 

nuel Nunes, ex-Definidor// João da Cunha Coutinho, ex-Definidor// 
Antônio Teixeira Chaves, ex-Definidor// Pedro Aires da Costa, ex-De- 
finidor// Inácio Pinto Lima, ex-Definidor// José Vieira , 
ex-Definidor// Francisco da Costa Cardoso, ex-Definidor// Manuel da 
Costa Novais, ex-Definidor// Manuel do Couto, ex-Definidor// Matias 
Gonçalves Lima, Vigário// (Fls. 130 v. do livro de têrmos)." 

3.° — TERRAPLENAGEM 

De posse do terreno que escolhera e adquirira para assento 
de sua igreja, entregou-se logo a Ordem aos preparativos ime- 
diatos da construção — sonho que acariciava há longo tempo 
e que ia enfim realizar-se. 

Já em maio de 1766, no local se trabalhava com grande 
atividade: demolira-se a residência do falecido João de Se- 
queira; faziam-se desaterros, erguiam-se muros de arrimos e 
construíam-se acomodações provisórias para o pessoal do tra- 
balho e depósito do material. 

É o que afirma o têrmo que vamos ler: 

"Têrmo em que se determinou que o nosso C. Irmão Síndico An- 
tônio da Silva Braga assista com todo o necessário de comer para os 
escravos e ainda os feitores brancos que hão de continuar no desatêr- 
ro que esta Venerável Mesa ordenou se fizesse e juntamente que ao 
N. C. Irmão José Francisco entregará vinte e cinco oitavas de ouro 
de desfazer as casas que se compraram para a nova Capela e fazer 
um rancho com o mesmo massame como se lhe determinar, como tam- 



272 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



bém que o N. C. Irmão João Ferreira Braga possa ajustar um homem 
que administre o mesmo desatêrro e o mesmo comer dos brancos e 
pretos e assim mais que assistirá o dito Irmão Síndico com meia oi- 
tava por cada um mês de jornal ao prêto José Cabo- Verde que há de 
servir de cozinheiro em todo o tempo que durar o mesmo desatêrro.'* 
"Aos vinte e cinco dias do mês de maio de mil e setecentos e ses- 
senta e seis anos nesta Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro 
Prêto, na matriz de Nossa Senhora da Conceição da mesma vila e no 
consistório desta Venerável Ordem; aí sendo presentes o N.C. Irmão 
Rdo. Pe. Vice-Comissário José Valente de Vasconcelos e o N.C. Irmão 
Manuel Vieira que faz vêzes de Ministro como procurador do atual 
o Sargento-Mor Tomé Alves Guimarães e estando completo o número 
dos vogais da Mesa abaixo assinados, pelo nosso Caríssimo Irmão ex- 
Procurador Geral João de Amorim Pereira, foi dito e o requerido que, 
como se havia dado princípio ao desatêrro para fundação da Capela 
desta Venerável Ordem se fazia preciso dar a providência necessária 
a respeito da comida precisa e necessária para tôda e qualquer pes- 
soa ou pessoas que por sua devoção e moto-proprio quisesse trabalhar 
no dito desatêrro, como também fazer-se eleição em um oficial de car- 
pinteiro para êste levantar outra casa de pau-a-pique com o massa- 
me e madeiramento daquela que se havia deitado abaixo, a qual se 
fazia muito precisa e necessária para se guardar os carros e ferramen- 
tas que haviam de laborar no mesmo desatêrro, e finalmente eleger 
pessoa capaz que administre a mesma laboriação e pessoas dela com 
disposição suficiente e quem cozinhasse a comida para os mesmos: 
e sendo visto e atendido o seu requerimento, logo correndo o vaso foi 
em pluralidade dos votos determinado que o nosso Caríssimo Irmão 
Síndico Antônio da Silva Braga assistiria com todo o preciso e neces- 
sário de comer para os escravos e pessoas livres e inda feitores bran- 
cos que hão de continuar no dito desatêrro e que ao nosso Caríssimo 
irmão José Francisco entregará o mesmo Síndico vinte e cinco oita- 
vas de ouro de desfazer as casas velhas que se compraram para a no^i 
Capela, e fazer um rancho com o mesmo massame conforme se lhe 
determinar, e que o nosso Caríssimo irmão João Ferreira da Silva 
Braga possa ajustar um homem que administre o mesmo desatêrro e 
o mesmo comer de brancos e pretos, e que finalmente assistirá o dito 
nosso Caríssimo irmão Síndico com uma oitava e meia por cada um 
mês de jornal ao prêto José Caboverde, que há de servir de cozinhei- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



273 



ro em todo o tempo que durar o dito desatêrro e por firmeza de tudo 
o referido mandaram lavrar êste têrmo que todos assinaram com êle 
dito Rdo. Padre Vice-Comissário José Valente de Vasconcelos e Minis- 
tro Manuel Vieira, Procurador Geral e Síndico, e eu João Rodrigues 
Martins, Secretário atual da mesma Venerável Ordem que o escrevi 
e assinei. José Valente de Vasconcelos, V. Comissário// Manuel Vieira, 
Ministro// Antônio de Sousa Mesquita, ex-Vice-Ministro// 7oão Ro- 
drigues Martins, Secretário/ João de Amorim Pereira, Procurador 
Geral// Antônio da Silva Braga, Síndico// Francisco Carneiro Fortu- 
na, Definidor/ Pedro Aires da Costa, ex-Definidor// José Ribeiro de 
Melo, Definidor// Bernardo Gonçalves Veiga, ex-Definidor// Manuel 
Nunes, ex-Definidor// Pedro Gonçalves Lamas, ex-Síndico// Matias 
Gonçalves Lima, vigário (Têrmos — 135 v.)." 

Pela conta que vamos ler, ver-se-á melhor ainda a ativi- 
dade com que se trabalhou no desatêrro e na terraplenagem 
do local destinado à futura igreja. 

Ei-la, a interessante conta, que se lê a fls. 78 do Livro 1° 
de Rec. e Desp., nos lançamentos relativos ao ano de 1766: 



"Despeza no des aterro, e obras dos paredões e rua nova 

de Sam Francisco a Soma 450$600 

P. 188 alqueires de farinha que se comprarão para a gen- 
te que nelle andou trabalhando 89$250 

P. 62 e 1 2 alqueires de feijão — 26/8 as e 1 v 31$237 

P. 62 @ e 16 L. ils de toucinho — 78 — 1 2—3 94$312 

P. 1 Bruaca e 15 pratos de Sal — 8 — 1 2 — 2 9$675 

Pelo que se gastou de carne, entrecostos e mais miudezas. 13$087 

Pelo que segastou de laranjas, bananas e outras miudezas 24$112 

P. 6 alqueires de arroz 5§400 

P. 4 barris e 3 frascos de melado 5$175 

Pelo que se dispendeo em Cachaça para os Negros em todo 

o tempo 47S925 

P. 231 Queijos que secomprarão para os of/ s e mais gente 

branca 21$525 

P. 15 cavallos de lenha que secomprarão 4S500 

P. 1 barril de azeite de mamono 1$500 

Pelo que se despendeo com Joze Francisco da S. a de fazer 

uma caixa para a ferramenta e desfazer a caza velha . . 30S00C 



274 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



P. Madeira para as cazas da fabrica do desaterro 3$900 

P. Ferragens para a dita Caza a M. el Francisco 1$80Q 

P. 107 dúzias de bombas para chamar a gente 40$125 

P. 37 carros de pedra para o Cunhal do defunto Caet. 0 Al- 
ves a M. cl da Rocha Montr. 0 ll$10O 

Pelo que sepagou a Henrique Gomes deBrito e João da Ro- 
cha de fazer o d.° Cunhal 12$750 

P. 4 e 1/2 meses de jornal ao preto que cozinhou no desa- 
terro a 1 oitava e 1/4 por mes 8$100 

Pelo q. dispendeo com Manoel da Fonseca pedr. 0 18$000 

Pelo q. despendeo com Manoel da Rocha Montr. 0 27$900 

Pelo q. dispendeo com Domingos Alves da Graça 7$800 

Pelo q. dispendeo com Antonio Joze da Costa • • 33$600 

Pelo q. dispendeo com Antonio Lopes Peixoto 5$100 

Pelo q. dispendeo com Francisco Rodrigues Lages 9$000 

Pelo q. dispendeo com Joaq. m Giz. de Figueiredo 6$000 

Pelo q. dispendeo com João da Rocha • • 4$500 

Pelo q. dispendeo com Francisco Esteves 2$400 

Pelo q. dispendeo em Madeira a Manoel de Almeida 23$100 

Fl. 82 — Pr. dr.° despendido em Toucinho Farinha e Fei- 
jão dos Negros que andarão no Desatêrro 5$886 

Dispendido com o Ir. Andador da Assistência q. fes no Desa- 
terro 31$200 

Despendido com.° S.M. João Lopes Veloso da S. a na mu- 
dança de hua parede do desaterro 12$000 

Despendido com o Ir. M. el da Rocha da Factura do Paredão 

e Calçada da rua de S. Francisco em 2 pagamentos . . 270$000 

4.° — PAREDÕES 

A — Muro do Coronel Horta 



Confinava com o adro de São Francisco a residência do 
Coronel José Caetano Rodrigues de Horta. Devia ser uma 
grande casa (52), atento o destaque social do proprietário — 

(52) Êsse solar, que pertencia ultimamente à família Bernhauss de Lima, ja 
não existe. Em seu lugar construiu-se um prédio de feitio moderno, anexo à antiga 

cadeia, hoje Museu da Inconfidência, a que pertence. Suas terras desciam até onde 
se alarga hoje a Praça de São Francisco e se alongavam, colina abaixo, rumo da 
Escola de Farmácia, até a praia. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



275 



"professo na Ordem de Cristo, fidalgo da Casa de Sua Majes- 
tade, Coronel do 2 o Regimento do Termo da cidade de Maria- 
na, Guarda-Mor das terras e águas minerais, etc." Afidalga- 
va-a um grande quintal todo murado, do qual pequena parte 
cedera o Coronel à Ordem Terceira, a fim de que ela pudesse 
alargar a área destinada à sua igreja e ao respectivo adro. Essa 
doação a fêz Rodrigues Horta, "por ser, disse êle, em benefício 
e honra de Deus e de São Francisco". 

Acontece que essa propriedade, além do desfalque volun- 
tário que sofrera a favor da futura igreja, fôra sèriamente dani- 
ficada pelos desaterros que, em suas vizinhanças, realizara a 
Ordem. 

Em 1767 o Coronel faz justas reclamações a que os Tercei- 
ros procuram atender, como o afirma o termo que segue: 

"Têrmo por donde se determinou pôr-se em praça as condições 
com que se deve fazer o paredão para reparo do quintal das casas do 
Capitão José Caetano Rodrigues de Horta, vista a representação, que 
o mesmo fêz por carta a esta Ordem, e que se lhe dê a resposta. 

Aos treze dias do mês de Setembro de mil setecentos e sessenta e 
sete anos, nesta Matriz de N. Sfa. da Conceição desta Vila, em o Con- 
sistório desta Venerável Ordem Terceira de São Francisco, estando 
presentes em Mesa o Rdo. Comissário, Irmão Ministro e mais Defini- 
tório e na presença de todos se abriu uma carta do Cap. m José Cae- 
tano Rodrigues de Horta em a qual pedia lhe mandassem reedificar 
o seu muro do quintal, que por respeito do desatêrro da Capela da Or- 
dem se lhe tinha arruinado, de sorte que tinha tudo devassado, o que 
visto e ouvido por tôda a Mesa, atendendo a razão que lhe assistia, 
uniformemente determinaram que se lhe mandasse reedificar o dito 
muro, para o que se mandasse fazer um papel de condições para que 

melhor o entendesse, e se pusesse em praça para, pelas mesmas con- 
dições, se rematar a quem por menos o fizesse, tudo a conta da mes- 
ma Ordem e, de como assim o disseram e determinaram, fiz êste têr- 
mo em que assinou o Irmão Ministro e mais Definitório e eu José 
Vieira Ryo, Secretário que o escrevi e assinei. José Valente de Vascon- 
celos, Comissário Visitador// Domingos da Rocha Ferreira, Ministro// 
José Vieira Rio, Secretário// Manuel Gonçalves de Oliveira, Vice-Mi- 
nistro// //," {Termos — 142 v.). 



27 ti 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Tal muro, não o confundam com os paredões que contor- 
nam o adro de São Francisco. Êstes serão construídos mais 
tarde; aquêle, como se viu (e veremos ainda de documentos 
postos à frente), era propriamente do Coronel José Caetano 
Rodrigues de Horta. À construção deste último, arrematada 
pelo mestre-pedreiro Manuel da Rocha Monteiro, se referem 
os três lançamentos seguintes, relativos aos anos de 1767 - 68 
e 85, respectivamente: 

"Despendido com o Ir. M.' 1 da Rocha da fatura do Paredão e Cal- 
çada da Rua de São Francisco em dous pagam. — 270$000 (Livro 
de Rec. de Desp. fl. 82)." 

P.' dinhr.° a M." 1 da Rocha Montr. 0 por conta da arrematação do 
Paredão 118$380 (Liv. cit. fl. 87 verso):' 

Despendeo (o Sindico) com Manoel da Rocha Monteiro, m." pe- 
dreyro. das obras que fez pelo seu Off.° na Capella da Ordem em pa- 
redoens á conta do q. se lhe deve — quarenta e seis oitavas e doze 
vinténs — 46-1/4-4 (55$650) (Liv. cit. fl. 230)." 

Tal paredão, no entanto, garantiu pouco tempo a residência do 
Coronel Horta. Em maio de 1792 viu-se êle compelido a uma "ação de 
notificação" contra os Terceiros, dos quais, haveria 10 anos. vinha 
reclamando sem resultado uma providência que lhe amparasse a pro- 
priedade, atento que, tendo desabado o muro que a Ordem construí- 
ra mal, ficara novamente aberta a sua chácara e em grande risco, 
sobretudo na estação das águas, a própria casa de sua residência.' 

Vejamos como se dirige à Justiça o seu advogado: 
"Diz o Cor.' 1 Joze Caetano Roiz Orta que elle he letitimo pessoi- 
dor de huma Propriedade de Cazas citas na Rua de trás da Cadeya 
velha desta Villa com todos os seus pertenses, hua grande quintal 
todo murado de pedra, e na ocaziam em que os Irmãos e officiaes da 
venerável Ordem 3. a de S. Fran.'" desta m." m Villa entenderão levan- 
tar a sua Nova Capella como de facto a fizeram levantar mestiça pela 
p." debayxo ao m. ,n " paredão e quintal do Sup. te se valeram do m. mo p. a 
que lhes facultasse p.*' daquelle terreno p. a mayor Aureya do fronte 
Espessio e terreno da m."" Capella p. a cujo fim aviam de demolir p.' 1 ' 
do m." 1 " paredam, e lavantallo depois a custa da m. ma Ordem na para- 
gem que lhes foçe mais cómoda, no q. o Sup. 11 não duvidou p. 1 ser em 
beneficio e Onrra de D. s e de São Fr.'" e de facto demoliram os Sup. d £ 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 277 

o terreno que lhes pareceo excedendo ainda mais da Comseção que o 
Sup. tl ' lhes tinha facultado dando principio a m. mo Capella, e depois 
q do m to ih es paresseo mandarão favricar hú disordenado paredam 
sem aleserse suficiente, iguald.*' q premite semilhantes Obras p. a de- 
vida segurança, não só do terreno inda q. deminutto do m. mn Quintal 
mais ahinda das suas próprias Cazas q. mediando poucos tempos e 
annos pela sua pouca segurança foi abayxo haverá des Annos pouco 
mais ou menos, em cujo mezeravel Estado tem ficado em the o prez." 

q. com as m. tas agoas q. tem mediado vaõ as terras de 

sorte q. amiassa Grande Ruina a propriedade do Sup. t( q. p. r mais 
mstansias q. tem feito p. a o devido alevantam. to daquelle paredão p. r 
ser aSim o trato e ajuste que patuarão não tem podido conseguir, dis- 
culpandosse os Sup. t1,,s de que logo fariam, tanto assim q. the a mayor 
p. ,e da pedra cahida do m. m " paredão a fizerão conduzir p. a as Obras 
q. lhes paresseo debayxo do pretesto de a reporem, e fazerem todo o 
mais paredão com a seguransa nesesaria e como o não tem asim pra- 
ticado e o referido atrazamento pode recahir em prejoizo do Sup. te e 
de sua propriedade que desde já protestava aver dos mesmos Sup. dos 
ou dos q possão soceder como mezarios, procurador, e officiais da m."" 
Ordem req. 1 a V.M. se digne mandar sejão os m. mos Sup. dos citados p. a 
no termo de trinta dias fazerem levantar a sua custa o paredão sofi- 
siente com toda a seguransa p. :l a boa comod. 1 ' do Sup. ,e e sua familia, 
e p. r Offessiais peritos debayxo da pena q o não fazendo poder o Sup. te 
Ievantallo tomando o seu próprio terreno antigo sem atensam a areya 
e terreno do m."'° adro visto q os Sup. dos não tem comprido com os seus 
deveres p.' essa rezão não devera ser contemplados em q. al q. 1 posse 
q. pretendão obter sobre o m. mo terreno, e tudo a custa dos m. mos p. 1 
serem os próprios q. demoliram o paredão do terreno do Sup. te q. a 
m. u " e repetidos annos avia estado em pe e tombem de satisfazerem 
dozentas oitavas p. a o Ospital desta Villa e as custas deste proseço vis- 
to darem cauzas ao referido//P. a V.M. seja servido etc//D. A. Rabel- 
lo — 18 de Maio de 1792//." 

À intimação requerida pelo Coronel não tardou a Ordem 
em obedecer e em 1794 apresentou por sua vez ao Juízo esta 
petição: 

"Diz o Procurador Geral da Ven. eI Ordem 3 a de S. Francisco des- 
ta villa, q. fazendo citar ao Sup.' e mais off. ,s da Meza da m. mo Ven. el 



278 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Ordem, o Coronel Joze Caetano Roiz de Orta p. a se levantar com se- 
gurança o paredam q. se acha defronte da mesma Capella da sua Or- 
de, por ajuste q. haviam feito entre o d.° Coronel, e os antecessores 
do Sup.° p. a mayor ária, o terreno do Adro delia, tem o Sup. e cumpri- 
do em mandar por conta da mesma Ven. el Ordem levantar o d.° pare- 
dam com toda a segurança, e perfeição devida a dita obra. E porq. 
quer fazer entrega delia p. a q. a todo o tempo não padeça duvida; 
requer a v.m. seja servido mandar, q. responda o d.° Coronel, se sim, 
ou não, se dá por satisfeito com o sobredito paredam nos termos em 
q. se acha; e não a tendendo, se junte esta aos autos da dita notifi- 
cação, e se labre termo de entrega, ficando por este modo o Sup. e e a 
sua Ven. pl Ordem dezonerado de a todo o tempo responderem mais 
por couza alguma tendente ao d.° paredam; e q. sendo necesr. 0 res- 
ponda também sua mulher//P. a v.m. seja servido mandar q. respon- 
dam; e não duvidando, se junte esta aos autos da notificação, lavran- 
do-se termo de entrega na forma requerida// Sim. S. Nogueira// 
E.R.M.//." 

Ao despacho do Ouvidor respondeu nestes têrmos o Coronel Ro- 
drigues Horta: 

"Snr. D. or Ouvidor G. al 

Não temos duvida a Signar termo de entrega do paredão de que 
faz menção o requerim. t0 do Sup. e por estar o mesmo feito a nossa sa- 
tisfação, p. a nunca mais por nós nem por nossos Sussessores lhe ser 
repetida couza alguma a este respeito. Vm. ce porem mandará o que 
lhe pareser justo. V. a Rica, 17 de Janr. 0 de 1795. Joze Caetano Roiz 
d'Horta//D. Ign. ca M. a Pires d'Oliveira." 

E a entrega se fêz solenemente, com aparato de Justiça, 
como atesta o documento que transcrevemos a seguir: 

TERMO DE ENTREGA 

"Aos dezanove dias do mes de Janeyro de mil setecentos e noven- 
ta e sinco Annos nesta Villa Rica de Nossa Senhora do Pilar do ouro 
preto em cazas de morada do Coronel Joze Caetano Rodrigues Horta 
onde Eu Tabeleam ao deante nomeado vim e sendo ahy presente o so- 
bredito Coronel Joze Caetano Roiz de Horta e sua molher Dona Igna- 
cia Maria Pires de Oliveyra que reconheço pellos próprios de que dou 
fé, pellos quais me foy dito na prezença das Testemunhas abayxo as- 
signados que pello prezente Termo na melhor forma e via de Direyto 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



279 



asseytavam como de facto asseytam a obra do paredam que por 
parte do Procurador Geral e mais Irmãos da Meza da venerável 
Terceyra de Sam Francisco se acha feyto nos fundos do seu quin- 
tal defronte do fronte hospício da capella da dita venerável ordem 
por ajuste que elles sobreditos tinhão feyto vocalmente em aten- 
ção a lhe darem parte do dito seu quintal para lhe ficar mayor 
Aria de Adro da dita capella, e porque o dito paredam está fey- 
to e acabado muito a sua satisfação, e segurança lhe davam ple- 
na e erre voga vel quitação do referido ajuste e se dam delle por en- 
tregues para nunca mais por elles nem seus sucessores lhe ser repe- 
tida a dita ordem nem seus procuradores couza alguma em tempo 
algum e que por suas pessoas e bens se obrigavam assim inteyramen- 
te o cumprirem na forma dita e sua resposta retro que também va- 
lerá como parte do prezente Termo e de como assim o disseram as- 
signaram com as Testemunhas abayxo assignadas e Eu Marcos Jozé 
Rebello Tabeleam que o escrevy/Vose Cateano Roiz d 'Horta/ '/D. Ign.™ 
M. a Pires d'Olivr. a / /Como tt. a Manoel Ferr. a da S.°//Como tt. a Pan- 
taleão Alz da Silva//." 

Da reconstrução, a que se referem os documentos trans- 
critos, se encarregou José Veloso Carmo; executou-a, porém, 
o oficial José Ribeiro de Carvalhais, como consta do seguinte 
documento avulso (pasta 214) do arquivo da Ordem: 

"R. ei do Irmão Sindico da Venerável Orde 3. a da Penitencia de 
NoSo S.P.S. Fran. eo Joze de Faria Souza a quantia de duzentos e se- 
senta mil rs. proSedida do paredão do quintal do Coronel Joze Caeta- 
no Roiz de Orta o qual moveria pleyto a NoSa Venerável Orde: cujo 
paredão mandei fazer por Joze Ribr.° carvalhais e aSesti com todos 
os materiais p. a o d.° por ajuste q. o d.° carvalhais fez p. r m. a orde 
da d. a quantia referida e por estar pago e satisfeito paSo o prezente 
p. a q. se leve em conta ao d.° Sindico. V a Rica 12 de Dezbr.° de 1794. 
São 260$000 rs. 

Joze Vellozo Carmo" 

O que consta do recibo supra é confirmado pelo seguinte 
registro: 

"No Cartório do Tabelião Marcos Joze Rabelo se acha 
huma Acção de Notificação que fes a esta Ven. el ordem o Coro- 



280 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nel Joze Caetano Roiz Orta para se lhe mandar fazer o Paredão 
do seu Quintal que havia cahido comforme a Condição com 
que se lhe tinha feito antes disso e de facto o mandou levantar 
de novo a dita ordem no anno de 1794 com a despeza de 
260S000 e p. r isso fez citar ao d° Orta para tomar conta delle 
com o protesto de não o tornar a levantar no cazo de tornar a 
cahir de que se fez Termo nos ditos autos de aceitação da dita 
obra pelo dito Orta e sua mulher ficando a ordem izenta de 
mais lhe correr o risco como tudo consta dos ditos autos que 
se achão no dito Cartório e para constar a todo o tempo do 
referido nesta ordem fis esta declaração. V. a Rica 22 de janeiro 
de 1795 — o Secretário Joze Gonçalves Reiz (ABC — dário 
(53), fls. 29 verso)". 

B — Paredões do Adro 

Os paredões do adro foram feitos pelo já mencionado José 
Ribeiro de Carvalhais, de 1809 a 1812. de acordo com o que 
afirmam os documentos que seguem: 

"Recebeu José Ribeiro de Carvalhais trezentos mil reis, a saber 
294$296 rs. que existião em deposito em poder do Irmão Ajud." Manoel 
Alz de Meirelles; e 5$704 rs. do Irmão Manoel José Barboza que exer- 
ce no presente ano de Sindico por determinação da Meza, cuja total 
quantia de 300$000 he por conta da arrematação do paredão na for- 
ma do termo fl. 167 do L.° actual delles (54) — Vila Rica, 20 de Mar- 
ço de 1810// Manuel Teixeira de Sousa/ /José RibrP de Carv. 1 *// Liv. 
de Rec. e Desp. fl. 379. 

Recebeu José Ribeiro de Carvalhaes do Ir. com vezes de Síndico 
Ajud.' 1 Manoel José Barbosa para a conta da arrematação do Paredão 
do Adro da Capella-Setenta e cinco mil dusentos e vinte e nove reis 
— 75$29 rs//José Ribr. 0 de Carv. V/Manoel Teixeira de Sousa//." 
Liv. cit. 382. 

Pagou a Joze Ribeiro de Carvalhaes por conta do que se lhe deve 
da factura do Paredão e Adro da Capella — Cento e quarenta mil qui- 
nhentos e noventa e sette reis — 140$597. E de como recebeu assigna 

(53) Caderno suplementar de contas correntes do arquivo de São Francisco. 

(54) Êste livro que é o 3.° de Termos está desaparecido, como está perdido 
também o 1.°. O livro que se tem citado, como 1.°, é na realidade 2.°. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



281 



aqui comigo Secretario/A/ose Ribr. 0 de Carv. 1 *// Manoel Teixeira de 
Sousa//." Liv. cit. 388. 

Pello que recebeu Jozé Ribeiro de Carvalhaes a saber, 164$174 de 
resto da Obra do paredão na forma do L.° de Termos, fs. 167 — 40$000 
da Calsada que acresceu ao pe do mesmo paredão, e 30$000 de tapar 
de pedra e cal as duas portas das torres, que tudo faz a quantia de 
duzentos e trinta e quatro mil cento e setenta e quatro reis que tan- 
to recebeu o dito Ribeiro nesta Vila Rica a 12 de Agosto de 1812 e 
assigna com o Secretario atual — 234$174 — //Jozé Ribr. 0 de Carv.™// 
Manoel Joze Barbosa//." Liv. cit., fl. 392. 

C — Questão com outro vizinho 

Em 1888, ao lado da igreja e a cavaleiro dela, levantou o 
Terceiro Franciscano Antônio José de Sousa um sobrado cujas 
janelas olhavam para o adro de São Francisco. Para realizar 
essa construção pôs êle abaixo parte do muro que fecha o refe- 
rido adro e o fêz sem a devida audiência e consentimento da 
Ordem. Contra a invasão de seus terrenos e dano de sua pro- 
priedade protestou a Mesa e concretizou o seu protesto numa 
ação judicial. Felizmente não teve andamento o pleito. À pri- 
meira intimação, compareceu o referido Sousa a uma reunião 
da Mesa e lhe fêz — irmão que era da Ordem — uma proposta 
amigável e vantajosa. E o caso finalizou bem. 

O mais interessante do incidente é que, segundo parece — 
a êle se deve a rua que vai do Largo de São Francisco à Escola 
de Farmácia, local que, àquele tempo, ainda era conhecido pela 
denominação de Os Monges. 

A esta questão se referem os dois têrmos que traslado do 
Livro 5 o , fls. 78 v. e 80 v. e que dizem: 

"Aos vinte e nove dias do mez de Julho de mil oitocentos e oiten- 
ta e sete, reunida a mesa administrativa no Consistório da Capella de 
São Francisco de Assis, pelo Secretario foi dito que o Irmão Antonio 
José de Souza, despeitado por não ter obtido os terrenos que preten- 
dia, como consta do termo de vinte e seis deste mez, o qual a mesa 
administrativa julgou incompetente a fazer essa concessão; deo prin- 
cipio a deitar abaixo o muro e paredão que circulão o adro, á parte 
em frente ao Semiterio, intendendo que era propriedade sua por ter 
comprado a casa com quintal circulado pelo tal muro e paredão, e 



282 



CÔXEGO RAIMUNDO TRINDADE 



sendo este construído pela Ordem em 1794 como consta do termo a 
íls. 122 verso do 2.° livro de termos e com uso e fructo não interrom- 
pido até esta data; convinha a meza providenciar para que o procura- 
dor geral procedesse afim de alcançar a manutenção do dito pare- 
dão requerendo e constituindo advogado se preciso for; e sendo ap- 
provado por toda a mesa esta deliberação, autorizou ao procurador 
que em continente desse andamento quanto antes ao embargo para 
manutenção antes que continuasse a demolição do paredão do lado 
direito da Capella fazendo as despesas convenientes para tal fim. E 
para constar se lavrou este termo por mim Joaquim José dos Passos 
secretario da Ordem e assignado por toda a mesa, retificando tal fim 
por conta da Ordem. O Ministro Antonio Augusto de Oliveira/ /O Vice- 
Ministro Antonio Ernesto de Oliv. a Mac. d0 //O Secretario Joaquim José 
dos Passos/ /O Procurador Manoel Julio da Costa Lopes// O Syndico 
Antonio P. de Faria." 

"Aos vinte e dous dias de Fevereiro de 1888 nesta Imperial Cida- 
de de Ouro Preto, no Consistório da Capella de S. Francisco dVAssis, 
ás cinco horas da tarde, reuniu-se a Mesa Administrativa da Ordem 
3. a composta dos Irmãos: Ministro o Rev. d0 Vigário Thiago Mendes 
Ribeiro representado por seu procurador especial o Bacharel Manoel 
Joaquim de Lemos, Syndico o Major Francisco José d'Ohveira, Secre- 
tario Francisco de Paula Barcellos e Procurador Agostinho de Paula 
Ribeiro. O Irmão Procurador do Reverendo Ministro declarou que em 
vista da Procuração que apresentava havia convocado a presente reu- 
nião da Meza para que esta deliberasse como entendesse de justiça 
sobre a questão e pleito judicial que sustenta a Ordem com o Irmão 
Antonio José de Sousa por causa da construção que fez de uma casa 
de sobrado cujas janellas deitão para cima dos terrenos que possue 
a Ordem do lado do cemitério. Comparecendo nesse acto o dito Ir- 
mão Antonio José de Sousa declarou que por muitas vezes havia ma- 
nifestado o desejo de entrar em accordo com a Ordem 3. a de São 
Francisco, á qual não queria prejudicar e que edificara a menciona- 
da casa em terreno de sua propriedade e aconselhado por advogados 
que lhe disião ter esse direito. A Meza Administrativa considerando: 
1.° Que existe actualmente e como servidão publica um caminho, 
no terreno em questão, que communica o átrio da Capella com o lu- 
gar denominado Os Monges; 2.° Que a mudança desse caminho para 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



283 



junto da casa edificada pelo Irmão Sousa não traz prejuisos ao publi- 
co, nem á Ordem que tem a obrigação de manter a servidão actual 
ou de substitui-la por outra idêntica; 3.° Que o Irmão Sousa se obri- 
ga a fazer a mudança do caminho para junto do prédio que edifi- 
cou, construindo á sua custa a cortina de alvenaria que é indispen- 
sável para manutensão do dicto caminho e obriga-se também a cal- 
çar o espaço comprehendido entre a casa que edificou e os terrenos 
que possue a Ordem; 4.° Finalmente que o Irmão Sousa oferece á Or- 
dem a indenisação de quinhentos mil reis (Rs. 500$000) para man- 
ter as janellas e porta que abrio e que dão para terrenos da Ordem, 
resolve: Permittir que o Irmão Antonio José de Sousa faça a mudan- 
ça do mencionado caminho que deverá ter a largura de seis metros, 
construindo a cortina de alvenaria que fôr necessária para seguran- 
ça do terreno e acceitar a indenisação de quinhentos mil reis que of- 
ferece o mesmo Irmão para que possa manter as janellas e porta que 
abrio sobre terrenos da Ordem. E para firmeza do accordo celebrado 
e seo leal cumprimento, lavra-se o presente termo que obrigará como 
Escritura Publica e que vae assignado pelos Membros da Mesa e pelo 
Irmão Antonio José de Sousa. Eu Francisco de Paula Barcellos, Se- 
cretario da Ordem o escrevi e assigno//Como proc. or do Rev. do Minis- 
tro Manoel Joaquim de Lemos/ /Secretario Francisco de Paula Barce- 
los/ /O Procurador Agostinho de Paula Ribeiro/ /O Syndico Francisco 
José de Oliv. a / /Antonio José de Souza//." 



CAPÍTULO II 



O RISCO 

Mais de uma vez manifestou o govêrno português inte- 
resse pela história e pela estatística da capitania das Minas 
Gerais. 

Por aviso régio de 13 de junho de 1756, mandado observar 
na diocese por ato episcopal de 9 de dezembro do mesmo ano, 
prescreveu-se aos párocos que levantassem a história e a esta- 
tística de suas freguesias e as transmitissem à metrópole 
por intermédio da Câmara Eclesiástica. 

Quarenta anos mais tarde o mandamento de Dom Frei 
Manuel da Cruz, ainda por insistência régia, foi renovado pelo 
Cabido, sede vacante, numa pastoral datada de 22 de janeiro 
de 1796. (55). 

Idêntica prescrição intimou-se às Câmaras das comarcas, 
ou municípios, por ordem régia de 20 de julho de 1782. 

Em obediência a esta última determinação foi que o Se- 
nado da Câmara Marianense fêz redigir pelo seu segundo 
vereador, o Capitão Joaquim José da Silva (56), uma interes- 
sante memória histórica daquela comarca. Devia ser trabalho 
precioso a avaliar pelo escasso trecho que dêle se salvou. 

Justamente neste trecho está o que faz ao meu intento no 
presente capítulo, no qual procuro, formando-me modesta- 
mente ao lado dos mestres de nossa história, reclamar para o 
Aleijadinho a glória de haver riscado a igreja de que me ocupo. 



(55) Cf. Archidiocese dc Mariana, II — 646. 

(56) Foi Capitão da Companhia de Ordenança do distrito do Pinheiro por 
Patente do Governador e Capitão General Bernardo José de Lorena, de 1 de se- 
tembro de 1797. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



285 



Afirma-se ali que Antônio Francisco Lisboa honrava 
assim a arquitetura, como a escultura; que tanto era toreuta, 
como arquiteto. E, pormenorizando, assevera-se que êle proje- 
tara a matriz de São João do Morro Grande e a igreja francis- 
cana de São João dei Rei. 

Modernamente, tais afirmações têm sido contestadas. 

Mas, pode-se porventura, negar sem documento afirma- 
ções feitas por um funcionário de responsabilidade, que não 
podia mentir, que não podia falar levianamente, ao seu sobe- 
rano, e, demais, trabalhava sob o olhar vigilante de uma Câ- 
mara que sobremaneira se ensoberbecia de sua lealdade ao 
trono e disto fazia ponto de distinção e de honra? 

Concebe-se, acaso, que a tais afirmações se atrevesse 
alguém em vida do Aleijadinho, vinte e quatro anos antes de 
seu falecimento, à face do público que assistia a seus traba- 
lhos e não podia, portanto, ignorar qual participação lhe tocava 
a êle nesses trabalhos ? 

É fácil imaginar quão vulgarizada andaria, e comentada 
por tôda a Minas, a atividade prodigiosa do artista que preci- 
sava de ser conduzido ao lugar do serviço e de se lhe atarem 
às mãos os instrumentos do trabalho. 

São verdadeiras, portanto, enquanto se não documentar o 
contrário, as afirmações do vereador marianense. 

Do trabalho de Joaquim José da Silva o pouco que se co- 
nhece veio até nós encorporado na Biografia do Aleijadinho, 
traçada pelo ilustre professor Rodrigo José Ferreira Bretas 
e estampada em 1858 no Correio Oficial de Minas. 

Diga-se logo que as palavras do vereador não surgem ali 
como documento que venha reforçar afirmações do autor: elas 
ali vêm para testemunhar que já no passado alguém bastante 
autorizado em trabalho de patente responsabilidade, fizera 
a merecida apologia do inditoso artista mineiro. 

Em verdade Rodrigo Bretas que, a seu turno, aparece 
para fazer o panegírico do arquiteto de São Francisco, dis- 
pensa testemunhos, não carece de documentos. 

Cairia no ridículo, a meu ver, o escritor, nosso contempo- 
râneo, que se desse ao trabalho de nos convencer por a -f b que 
o Portinari foi o decorador da Pampulha. 



286 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Bretas escrevia para centenas (57) de contemporâneos do 
Aleijadinho, para pessoas que ainda o viram e trataram, que 
conheciam, de ver e de ouvir, as suas gigantescas realizações 
artísticas. 

Para que provar a tôda essa gente o que ela sabia de 
sobejo ? 

De resto, Rodrigo Bretas, que fora por muitos anos um dos 
legisladores de nossa terra, e colaborara na administração pro- 
vincial, superintendendo o Ensino Público, não iria sacrificar 
em afirmações infundadas o brilho e prestígio de seu nome. 
(58). 

Pois bem, êste homem revestido de tamanha responsabi- 
lidade afirmou na citada biografia: "Entrando-se agora na 
apreciação do mérito do Aleijadinho, como escultor e entalha- 
dor, tanto quanto pode fazê-lo quem não é profissional na ma- 
téria, e somente à vista das obras que deixou na capela de São 
Francisco, cuja planta é sua, reconhece-se que êle mereceu a 
nomeada de que gozou..." 

Ao testemunho antigo das duas invocadas autoridades 
podemos juntar ainda o depoimento, igualmente respeitável, 
de escritores contemporâneos, mestres em assuntos da histó- 
ria regional de Minas. 

Xavier da Veiga, incontestável autoridade na história mi- 
neira e seu insigne benfeitor, deixou na introdução à mencio- 
nada Biografia as seguintes afirmações: "... o genial artista, 
de origem humilde, física e horrivelmente deformado, infeliz 
ainda por temperamento, enfermidades e acidentes da vida... 
pôde, no entanto, à força de trabalho dirigido por excepcional 
talento, deixar belos padrões, seculares já, de suas inspirações 
artísticas como arquiteto e mais ainda como escultor . . . deli- 
neou e esculpiu esplêndidos e extraordinários trabalhos ... foi 
também arquiteto notável para o tempo e para o meio em que 
viveu... (Ephemérides, IV, 229 e 230)". 



(57) Tôdas as pessoas, maiores de 60 anos, em Ouro Prêto, Mariana, Sabará, 
São João dei Rei, Congonhas, etc. 

(58) A Biografia do Aleijadinho franqueou ao autor as portas do Instituto 
Histórico e Geográfico Brasileiro (Xavier da Veiga — Ephemérides, IV, 239). 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



287 



Diogo de Vasconcelos, o preclaro mestre, o bandeirante 
da história das Minas, que compôs as páginas porventura mais 
brilhantes que já se escreveram sobre a igreja de São Fran- 
cisco, asseverou: "Sabendo apenas ler e escrever, e provàvel- 
mente algum latim; mas conhecendo bem os preceitos de 
Vignola, e a Bíblia, sua leitura predileta, o Aleijadinho, que 
pois desenhou esta igreja e a construiu não foi, como se vê, 
um simples copista, mas um inventor sublime e espontâneo. . . 
Em todo o caso esta igreja é tôda dele e de seus discípulos. . . 
(In Bicentenário de Ouro Preto, 148 e 151)". 

Furtado de Meneses, que ainda pôde examinar o terceiro 
livro de atas e deliberações da Mesa, hoje desaparecido, e que, 
como pude verificar, reproduziu fiel e religiosamente o arquivo 
da Ordem, certificou: "O projeto foi feito pelo célebre Antô- 
nio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (In Bicentenário, 287)". 

Frei Samuel Tetteroo O.F.M. foi durante a administra- 
ção paroquial dos Franciscanos em Antônio Dias um dos coad- 
jutores da freguesia. As folgas do ministério ocupava-as o ope- 
roso e culto religioso no estudo do arquivo de São Francisco. 
Também êle teve a fortuna de encontrar ainda o livro cuja 
perda lastimamos. Dos seus labores resultou esplêndida mono- 
grafia, que Frei Odulfo, seu co-irmão e, por sua vez, cultor 
apaixonado das tradições mineiras, divulgou através da 
Revista Eclesiástica Brasileira (fascículos 2 e 3 de 1946, e 2 e 3 
de 1947). Neste trabalho se lê: "O projeto é da autoria do céle- 
bre Aleijadinho, Antônio Francisco Lisboa, que também exe- 
cutou a ornamentação da fachada, os púlpitos, a pia da sacris- 
tia e o retábulo do altar-mor". 

Conhecedor dos trabalhos e investigações realizadas pelo 
professor Furtado de Meneses no arquivo de São Francisco, o 
Dr. Rodrigo M. F. de Andrade, Diretor do Serviço do Patri- 
mônio Histórico e Artístico Nacional, empenhado em obter 
uma solução para o problema da autoria do risco de São Fran- 
cisco, que então começava a ser debatido em livros e gazetas, 
dirigiu àquele escritor a consulta que consta da seguinte carta: 



28? 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE 

Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional 

Rio de Janeiro 

N.° 20 Em 12 de janeiro de 1939 

Ex. mo Sr. Dr. Furtado de Meneses: 

Atendendo à informação verbal que V. Ex. a teve a bondade de 
prestar a esta repartição, por intermédio do assistente técnico Epa- 
minondas Vieira de Macedo, com referência ao risco ou planta da igre- 
ja da Ordem 3. a de São Francisco de Assis de Ouro Prêto, peço per- 
missão para apelar para o seu alto espírito da cooperação, para o se- 
guinte fim: 

a) dignar-se V. Ex. a elaborar uma descrição do risco ou planta 
da referida igreja, que estêve em seu poder, consignando-lhe as dimen- 
sões aproximadas, e esclarecendo se se tratava de planta baixa, ele- 
vação ou corte, e bem assim se o documento era ou não assinado e da- 
tado; 

b) mencionar a época e as circunstâncias em que o aludido do- 
cumento lhe foi ter às mãos, assim como a pessoa a quem V. Ex. a o 
entregou e a data e condições da entrega. 

A valiosíssima contribuição já prestada por V. Ex. a à história da 
arte nacional com o ensaio memorável que dedicou a "A Religião em 
Ouro Prêto", no volume comemorativo do bi-centenário daquela ci- 
dade, incute-me a confiança em que V. Ex. a não deixará de atender 
ao presente apêlo, a fim de prestar mais um serviço inestimável à 
obra empreendida por esta repartição, esclarecendo um dos proble- 
mas mais intrincados e controvertidos da história da arquitetura em 
Minas Gerais. 

Antecipando-lhe os melhores agradecimentos, apresento a V. Ex. a 
os protestos de meu sincero aprêço e admiração. 

Rodrigo M. F. de Andrade 
Diretor." 

À qual consulta respondeu Furtado de Meneses nos têrmos 
que se vão ler: 

"limo. Sr. Dr. Rodrigo M. F. de Andrade, DD. Diretor do Serviço 
de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional: 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



289 



Tenho presente o ofício de V. Ex. a , n.° 20, de 12 do corrente, e de- 
morei-me a respondê-lo no intento de dar tempo à minha memória 
para recordar-se de fatos passados há 14 anos e assim poder eu res- 
ponder seu questionário com segurança maior. 

Nem assim consegui lembrar-me bem da planta que apenas pas- 
sou ligeiramente por minhas mãos: 

a) Lembro-me que se tratava de um ou dois cortes traçados em 
em um papel grosso, de maior dimensão inferior a 50 cm forma re- 
tangular. Data de todo não me recordo se tinha, porém certamente 
tinha assinatura, porque, do contrário, não a teria aceito como do 
Aleijadinho; 

b) A planta foi-me mostrada não sei por quem, em 1910, quan- 
do procurava apressadamente, pois que só dispus de 17 dias, documen- 
tos para escrever a minha memória para o Livro do Bicentenário de 
Ouro Prêto. 

Em 1913, encarregado de arranjar objetos para a Exposição de 
Arte Sacra, a realizar-se no Rio de Janeiro, pedi e me emprestaram 
a planta, que, com outros objetos, remeti a Frei Pedro Sinzig, no Con- 
vento de Santo Antônio. Com a grande guerra, não se realizou a Ex- 
posição e Frei Pedro foi para a Europa. Em vão procurei os objetos 
que enviara e dos mesmos não consegui mais ter notícias. Sei que che- 
garam a seu destino, porque no folheto de propaganda da Exposição 
saiu a fotografia de um quadro que foi juntamente com os outros 
objetos constituindo um só volume. 

Faço votos para que V. Ex. a , mais feliz do que eu, e residindo no 
Rio de Janeiro, onde a planta desapareceu, consiga reavê-la. 

De bom grado porei o meu concurso ao seu dispor para a grande 
obra da reconstituição do nosso patrimônio histórico e artístico. 

Com os protestos de alta estima e sincera admiração. 

Joaquim Furtado de Meneses 

25 de janeiro de 1939." 
Resumindo: Antônio Francisco 

I o , era arquiteto, afirma-o o vereador Capitão Joaquim 
José da Silva, e acrescenta que é também dêle o projeto da 
matriz de São João do Morro Grande, bem como o da igreja 
de São Francisco do Rio das Mortes (São João dei Rei — Ephe- 
mérides, IV, 239; 



290 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



2°, era arquiteto e riscara a igreja de São Francisco de 
Assis de Ouro Prêto, asseveram-no Rodrigo Bretas, Diogo de 
Vasconcedos, Furtado de Meneses e Frei Samuel Tetteroo; 

3 o , era arquiteto e delineara ou projetara diversos traba- 
lhos, certifica Xavier da Veiga. 

Concluindo : 

O risco ou projeto de São Francisco, enquanto não se de- 
monstrar o contrário, continua sendo da autoria de Antonio 
Francisco Lisboa, o Aleijadinho. 



CAPÍTULO III 



CONSTRUÇÃO DA IGREJA 

1° — A IGREJA 

Chamava-se Domingos Moreira de Oliveira o construtor 
da igreja de São Francisco. Era reinol, natural da freguesia 
de Duas Igrejas (59), bispado do Pôrto, filho de Manuel Moreira 
e Teresa de Oliveira. Desde 1746 é encontrado em Vila Rica e 
residia no Taquaral. Em Mariana, onde, durante 10 anos traba- 
lhou na construção da igreja da Ordem Terceira do Carmo 
faleceu em agosto de 1794. Deixou quatro filhos, que foram 
seus herdeiros: Ana Maria, Inocência Moreira, casada com 
Joaquim do Couto Lisboa, Antônio Moreira e Francisco Mo- 
reira de Oliveira. O último, solteiro ao tempo do falecimento 
do pai, casou posteriormente com Rosa Eufêmia. O genro, Joa- 
quim do Couto Lisboa, foi o inventariante de seus bens e seu 
testamenteiro. (60) 

Domingos Moreira era pedreiro (61) e devia ter sido mes- 
tre notável na sua arte. Por sua competência foi frequente- 
mente chamado a pronunciar-se, na qualidade de perito ou 
louvado, em casos difíceis de sua profissão, como, entre outros, 
na aceitação das obras da cadeia de Mariana e na modificação 

(59) Havia no bispado do Pôvto três paróquias com o topónimo Duas Igre- 
jas: São Silvestre, na comarca da Feira, Santa Maria e Santo Adrião, no concelho 
de Penafiel. 

(60) Cartório de Órfãos de Mariana. Em 1832 o escrivão José Mariano da 
Cruz deu certidão de verbas do testamento de Domingos Moreira. 

(61) "Professor inteligente, canteiro e alvenéu". Cf. F. A. Lopes — Igreja 
do Carmo de Ouro Preto, 26 e 27. 



292 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



do risco da igreja do Carmo de Vila Rica. Trabalhou em Santa 
Ifigênia do Alto da Cruz e na igreja das Mercês e Misericórdia 
de Ouro Prêto e, em Mariana, no Carmo e na capela das 

Mercês. 

À reconhecida perícia de tal homem é que a Ordem Será- 
fica de Vila Rica vai confiar a construção de sua igreja. 

Em capítulo solene, realizado a 16 de novembro de 1766, 
ficou decidida a construção, e determinado que esta se fizesse 
por concorrência pública. É o que consta do seguinte: 

"Termo emque sedeterminou Arrematar se aobra daCapella des- 
ta Venerável ordem na forma do risco eCondições que se achão feitas; 
easinadas pelo N. C. Irmão Procurador Geral Manoel Jose daCunha. 

Aos dezaseis dias domes deNovembro demil Setecentos e sesenta 
eSeis annos nesta V. a Rica deNosa Sr. a do Pilar do Ouro preto na 
Matris deN. Sr. a daConceição damesma V. a emo comcistorio desta 
Venerável Ordem eahi Sendo prezentes N.C. Irm. Rd.° P. c Vice Co- 
micario Joze Valente de Vascomcellos eoN. C. Ir. Men.° O Cap. M. 
Dom. os daRocha Frr. a eestando completo o numero dos Vogais da 
Meza abaixo aSinados. Logo emprezença detodos foi requerido ins- 
tantem." p. ]0 Procurador actual Manoel Jozé da Cunha que visto nes- 
ta Venerável Ordem Seachar orisco e Comdiçoens feitas para anova 
Capela esta Sedevia Logo por empraça e fazer-ce rematar pelo recio- 
navel preço comrespondente aomesmo risco debaixo das comdiçoens 
declaradas eque depois de arematada o Irmão Procurador actual fize- 
ce Logo em nome desta Venerável Ordem escritura publica ao Arre- 
matante eque este Somente daria fianças idonias aoprimeiro paga- 
mento, e que as comdiçoens depois de rubricadas pelo mesmo Taba- 
leão Seajuntaçe porapenço adita escritura eq todos prezentes efectu- 
ros se obrigavão pelos bens da Mesma Ordem acomprir todos os pa- 
gamentos estipulados namesma escritura edecomo todos com unaní- 
mi comcentimento comcordarão q aSim sefizeçe na forma asima refe- 
rida memandarão fazer este termo que todos aSignarão comelle dito 
Reverendo Padre Vice Comicario José Valente de Vascomcellos, e Me- 
nistro o Capitão Mór Domingos daRocha Frr. a Procurador Geral eSin- 
dico, eeu José Vr. a Ryo Secretario actual q. osobescrevy easincy Jozé 
Valente de Vasconcelos, Vice ComissarioZ/DorTim^os da Rocha Ferrei- 
ra, Ministro/ /Antonio de Souza Mesquita, Vice-Ministro// José Vieira 
Ryo, Secretário/ /ManoeZ Joze da Cunha, Proc.°' Geral //Manoel Nunes, 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



29.1 



Sindico//ManoeZ Dias Ribeiro, Definidor //Pedro Antonio Rodrigues, 
Definidor// Domingos Fernandes dos Santos, Definidor// Joze Ribeiro 
de Mello, Definidor/ /Manoel Ribeiro Coelho, Definidor,/ /Feliciano Jozé 
da Camara, ex-Definidor//João Rodrigues Martins, ex-Secretario// 
Joze da Motta Araujo, ex-Secretario//Pedro Teixeira Murça, ex-Secre- 
tario/ /Bernardo Gonçalves Veiga, ex-Definidor//Pedro Gonçalves La- 
mas, ex-Sindico// Barjones de , ex-Definidor//7oão de 
Amorim Pereira/ /Domingos Fran. co Simoens Valle, ex-Sindico//Dio- 
go da Silva Ribeiro, ex-Definidor//ManoeZ Fernandes Pinto, ex-Defini- 
áor//Paulo Correia Vieira, ex-Definidor//João da Cunha Coutinho// 
Manoel //Thomaz Fran. co Per. a , Vigário. (Termos I, 
137)." 

Pouco mais de um mês decorrido, procedeu-se à arrema- 
tação, na qual, pela vantagem de seu lanço, Foi Domingos Mo- 
reira o licitante vitorioso. Reza assim o auto desta arrema- 
tação: 

"Auto deRematação q Sefas aDom.° Mor. a deolivr. a daobra dano- 
va Capela q pertendefazer aven. el ordem 3 a de S. Frac.° destav. a na 
forma das comdiçois eRisco p.'° mesmo remat. 6 aSinado. 

Anno do Nassimt. 0 de Nosso Snr. Jezus enristo demil Sete centos 
Sessenta eSeis aos vinte e Sete dias domes deDezembro de mil Sete 
Centos eSessenta esete (62) nestav. a Rica denossa Snr. a do Pillar do 
Ouro Preto, em a Freg. a deN.Snr. a daComç. ao dad. a v. a sendo na Caza 
daven." 1 Ordem 3 a deS.Frc. 0 desta mesma V a onde prez. es Seachavão 
os N.N. CC Irmãos vise Com. 0 Ir. Min.° emais definitorio abaixo asi- 
nados, eSendo ali napresença dosmesmos, edemais Povo q Seachavão 
na mesma Caza foi dito, p 10 portr. 0 dos autorios Joze Roiz deSouza q 
trinta eOito mil Cruzados querião p. la factura danova Capela, q man- 
dava fazer estaven. 61 Ordem, na forma do Risco econdiçois, q naSua 
mão andavão, eandando dehua p. a outra p. te dizendo emvoz alta ein- 
tiligivel, q detodos sedeixava m. to bem emtender, dizendo trinta eoito 
mil Cruzados, querem p. la obra da nova Capela q manda fazer aven. 1 ' 
Ordem 3 a de S. Frc.° naforma dasSuas condiçois erisco a q. m p. r me- 
nos aqur. a fazer ereguese assim receberey Seu Lanço, erepetindo estas 



(62) Sessenta e sete é como figura no original; mas é manifesto o lapso d<; 
secretário. Dêste mesmo documento, do termo transcrito e das Condições consta o 
ano exato da arrematação — 1766. 



294 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



palavras hua e m. lMS vezes, depois dehaverem vários lanços, foy ode- 
menos detrinta eoito mil cruzados, evendo areferidameza não haver 
q. m p. r menos ofizeçe mandou aod.° portr.° q afrontaçe erematase, 
oq fazendo-o aSim, repetindo asreferidas palavras, diçe afronta faço 
p r . que m ^nos não acho, Semenos achara, menos tomara, doulhe hua, 
doulhe duas, doulhe tres, e hua mais piquinina q lhefaça m. t0 bom 
proveito, echegandoçe aopé dorefr. 0 Dom. os Mor. a deolivr. a lhe meteo 
namão hum ramo derozas q naSua trazia Com cuja solenid. e prose- 
dendo as mais de dr. t0 eandar areferida obra napraça m.° mais tem- 
po q odaley, lheouve ad. a meza esta rematação p. r feita na fr. a das 
Comdiçois erisco, robricadas eaSinadas p. 10 Procurador g. al destave- 
n. el Ordem, ep. 10 dito rematante, oqual aceitou ad. a rematação naso- 
bred. a q. tia na fr. a dascondiçois erisco aq Seobrigoce p. 1 Suapesoa e- 
beins prez. tcs efuturos Satisfazer atodo, odeclarado, noSebred. 0 risco 
econdiçois, não faltando atodo oestipulado nelas obrigando-se arefe- 
rida meza p. los bens dam. a Ven. cl Ordem, dar Satisfação aomesmo re- 
mat. e atodo oestipulado nas mesmas comdiçois, edecomo aSim foi de- 
treminado p. Ia meza eaceito p.'° d.° Remat. e nosd. os trinta eOito mil 
Cruzados, mandarão fazer este termo emq. todos aSinarão eeu Joze 
vr. a Ryo Secretario q oescrevi eaSiney//7o2e Valente de Vas. cos , V.C. 
que vi a Solemnid. e da rem. am // Domingos da Rocha Ferr. a , Ministro// 
Manoel Jozé da Cunha, o p. or g. al //Jozê Vr. a Ryo, Secretr. 0 / /Pedro An- 
tonio Rodrigues, Definidor //Manoel Nunes, Sindico 

Domingos + Mor. a de olivr. a / /Joze Royz de Souza 

(Documento avulso do arquivo da Ordem)." 

Na execução da obra tinha o construtor de cingir-se às 
condições estipuladas no ato da arrematação. Tais condições 
estavam assim redigidas: 

"Condiçoens eadevertençias sobre o Risco p. r donde sehade rema- 
tar aobra daCapella daveneravel ordem 3 a deS.Francisco deV. a Rica. 

N l.o 

Será obrigado o Rematante abrir todos os alicerces que mostra 
aplanta os do corpo da Igreija torres efronte espisio dedose palmos 
delargo edefundo oito adonde não careçer demais, que acarecer Sera 
obrigado aprocorar firmeza Sofeciente para aSegorança dadita obra, 
respeitando aSua altura p. a oquenão aSentara apedra nosobre ditos 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



295 



alicerses sem serem vistos eexesaminados. Os doalicerses dacapela mor 
esancrestia terãodelargo oito palmos edefundo o mesmo que osdo cor- 
po da Igreja comamesma observância. Osaliçerses para aparede dos 
corredores caza denoveciado edespacho, terão delargo Sete palmos ede 
fundo Seis observando oque assima fica dito. 

N 2.o 

Será obrigado o rematante aimcher todos os Sobres ditos aliçer- 
ses depedra ecal bem moçiSados ecompedra grande edura, principal- 
mente adonde recebe cunhais e encontros dearcos eadonde mais con- 
veniente for para Segorança da obra que mostra aplanta risco eseu- 
perfil, elhe fará chegado aomeio doaliçerse na altura hum corte por- 
dentro outro porfora Sendo este detres quartos delargo eodedentio 
demeyo palmo oumenos comdeclaração que chegado asoperfiçia da- 
terra emtermos de Secortarem asparedes fique emrroda dous palmos 
pela parte defora para desta Sorte ficar para fora dasapa hum palmo 
oque Sedeve observar emtodos osalicerces. 

N 3.o 

Será obrigado oarematante aSentar asapata dotoda esta obra bem 
de olibel, adocorpo dalgreja torres e fronte espiçio sera decantaria La- 
vrada apicam miúdo Livre os seus golpes Sendo apedra para ella de- 
qualidade dura equenão Seja arienta emforma que anão como axuva 
de telhado toda amais Sapata Sera dela j es demorro comboa grosura 
edireitas eduras, como tãobem Sera obrigado asentar todos os aSolei- 
ramentos dasportas, comdeclaração q. osda Capella Mor Corredores 
serão asentados mais altos que a Suleira daporta prençipal tres quar- 
tos. 

N 4.0 

Será obrigado o rematante afazer asparedes das torres deoito pal- 
mos degroço para oque alargara para fora oque for perciso emforma 
que não ofenda oseu vão cuja groçura deparedes chegara te a Sima- 
lha real edali para Sima Sera comforme mostra aplanta o mesmo 
fará nadofrenteespicio. 

N 5.0 

Será obrigado o rematante a fazer todas as paredes que mostra 
aplanta risco eseuperfil depedra eCal bem moçicadas e ajontourados 



296 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



comasLiaçoens neçeçarias p. a Segorança sendo bem travadas nasen- 
gras como tãobem fará Sobre arcos ou escarçoens emsima detodas as 
portas sendobem assentados comoSerequer para Segurança epoderão 
ser delages adonde couberem eadonde não de tijollo eterão todas as 
paredes Altura que mostrao risco eseuperfil sendo osmeteriais todos 
áCusta do Rematante. 

N 6.° 

Será oBrigado orematente afazer depedra decantaria todas as 
portas eginellas que mostra orisco sendo as duas portas cola- 
traes defronteEspicio feitas pella forma das que estão riscadas 
junto ao Arco Cruzr 0 elevarão estas eaprencipal eaduas travessas 
aLizares pella parte dedentro comotãobem fará de Cantaria osoi- 
ío cunhais ou pilastras que comprendem as Torres efrontespiçio 
com todos osseus membros que mostra orisco metidos emsua Conta 
debaxo da medição ou perçeito de Arquitetura como tãobem fara as 
Contrapilastras do fronteespiçio que reçebe o Remate como tão bem 
fará omesmo remate comua Cruz epedestal epiramidas naforma do 
risco ececto não Sera decantaria oque Seacha asignado comeste X 
eaSim fará oOclo na forma que mostra orisco comaescoltura que 
delle Semostra eassim fará decantaria as oito pilastras das Torres eas 
Sineiras elevará quatro emhua etres naoutra como tãobem fará as 
piramidas q feixão o Zimbório das mesmas Torres decantaria feitas 
eobradas naforma que mostra oRisco. Advertese que acantaria que di- 
zemos levarão aspilastras ecunhais comprendem todas as suas mol- 
duras dorresalto para dentro oque Sentendem nas dastorres. Sendo 
acantaria para o referido e p. a ornais damilhor que Seacha nas pe- 
dreiras do Itacolumim esera escolhida branca efinna que não seja 
arienta nem mole acantaria p. a o relevo eescoltura sera daChamada 
de Sabão Sendo toda aCantaria muito bem Lavrada comascodas em- 
costada p. a Sebornir com rocha damesma qualidade, elheganhará to- 
das asfalhas comperfeição, principalmente toda acantaria que avista 
pode alcançar. 

N 7.o 

Será obrigado o aRematante afazer de cantaria todos os emvaza- 
mentos de todos os cunhais epilastras detoda esta obra na forma que 
mostra oRisco eassim aimchilharia quemostra oRisco pella parte de- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE DURO PIÍÊTO 297 

fora, como tãobem fara decantaria o arco cruzeiro enelle os pulpitiiò 
comaescada que mostra oRisco tãobem Iara atar j a na forma, que no 
mesmo arco Semostra depedra de sabão edamesma Serão oscapiteis 
do mesmo arco, etoda amais delle Seia deltacoiumin assim fara opres- 
pterio eassim digo comtoda aprefeição nafcrma q. mostra o risco Lagia- 
do todo oSeu pavimento comboa pedraria eSera aSentado este prespi- 
teiro em humafiada delages decantaria e Seadeverte que aporta tra- 
veça dacapella mor para o Corredor Serão deíeitio daq Seacha risca- 
da aope do arco, como tãobem fara decantaria os ocolos dacapella mor 
pella parte dedentro naforma que mostra oRisco etãobem Sera de- 
cantaria oplinto dos mesmos ocolos em que Semetem as grades easen- 
ta o caixilho para as vidraças, eomesmo plinto Levarão as frestas do 
corpo dalgreja. 

N 8.° 

Será obrigado oRematante afazer decantaria os dous arcos do 
coro, Sendo opavimento dodessima decantaria em que aSentaão as 
grades com sua moldura pella parte defora, como tãobem fara Seis 
pias para a agua benta duas que seseasentarão junto aospes direito 
doarco docoro feitas deconxa muito bem obradas que leve cadahuma 
delias hum barril dagua eduas para asportas traveças feitas namesma 
forma que leve cada huma delias meyo barril dagua namesma forma 
destas nasaida da Sancristia para acapella mor, eassim fara decan- 
taria dedegraos emteiros emforma quefique todo emvão aescada que 
sobe para acaza docomcistorio, eSerão os degraos depedra dura eSam 
osquais serão metidos nasparedes que devidem amesma escada nafor- 
ma que mostra oplanta, como tãobem fara decantaria odegrao daco- 
zia emque aSentão asgrades de buçel aSentado comhuma fiada de- 
Lages damesma eSera muito bem Lavrada eescodado eomesmo fara 
emtodas as soleiras que fazem degrao, como tãobem fará decantaria 
opatio daintrada com seos degraos que mostra aplanta lavrado exe- 
cotado, como tão bem fara naintrada das torres hum degrao e lagia- 
ra delages decantaria ovão das torres. 

N 9.° 

Será obrigado orematante afazer as torres naforma que mostra 
o risco sendo abobeda delias feitas detijolo eoZimborio obrado pella 
parte defora comomostra o risco fingido emetido emCal como tãobem 



298 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



fara todos osfengimentos de cal e area todos os cunhaes molduras 
efrestas pordentro epor fora eos oClos da Capela Mor pella parte de 
fora finalmente, será fingido tudo o que aSsima selheesetuou evai asi- 
gnado comeste X osquais fingimentos noscunhaes eSuas molduras 
imitarão aCantaria Lavrada como Secostuma eosmais claros entre 
vãos dasmolduras entre hum conhal ao outro serão Caiados. 

N 10.° 

Será obrigado orematante arebocar ecaiar aduas mãos toda esta 
obra por dentro epor fora, todos ostilhados detoda esta obra Sendo 
todo otilhado emvocado com cal levando os amouriscados necessários 
para perfeição edefesa dos temporaes sendo aCalearea asua Custa 
etoda atelha Sera acusta daordem esera obrigado ahir buscar area p. a 
todos os fengimentos detrás doquintal do defunto P. e Madeira eSerá 
aCal os sobred°s fingimentos traçada e benefiçiada tempo antes deser 
obrada para melhor Sigurança eperfeição eomesmo fará para as abo- 
bedas. 

N 11.° 

Será obrigado oRematante a fazer quatro gárgulas p. a Seassen- 
tarem naSemalha real nas engras Junto as torres que olhem duas p. a 
o fronte Espicio eduas p. a as Ilhargas feitas comtoda aperfeição Le- 
vando asacada neçesaria p. a escoloirem fora asagoas que recebem dos 
tilhados dentre as torres para cujo ifeito fará hum canal depedra in- 
costado as mesmas torres emque venhão desagoar ostilhados eLevará 
aCorrentesa necessária para hua eoutra parte esera a pedra p. a estas 
^arguias dequalidade boa e San como Sereq.' p. a seu if feito. 

N 12.° 

Será obrigado o rematante a fazer hua impenna insimado Arco 
Cruseiro sem embr.° de anão mostrar o risco en ella huma Crus imi- 
tando adofronte espicio enão Sobirá tanto esta impenna como aoutra 
em rezão do Immadeiramento que nesta parte não sobirá tanto por 
ser mais estreito como mostra aplanta eserá esta impenna coberta de 
pedra deCantaria Levando p. a hua eoutra parte sacada como Sema- 
lha e nella aberta pela parte debaixo hua meya Cama (63) grande p. a 



(63) Em outra cópia destas condições, lê-se "hua meya canna", que deve ser 
<. certo. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 

receber otilhado p. a oiffeito dedeffender asAgoas daparede: Como tão- 
bem fará na Impena dofrontesespicio amesma Simalha p. a defesa 
das mesmas Agoas isto Seintende que acompanhará tão som. te oti- 
lhado sendo asentada mais alta doque ele. 

N 13.o 

Será obrigado oRematante adar feita eacabada toda areferida 
obra notermo desinco annos p. a oq trará atualmente os offeciais que 
Selheassignarem serem neseçarios com aspennas q nasmesmas asigna- 
rão selhepuzerem não ostrazendo tanto deaSentadores como decan- 
teiros p. a Lavrarem a pedra decantaria atempo conveniente eficará 
elle rematante sugeito aSer aobra q for fazendo vista eexaminada se- 
vai ounão vai comforme orisco eCondiçoens como tão bem não po- 
derá pedir aCressimo algum dealguma Couza q p. r esquecimento se- 
não tenha devertido aChandose no risco e seu perfil. 

Será esta Venerável ordem obrigada alhesatisfazer oproduto de- 
Sua rematação emseis pagamentos iguais destrebuidos naforma Se- 
guinte oprimeiro osaLicerces abertos echeios o Segd. 0 toda aobra 
comasvazes aSentadas eo terceiro asbergas daJanelas docoro asenta- 
Jas etoda aobra pello mesmo olivel oquarto toda a Semalha Real asen- 
tada oquinto as Torres detoda aCabadas eainpennado fronteespiçlo; 
eo Ultimo depois detudo comcluido acabado para oque Seprocederá 
rigorozo exame Seestá ounão está toda aobra naforma daplanta ris- 
co eseuperfil e na forma dascondiçoens comforme sua obrigação p. a 
oque nomiará Louvados de Suaparte eoRematante nomeará de Sua 
p. a Seescolherem comforme Seestila epaga cada qual os Seus. 

Advertências sobre oq. e fica d.° 

Que no fundo da Casa do consistório Levara tantas Janelas ras- 
gadas como na sacrestia depeitoril ficando com comrespondencia 
"numa das Outras, que todas asJanelas depeitoril Levara acentos com 
moldura em sua sacada que nacaza do noviçiado edespacho nolugar 
donde mostra aplanta deixará Lugar para Semeter Altar que nofun- 
do daSacrestia deixara lugar na parede p.° oLavatorio que deixará 
abertos os lugares que mostra aplanta no Corpo da Igreja para osseis 
Altares. 

Na condição que trata dos Fengimentos Sedeve advertir que asi- 



300 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



malha de dentro doCorpo da Igreja hade Ser tãobem fingida metida 
emCal. 

Tãobem sedeve adevertir q. e Sera obrigado oRematante atrazer 
noaSento continuamente tres offeciais com osserventuarios conve- 
nientes p. a aboa despozição dos mesmos; 

Os Canteiros p. a Lavrarem apedra devem ser os percizos p. a da- 
rem aviamento aosdoasento sem q nisto haja falta: Villa Rica emmeza 
de 16 de 9br.° de 1766. " 

★ 

Embora tivesse o auto da arrematação, acima transcrito, 
o valor de escritura pública, quis a Ordem firmar em cartório, 
solenemente, o contrato da construção, o que se realizou em 
ato contínuo àquela arrematação, ao que informa o registro 
seguinte lançado no verso da primeira folha do livro n° 1 das 
Profissões: 

"A Venerável Ordem 3. a ao M. e Pedreiro Dom. os Mor. a de olivr. a 
D.° P. Rematação da Capela na forma das condições e Escritura de 
27 de Dezembro de 1766 — 38$ cruzados = 15:200$000". 

★ 

Se alguma solenidade marcou em Vila Rica o início de 
tão vultosa construção, dela não nos chegou a mínima notícia. 
De um acontecimento de tal magnitude não se lavrou uma ata, 
não se escreveu uma carta: mudos totalmente a este respeito 
o Copiador e o Livro de Têrmos da época. Apagou-se com o 
dobar de quase dois séculos a lembrança do dia em que se 
lançou a primeira pedra, a lápide fundamental sôbre a qual se 
ergue o monumento porventura mais precioso e de certo o mais 
querido de Ouro Prêto. 

Será pelos registros de pagamentos, pelos livros de receita 
e despesa e por documentos avulsos, que iremos daqui por 
diante acompanhando o progresso da construção. 

Conquanto somente em 1794 se tenha verificado por parte 
da irmandade a aceitação da obra confiada ao Mestre Domin- 
gos, esta, ao que se infere do seu andamento, devia estar pràti- 
camente concluída ao fim dos cinco anos, prazo estipulado no 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



contrato que entre si haviam firmado a Ordem e o construtor 
e ao qual, não há muito, me referi. Responsáveis pelo retarda- 
mento aludido teriam sido, de uma parte, as vultosas altera- 
ções que, umas após outras, foram introduzidas na grande obra, 
como as abóbodas dos corredores, o barrete da capela-mor, o 
afastamento das janelas do côro para o assentamento da nova 
portada, etc; de outra parte, a conveniência da Ordem Ter- 
ceira em aguardar a entrega do retábulo a fim de poder a arre- 
matação ser definitivamente concluida. 

Na análise dos documentos que, a seguir, se oferecem ao 
estudo e curiosidade do leitor, não deixará este de notar com 
pasmo isto que mal se concebe no nosso tempo: — prolongou- 
se por 65 anos a liquidação das contas com o construtor. Dessas 
contas há no arquivo da igreja dois documentos interessantes, 
Trata-se de uma dupla relação dos pagamentos realizados, ou 
ao referido construtor diretamente, ou a seus representantes 
e herdeiros. O primeiro dêsses documentos está redigido da 
seguinte maneira: 

"Instrumento empublica forma com o theor dehuma Rellação 
depagamento e abatimento passado a Joze Joaquim do Couto como 
abaicho se declara: 

Saibão quantos este publico Instrumento dado, epas- 
sado empublica forma virem que Sendo no Anno 
do Nassimento de Nosso Senhor Jesus Christo 
de mil oito centos e Trinta edois Undécimo da 
Independência e do Império do Brazil, aos qua- 
troze dias do Mez de Agosto do dito anno nesta 
Leal Cidade de Marianna, em o Cartório do Se- 
gundo Officio, que Sirvo ahy compareceo pre- 
zente Joze Joaquim do Coito nella morador ede- 
mim reconhecido pello próprio deque dou fe epor 
elle me foi apresentado huma rellação de Paga- 
mentos, eabatimentos ou Conta Corrente pe- 
dindome que lhe reduzisse empublica forma do 
Officio demim Tabelião para com ela requerer 
oque lhe convier epor Seachar amesma Sem vi- 
cio, borrão emenda, ouentre linha ou coiza que 
duvida lha mandei passar, ehe a presente que 



302 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



oSeo theor prencipia assim § Rellação dos pa- 
gamentos, eabatimentos que tem feito a Vene- 
rável Ordem Terceira de São Francisco de Villa 
Rica ao rematante da Capella damesma Or- 
dem Domingos Moreira de Oliveira como cons- 
ta dos livros respetivos oSeguinte § Recebeo o 
dito Domingos Moreira pormão do Sindico Ma- 
noel Nunes no anno demil Sette centos eCesen- 
ta eSette, Dois Contos, nove centos trinta e trez 



mil trezentos e trinta e tres reis e meio 2: 933$333 1/2 

Idem de Manoel Pereira Ribeiro com vezes de Sin- 
dico no impedimento de João Gonçalves Perei- 
ra, no ano demil Sette centos ecenta enove = 
Dois Contos cento e trinta e tres mil trezentos 
e trinta e tres 2:133$333 

Idem do mesmo dito anno Seiscentos e vinte mil reis 620$000 

Idem doSindico Antonio Esteves Teixeira no anno 
de mil Setecentos eSetenta = Dois contos du- 
zentos noventa eoito mil equinhentos e Seten- 
ta e seis digo no anno de mil Setecentos e Sen- 
ta — hum conto duzentos noventa eoito mil qui- 
nhentos eSetenta eSeis 1:298$576 

Idem do Sindico João Coelho da Silveira noAnno de 
mil Sete Centos eSetenta ehum = Hum Con- 
to duzentos e oitenta ehum mil quatrocentos 
eoitenta equatro . . • • 1:281$484 

Idem domesmo Sindico Hum Conto eSeis Centos mil 

reis 1:600$000 

Idem do Sindico Antonio Martins Vianna no anno 
demil Sette Centos e Setenta edois Oito centos 
mil reis 800$000 

Idem do Sindico Pedro Antonio Rodrigues no Anno 
de mil Sette Centos eSetenta e Seis duzentos 
eoitenta mil e oito Centos digo Vinte oito mil e 
oito Centos 28S800 

Idem do mesmo Sindico, Cecenta e Sete Mil trezen- 
tos etreze 67S313 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



303 



Idem do Sindico João de Amorim Pereira no demil 



Sete Sentos Setenta e Sete sessenta mil reis . . 60S000 

Idem domesmo Sindico Trinta eSeis mil reis 36S000 

Idem do mesmo Sindico Quatrocentos quatro mil, 

edoze reis 404S012 

Idem domesmo Sindico Oitenta edois mil trezentos 

e treze 82S313 

Idem do Sindico Francisco Xavier de Andrade e no 
de mil Sette Centos eoitenta Cento eVinte e seis 
Centos 120S600 

Idem do Sindico Custodio Alves de Araujo no demil 
Sette Centos oitenta ehum Cento e quinze mil 
eoitenta eCinco 115S085 

Idem no deposito das Obras que não fes as quaes fo- 
rão Louvadas nos Autos comatenção aos aCreci- 
mos naquantia de Hum conto duzentos e treze 
mil quinhentos eCecenta 1:2138560 (64) 

Idem do Sindico Antonio Francisco da Silva no de- 
mil Sette Centos eoitenta edois vinte edois mil 
reis 22S000 

Idem domesmo Sindico Cento e Cincomil duzentos e 

cecenta e dois 105S262 

Idem domesmo Sindico Cento etrinta, enove mil no- 

centos eoitenta e oito reis 139S988 

Idem do Sindico Manoel Alves deMeirelles mil Set- 
te Centos oitenta e tres Cento eSetenta enove 
mil Tresentos e Vinte e quatro 179S324 

Idem do Sindico João Francisco de Carvalho mil 
Sette centos eoitenta equatro = Cento eonze 
mil digo Cento e desoito mil duzentos esetenta 
eSinco 118$275 

Idem domesmo Tres mil seiscentos e setenta eSinco 3$675 

Idem do Sindico Sebastião Gonçalves Chaves = Set- 
te centos e Oitenta eCinco dezoitomil reis .... 18S000 



(64) No Abcedário, a que já me referi, a parcela que a esta correspond-; 
vem diminuída de 182§035; mas o Secretário dá mais tarde peo êrro e o corrige, 
como em seu lugar se verá. 



30 1 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Idem do Sindico Antonio Marquez mil Sette Centos 
oitenta eseis Trinta eCinco mil nove Centos e- 
Trinta e Sette 35$937 

Idem do Procurador Ajudante Manoel Alves de Mei- 
reles emil Sette Centos eoitenta e Sette = Cen- 
to eseis mil eoito centos a Saber a Jose Ribeiro 
dafactura dos Telhados Oitenta eSette, emeia 
ede João Cabo verde = húa emeia — Oitenta e- 
nove, = Cento eseis mil eoitocentos 106$800 

Idem do Procurador dito Meireles para o Cumpri- 
mento da factura dos Telhados mil Settecentos 
eSetenta eoito = Duzentos evinte e dois = Vin- 
te Sette mil reis 27$000 

Idem a João Cabo Verde dafatura dos reboques = 
Tres oitavas e Seis vintes = Tres mil oitocentos 
eVinte eSinco 3S825 

Idem o Sindico João da Fonseca Neto aodito João 
Cabo verde dafatura dos mesmos reboques em 
mil Sette centos enoventa = Des mil Seiscen- 
tos e Cincoenta 10S650 



13:565S145 



Treze contos, Quinhentos Cecenta eCinco mil cento 
equarenta eCinco Transporte da Lauda antece- 
dente Treze Contos quinhentos cecenta eCinco 
mil cento equarenta eSeis digo eSinco 13:565S145 

Pagou o Sindico João da Fonceca Neto de Cal a Jose 
Gonçalves Lima para Caiar aCapella porconta 
do Rematante Quatro mil e quinhentos 4$500 

idem a importância das deminuição daObra na Lou- 
vação feita na entrega da mesma Obra, em Vin- 
te equatro de Agosto de mil Sette Centos eno- 
venta equatro emque forão Louvados Jose Pe- 
reira Arouca eAntonio Francisco Lisboa = Cen- 
to e quarenta e Cinco oitavas = Cento e Seten- 
ta equatro mil reis = Item que deve o Rematan- 
te de resto de huns Tijollos que gastou dos que 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 305 



pertencião adita Obra digo pertencião a dita Or- 
dem mil quinhentos e Setenta e Sinco 1$575 

Idem oque pagou a Ordem a Joze Barbosa deOlivei- 
ra deLavrar numas pedras de Cantaria para o 
Presbitério daObrigação do Rematante nove mil 
eseis Centos 9Ç600 

Item que pagou amesma detres Alqueires de Cal 
Branca para Caiar as Torres, epor detrás da Tri- 
buna que hera da Obrigação do rematante mil 
eoitoCentos 1$800 



Soma Treze Contos Sette Centos cincoenta eseis mil 

centos eVinte reiz 13:756$620 



Joze Gonçalves Reis Secretario = Nada mais se Con- 
tinha em a dita primeira meia folha da Rella- 
ção ou Conta doque o Contheudo aqui descripto 
depois doque Sevia na mesma Rellação naSegun- 
da meia folha aConta Seguinte Deve a Herança 
do fallecido Domingos Moreira deOliveira Como 
rematante da Obra da Capella da Venerável or- 
dem Terceira da Penitencia deSão Francisco de 
Villa Rica em Conta Corrente Com a mesma Or- 
dem = Pella emportancia dos Pagamentos de- 
minoiçoens da Obra, e mais despêsas aella respei- 
tantes daobrigação dodito rematante como se 
Comprende na rellação antecedente Treze Con- 
tos Sette Centos ecincoenta eSeis mil seiscen- 



tos evinte 13:756$620 

Por Saldo Seacha devendo adita Ordem para entei- 
ro Cumprimento da Imffronte = Qual digo hum 
conto quatrocentos Quarenta etres mil Tresen- 

tos eoitenta 1:443$380 

Quinze Contos e duzentos mil reis 15:200$000 

Hade haver pella Importância da rematação dadita 

obra = Quinze contos e duzentos mil reis 15:200^000 



Villa Rica doze deoitubro demil Sette Centos e noventa e quatro = 
Jose Gonçalves Reis, Secretario. Nada mais Secontinha emadita Rei- 



306 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



lação com cujo Theor eu Maximianno Pires da Costa Segundo Tabe- 
lião do Publico Judicial e Notas nesta Leal Cidade de Marianna e Seu 
Termo bem e fielmente epor pessoa deminha Conffidencia fis passar 
opresente Instrumento oqual vai sem coiza que duvida fassa pello ler 
e conferir com outro Official de Justiça commigo abaicho digo com- 
migo aodiante aSignado eachar emtudo confforme oproprio original 
aque me reporto em mão epoder do Appresentante cujas Letras eaSi- 
gnaturas as reconheço verdadeiras porter delias inteiro conhecimen- 
to ede como omesmo apresentante Leva a mesma aqui abaixo seaSigna 
commigo Tabelião que tãobem meaSigno em publico e Razo emodia 
mes e anno a principio desta declarado e Eu Maximianno Pires da Cos- 
ta Tabelião que oSobscrevi conferi e Assignei em publico e raso//Ma- 
ximiano Pires da Costa/ /Conferido comigo Escr. am de Órfãos Joze Ma- 
rianno da Cruz/ '/Joze Joaq. m do Couto." 

E aqui está uma outra relação constante do cit. ABcedário: 
Conta da Ordem com o arrematante Domingos Moreira 
de Oliveira. 

"Importou a rematação da obra da nova ca- 
pela do Nosso Santo Patriarca São 
Francisco, rematada pelo rematante 
Domingos Moreira de Oliveira 

Pagamentos 

1767 — Primeiro — Recibo que deu o Ir. 
Síndico Domingos Moreira, digo, 
Manuel Nunes do que se ajustaram 
na Escritura e consta no L.° de con- 
tas a fls. 82 

1769 — Segundo — Recibo que recebeu o di- 
to rematante do Ir. Manuel Perei- 
ra Ribeiro fazendo vezes do Ir. Sín- 
dico João Gonçalves Pereira 

2:533$333 e nesta quantia se lhe aba- 
teu 400$000 que recebeu no primei- 
ro pagamento, como se vê no L.° da 
conta a fls. 91 e 93, ficando assim 
líquido 



15:200$000 



2:933$333 



2:1338333 



SAO FRANCISCO DE A3SI3 DE OURO PRÊTO 



307 



Terceiro — Pelo que recebeu o dito 

rematante no mesmo ano em duas 

adições no L.° da conta a fls. 91 . . 620$000 

Quarto — Pelo que recebeu do Ir. 

Síndico Antônio Esteves Teixeira e 

consta do recibo e do L.° da conta 

a fls. 98 1:298$576 

Quinto — Pelo que recebeu o rema- 
tante do Ir. Síndico João Coelho da 
Silva o que consta no L.° da conta a 

fls. 103 1:281$484 

Sexto — Pelo que recebeu o dito re- 
matante do mesmo Ir. Síndico João 
Coelho da Silva o que consta do L.° 

conta a fls. 103 1:600$000 

Sétimo — Pelo que recebeu o dito 
rematante do Ir. Síndico Antônio 
Martins Viana o que consta no L.° 
da conta a fls. 109 800$000 

Soma os recibos dos pagamentos fei- 
tos ao rematante até 10 de outuvro 

de 1773 10:666$726 

Oitavo — Pelo que recebeu do Ir. 
Síndico Pedro Antônio o que consta 

do L.° da conta a fls. 154 28$800 

Nono — Pelo mais que recebeu do 
d.° Ir. Síndico o que consta do L.° da 

conta a fls. 154 67$313 

1778 — Décimo — Pelo que recebeu do Ir. 
Síndico João de Amorim Pereira o 
que consta do L.° da conta a fls. 167 60$000 
Undécimo — Pelo mais que recebeu 
do mesmo Ir. Síndico João de Amo- 
rim Pereira e consta do L.° da con- 36$000 

ta a fs. 168 36$000 

Décimo segundo — Pela que recebeu 
do Ir. Síndico João de Amorim Pe- 



1779 



1780 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

reira o que consta no L.° dos reci- 
bos e da conta a fls. 67 404$012 

Décimo terceiro — Pelo que recebeu 
do mesmo Ir. Síndico Amorim Pe- 
reira o que consta no L.° dos recibos 

a fls. 68 82$313 

Pelo que recebeu do Síndico Fran- 
cisco Xavier de Andrade Ferreira e 
consta do L.° dos recibos a fls. 73 — 
100/8 e 1/2 120$600 

1781 — Pelo que recebeu mais do Síndico 

Custódio Alves de Araújo e consta 

do L.° dos recibos a fls. 76 115$085 

■ Pelo que recebeu mais no desconto 
das obras de que passou recibo no 

L.o deles a fls. 68 1:031$525 

• Pelo que recebeu por mão do Ir. 
Guarda-Mor Manuel da Mota e 
consta de um documento do dito 
Guarda-Mor na linha do Síndico An- 
tônio Francisco da Silva — NI 22$000 

Pelo que recebeu do Ir. Procurador 
Geral o Alferes Francisco Domin- 
gues de Carvalho de que passou re- 
cibo em documento do dito Sr. Pro- 
curador e se acha na linha do Sín- 
dico Antônio Francisco da Silva 
em N. 2 105$262 

1782 — Pelo que mais recebeu do dito Irmão 

Procurador Geral Francisco Domin- 
gos de Carvalho de que passou reci- 
bo que fica incorporado no documen- 
to n.° 10-116-1/2-5 139$988 

1783 — Por ouro que recebeu do Síndico Ma- 

nuel Alves de Meireles de que deu 

recibo 179$324 

Ouro que recebeu do mesmo e assi- 
nou recibo a fls. 217 118$275 



1779 



1782 



1782 



1784 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



309 



Dito em recibo 3$675 

1785 — Dito em recibo 18$000 

1786 — Recebeu por mão do Tenente Fran- 

cisco Domingues de Carvalho como 
Procurador Geral desta Venerável 

Ordem — 29-3/4-1 35$937 



Passou a fls. 25 (65) 13:234$235 

1787 — Recebeu mais por mão do Ir. Pro- 

curador Geral Manuel Alves de Mei- 
reles que pagou a José Ribeiro na 
f atura do telhado 87 e 1/2 e a João 
Caboverde a conta do reboque 1 e 
1/2 que são 89 oitavas 106$800 

1788 — Recebeu mais por mão do Procura- 

dor Geral Manuel Alves de Meireles 
para o complemento da fatura dos 

telhados 22-1/2 27$000 

Recebeu mais por conta do reboque 
o Moleque João Caboverde 3 oitavas 
e 6 vinténs 3$825 

1790 — Que pagou o Síndico João da Fon- 
seca Neto ao negro João foi do pe- 
dreiro João Alves dos reboques que 
fêz pelo rematante da capela 10$650 

1790 — Idem o mesmo Síndico pelo que pa- 
gou a José Gonçalves Lima, de cal 
para caiar a dita capela por conta 
do rematante 4$500 



Pela importância da diminuição da 
obra conforme o termo a fls. 124 do 
L.° dêles em que foram louvados 
Antônio Francisco Lisboa e José Pe- 
reira Arouca em 24 de agôsto de 
1794 — 145 oitavas, a saber: 



(65) Há aí êrro de soma que não me competia corrigir. 



310 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Pelos degraus do adro que 

se não fizeram 64 

Pela empena que se não 

fez 40 

Pelo Lajeado que se não 

fez 18 

Pela tortura dos altares . . 10 
Pelas galerias do côro ... 3 
Pela talha que se não fêz 

no frontispício 10 

Soma 145 



Pela diferença que se encontra na 
importância de 1:031$525 que se 
acha borrada a fls. 2 das diminuições 
em que foi louvada a obra judicial- 
mente quando o seu verdadeiro im- 
porte é liquidamente 1:213$560 em 
que vai de êrro 182$035 que se abo- 
nam 

Idem do resto de uns tijolos e se vê 

fls 2 — 1-1/4-2 

Idem que pagou esta Ordem a José 
Barbosa de Oliveira de lavrar as pe- 
dras para o presbitério, as quais 
eram da obrigação do rematante .. 
Idem três alqueires de cal branca 
para caiar as torres e por detrás da 
tribuna que era da obrigação do re- 
matante 

Idem pela importância que ficou de- 
vendo a esta Venerável Ordem o Ir. 

falecido José Antonio de Brito 

Tem João da Fonseca nesta conta 
— 585$112 



174$000 (66) 

182$035 (67) 
1$575 

9$600 

1S800 
58$320 



(66) Esta parcela não consta da pública forma de páginas atrás. 

(67) Cf. a nota (64) retro. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 311 

1796 — Pagou o Síndico Manuel da Rocha 

Monteiro à testamentária de João 

da Fonseca neste ano 181$882 

1797 — Pagou o Síndico Manuel Ferreira da 

Costa à testamentária do dito Fon- 
seca 109S792 

Soma de todos os pagamentos até 

1797 14:106$014 

Deve-se 1:093$986 



1795 — Recebeu o Capitão João 
Xavier Teixeira dos 
Guimarães para abono 
da obrigação da testa- 
mentária do Fonseca . 58$727 
Idem recebeu mais . . . 136$291 
Idem soma do seguinte : 
"Passou recibo o testa- 
menteiro Joaquim do 
Couto Lisboa em 23 de 
abril de 1799 da quan- 
tia de 202$991 para se 
darem a D. Ana Maria 
do Nascimento, viúva 
do Cap. m Policarpo José 
Dias, a quem eu Secre- 
tário José Gonçalves 
Reis passei clareza da 
dita quantia . 202$991 

1799 — Pagou o Sín- 
dico José Bar- 
bosa à testa- 
ra e n t aria do 
dito Fonseca . 98$420 



1800 — Recebeu Martinho Fer- 



312 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



1804 



nandes por conta do que 

lhe pertencer 20$250 

Recebeu o dito Ir. na 
mesma forma do Síndi- 
co Antônio José Ribeiro 19Ç200 340$861 



340$861 535$879 535$879 
Deve-se à testamentária do arre- 
matante 535$879 

1805 — Recebeu Martinho Fernandes Mo- 

reira no que mandou abonar nos 
seus anuais no L.° 1 o fls. 469 ... 30-3/4-5 
Recebeu o mesmo Moreira das en- 
tradas e profissões do seu filho 
Vitorino Fernandes e mulher dês- 
te Teresa Maria no L.° 2 — 283 . 15-1/4-0 
" Recebeu em ouro a 17 de novem- 
bro de 1805 20-3/4-3 

Soma 67- 0 -0 80$400 

Fica a Ordem devendo a tttria. do 

arrematante 455$479 

1806 — Recebeu o dito Martinho Fernan- 

des a 26 de junho de 1806 6- 0 -0 

" Recebeu Vitorino Fernandes Mo- 
reira, seu filho e testamenteiro, a 

20 de agosto 6-1/2-4 

Soma 12-1/2-4 15$150 

Fica a Ordem devendo 440$329 

1807 — Recebeu o dito testamenteiro e 

herdeiro a 21 de setembro de 1807 8$400 
Resta-se 431$929 

1808 — Recebeu o dito testamenteiro e 

herdeiro a 21 de maio 63$000 

Resta-se 368$929 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



313 



Porque a adição acima de 

1:093$986 nela se devera abater as 

três parcelas que importam 

535$879 e que se não fêz com pre- 
juízo da tttria. de 22$228 

Por isso só resta 391$157 

Custódio José Coelho, Secretário 
1810 — Recebeu o dito Vitorino Fernan- 
des a 21 de junho de 1810, em di- 
nheiro 4$000 

No desconto de seus anuais e ex- 
pensa 9$600 

No dito de sua mulher Teresa Ma- 
ria Leite 4$800 18$400 

Resta-se 372$757 

1813 — Recebeu o dito Vitorino Fernan- 
des o resto que se lhe devia con- 
forme a clareza do testamenteiro 
de Domingos Moreira de Oliveira 
que lhe servia de documento, a 
qual fica averbada de paga pelo 
Secretário e vai para o Arquivo da 
Ordem de cuja quantia passou 
quitação ou recibo no L.° 2.° fls. 
2 da conta da receita e despesa do 
Síndico Narciso Antônio da quan- 
tia de 111$191 

261$566 



(Do ABcedário, ils. 1-24 e 25) 

E com êste saldo devedor ficam encerradas no mencio- 
nado caderno as contas com o construtor. 



Recibo do Mestre Domingos Moreira de Oliveira: 



314 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"R. de Manoel Per. a Ribeiro Vigr. 0 do culto devino da venera/ 1 ' 
Orde 3r. a de S. Fran. co q. fas as vezes de Sindico Setenta oi.^ 5 de ouro 
procedidas das Escadas dastorres da capella da D. a orde q. me obrigo 
a fazer como p. 10 termo Sedetriminou enocazo q. da dita q. ta q. rece- 
bo Sobrar algúa couza, otornarei arepor adita Orde e p. r verdade de- 
tudo passo este Som. te p. r mim aSignado a V. a R. a 14 de Mayo de 
1769 ã. Declaro q. me aSigno com omeu Signal doq uzo q. he hua crus. 
Sinal de Domingos + Moreira de Olivr. a 

Abono aod.° recebedor aocomprim.* 0 de tudo como fiador epr. 
pagador como Sefoçe divida m. a própria V a R. a 14 de Mayo de 17G9 
a.declaro q. faço este abono Som. te p. r mim aSignado. 

Miguel da Costa peixoto 
Como test. a q. este fis a rogo doSobredito 
Joze Roiz Monteiro." 

★ 

"R. by de Manoel Per. a Ribr. 0 Vigr o do culto devino com vezes de 
Sindico da venerável orde 3. ra de S. Fran. co coatro centos evinte mil rs 
â conta do treceiro pagam. to da obra q faço dacapella de S. Fran. co 
epara Sua clareza em a Lembrança lhe paçei este Som. te pr mim aSi- 
gnado com oSignal doq uzo q hé húa crus sendo detudo prez.* 8 as 
test." 8 abaixo aSignadas V a R. a de Agosto 6 de 1769 São 420$000 rs. 
Signal de Dom. 0 * -f Mor. a deolivrP- 

Como tes. a q. este fis Joze Roiz Monteiro." 

★ 

"Receby de Manoel Pr. a Ribeiro vigário do Culto devino com vezes 
de Sindico daveneravel ordem terceyra deSão Fran. co duzentos milReis 
á conta do terceyro pagam. to daobra que faço deSão Fran. co , epara Sua 
claresa eminha Lembrança lhepasso este Somente p. r mim aSignado 
com oSignal de que uzo que hé huma cruz Sendo de tudo presentes 
as testemunhas abacho aSignadas. V a Rica a 28 de Agosto de 1769. 
São 200$000 // Signal de D. os + Mor. a deoliveira. 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



316 



M.<° R. do G. r P. Comisr. 0 , es .r innão Men.°, emais Definitr. 0 

N. Ca.r. m> Procurador g. sl oAlferes 
Jose Ribr. 0 deMello Se Informe e 
nos Imofrme Cómoda aclareza V a 
Rica emMesa de8 de Abril de 1770." 

(Seguem-se assinaturas) 

"Diz Dom. 0 ' Mor. a de 01ivr a rematante daObra da nobre capela 
do Sarafica P.« S. Francisco desta V a q elle tem Cumprido nafr. a do- 
termo q seacha feito nolivro delles ep. r q q. r haver seo pagam. to req. r 
a V.V.C.C. q o Irmão Sindico lhesatisfaça e q com Conhecim. to de reci- 
be se lheleve em Conta nas q der de Seo recebim. 40 e despesa. 

O N Car.° Irmão Sindico Satisfaça 
Opagam. t0 que constar selhedeve de 
q passará recibo V. Rica em Meza 
de 3 de Mayo de 1770. 

P. a V.V.C.C. sejão servidos havelo 
assim p. r bem." 

(Seguem-se assinaturas) 

E.R.M. 

Snõr R. d0 P. e Comisario eSnõr Irmão Mmn..° emais def.° 
Com oservansia dodespacho de V.C. emsiminei ahobra deque se- 
trata asima achei estava completa comforme otermo que seacha noli- 
vro dosditos termos eter vensido oseo pagam. t0 por onde osup. ,e sefas 
meresedor que seselhe satisfaça sem embargo deque V.C. mandarão 
oque for servidos hoje V a Rica 3 de maio de 1770 a 
Oprocurador geral 

Joze Rib.° de Mello 

Digo eu que he verdade recebi de Ant.° Alves teyxeira 
como Siniquo daveneravel ordem terseira de S. 
Fran. co huma barra de ouro que emporta o Seu va- 
lor em Sete Sentos etrinta eseis mil e nove Sentos e 
trinta e nove reis p. a aconta do terseyro pagam. t0 
que se me devia da Fatura dacapella nova do mes- 
mo Santo 736$939 



316 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



e juntam. te recebi mais Sem oitavas em 120$000 

recebi mais decomentos a Saber hum dodefunto 

Fran. eo Afonço Viana Sem mil 100$0Q0 

eoutro do defunto João giz. Sincoenta 50$000 

Recebi mais a mais tempo doque ja pasei recibo p. a o mes- 
mo pagam. to Seis Sentos e vinte mil reis 620$000 



Soma 1:626$939 



e como o pagam. t0 he de hú conto e Seis Sentos mil reis por ser novo 
trato que fiz ocoal Seachar no livro dos termos Sobrão vinte eseis mil e 
nove Sentos e trinta e nove reis os coais levarei em conta p. a oquarto pa- 
gam. 10 epor verdade paSei este por mil Som. te aSinado com omeu Sinal 
custumado que he huma Cruz V a Rica 5 de Mayo de 1770 

Sinal de Domingos + Moreyra deolivr. a 

TTs. Mathias Gonçalves Lemos 
Matheus Gomes da Cunha 

O N. V. I. Pro. or nos Imforme do estado emque Seacha aobra p. a 
odeferim. 10 do Sup. te em mesa de 4 de 9br.° de 1770." 
(Seguem-se assinaturas) 

"Diz Domingos Mor. a de 01ivr. a rematante daobra da Capela de 
S. Franc.° que elle tem Cumprido Com aSua obrig. am na forma do ter- 
mo que do L.° delles consta, eporque quer haver Seu pagamento, 

A Vista da Imformação do N. 
J. Pro. or o nosso I. Sindico 
satisfaça V a Rica em 11 de 
9br.° de 1770 em Mesa de dia 
Asima. 

Vieira Camara P. a W. CC. 

Com.° Vis. or Sedignem m. dar que oSindico lhe satisfaça. 

E.R.M. 

M. t0 R. Sr. P. Com.°, e S. rp Irmão Mn.° emais deff. 
O que posso emformar aW.CC. Sobre o requerim.*" do Sup. te he 
que aobra p.'° que respeita a parte da Sacristia, vai com dous pagam. ,os 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



317 



vencidos na forma do aJuste e Suposto nacapella Mor não esteija com- 
pleto odito pagamento, rigolando húa cousa com aoutra com aoutra, 
pareceme estar nos termos deselhe fazer saptisfazer opagam. to reque- 
rido, em embargo doque mandarão W.CC. oque forem Servidos V. a 
Rica 10 de 9br o de 1770 a. 

João Barbosa de Amorim 
Pr o G.* 1 

Recebi damão do cindico daveneravel Ordem 3. a de S. Fran. co o- 
quarto pagamento que me devia quehe dehum conto e seisSentos mil 
Reis a Saber que oque Recebi damão deste Cindico foi hum conto edu- 
zentos oitenta hum mil coatro Sentos e oitenta ecoatro Reis por jater 
recebi dos AnteseSores 318$516 que ambas as parselhas fazem aSobre- 
dita q. tla de 1:600$000 que tenho recebido eSeme emteira este paga- 
mento epor aSim ser ver. de lhe pacei este por mim Somente aSignado 
com omeu Sinal Custumado que he hum Cruz, etudo foi naprezença 
das tt. as abaixo aSignadas V. a R. a 9 de Dezbr.° de 1770 

Sinal de Domingos + Mor. a " 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 

"Snr. Irmão Min.° emais Snr. es da Meza 
Como estamos certos na verdade da divida 
pedida o N. Irmão Sindico lhe Satisfaça 
passando Recibo nas costas deste p. a todo 
otempo constar V a Rica em mesa de 27 de 
Janr.o de 1771." 

(Seguem-se assinaturas) 

"Diz Domingos Mor. a deolivr. a Rematante da nova Capella desta 
V. el ordem, que por ordem de VVCC. abrio os buracos, p. a as grades dos 
oCullos efrestas, dadita Capella, pelo aJuste de doze oitavas deouro, 
eComo Sup. e quer aver oSeu pagamento p. a que 

P aWCC Sejão servidos mandarlhe Satisfazer a referida 
quantia de doze oitavas deouro porestar careçido. 

E. R. M. ce 

R. do Sindico João Coelho da Sylvr. a da V. el Ordem 3 a de S. Fran. co 



âi8 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



doze oitavas de Ouro de que Consta a Petição epor assim Ser ver.* 1 * 
mandei passar este eomeu Sinal he Cruiz V. a R. a 2 de Abril de 1771. 

de Dom. 08 + Mor. a de Ohvr. a " 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 

"Receby por conta dahobra que estou fazendo de S. Fran. eo de- 
qual sou rematante hum conto eSeis Sentos mil Reis os coais Receby 
por mão do Irmão cindico daordem 3 a do mesmo Santo epor oter 
recebido enãoSaber escrever lhepassey este asignado com omeu cinal 
Custumado quehehua Crus tudo na prezensa das tt." abayxo aSigna- 
das V a R. a opr o de julho de 1771 a. 
1:600$000 

Sinal de Domingos -f Mor. a " 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 

Resebi do Sr. Mathias gonsalves Lima Vinte eCoatro oitavas de- 
ouro p. a aconta dopagamento que me nade fazer aveneravel ordem 3. a 
deS. Fran. eo dapenitencia da obra da Nova Capela que Rematei cuja 
Coantia me pagou como procurador da dita obra. Vila Rica 26 de abril 
de 1776 a São 24/8. 

Sinal de domingos + mor. a deolivr. a " 
(Seguem-se assinaturas das testemunhas) 

"Recebi do Irmão Sindico da Venerável Ordem 3 a de S. Fran. CP 
Pedro Ant.° Roiz por mão do Ir. João de Amorim Pr. a cincoenta e seis 
oitavas, e tres vinténs de oiro a conta da Rematação, q fiz da capella 
dad. a Venerável ordem, aqual q. ,ia Levarei em conta a mesma: e por 
verd. e , enão sabe ler, nem escrever pedi, e roquei ao R. Ign. co José Cor- 
rea, que este fizesse, e como test. a aSignasse, eeu me aSigno com húa 
Cruz meo Signal costumado. Villa Rica 19 de 8br.° de 1776. 

Signal, eCruz de Dom. os + Mor. a deolivr. a " 
(Seguem-se assinaturas das testemunhas) 

"Recebi do S. r João Friz Salgado como procurador G. al da vene- 
rável ordem terseira Sem oitavas e meya de ouro p. a aConta doque 
medeve am. a ordem pela Escriptura deque Consta o aJuste dam. a 
obra da Capela ep. a Clareza do referido paso opresente por mim so- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



mente aSignado que he hua crus com que me aSigno V. a Rica 29 de 
Mayo de 1780. 

São 100 e 1/2 oitavas 

Signal de Dom." + Mor. a de 01iv. a 

Reseby damon doSr. Alferes Fran. co domingues deCarvalho junto 
com Miguelda Costa sinco oitavas deouro daporta que acreseu naSe- 
vidam p. a ostilhados a coal he Natorre e he de alvenaria epor verda- 
de paso opresente por mim somentes aSignado com huma crus e fei- 
to a meu rogo por Antonio daCunha de 01ivr. a Vila Rica 9 de Sebr. 0 
de 1782. 

Senal dedom. os + Mr. a deOlivr a 

Como test. a queeste escrevi aRogo doSobredito 

Ant.° da Cunha de 01ivr. a 

Reseby do Sr. Alfrees Fran. t0 domingues de Carvalho como pro- 
curador da ordem 3 a de Som Fran. co sento eSinco mil eduzentos eSe- 
Senta edois Reis que foi p. a sedar aos Canteiros damesma Capela 
aCoal Coantia levarei em Conta Na rematasam que fis da mesma Ca- 
pela de Sam Fran.°° epor verdade lhepaso este por mim Somentes aSi- 
nado com huma Crus e feito a meu Rogo por Antonio daCunha de- 
olivr. a Villa Rica 9 de Sebr.° de 1782.a. 

Sinal de dom. os + Mor. a deolivr. a 
Como test. a que este escrevi aRogo doSobredito 
Ant.° daCunha deolivr. a 

São 105Ç262 

R. bi doAlf. es Fran. co deCarvalho procurador g. al daven. el ordem 3. 3 
dapenitencia desta V a 116/8 . a 1/2 5 v. tes que são Sento, etrinta enove 
mil nove Sentos eoitenta, eoito reis aConta da Rematação que fiz des- 
ta nova Igreja naqual lhelevarey emConta no ajustam. 10 deContas 
epor aSim Ser Verd. e e não saber ler nem escrever pedi, e roguei a 
João Pereyra do Nascimento que este por mim fizese, ecomo tt. a 
aSigna-se, emprezença dasmais tt. as que presente, Seachavão eeu me 
aSigney com o meu Signal constumado que hé húa cruz Vila Rica 12 
de 8br.o de 1782 

Signal de Domingos + Moreyra deolivr. a " 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 



320 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"R. do O."» m. r Manoel da Motta de Andrade vinte edous mil reis 
aConta daRematação que fiz danova capella de S. Fran. co desta villa 
naqual lhelevarey em conta ad. a coantia, epor não saber ler nem es- 
crever pedi e roguey a João Pereyra do Nascimento que este por mim 
fizese, ecomo tt. a aSignase em prez.? a das mais tt. 03 que prezentes Se- 
achavão eeu meaSigney com o meu Signal Costumado que hé húa Crus 
Vila Rica a 12 de 8br o de 1782 

Signal de Dom. 1 * 4- Mor. a de01ivr. a " 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 

"Receby do Ajudante Manoel Alz de Meyreles Sindico da Vene- 
rável ordem 3 a de S. Franc. 00 desta Villla aq. tla de Çento eCetenta e 
nove mil trezentos e Vinte eCoatro reis p. r Conta da Obra q fis da re- 
matação dad. a Capella e p. r verd. e lhemandarey passar este p. r mim 
somente aSignado Com nua Crus Sinal deque Uzo V a Rica 4 de Ou- 
tubro de 1783. 

Sinal de Domingos + Mor. a de01ivr. a " 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 

"Receby da V. el Ordem 3 a de S. Fran. co por mão do Ir. Procura- 
dordor Geral oTen. te Fran. co Domingues de Carv.° Vinte enove Oita- 
vas tres q. tos ehum Vintém p. r Conta da Rematação da obra desta Ca- 
pella e p. r Verd. e enão saber ler nem Escrever pedy a Jose Bernardes 
de Fig. d0 que Este por mim fizese eEu hoaSigney com o meu Signal 
dequeuzo quehe huma Cruz V a Rica 20 de 8br.° de 1786 
São 29 3/4 1 de ouro 

Signal de Dom. 08 + Moreyra." 
(Seguem-se assinaturas de testemunhas) 

"Recebi do Procurador da venerável ordem 3 a de S. Fran. co de 
v. a Rica p. r mão do meu procurador Bastante o cap. m João Xavier 
Teixeir. a dos Guim. eB a q. titt de quinhentos oitenta e sinco mil cento e 
doze reis p. r conta da obra da capela da d. a ordem a qual foi feita p. ln 
meu testador Domingos Mor. a de oLivr a e por ter recebido a referida 
q. to passo o prezente como ttt.° q sou do d.° Mor. a q. prometo levar 
em conta nas q. tenho de ajustar com a d. a ordem e vai este por mim 
feito e asinado Marianna 27 de Junho de 1796 

Joaq. m de couto Lx. a 

São 585$ 112 reis. 



SÃO Kl! AN CISCO DE ASSIS DE OURO PBÊTO 321 

R. l v do S. or Dom. ,R Alz da Costa como Procurador da Ordem 3 a de 
S. m Fran. 00 desta V. a oitto oitavas de Ouro que me pagou pelo Faleci- 
do Dom. os Mor. a de 01ivr. a e p. r verdade passo o prezente som. te p.' mim 
asignado. V a R. a 2 de Dezembro de 1794. 

São 8/8 !,s 

Joze Barboza de Oliveira 

R. b * da Snr. a D. Anna M. a do Nacim. t0 a coantia de duzentos e 
dous mil e nove sentos e noventa e hum reis q me pagou pela ordem 
3 a de S. Fran. 10 de V a Rica a d. a coantia lhe levarei em conta a d. a 
ordem na divida q. ficou devendo de maior coantia o falecido Domin- 
gos Mor. a de 01ivr. a de q. m sou testamentr. 0 de cuja coantia a mesma 
ordem sastifara a d. a Snr. a D. Anna M. a do Nascimt 0 q eu por este 
doume por pago da d. a coantia de q lhe levarei em conta do q. se 
deve a mesma testamentária e por asim ser verdade paso este de m. a 
letra e sinal Marianna 23 de Abril de 1799 
Joaq. m de couto Lxa." 

Recibos de Martinho Fernandes que forneceu e aparelhou a 
cantaria: 

"Recebi de João Gonçalves pr. a como Sindico da venerável Ordem 
terceira da penitencia de Sam Fran. co desta V a por mão do d.° Do- 
mingos Fran. co de carvalho a q. tn de vinte mil duzentos e setenta e sete 
reis por conta de maior quantia q. a dita ordem me deve de cantaria 
q. aparelhei p. a a sua capela a coal quantia sera levada em conta no 
resto da rematação q. fes de toda a obra de Domingos Mor. a Deolivr. a 
em q. sou eu emtereçado em maior q. ta do q. a recebida e por ser verd. e 
pedi, e roguei a Joze Roiz da S. a que este por mim fizece e comigo as- 
signace. V a Rica 16 de 7br.° de 1800. 

16 — 3/4 — 4 

Martinho fr2. 

Como testemunha que este fis a rogo do sobredito — José Roiz 
da S. a 

R. ci do Sr. Cap. m Manoel Frf da S. a a q. tia de sesenta e sete oita- 
vas de Ouro a saber 30/8 us — 3/4 — 5 q. se abonou no q. eu devia a 
Ordem 3 a de S. Fran. to desta V a de meus anuaes e Expensas, 15 1/4 
q pago da Entrada e Profissão de meu F.° Victorino Frz. e Thereza 



322 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



M. a Leyte em q. entra o q. pertence ao Andador e 20/8" — 3/4 — 3 em 
ouro q. r. ci ao fazer deste do d.° Sr. como Proc. or G. 1 da d. a Ordem p. r 
conta do q. me pertence da Arremat. am da Obra de Pedra da Capella 
de que foi arrematante Dom. os Mor. a de 01ivr. a q tudo faz a q. tia de 
67/8 as . E p. a clareza passo prezente por mim somente assignado V a 
Rica 8 de 7bro de 1805. 

Martinho frz." 

Receby do Irmão Sindico da Venerável Ordem 3 a de S. Francis- 
co desta Villa á conta do que a m. ma ordem me deve como ttt.° e her- 
deiro de Martinho Frz. e da obra da Capella de q. foi rematante Do- 
mingos Mor. a de 01iver. a , como consta de húa clareza q. passou o ttt.° 
do d.° Frz. e dezoito mil e coatro centos reis: a saber em dinh.° coatro 
mil reis, e no que se hade abonar no que devo a ordem, e minha m. cr 
como irmaons que somos catorze mil, e coatro centos, q. tudo forma 
a quantia de dezoito mil e coatro centos reis, que ficão abonados na 
clareza, que para em meu poder, e levarei em conta; e por não saber 
ler nem escrever pedi ao P. e Domingos Fran. co de Carvalho que este 
por mim fizese, e como testemunha asignase e eu me asignei com 
huma cruz, signal de q. uzo. V a Rica 21 de Junho de 1810. 
Signal de Victorino + Frz. e 
Como tt. a que este escrevi a rogo de Victorino Frz. e , e vi 
asignar//0 P. e Dom.os Franco de Carv° 

Diz Victorino Fernandes Moreira herdeiro deSeu Pay Martinho 
Fernandes Moreira, que á sua noticia chegou, que VS. déra hum Pro- 
vimento no Livro da Venerável Ordem 3. ra deS.Francisco desta Villa, 
determinando, que am. ma Ordem não fizesse mais pagam. to algum ao 
Sup. naqualid. 0 que Representa, sem huma exacta averiguação das 
Contas que havião com o arrematante Domingos Moreira de Oliveira, 
ou seu ttt.°; eherdeiro, eque anenhum outro devia pagar o Resto da- 
Obra que arrematara, eliquidada que fosse aq. ,ia Sedeveria também 
examinar aclareza deque tratava o Recibo n.° 10 do Sup. e junto ao 
docum. 1 " n.° 2.° daquantia de 18$400 p. r elle recebida para certeza da 
sua legalid.'' de Recebedor, huma vez, que o Pay do Sup. e não fora 
oproprio arremat. 0 da Obra da Capella, emque talvez hajão, ou deváo 
haver algum descontos, como constava a VS. eque liquidados, setor- 
nasse nenhuma a Suposta divida, que p. r antiga, não terião os Irmaons 
da Meza actual ointeiro conhecimento precizo para matéria detanta 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



3:23 



ponderação oque muito recomendava Seobservasse, pena de Respon- 
sabilid. e He certo Senhor, que Martinho Fernandes Moreira Pay do 
Sup. e não foi o arrematante da Obra; porem todos sabem, que elle 
concorreo com a Cantaria eSua manufactura para ella, por ajuste que 
fez com o Rematante Domingos Moreira. Desta Cantaria, lheficou 
este restando aq. tia de 335$930 rs. como declarou Joaq. m do Couto Lx. a 
seu tt.° no papel incluzo, oqual passou, para q oPay do Sup. e , podes- 
se haver da Ordem aSua importância, ep. r consequência levar em 
conta naq. am. ma Ordem devia ao seu Testador. Tanta certeza tinha 
a Ordem desta divida, que p. r conta delia, pagou ao Pay do Sup. e em 
Sua vida e depois do Seu falecimento aom. mo Sup. e , as parcelas que 
constão do verso do referido papel todas importantes em 224$739, in- 
cluindose ainda nas duas ultimas parcelas, os 18$400 rs. deque VS. 
faz menção nodito Provimento vindoSe p. r este modo a Restar ao 
Sup. e aquantia de 111$191 rs, Semque Sepossa hezitar aminima du- 
vida contra isto. Por outra parte, todas asparcelas recebidas pelo Pay 
do Sup. e epor este, constantes do verso do referido papel, tem am. ma 
Ordem abatido naConta Corrente, formada em hum dos seus Livros 
com aquelle arrematante Domingos Moreira, aq. m p. r ella estão final- 
mente devendo ainda daObra 372$757, quantia muito sobeja para so- 
lução da divida do Sup. e oqual pelo que fica exposto, req. r a VS., que 
informandose daverdade exposta, ou do Secretario da Ordem, ou ávis- 
ta daquella Conta corrente mandando vir o Livro á Sua prezença, 
sedigne determinar, que fique sem effeito omencionado Provimento, 
eque a Ordem Satisfaça ao Sup. e o que Se lhe está restando; visto que 
não pode haver nisso aminima duvida, emenor contradição algúa. 

P. a VS. a sedigne 
assim defirirlhe 
E.R.M. 

Responda a Meza actual da Ve. neI 
Ordem 3. a de S. Francisco. Villa 
Rica, 8 de Dezembro de 1811. 
Monteiro." 

Reconhecida a procedência da petição supra por certidão 
do Secretário da Ordem, foi pago do que se lhe devia o peticio- 
nário Vitorino F. Moreira. 



324 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



A propósito da cobrança de Vitorino Fernandes, herdeiro 
de Martinho, há ainda no arquivo da Ordem os seguintes 
documentos avulsos: 

1 — "Da obra da capela da venerável ordem 3. a de S. fran. 00 da vila 

rica de q he rematante D. os Mor. a deolivr.a se esta restando da 
cantaria da dita obra ao Sr. Martinho frz trezentos e trinta e 
cinco mil e nove sendo e trinta reis poderá o Irmão Sindico da 
dita ordem pagar ao d.° Sr. Martinho frêz q. avista deste e com 
reçibo do mesmo lhe levarei em conta como tttr.° do d.° D. ns 
Mor.a deolivr. a e j oze Ant.° de Brito. Mariana 13 de Abril de 
1796// o tttr.o Joaq."' de Couto Lx. a 

2 — Recebi o resto da letra aSima e consta do Livro da receita aonde 

aSinei a folhas duas do mesmo Livro a rogo de meu irmão Vito- 
rino Ffz Mif// Fran. co da Vera Cruz. 

3 — Imo. S. or Dez. or e Prov. or = Para darmos comprim. to ao Sabio 

desp.° de V.S. posto na Suplica de Victorino Friz Mor.a erdr. 0 de 
Martinho Friz Mor.a novam. te vimos e examinamos as contas q. 
esta Ordem tem como o Arremat. p q. foi da Capella, Dom.™ Mor. a 
e nella encontramos ser o m. ,n " ou seu tttr. 0 credor a d. a Ordem, 
assim como não deixa esta meza de conhecer ser Marinho Frif 
e hoje o Sup. e credor ao d.° Arremat. e p. r cuja cauza não teve 
esta Ordem duvida em fazer aceitação da letra tacitam. te p. a a 
hir pagando p. 1 conta do Arremata como o tem feito, e consta 
do L.° de contas desta m. ma Ordem e da d. a letra, e duvida ne- 
nhuma tem em continuar no pagam.'" da m. ma modicam. e 

Tendo esta Meza tanto em vista ainda assim m. mo se pode- 
ria emganar em receber a letra não o devendo fazer porem inda 
m. mo que assim acontecesse nunca ella merecia o nome de divida 
suposta porque hua vez que foi asseito e reconhecido o Testador 
do Sup. e e hoje o m. mo Sup.° p. r acredor ao Arremat. e , e inda a 
esta Ordem, está ella obrigada a satisfazerlhe, e cazo se achasse 
emganada o direito q. tem he contra o Arrematante quando as- 
sim não aconteçe avista do que fica ponderado. 

Esta Meza he composta de muitos in deviduos huns com 
poucas Luzes, e outros sem nenhúas, e p. a evitar algúa tortura 
q possa haver tendente a papeis, e clarezas da Ordem são no- 
meados Secretários eluminados acargo de q.'" está o exame dos 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 325 

ditos papeis e clarezas sendo a sua obrigação o representar em 
Meza o estado delias, tendo sido entre outros hum o Capitão Ma- 
noel Ferr. a da S. a Sintra q. pelas m. t;,z Luzes bom talento, e 
grande zelo q esta Meza reconhece nelle não deixaria de nella 
fazer ver o engano em q. a m. ma teria cahido antes pelo contra- 
rio no tempo de sua Secretaria foi q. por conta da d. a letra se 
fizera amaior parte dos pagm. u,s , e no m. mo L.° da conta corr. e 
pela sua própria letra sevem feito sete abonos, einda m. mo nas 
costas desta letra dois, seria isto motivo m. t0 bastante p. a os vin- 
douros não cogitarem sobre apagm. t,, da m. ma letra quanto mais 
q elles nunca perdem de vista os interesses dam. ma Ordem se esta 
Meza não conhecesse o S. to Espirito e louvável zelo com que V.S. 
delibera, ficaria supondo que o provimento só se em caminha- 
va a ultrajar os membros de que ella se compõem supondo-a ca- 
pas de pagar dividas supostas porem bem longe de tal soporem, 
Suplicaõ a V.S. abem digna reforma do d.° Provim.'" mandando 
pór conta afim de ficar de nenhum ef feito não só pelas razoens 
já aSima relatadas como para a Meza poder continuar no pa- 
gam.* 0 daquella letra comforme as suas forças he o que podemos 
responder a VS. e avista da nossa resposta mandará o que for 
servido. Vila Rica em Meza de 12 de Fevereiro de 1812 — De VS 
os mais attenciozos Servos O P: Pantaleão da Silva Ramos, Mi- 
nistro ' /Manoel Frz da S. a , Visse Mn. 0 Manoel Jozé de Ar.°, Ex 
vice M.°// Ant.° Joaq. cardozo, Sindico/ /Camillo de Castro Per. a 
de Andrs — Ex Def.°' ' Jozé Roiz Cachado/ /Joze Per. a de And. 0 
ex Def. or / /Antonio Jozé Rib:° ex Sindico//AíanoeZ Joze Barbosa, 
Secret. 0 // João Nepomuceno Simoins Borges, ex-Definidor .// 
Carlos de Assis Figr." 0 ex Def. or /Bento Pereira Marques -ex De- 
fenidor ' Manoel Teixeira de Souza / / Manoel Giz Neves, Ex 
vigr.°//" 

Documentos relativos à herdeira Inocência Moreira: 

'Ulmos. Snr. es Rm.° Com. 0 , Min.° e mais Definitorio 

Dizc Innocencia Moreira e seos filhos, Viuva e herdeiros de Joa- 
quim do Couto Lx. a que sendo também sucessores de Domingos Mo- 
reira, mostra a Certidão junto que no Invent. 0 do mesmo se descreveo 
a divida activa de 1:443$380 que esta Venerável Ordem devia ao Tes- 



326 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



tador da factura da obra, e mostra a publica forma com o theor da 
Conta corrente tirada pelo Secretario que foi desta Ordem o Sr. Joze 
Giz. Reis, mostrando da m. ma Certidão caber a Sup. e na qualidad. 6 de 
herdr° 240$563 1/3, e a terça 481$126 rs. e p. r que o marido e Pay dos 
Sup. es fo o tttr.° he visto competir lhes o recebiment 0 de tudo que 
monta a 721$689, e p. r isso requerem a V.C. sejão servidos ordenar ao 
Meret. mo Senhor Irmão Sindico desta Respeitável Corporação o pa- 
gam. 10 presced. 08 os termos do estilo. 
E.R.M." 

★ 

"Dizem Innocencia, Mor. a e seos f. os Viuva e herdr. os de Joaq. m do 
Couto Lx. a , e também de Dom. os Mor. a , que do Invent. 0 deste precizão 
p. r Certidão, quais são os herdeiros do m. mo — Que na discrição de bens 
foi comprihend. 0 a divida ativa da Ordem de S. Fran. 00 da Imp. al Ci- 
dade do Ouro preto, a emport. a dessa divida, e aq. m foi partilhado, e 
quanto coube a cada hum herd. 0 e 3.°, e q. m hé, ou foi o tttr.° In- 
ventr.° 

Passe. Mar. na 16 de Agosto de 1832 P. a V.S. seja servido md. ai 
passar 

Fon. ea 

E.R.M" 

* 

"Joze Marianno da Cruz Escrivão de Orfaons nesta Leal Cidade 
de Marianna e seo Termo etc. 

Certifico que revendo o Inventario dos bens que se procedeu por 
fallecimento de Domingos Moreira de Oliveira de quem foi Inventa- 
riante e Testamenteiro Joaquim do Couto Lisboa e do título de her- 
deiros consta serem estes os seguintes = Anna Maria//Innocencia Mo- 
reira casada com Joaquim do Couto Lisboa, Antonio Moreira e Fran- 
cisco; 

descritos bens a divida 

activa de hum conto quatrocentos quarenta e tres mil trezentos oiten- 
ta reis, que deve a Ordem Terceira de S. Francisco da Imperial Cidade 
de Ouro preto de cuja divida se deo em pagamento a Terça // Qua- 
trocentos oitenta e hum mil cento vinte e seis reis e dois terços // Ao 
Herdeiro Antonio = duzentos quarenta mil quinhentos cecenta e tres 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



327 



e hum terço // A herdeira Innocencia = duzentos quarenta mil qui- 
nhentos e cecenta e tres e hum terço // O referido hé verdade e cons- 
ta do d.° Inventario a que me reporto. Em fé do que fiz passar a pre- 
zente em observância do despacho retro do Tenente Coronel Furtu- 
nato Rafael Archanjo da Fonseça proffesso da Ordem de Christo pre- 
sidente da Camara Municipal desta Cidade e Juiz de Fora e Orfaons 
e vai sem duvida pella conferir e achar conforme em fé do que a su- 
bscrevi e asignei nesta Leal Cidade de Marianna aos 16 de Agosto 
de 1832. 

Joze Mariano da Cruz Escrivão de Orfaons a subscrevi, 
conferi e asignei. 

Joze Marianno da Cruz." 

★ 

Documentos relativos à herdeira Eufêmia Rosa: 

"Ulmos. Snrs. Rmo. Com.° Min.° e mais Difinitorio 

Dizem Roza Eufemia, e seu filho Ignacio Mor. a V a , e herdr.° de 
Fran. co Mor. a de 01ivr. a e este de Dom. os Mor. a de 01ivr. a que apre- 
zentarão a V.C. pelo requerim. to , e cer. tam estar esta V. pl Ordem a de- 
ver aos Sup. tes a q. tia de 240$563 1/3, que coube em par. ta a aquelle 
marido e Pay dos Sup. es Fran. co Mor. a de Ohvr. a como herdr. 0 do d.° 
Dom. 08 Mor. a de Ohvr. a ; e p. r q. V. C. forão servidos ordenar pelo Res- 
peitável Desp.° que os Sup. PS declarassem de que procede esta divida; 
o declarão ser proveniente da factura da obra da Igreja desta V. el Or- 
dem 3 a e consta de huma conta corrente tirada pelo Secretr. 0 que foi 
desta Ordem o Sr. Jozé Giz. Reis, e na qual abatidos todos os recibos 
esta a m. ma a dever de resto a q. tia de 1:443$380, aos Sup. es lhes coube 
em par. ta os 240$563 cuja conta hade constar dos L. os da m. ma V. Pl 
Ordem; e também a oferecerem a V.C. em publica forma com o theor 
da dita conta corr. te em requerim. to de huma das herdr. 86 Innocencia 
Mor. a e seos filhos; av. ta deste esclarecim. to vem os Sup. es pedir a V.C. 
a graça de Ordenar ao Meritissimo S. or Irmão Sindico que saptisfaça 
aos Sup. es a q. tia ped. a , e estão promptos a assignar as quitaçoens pre- 
cizas 

P. a V.C. sejão servidos asim o mandarem 
atendendo a pobreza dos Sup. cs 

E.R.M. ce 



asa 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Senhor Irmão Min. 0 eMais Difinitorio da Venerável Or- 
dem 3. a de S. Fran. 00 

A Sup.* declare a divida 
de que procede 
I. Cid." do O.P. em Meza 
de 5 de Agosto de 1832 

Joze Frz. da S. a 
Vice Min. 0 

Dizem Roza Eufemia e seu filho Ignacio Moreira, viuva e erdeiro 
de Fran. to Moreira de 01iver. a , q do Inventario de Domingos Moreira 
de 01ivr. a percizão p. r sertidão o tior da adição q. tocou em partilha ao 
finado marido e pai dos sup. tes na divida q.deve a Ordem 3. a de S. 
Francisco da Imperial Cidade do Ouro preto// 
Pede a V.M. seja servido mandala passar// E.R.M. 
Passe. Mar. na 24 de 
Julho de 1832 
Fo?i. ru " 

★ 

"Joze Marianno da Cruz Escrivão de Orfaons nesta Leal Cidade 
de Marianna e seu Termo etc. 

Certifico que a folhas treze do Inventario de Domingos Moreira 
de Oliveira no Pagamento feito a Francisco Moreira de Oliveira de 
que fas menção a Petição retro a Primeira Addição prencipia assim 
= Primeiramente haverá o Herdeiro Francisco em pagamento de sua 
legitima Paterna que lhe provem por fallecimento de seo Pay na di- 
vida alias = segunda Addição principia assim = Item haverá mais 
a este Pagamento na divida que deve a Ordem Terceira de São Fran- 
cisco de Villa Rica somente a quantia de duzentos e quarenta mil 
quinhentos e cecenta e trez reis e hum Terço de Real. Nada mais con- 
tinha em a dita Adicção a que me reporto por bem do Despacho retro 
lis passar a prezente que vai sem duvida pella confferir em fé do que 
a sobrescrevi e asigno nesta Leal Cidade de Marianna ao primeiro de 
outubro de mil oitocentos e trinta e dois annos e eu Joze Marianno 
da Cruz escrivão de Orfaons a sobrescrevi, conferi, e asignei. 



Jozé Marianno da Cruz 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRKTO 



Feitio $150 
Busca S960 



1$110 

Diz Roza Eufemia e seu filho Ignacio Moreira, Viuva e erdeiros de 
Francisco Moreira de Oliveira este de Domingos Moreira de Oliveira 
moradores na Cidade de Marianna q pela sertidão aprezentada p. r seu 
bastante procurador João Moreira Correia mostra os suplicantes lhe 
dever a Venerável Ordem nomiada do Ouro preto a quantia de duzen- 
tos e quarenta mil quinhentos e secenta e trez reis e hum Terço de 
veal p. r tanto. 

P. a VV. Carid. cs se dignem pagar a m. ma quantia no q. 

R.M. 

João Moreira Correia 
Como Procurador" 



Com as contas do Mestre Domingos Moreira de Oliveira 
relaciona-se a seguinte, apresentada por João da Fonseca Neto 
e consta de documento avulso do arquivo da Ordem: 

"A venerável Ordem 3. a de Sáo Francisco de Villa Rica: a João 



daffonceca Netto 

D.« 

Por 26 carros de Pedra p. a o paredão a 1/4 6-12-0 

Por 16 carros dita p. a o dito a 1/4 4 - 0 - 0 

Por 22 carros dita p. a o dito a 1/4 5-12-0 

Por Jornal de 5 pessoas do dito 2 a 1/4, e 3 a 6 vs. . . . 1 - 0 - 2 

Por Jornal de 5 pessoas do dito 2 a 1/4, e 3 a 6 vs. . . . 1 - 0 - 2 

Por Jornal de 4 pessoas no dito 2 a 1/4, e 2 a 6 vs . . . . 0 - 3 4 - 1 

Por Jornal de 6 pessoas no dito 2 a 1/4, e 4 a 6 vs . . . . 1-1 '4-0 

Por 20 carros de pedra p. a o dito a 1/4 5 - 0 - 0 

Por Jornal de 3 pessoas no dito 2 a 1/4 e 1 a 6 vs . . . . 0-12-6 

O Jornal de 4 pessoas no dito 2 a 1/4 e 2 a 6 vs 0-3 4- 4 

Por 14 carros de Pedra para o dito a 1/4 3-12-0 

Por 4 lages a 1/2 2- 0 - 0 

Por Jornal de 3 pessoas no dito hum a 1 '4, 2 a 6 vs . . . 0-12-4 

Por Jornal de 5 pessoas no dito 2 a 1/4, e 3 a 6 vs . . . . 1- 0 - 2 

Por Jornal de 5 pessoas no dito 2 a 1/4, e 3 a 6 vs . . . . 1- 0 - 2 

Por Jornal de 4 pessoas no dito 2 a 1/4, e 2 a 6 vs . . . 0 - 3/4 - 4 

Por 23 carros de Pedra p. a o dito a 1/4 5-34-0 



330 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Por 3 carros de lages a 3/4 2-1/4-0 

Por Jornal de 2 pessoas no dito hum a 1/4; outro a 6 vs 0-1/4-6 

Por Jornal de 2 pessoas no dito hum a 1/4; outro a 6 vs 0-1/4-6 

Por Jornal de 3 pessoas no dito hum a 1/4, 2 a 6 vs . . . 0 - 1/2 - 0 

Por 18 carros de Pedra a 1/4 4-1/2-0 

Por Jornal de 4 pessoas no dito 2 a 1/4, e 2 a 6 vs . . . . 0 - 3/4 - 4 

Por 15 carros de Pedra p. a o dito a 1/4 3-3/4-0 

Por Jornal de 5 pessoas no dito 2 a 1/4, 3 a 6 vs 1- 0 - 2 

Por 16 carros de Pedra p. a o dito a 1/4 4 - 0 - 0 



Soma 59-1/2-4 

Por 2 Lages p. a a dita 1- 0 - 0 

Por Jornal de 4 pessoas na dita 2 a 1/4, e 2 a 6 vs . . . . 0 - 3/4 - 4 
Por Jornal de 4 pessoas na dita 2 a 1/4, e 2 a 6 vs . . . . 0 - 3/4 - 4 

Por Jornal de 3 pessoas na dita 2 a 1/4 e 1 a 6 vs 0-1/2-6 

Por 3 Pedras p. a a Torre do Sinno a 1/4 0 - 3/4 - 0 

Pedra que bottey p. a as Casas de São Francisco, 

que forão de Andre Nunes: 
Por 4 Esteyos de pedra e quatro lages . . 2-0-0 
Por 2 carros de lages para a escada a 

1/4-4 0 - 3/4 - 0 

Por 2 carros de pedra a 1/4 0-1/2-0 

Por huma Lage p. a o fogão 0 - 1/2 - 0 

Por 3 Carros de Pedra p. a o cano da cal- 
çada 0 - 3/4 - 0 

Por Jornal de 4 off. eK na dita 2 a 1/4 e 

2 a 6 vs 0 - 3/4 - 4 

Por Jornal de 3 pessoas na dita hum a 

1/4 e 2 a 6 vs 0 - 1/2 - 4 

Por Jornal de 3 pessoas na dita hum a 

1/4, e2a6vs 0 - 1/2 - 4 

Por Jornal de 6 pessoas na dita 3 a 1/4 

e 3 a 6 vs 1-1/4-2 7-3/4-6 

Em outra morada de Casas 



Por Jornal de 6 pessoas na Parede 


do 








quintal 




1 - 


0 • 


■ 4 


Por Jornal de 4 pessoas no dito a 6 


vs . 


0 ■ 


■ 3/4 • 


- 0 


Por Jornal de 4 pessoas no dito 2 a 


1/4 








e 2 a 6 vs 




0 - 


3/4 ■ 


■ 4 


Por Jornal de 4 pessoas no dito 2 a 


1/4 








e 2 a 6 vs 




0 - 


3/4 • 


• 4 


Por 19 carros de pedra a 1/4 




4 ■ 


• 3/4 ■ 


■ 0 


Por Jornal de 6 pessoas 3 a 1/4 e 3 a 


6 vs 


1 - 


■ 1/4 ■ 


■ 2 


Por Jornal de 5 pessoas 3 a 1/4 e 2 a 


6 vs 


1 - 


■ 0 • 


• 4 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



331 



Por Jornal de 3 pessoas 2 a 1/4 e numa a 

6 vs 0-1/2-6 

Por Jornal de 2 pessoas na dita hu a ou- 
tro a 6 vs 0 - 1/4 - 6 11-3/4-6 

83 - 1/2 - 6 

Por 16 carros de pedra p. a a calçada que fiz por conta 



da ven. el ordem 3. a a 1/4 4 - 0 - 0 

Por Jornal de 9 pessoas na dita 5 a 1 '4, e 4 a 6 vs . . . . 2 - 0 - 0 

Por Jornal de 9 pessoas na dita 5 a 1 /A, e 4 a 6 vs . . . . 2 - 0 - 0 
Por mais o q em portarão as pedras e areya que foi p. a 

as cazas do pe da Igreja o seguinte 2 - 1/4 - 0 

Por huma Lage, que foy p. a a torre grande 1-1/2-0 

Por um carro de Lages p. a hum Corredor 0 - 1/4 - 4 



Soma (68) 95 - 3/4 - 2 



Ainda com relação a contas de João da Fonseca Neto: 

"Por êste por nôs mandado fazer, e assinado o Ministro e mais 
Definitorio da Venerável Ordem Terceira da Pinitencia de São Fran- 
cisco desta Villa nos obrigamos pelas pessoas que reprezentamos a pa- 
gar por nos ou por nossos Sucessores e pelos Rendimentos da dita Or- 
dem ao Senhor Capitão João Xavier Teixeira dos Guimarães, como Er- 
deiro e Testamenteiro do falescido nosso Irmão João da Fonseca Neto 
ou a quem mostrador deste for todas as vezes que nos for pedido sem 
duvida alguma a quantia de quinhentos oitenta e cinco mil cento e 
doze reis que procedem de igual quantia de que nos passou recibo o 
Testamenteiro do falescido Domingos Moreira de Oliveira, Rematan- 
te que foi da obra da Capela da dita Ordem por passagem que da mes- 
ma q. tó fes para pagamento do que devia â Erança do dito Neto, cuja 
divida reconhecemos por verdadeira e por isso obrigamos a satisfa- 
ção delia não só os mencionados rendimentos como também todos os 
bens da referida Ordem. Villa Rica em Meza de 10 de Julho de 1796. 
Jose Gonçalves Reis Secretario actual da mesma Ordem que o escrevi 
e asenei// AntP RibrP da Costa, Men. 0 / /Joze Gonc es Reis, Secret. 0 // 
Manoel Alz de Meir. lca 



(68) Em réis: — 114$975. 



532 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Por conta desta quantia havia Ja recebido em 15 de 8br.° do 
anno passado como procurador Bast.° dos Erdr/ S e ttt.° de Dom. r: 
Mor. a de OHvr. a como remat.' da obra de S. Fran/" e por mão do 
pro. or da m." ,a Ordem o S. r Ajud. 1 ' Manoel Alz de Meireles a quantia dc 
sincoenta e duas oitavas de ouro q. permeto levar emconta na q. ti:l des- 
te m. m " Cred. 0 e para asim constar passo o prezente p. 1 mim feito e 
asinado e resgato o q. havia passado de mão da m." ,a 52/8 — V. a Rica 
29 de Julho de 1796 João X. ,r Teixr a dos Guim. 18 

Pagou o Irmão Sindico Jacinto Alves de Meirelles de resto desta 
obrigação a quantia de cento quarenta e hum mil quinhentos e se- 
tenta e sete Villa Rica 30 de Setembro de 1801// Joze Gonc * Reis, 
Secret. 0 

Receby a quantia mencionada dos cento quarenta hum mil qui- 
nhentos setenta e sete V a R. a 8 de Janer 0 digo era ut supra // João 
X." Teixr. a dos Guim.'"" (Documentos avulsos). 

Em 1777, já inaugurada a igreja e servindo ao culto, em- 
bora não entregue ainda à Ordem (ver adiante cap. VII), esta, 
com visível e carinhosa solicitude pela sua obra, fê-la ver e 
examinar por peritos de reconhecida competência nos meios 
artísticos da época. 

É o que informam os documentos que passo a transcrever: 

"Recebi do Sindico oI. r João damorim p. ,a Sete oitavas de ouro 
porsedidas davestoria emq. fui louvado na mesma q fui Louvado na 
obra de Sam Fr."' desta villa e por estar paguo e satisfeito lhepaso este 
deminha letra e Sinal. Villa Rica Sete de julho de 1777 &.Theotoni Joze 
deoliveira. 

Receby do Irmão Cindico João de Amorim Pr. a Sete oitavas de 
ouro porcedidas da Louvação emque fui louvado namesma que Se fes 
naCapella de S. Fran."' por estar pago paço oprezente Som. te pormim 
asinado. Villa Rica 7 de Julho de 1777// Thomas da Maya Britto 

Receby do Sr. Irmão Sindico João de Amori Pr. a quatorze oitavas 
emeya deouro procedida das despezas q fiz naviagem e Jornais desde 
odia q. Sahi da V a de S. João dei Rey athe a ela merecolher chamado 
da vn. 1 ordem 3 a para aSestir a Louvação q Sefez naobra daCapella 
da d. a ordem 3 a Franz" ep. a Sua clareza e m. a Lembrança passey 
este de m. a Letra e Signal. V a Rica 7 de Julho de 1777//Fran. M de 
Lima Cerqr. a 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO P R Ê T O 333 

"Reseby do Sr. Irmão Sindico João daamorim pereira dezoito oi- 
tavas de ouro digo ehum cruzado de ouro gastos q. fiseram os louva- 
dos a q. foram chamados para a louvaçam q. se fes na capela de Sam 
francisco epor estar pago e Satisfeito dadita Coantia lhe paço esta 
dem. a letra eSinal. V. a Rica 21 de Julho de 1777 a.// Domingos Cor- 
rea Costa." 

★ 

Finalmente, a 24 de agosto de 1794, Domingos Moreira 
fêz entrega aos Terceiros de São Francisco das obras de que 
se encarregara. Aceitou-as a Ordem, não sem submetê-las 
antes ao exame e julgamento de dois mestres superior e mere- 
cidamente acatados, — Antônio Francisco Lisboa, o Aleija- 
dinho, e José Pereira Arouca, — nomes por êsse tempo de jus- 
tificada ressonância na capitania, como dos seus mais concei- 
tuados artistas. 

Da vistoria e entrega referidas fala o documento que se 
vai ler: 

"MANOEL JOSE BARBOSA Secretario actoal desta ven el Ordem 
3. a da penitençia deS. Francisco desta V. a R. a Certifico que Revendo 
oLivro Segundo dosTermos q. esta ven. el ordem tem arespeito das Suas 
resolucois, equenomicas nelle afolhas cento evinte eCoatro Seacha hú 
Termo feito pelo Secretario e aSinado pelo mesmo epelo Procurador 
Geral avinte e quatro de Agosto de 1794 que oSeu theor he o seguin- 
te. Aos vinte eCoatro dias domes deAgosto demil Sete Sentos enoven- 
ta eCoatro annos nesta Vila Rica denosa Senhora do Pilar doouro pre- 
to emo Comisistorio eCaza dedespacho desta Venerável ordem onde 
eu Secretario atoai damesma ordem meachava com o Ir. Procurador 
Geral Domingos Alf daCosta ahi aparecerão presentes Costodio Luis 
Soares procurador dorrematante Domingos Moreira deoliveira eos lou- 
vados nomeados eaprovados para oexzame daobra daCapela da dita 
ordem aSaber por parte desta Antonio Francisco Lisboa eporparte do- 
dito Rematante o Alff. s Jose pereira arouca aos quais emCarreguei que 
bem everdadeira mente Vicem eexzaminaçem aReferida obra avista 
das Condisoins errisco que neste acto lheentreguei e que Comforme 
suas Comciencias arvitracem as demenuhiçoins que achaçem namen- 



334 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



cionada obra naparte emque (69) Seachava ainda emtregue adita or- 
dem oque assim prometerão Comprir eprocedendo nodito exzame 
acharão que emportavam as mensionadas demenuisoins que oRema- 
tante deixou dafaser nadita obra aque hera obrigado pelas Condi- 
soins eRisco aQuantia deSento equarenta eSinco oitavas de ouro eque 
em tudo o mais Seachava Comforme oque assim o entendião emSuas 
Conciencias procujo motivo ouve odito procurador do Rematante por- 
intregue adita obra eaprovou em nome deseu Constituinte o arbitrio 
das demenuisoins naReferida quantia de 145/8 eo Procurador desta 
Venerável ordem ouve também por recebida amesma obra epor deso- 
brigado o Rematante epro bem ouvadas ademinoiçoins na mensiona- 
da quantia deque para constar labro este Termo emque assinarão Co- 
migo Jose Giz Reis Secretario actoal que oescrevi. Domingos Alz da 
Costa // José Gonsalves Reis // Antonio Francisco Lisboa // Custódio 
Luis Soares // José Pereira Arouca // 

E Nada mais continha nodito Termo que aqui tirei fielmente ea- 
mesmo meReporto em meza de 23 de Fvr.° de 1812/ /Manoel José Bar- 
bosa Secret. 0 (Documentos avulsos)." 

2.° — BARRETE DA CAPELA-MOR E ABÓBADAS DOS CORREDORES 

Em 1772 foi posta em concorrência a obra de que se trata 
neste parágrafo. As condições, sob as quais o serviço devia ser 
executado, são como seguem: 

"Condiçoens p. a se rematarem as Abobadas dos Corre- 
dores, eBarrete da Capella Mor da Igreja do Pa- 
triarca S. Francisco de Tijolo, cal, etc. 

N 1. 

Primeiramente Será obrigado o Arrematante afazer as aberturas 
naparede do Consistório, para dar Serventia aos pateos, q Leva por 
Sima dos Corredores, comcondição que hade acentar oportal, equatro 
degraus depedra que Leva nadita abertura, q. hu dos d.° 8 servirá para 



(69) Parece que o Secretário omitiu a partícula não; visto como a outra par- 
te da igreja havia sido examinada por louvados competentes em 1777 e aceita pela 
Ordem. 0 trecho a meu ver devia estar redigido dêste modo : "... na parte em que 
vão se achava ainda entregue a dita Ordem...." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 335 

Soleyra dod.° portal; isto seentende Ser paraCada hum dos m. m0B por- 
taes em rasam destes degraos dar em altura dopreceito das Abobadas, 
que descontando os Seus Maxames severa opreceito emq. fica. Logo 
garnecerá comcal branca pelo vam e sobrearco das taes aberturas, 
com a Seguransa perciza, como também no desmancho, ou arear as 
pedra, efara comgeito, quenão Seofendão, nem abalem os que fica- 
rem para faserem Seguransa aoCunhal do d.° Concistorio. 

N 2. 

Será obrigado afabricar ostres arcos damalhete como apontam 
as mesmas linhas, em resam do enconsto do tijolo, edaSua Seguran- 
sa. A Sua volta será debaixo do preceito da altura, q Seacha fazendo, 
tudo emxadresado, como aponta omesmo risco elinhas. 

N 3. 

Fabricará od.° Arrematante osCorredores, pelas Linhas do Risco, 
queSeoferesa, com declaração, que logo armará andayme noCorredor 
daparte do Evangelho, para melhor poder Lamsar as Suas medidas, 
perfilos, oumeyos fios, para aSimalha,que Leva pela parte dedentro 
no arranco dadita Abobada. Logo abrirá hum rosto naparede daCa- 
pella Mor, que terá de fundo tres quartos de palmo, com alevação ne- 
cessária, para enleitamento dotijolo que procura oSeu arranco para 
Sima, comcondiçam, quenoplano dasduas portadas pulará para Sima 
ad. a Simalha, eLogo fará feição afazer Luneta nadita Abobada, em 
rasão denão hir tanto aSima o pavimento dod.° Corredor. 

N 4. 

Será mais obrigado afaser todo o maçame percizo por Sima da- 
dita Abobada dos Corredores tanto para Seguransa da mesma, como 
para o encontro queSeperciza apra aCapella Mor, Emcondição, que 
Ladrilhará por Sima od.° pateo comlages do Morro, e estas serem fa- 
bricadas as suas juntas deSorte, q recebão os batumes para adefesa 
das agoas, que não penetrem abaixo ao tijolo, pornão causar ruhinas. 
As ditas Lages Serão emleitadas para oSeu acento, eoSobreLeito Será 
bemdireito, p. a q. fique vistoso por (ilegivel) Seu pavimento. Serão as 
mesmas Lages em (ilegivel) na parede da Capela Mor, etambem Se- 
abrirá nadita parede, aomenos meyo palmo, paraque asaguas não te- 



33C 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nham Lugar depenetrarem para baixo, eSim virem por Sima das pa- 
redes, aSairem pelas garvolas (sic) fora, comcondição, que será obri- 
gado abatumar todas as juntas dos ditos pateos, paraque as ditas 
agoas não penetrem abaixo como dita fica. 

N 5. 

Será outroSim obrigado afazer em a obra dos ditos pateos emca- 
da hum, quatro palmos dealto, hum faixeado, q será fabricado deCal 
peneirada, epó de Carvão, também peneyrado, paraque seja este fai- 
xeado preto em razão dos pingos queCaem deSima dasbeiradas sujar 
aCal ficando branco. O d.° faixeado não empede ornais reboque atodo 
tempo, edeve para desviar as agoas, eencaminhalas por Sima das La- 
ges, etudo Será feito Comperfeição eSeguransa necessária. 

N 6. 

Será mais obrigado afaser obarrete daCapela Mor também pelas 
Linsa, que seoferecem debaixo depreceito q seacha nos ocolos, para 
queestes não fiquem comdefeito, e Só Sim fazendo semelha hum ao 
outro, Como também fexará detijolo oarco q devide o retabolo do Al- 
tar Mor. Este Será obrado com huma fiada de Lages do Morro, que- 
tome a sua adoela enteiramente, isto seentade ser uma fiada detijolo, 
eoutra delages, eaSim ficará bem Seguro, eaCal será livre de Carou- 
ços.epara melhor Seguransa Será peneirada. Este arco Será Asente o 
Seu arranco emSima de huma pedra decantaria de Itacolomi, esta 
Será Somente emleitada, eosobreleito, que só será desbastada depicão, 
eSerá acente emSima de Outra pedra deCantaria, sendo ambas de 
qualidade dura, para receberem os azimbres. Etambem adas daq faz 
od.° arco da Superficia daparede para fora que são tres quartos de- 
palmo, elogo estas ditas pedras Levaram também Suas sahidas, ou Sa- 
cadas necessárias fasendo Engra para o corpo da Moldura, que gar- 
nece adita abobada. 

N 7. 

Será também obrigado aabrir hum rosto nas paredes dos Lados 
dadita Capela Mor, para emleitar otijolo dad. a Abobada elogo ficando 
omesmo rebaxe noarco que-fiser paraomesmo efeito detijolo, elogo fa- 
bricando as empostas dos quatro espigoens, para que sefação bem for- 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO S3Í 

tes no centro do meyo, adonde se forem fichos os seus impuxos, ehua 
pedra quadrada, q tera de face dois palmos emeyo, eaSua altura será 
aque o tijolo permitir, sendo esta broqueada no Centro para receber 
o ferro axavetado por Sima para a Seguransa do floram, cuja aremata 
este barrete, efica fasendo boa vista, esendo feito, com declaração que 
ad. a pedra Levará quatro furos broqueados mais ordinários para os 
parafusos, ou chavetas de ferro, para Segurança do floram, em rasam 
dofuro do meyo servir para guindar aAlampada. 

N 8. 

Será obrigado afaser-lhe suaSimalha emtoda aCircumferência 
dad. a Abobada, quehe para melhor vista eperfeição da Obra, revocan- 
do tudo bem Liso de Cal branca, e Cayando tudo Sem Manchas. 

N 9. 

Será obrigado aprincipiar oacento das ditas pedras deCantaria, 
que fasem emposta ao d.° arco, evem aSer duas pedras, paraCada 
Lado, aSaber aprimeyra terá dois palmos e meyo dealto, eaSegunda 
tres, com ofundo necessário para meter nas paredes, eaSua largura, 
heaque permite avolta do arco que são quatro palmos de vivo, e com 
ornais corpo necessário para engra da moldura dadita Abobada com 
as suas grossuras necessárias para faser firme nas paredes., com as 
suas sacadas percizas, ecom aelevação necesaria para algú dia rece- 
berem aSimalha que se fas (ilegivel) do retabolo, tudo com aSeguran- 
sa eperfeição nesseçaria como Seespera do Zeloso rematente, que será 
obrigado adar toda aServentia que lhefor percisa para a fabrica, e- 
factura das ditas Abobadas declaradas nestas Condiçoens, 

N 10. 

A ven. eI ordem 3. a terá obrigação acestir ao rematante com todos 
osmateriais, verbigratia, tijolo, cal, madeiras, epedra de alvenaria para 
omaxame. As ditas madeiras seram para andaimes, epara asvalsas, 
eguias, e também omastro domeyo donde sefasem firmes todas as as- 
pas e Escoras deremo, que estas fasem Seguransa atodo empuxo das 
mesmas guias dosd^ espigoens daAbobada, semq sepercizem, mais 
madeiras para aSua fabrica; ou factura da mesma, comdeclaraçàu 
que será od. e Arrematante obrigd. 0 aajudar afaser asditas guias eval- 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



sas que forem percizas damesma sorte acentalas emSeu lugar, para- 
que tudo fique bem seguro com acistencia domesmo, tanto escoras, 
como pontaletes comtudo mais que for perciso. 

Enão estranhará od.° rematante emtempo algum que aven." 1 or- 
dem meta qualquer Mestre queentenda dad. a fabrica, Sevae noster- 
mos, e com aSeguransa necessária, edebaixo dopreceito, quepermitem 
as mesmas paragens, donde seformão as ditas Abobadas, q será omes- 
mo que fes estas condiçõens, eos riscos das mesmas Abobadas. 

N 11. 

Será paga od.° Rematante dopreço porq. rematar a referida obra 
mencionada nas condiçõens retro emtres pagamentos, oprimeiro quan- 
do estiver detodo acabado oCorredor daparte do Evangelho, OSegun- 
do, quando estiver também completo oCorredor daOutra parte, eoter- 
ceyro quando estiver o Barrete daCapella Mor, feito, gornecido, cava- 
do, eenteyramente acabado. eEu Antonio Porcillio Correa Secretario 
actual o escrevy, easiney//Be?z£o Luiz // Henrique Gomes de Brito// 

Recebi os riscos daobra rematada, que consta destas Condiçõens, 
cujos Serey obrigado aapresentar a os Ir. 3.°* damesma ordem quan- 
do mopedirem, eporverd. 6 asieny este. V. a Rica a 23 de Fevr. 0 de 1772 
//Henrique Gomes de Britto" (Dos documentos avulsos do arquivo). 

A arrematação, a que se referem estes documentos, reali- 
zou-se anteriormente a 16 de fevereiro, No ABcedário, a fls. 10 
verso, encontra-se o seguinte: 

"Fever. 0 16 de 1772 — - 

Deve a nossa Ven. 01 Ordem 3. a de São Fran. co a o Ir. Hen- 
rique Gomes de Brito da rematação q. fez do Barre- 
te da Capela Mor 

Deve lhe mais do Acréscimo como confessa o Recibo a fls. 
42, 28/8 a8 a dr ° 

Dis o d.° Henrique vencera fora parte do Jornal 93 dias 
de Jornal Junto com hum Nebro a 3/4. São 69-3/4 
a dr.o 



290$000 
33$600 

83$700 



Soma toda a conta 

Comfere." 



407$300 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



339 



Do mesmo ABcedário a fls. 11 consta mos seguin 
tes pagamentos feitos a Henrique Gomes de Brito: 

"Hade Haver recebido p. a a conta em fiv 



Pr.° recibo no L.° delles afls. 41 96S000 

hum dito d.° L.° a fls. 42 97S332 

hum dito no d.o L.o a fls. 42 33S600 

hum dito no d.° L.o a fls. 43 9S600 

hum dito no d.° L.° a fls. 44 10S950 

hum dito no d.° L.o a fls. 44 24S000 

hum dito no d.° L.o a fls. 45 4S800 

hú dito no d.° L.o a fls. 46 14$400 

hú dito no d.° L.o afls. do L.o de conta 12S000 

hum dito no L.° da conta a fls. 115 4S050 

hum dito no L.o delles a fls. 47 - 47 - 1/4 - 2 56S775 



Soma 363S507 

hú recibo de mão de 19S200 

dos anuaes q. D. e te 4 (sic) de 779 de sua prof. m anual .... 9$900 
Para comferencia da conta faltão 14$693 q. mandou o d.° 

emfrente se abonassem no seu an. 1 a fls. 116 14S693 



Comfere 407S300" 



3.° — CORREDORES DA SACRISTIA 

Trabalharam nos corredores e receberam pagamentos em 
1794 os oficiais João Alves Viana, Manuel Frn da Costa e Paulo 
da Costa Peixoto, José Barbosa de Oliveira e, por conta deste, 
Custódio José Alves, José da Cunha, Luís da Costa Ramos, os 
dois pretos Manuel e Joaquim, e o servente Luís da Costa. 

Manuel da Rocha Monteiro, que já trabalhara para a Ordem 
na construção de paredões, recebe salários por serviços que fez 
para "a Capela de São Francisco e das casas e lajedo para o cor- 
redor". Tais pagamentos lhe foram feitos em 1794. 

Finalmente, em 1826, o Mestre Pedreiro Manuel Fernan- 
des da Costa contrata o ladrilhamento do corredor "do lado de 
Mariana" e o realiza no mesmo ano como o afirma o registro 
de pagamento, a fls. 117 do livro 2 o de rec. e desp., da quantia 
de 588200. 



340 



CÒNECO RAIMUNDO TRINDADE 



Tudo isso é confirmado pelos documentos que seguem: 
**N.° 17 - 9 1/2 2 

Reçebi do Snr. D. 06 Alz da Costa nove oitavas emeya e dous vinténs 
deouro de Jornais de meu off.° depedr. 0 que mepagou eaoutro official 
p. a mim 5 1/4 2 e p. a o Companh. 0 4 1/4 q. e tudo fas aq. tu aSima de 
9 1/2 2 — isto hé daSimalha dos Corredores dacapella de São Fran.^, 
epor estarmos pagos mandamos fazer este p. r Fran. co daCosta Guim." 
q tão bem aSigna com tt. a e eu me aSino com hua Cruz V. a Rica 19 
de 7br.° de 1794 // Sinal de João + Alz Vianna // E Paulo + daCos- 
ta Peix. t0 Como tt a q. e fiz a rogo dos sobreditos — Franco da Costa 
Guim.™ 

9 1/2 2 = 11$475 rs." 

★ 

"Conta de Despeza feita Com os officiais que trabalharão nos Cor- 
redores de S. m Fran. 00 p. r ordem do Procurador da Ordem o Ir. Dom. as 
Alz da Costa = oSeg. te = N.° 27 - 49 - 1/4 - 2 



Joze Barboza 18 dias a 1/2 - 4 11-1/4-0 

Custodio J.« Alz 15 dias a 1/2 - 4 9-1/4-4 

Joze da Cunha 16 dias a 1/4 - 6 6-1/2-2 

Luiz da Costa Ramos 13 dias a 1/2 - 4 8 - 0 - 4 

offeciais pretos 

Manoel 17 dias a 1/4 - 4 6-1/4-4 

Joaq.» 17 dias a 1/4 - 4 6-1/4-4 

Servente 

1 de Lui2 da Costa 10 dias a 4 , 1-1/4-0 



(59S175 rs) Soma 49-1/4-2 



R. b " o Conteúdo aSima — V a R. a 1 de Outubro de 1794 // Joze 
Barbosa deolivr. a 

N.° 22 — 2 1/8 

Recebi do Sm. Domingos Alz da Costa como procurador da Or- 
dem terceira de Sam Fran. co aquantia de Vinte oitavas de Ouro pro- 
cedidas das Obras q.« fis p. a aCapela de S. Fran. co e das Cazas eLage- 
do p. a o Corredor ej ornais dos officiaes q paguei q Levarem emConta 
nas que temos procedidas das mesmas obras ep. a clareza paSei este 



SÃO FRANCISCO DE A 8 8 I S DE OURO PRETO 



341 



Somentes pormim aSignado V. a Rica 10 de Dezbr. 0 de 1794, R. bl mais 
damão do Pro Curador l/8 a de conduzir as madr." p. a o coreto // 
Manoel da Rocha Montr. 0 

São 20/8" 
mais 1/8 

São 21/8* 8 " (Documentos avulsos-) 

"Sr. Ir. Men.° e Mais Definitorio 
Informe o Irmão Proc. or Em Meza de 
23 de Dez.° de 1804. 

Montr. 0 — Ex Men.° 

Diz Clem.** Joze de Alamão Chaves q. servindo de Procurador G." 
desta Ven. cl ordem em 1801 mandou cobrir os Corredores desta Cape- 
la de cuja obra se lhe está devendo a coantia de 54/8 - 1/2 - 4: a sa- 
ver 46-1/4 de 370 alq. de Cal Negra, e 8-1/4-4 de Perguos, q. tudo pa- 
guou; e como q. r aver o seo paguam.' 0 , req. r a V. V.C.C, lhe façam a 
graça de lhe mandarem paguar a Saber d. a Coantia a vista dos Reci- 
bos Juntos — P. a W.CC sejam servidos omandarlhe paguar na fr. a 
requer.a ^E.R.M.^ (69-a). 

Vistos os recibos que aprezen- 
ta não duvido na catisfaçam do 
pedido V a R. a 14 de Janr.° de 1805. 
Manoel Frz de Sa — Procurador 

R. a Coantia de 54-1/2-4 p. r ma» do Sindico o Ir. Costodio Fran.™ 
Piquenno. V a Rica 2 de Febr.° de 1805 — Clem. te J. e de Alamão Cha- 
ves (70). 



Para S. Fr. 00 Porordem do Sr. Alferes Celmlnte Jose olamam 
chaves : 



Conta dos pregos: 



400 Pregos ripares 
150 pau apique . . 
50 Caixares . 
200 Pregos ripares 



1-1/2-0 
1-3/4-4 
0 - 1/4 - 4 
0 - 3/4 - 0 



(69-a) Os corredores de que aqui se faz menção devem ser as varandas oq 
claustros do n.° 7 adiante. 

(70) Em réis: a cal — 55$500; os pregos — 10$050. Total 65?550. 



$42 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



400 ditos Ripares 
100 Caixares . . . 
100 pau apique . 
25 caibrares . . 



1 
0 
1 

o 



1/2 - 0 
3/4 - 0 
1/4 - 0 
1/4 - 4 



Soma 



8 - 1/4 - 4" 



A cal foi fornecida por D. Teresa Josefa Caetana Alves de Castro 
(Documentos avulsos — Pasta 326) 

"... Foi mais, proposto e requerido pelo nosso Irmão Procura- 
dor Geral que visto o Cap. m Mor José Bento Soares ter dado de es- 
mola o tijolo preciso para o corredor da nossa Igreja que vai para a 
Sacristia da parte de Mn.™ e que já tinha chegado algum era preci- 
so tratar com o Mestre das Obras de pedreiro o Irmão Manuel Fer- 
nandes da Costa que se acha presente quanto se há de dar-lhe para 
fazer o dito ladrilhamento, como o outro que está feito, ou melhor 
se possível fôr, dando esta Venerável Ordem só o dito tijolo e êle 
a fazer a obra, dando a cal e tudo o mais e sem a Ordem dar de co- 
mer aos oficiais nem mais coisa alguma, e sendo êle Mestre da Obra 
obrigado a dar a dita obra pronta para o dia Quinta-feira Santa do 
presente ano e inda antes algum dia para haver tempo de se lavar 
o mesmo corredor, e depois de pedir o dito Mestre o seu preço e ser 
debatido por tôda a Mesa ficou finalmente aprovado que logo que 
acabasse a dita obra com as sobreditas condições que se lhe dariam 
cinquenta mil réis em dinheiro e se lhe abonaria na sua Entrada e 
Profissão a quantia de quatro mil e duzentos que uma e outra fa- 
zem a soma de cinquenta e quatro mil e duzentos rs. preço por que 
foi juste a dita obra" (O Têrmo é de 24-11-1826 e está reg. a fls. 31 v. 
do L.° 4.0). 

Pelos serviços, a que o último documento se refere, recebeu Mes- 
tre Manuel Fernandes, não 54$200; mas, como se viu acima, 58$200." 



Para a realização da grande obra, Domingos Moreira de 
Oliveira congregou, sob sua orientação, uma turma de mestres. 
Já entrevirnos na leitura de documentos, postos acima, que o 
aparelhamento da cantaria foi confiado a Martinho Fernandes, 
e explicitamente vimos que os corredores estiveram a cargo de 



4.° — REBÕCO 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS D B OUEO PRETO 



343 



João Alves Viana, o construtor da vizinha igreja do Carmo. Os 
documentos, que em seguida irei apresentar, informar-nos-ão 
de que a rebocadura o próprio Domingos "ajustou-a" com o 
mesmo mestre João Alves Viana, há pouco mencionado. 
Ei-los, os documentos: 

"Receby do Sn. Ajud. t0 M. cl Ali. deMeyreles como Procurador da 
W ordem 3. a de S. Fran. 00 desta V. a nua oitava e meia deouro por 
conta do Roboco daCapela dad. a ordem queajustei com Domingos 
Mor. a deolivr. a e por verdade mandei passar opresente que vai som.* 0 
por mim asynado com hua cruz V a Rica 4 de 8br.° de 1788//Signal 
de João -f Alz Vianna//Com test. a que este fis Ignacio Fran. eo 

Receby dolrmão Procurador Geral oI. r Ajudante Manoel Alz de 
Meyreles acuantia detres oitavas eseis vinteis deouro por conta do 
roboco que ajustey com Domingos Mor. a deolivr. a , eporverd. 0 asigno 
este V a Rica 4 de 'br.° de 1788//Signal de João 4- Alz Vianna// 
Com test. a que este fiz aRogo do Sobred. 0 Ignacio Fran. co " 

Alguns anos antes, já Henrique Gomes de Brito, outro mes- 
tre, perito na sua arte, entre outros trabalhos realizados em São 
Francisco, rebocara a cimalha que encima o arco-cruzeiro, como 
diz o seguinte recibo: 

"Recebi do Snr. tinente Curunel filliciano joze da Camara sete 
outavas e m. a de ouro procedidas de doze dias q trabalhey na ygreja 
de S. fran. ,n em rebucare caiar e fingir a cimalha por sima do arco e 
por estar pago e satisfeyto lhe paço este hoje V a R. a 9 de janr.° de 
1772//Henrique Gomes de Brito" (Revista n.° 2 do S.P.H.A.N. — 
357). 

5.° — GRADES DE FERRO 

Essas grades que guarnecem ou protejem as janelas da 
sacristia e corredores de São Francisco, fê-las Baltazar Gomes 
de Azevedo. Éste Baltazar era português, da província do 
Douro. Seu berço natal, Fermedo, pertencia, quando êle nasceu, 
à vila e conselho de Cabeçais, lugar que há bem anos se reduziu 
a um modesto povoado da mesma freguesia de Fermedo, a qual 
se elevou e é hoje vila florescente na comarca de Arouca, dis- 
trito de Aveiro e bispado do Pôrto. Foram seus pais Silvestre 
Gomes e Marinha Pais. 



U4 



CÓNEGO RAIMONDO TRINDADE 



Baltazar emigrou para as Minas e instalou-se em Vila Rica, 
onde, por volta de 1750, foi examinado para o exercício legal da 
profissão de ferreiro, e teve a sua "carta" de oficial. Aí mesmo 
em Vila Rica, casou com Maria Francisca de Santa Clara, a 
quem sobreviveu e da qual lhe nasceram oito filhos. Faleceu 
a 11 de janeiro de 1792, legando a seus herdeiros casas, escravos, 
oficinas ou "tendas de ferreiro e caldereiro com os seus apare- 
lhos", etc. (71). 

Voltando às grades, estas foram a lanços em I o de maio 
de 1768 e Baltazar as arrematou a razão de quatro vinténs e 
cinco réis de ouro por libra de ferro trabalhado, e com a condi- 
ção de receber logo 400S000 por adiantamento. Por sua vez 
devia êle obedecer às condições que foram propostas no ato da 
arrematação. 

A este particular se referem os documentos que passo a 
transcrever: 

"Têrmo por donde se determinou pôr-se em praça e rematar as 
grades que são precisas para a nova Igreja. 

Aos 23 de abril de 1768 anos, na Igreja Matriz de Nossa Senho- 
ra da Conceição desta Vila, em o Consistório da Venerável Ordem 
Terceira de São Francisco, aonde presentes se achavam na Mesa dela 
os N.N.C. C. Irmãos, o Rdo. Comissário José Valente de Vasconcelos, 
o irmão Vice-Ministro Manuel José Vilas e mais Definitório, aí apa- 
receu presente o nosso Caríssimo Irmão Procurador Geral João Fer- 
reira da Silva Braga e por êle foi dito que para a nova Igreja que 
por conta desta Venerável Ordem se está fazendo se precisava pôr- 
se em praça e proceder-se a rematação das grades de ferro que fo- 
res precisas para a dita obra e vendo seu requerimento se mandou 
correr o vaso de favas prêtas e brancas na forma dos nossos Esta- 
tutos, o que observando-se assim, e correndo o vaso saíram a flux 
em favas prêtas todos os votos, na forma que se pratica quando é 
conveniente o que se propõe, e nesta conformidade mandaram se 
pusesse em praça as ditas grades e se procedesse a rematação delas 
e, de como assim disseram e convieram, mandaram fazer êste têrmo 
que todos assinaram, e eu Manuel Fernandes Pinto que o escrevi e 
também assinei. José Valente de Vasconcelos, Comissário Visitador// 



(71) Cf. Livro de Testamentos do arquivo da DPHAN, 36 v. a 39. 



S,í O FRANCISCO DK ASSIS DE OURO PRÍTO 3 i 6 

Manuel José Vilas, Vice-Ministnv , Manuel Fernandes Pinto, Secre- 
tário// " (Livro II de Termos — 146 v.). 

"Auto de Rematação das grades, deferro para anova Igreja. 

Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus enristo demil eSete 
Centos Secenta eoito aoprimr. 0 dia domes de Mayo do d.° anno nes- 
ta V. a R. a de Nossa Senhora do Pilar do ouro preto, Naparjem, e Chao 
em que Seestá fazendo anova Igreja da Invocação de Nossa Senho- 
ra da Porciunculla pelas quatro horas da tarde do d.° dia estando 
prés. 1 * 8 olrmão vice Min. 0 M. Pl José velloso Com vezes de Min. 0 na 
auz.<* deste, e eu Secret.™ M. cl Ffz Pinto, o Irmão Proc. or g. al João 
João Ferr. a daS. a Braga, o Ir. Sindico M. cl Lopes Guim. 19 , e os mais 
Ir. 8 demesa todos abx.° aSignados, por todos uniformemente foi de- 
terminado se pusesse empraça aobra q fosse presisa degrades de fer- 
ro friestas, e ocullos, eo mais necesr° pertencente a grades para a 

referida obra, para Serematar aquém menos ofiseso 

com a grosura, efeitio das referidas grades damesma sorte que Se- 
achão rematadas as da venerável ordem 3. a de N. Sr. a domonte do- 
Carmo desta V a eSendo prest. r o Portr. 0 dos auditórios desta V. a 
José Rois de Sousa a este foi mandado pelo d.° difinitorio po v empre- 
gão ePraça ad. a obra naforma exposta, ao que Satisfazendo entrou a 
apregoar em alta einteligivel voz bem persibida detodos paciando de 
húa p. a outra p." disendo ã quem quisesse Lançar na Sobred. a obra 
Sechegasse aelle Portr. 0 receberia seu Lanço que seHavia de Rema- 
tar aquém por menos afisesse, oque repetindo por muitas vezes, eha- 
vendo vários Lanços foi o menos o de Balthazar Gomes de Azevedo 
m. or nesta mesma V a que nella Lançou por cada húa Libra de ferro 
obrado a razão de quatro vinteins eCinco reis de ouro com obriga- 
ção delhe dar logo esta venerável ordem quatro cento mil reis, e o 
mais feita q. seja metade daobra satisfazerse oque importar descon- 
tados os ditos quatro Centos mil reis, eoResto nofim damesma Obra, 
aqual Seria obrigado ahir dando adequeSefor neceSitando quando o 
Pedreiro rematante afor pedindo deforma que não pare a mesma 
obra por falta das ditas grades, e Sucedendo por algúa contingência 
não as por prontas aos tempos respetivos poderá a Venerável ordem 
deper Si, eSem mais figura dejuiso mandalas fazer acusta delle Lan- 
çador por quem lhe paresser, epelo presso emque Se ajustar e ao cum- 
primento de tudo o refeiro prestaria asfianças necess. :,s Comcujo Lan- 



346 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



co continuou od.° Portr. 0 apregoar disendo q com ascondiçoins ex- 
postas equatro vinteins eCinco reis de ouro quesão por cada livra 
de ferro Lavrado das ditas obras Sehavia quem pormenos as fisesse 
Sechegasse a elle Receberia seu Lanço pois no menor se havia de Re- 
matar, oque repetindo muitas vezes por não haver quem menos Lan- 
çasse determinou odifinitorio que Seafrontasse e Serrematasse de- 
bx.° das condiçoins apontadas ao que satisfazendo od.° Portr. 0 en- 
trou apregoar que a quatro vinteins eCinco reis de ouro pedião por- 
cada húa Livra deferro lavrado das d. :is obras debx.° das Sobreditas 
Condisoins e obrigaçoins Sehavia quem por menos asfisesse seche- 
gasse aelle Receberia Seu Lanço pois já se rematarião Nomenor que- 
houvesse afronta fasia porque menos não achava, eSemenos achara 
menos tomara elhe dava húa, duas, epor não haver quem menos Lan- 
çasse chegandoSe apessoa do d.° Lançador Balthazar Gomes de Aze- 
vedo, emetendolhe namão hum ramo verde que nasua trazia disse 
doulhe trez, pois que menos me não dão façalhe bom proveito com as 
qais Solemnidades, easmais determinadas por direito houve od.° de- 
finitorio a Rematação por feita no Sobred. 0 Lanço epresso com as 
Condiçoins eobrigaçoins apontadas, cujo presso Seobrigou aSatisfa- 
zer nos tempos respetivo a fatura daobra na forma queseacha expres- 
sada sendo obra de que se trata com toda perfeição e segurança e 
feitio das do Carmo como se acha declarado e a satisfação de seu 
preço obrigão os bens desta Venerável Ordem, eaCeitão as Obriga- 
çoins e Condiçoins do Rematante, que dará as fianças necessárias 
e dadas Selhe entregarão os quatro Centos mil reis; edetudo para 
constar mandarão fazer este auto, oque comod.° Rematante, ePor- 
teiro aSignarão depois de lhe ser Lido pormim Manoel Fernandes 
Pinto Secretario da mesma venerável ordem que o escrevy." 

Seguem-se assinaturas e o têrmo de fiança que faz João Fran- 
cisco dos Santos. 

Com relação ao pagamento encontram-se no arquivo os seguin- 
tes recibos avulsos: 

"R. do I. r M.' 1 Lopes Guim. ,s Como Sindico da venerável ordem 
3 a da Penitencia quatro centos mil reis importância doprimr. 0 pa- 
gamento das grades, q rematey p. a a Igrejanova da mesmaordem, 
epara claresa passey este Somente por mim aSignado V. a R. a a 13 
de Maio de 1768 a.//B." r Gomes de AzdP 

Receby doI. r João coelho daSilveira Sindico daveneravel hordem 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PKÊTO 347 

de Sam Francisquo sento etrinta seis oitavas deouro A conta das gra- 
des que fis p. a Anossa igr. a V. a Rica 3 de outubro de 1771//B. ar Go- 
mes de Az. do " 
(Em réis: 163S200) 

Do L° 1° de Rcc. e Desp. constam os seguintes lança- 
mentos: 

1768 — Recebeu 400S000 da "rematação das grades" (fl. 87 v.). 
1771 — Recebeu 2908000 por conta das grades (fl. 103). 
1773 — Recebeu 95S067 "a conta das grades" (fls. 115 v.). 

Quando se realizavam os últimos pagamentos registrados 
já as grades haviam sido entregues, como se vê do seguinte 
documento (avulsos do arquivo) : 

"Recebemos, por conta desta obrigação (?), oito grades com o 
pezo de sessenta e cinco arrobas e treze libras e quarto como consta 
da conta do Irmão Balthazar Gomes, Villa Rica em Meza de 9 de 
8br.° de 1769 e eu Pedro Martins deCarvalho, Secretario o escrevy 
— Joze Ribr. 0 de mello procurador G.' 





8 


- 6 


- 0 


2.» " .... 


8 


- 4 


- 3, 4 


3 a » 


8 


- 5 


- 3/4 


4 a " 


8 


- 5 


- 3 4 


5 a " 


8 


- 6 


- 0 


6. a " 


8 


- 5 


- 1 2 


7 a " 


8 


- 1 


- 3/4 


8 a " 


8 


- 9 


- 3/4 


Soma 


65 


-13 


- 1/4 



Baltazar realizou ainda outras obras para a Ordem de São 
Francisco, como veremos em capítulos subsequentes (71 a ). 

6.° — TORRES E SINOS 

Em março de 1772 trabalhavam nas torres Luís Pinheiro 
Lôbo e seus oficiais e receberam de seus jornais 7 oitavas e 4 
vinténs, isto é, 8$550. (Doe. avulso). 

Em 1787, conforme o recibo que se vai ler, fêz-se um acrés- 



(71-a) As grades aqui mencionadas já não são, há muito, as que existem 
atualmente. 



348 



CÓNEGO RAIMUNDO TBINDADK 



cimo na cimalha dessas torres, tendo-o executado o oficial de 
pedreiro José Ribeiro da Faria: "R. bi do Snr. Ajudante Manoel 
Alves de Meireles Pr. or daorde Terceira de Sto. Fran. co des 
oitavas de ouro do acréscimo que ouve na cimalha das Torres 
damesma Capella V a Rica a 19 de Maio de 1787 a 7 Joze Ribr* 
de Faria". (Documentos avulsos). 

★ 

Com relação aos sinos há no arquivo da Ordem os 
documentos seguintes, que resumo: 

1 — Pagamento de 19$200 rs. a Baltazar Gomes de Azevedo "pelo fei- 

tio das ferragens do Sino." (Rec. e Desp. I, 109) em 1771 — 2. 

2 — "Resebi do Sr. D. 08 Alves da Costa hua oitava de ouro de cobres 

velhos q. lhe vendi q. pezarão sete L. as p. a a fundição do sino 
novo q se fez em São Fran.'° e p. a sua clareza lhe paSo este de 
m. a letra e sinal oie 15 de Setembro de 1794// Ant. ° de Crasto 
Lobo." (Avulso, pasta 214). 

3 — r.o do Irmão procurador de S. Francisco o Snr. Domingoz Alf . 

daCosta a q. tla de dezoito oitavas e tres quartos e quatro venteis 
de ouro procedidos duas a robas e treze livras e meya de cobre 
q. o d.° Snr. me comprou p. a o Sino da d. a Ordem e por verd.*, 
passo o prez. 10 V. a Rica 8 de 8br.° de Yl^/ /Joze Ribr 0 Roza." 
(Avulso, pasta 214). Em réis: 22$650. 

4 — "ReSebi do Snr Domingos alves daCosta dezaSeis outavas e tres 

coartos ecoatro vinténs deouro de Cobre Velho q me compro p. c 
o Sinno de S. Fran. co e p. a Sua Clareza lhepaSei este Villa Rica 
13 de Janr.o de 1795// Vicente de Crasto Peixoto//16 - 3/4 - 4 - 
20$250." 

5 — "Recebi do Sr. Manoel Alz de Meireles como Proc. or da Ven. el Or- 

dem 3. a de S. Fran.°° vinte oitavas de ouro p. a Se comprar o Co- 
bre q. Se Deve do Sino q. Se fes p. a a mesma Ordem V R. a 28 de 
Janr.° de 1795//ManoeZ Joze Machado//." (Doe. avulso). 

6 — "Recebeu Ignacio Fran. ° p. a dar o P. e com.° eeste p. a emtregar 

a Joaq. m Frr. a da Fon.' a de cobres p. a o Sinno — 14/8. aB villa 
Rica a 8 de Maio de 1795" (Doe. avulso sem assinatura). 

7 — R." do Procorador daordem treseira do Sr. S. Francisco Seis oi- 

tavas de ouro de hua aroba de cobre p. a onovo sino epela ter Re- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



Sebido paSo este dem. a letra eSinal vila Rica 11 de maio de 1795 
//Luis Pinto da Fon. ca ." (Doe. avulso). 
8 — "Conta ferraje do Sino Novo de S. fran.- 0 



P. feitio do badalo q Peza trinta L." 8 3-1/2 

P. feitio do eixo 2-1/4 

P. feitio das argolas 3/4 

P. feitio do Braso com duas xapas 3/4 - 4 

P. feitio dos gatos 1/4-2 

P. feitio das As pas com as cavilhas ... 4 - 

P. 1 dobradisa Nova - 4 



Soma Salvo o eRo (14S175) .... 11-3/4-2 

ReSebi nua Lima nova 1/4-2 

ReSebi dozoito L. as de ferro q. sobrou . . 1 - 3/4 - 2 

Meya libra dos miúdos - 1 



ReSebi 2 - 0 - 5 



Resta 9-1/2-5 



Ant.° de Crasto Lobo." 

"ReSebi a conta aSima de nove oitavas e meya e hum tostão de 
ouro e por as ter reSebido passo este de m. a letra e Signal oie 30 
de agosto de 1795 a.//Ant.° de Crasto Lobo//." (Doe. avulso). 
9 — "Val Este húa dúzia de tavoado bravo de Soalho e aJustey por 
quatro oitavas de ouro 

Val mais quatro taboas de canella que aJustey por duas oitavas 
e tres quartos e quatro ven. ,C!< deouro mais húa pracha para a 
porca do Sino novo Justa por duas oitavas deouro que soma 
tudo 8 - 3/4 - 4 que tudo foy p. a as obras de São (sic) Barra 12 
de Dz. bro de 1794//Pro. or G. 1 Dom.™ Alz daCosta Resebi a conta 
aSima por mam do Sr. M. Pl Alves meireles V. a Rica 1 de 8tbr.° 
de 1195/ /Ant.° Pr. Malta// São 8 - 3/4 - 4. (10$650 rs)." (Do- 
cumentos avulso). 
10 — "Recebi do Súr. Ajud/ Manoel Alí de Meir.™ como procurador 
da Ven. (1 ordem 31^ de S. Fran.™ treze oitavas emeya de Ouro 
q. mepagou de assistência de vinho p. a as missas e de Cobres 



350 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



q. eutinha pago p. a o Sino q Sefez denovo, e porestar pago e- 
Septis feito de tudo oqueSeme devia The odia dehoje paço este 
p. a Sua clareza por mim feito eaSignado V. a Rica 5 de 8br.° de 
1795/ ,'Franr daCosta Guim. es (16$200 rs)." (Doe. avulso). 

11 — Receby do Procurador da venerável Ordem terseyra de S. Franz 0 

quatro oitavas deouro perSudidas de Cobre velho que me com- 
prou p. a o Sino e pelas ter Recebydo do dito pro curador Ma- 
noel Alí de Mey reles paSo Este vila Rica 9 de 8br.° de 1795 a// 
Manoel de Mag. fS Gomes." (Doe. avulso). 

12 — "Na qualidade de Procurador que fui nesta ven.'' 1 Hordem ter- 

seira deSam Francisco, No ano de 1794 p. a 95 emformei o Re- 
querimento junto do Irmão Domingos Alf dacosta Sobre aver- 
dade de Seu requerim. to em que 18 - 3/4 - 4 decobre que tinha 
comprado para o Sino mião se lhe estavaõ devendo eque que- 
ria ser pago: Sendo Serto que com adita quantia fixou a sua 
conta do que tinha Recebido e pago: como se ve na conta que 
deu No ano de 93 Feita pello Irmão Cecretario o Cap. m Joze giz 
Reis p. r cujo motivo nada se lhe devia e como diçe que a Hor- 
dem tinha pago o que se ficarão devendo di dito sino varias 
coantias e não declarei aquém he o Seguinte A 

Manoel Joze Machado cobre para o dito sinno 



em 1795 20 - 0 - 0 

Ao Cap. m Luis Pinto 2 aRobas decobre p. a o sino 6-0-0 

Antonio de Crasto Lobo ferraje p. a o dito sinno 9-1/2-6 
Francisco da costa guim. ,s cobre p. a o Sinno e 

vinho 13-1/2-0 

Manoel de Magalhães cobre p. a o Sino 4 - 0 - 0 

1796 — Jacinto coelho da Silva 47 Bestas carre- 
gadas de lenha p. a a fundição do sino 6 - 1/4 - 4 



Soma (71$475 rs) 5-1/2-2 



Manoel Alz de Meirr" (Doe. avulso) . 

13 — Do têrmo de 12 de junho de 1832, livro 4.° fl. 79: " foi 

prezente uma reprezentação e conta corrente da despesa pelo 
nosso Irmão S. Mor Manoel Fernandes da Silva com a fundição 
do novo sino grande que importou tudo na quantia de seis cen- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



351 



tos quarenta e nove mil, duzentos e oitenta reis, rogando a pre- 
zente Meza tomassem conhecimento da entrega do dito e lhe 
mandassem pagar a quantia acima mencionada ..." 

14 — "1832 — Pagou o Sindico a despesa que se fez com o sino o Seg. lK 

Pagou a Bernardino Joze Barboza de pregar a fer- 



rage no Sino 7$200 

Aquém tirou o sino do seu lugar 1$920 

Pr. huma Arroba de xumbo 7$000 

Pr. 2 caibros para andaime e feitio 1$840 

Aos trabalhadores do sino 5$800 

Aquém pós o sino em seu lugar 1$600 



Soma 255360" 



15 — "1832 — Pagou o Sindico a Ferrage do Sino que fes Manoel Giz 

Neto a quantia vinte oito mil quatro centos e 50 reis que se en- 
controu esta q. ,a na divida de seu Pay o Ir. Theodorico Giz Dias" 
LP 2° de Rec. e Desp. fls. (apagado) . São 28$450 

16 — Em 1835 corria risco o sino grande. Consta do têrmo de 17 de 

setembro, do liv. cit. fl. 97, que se deviam fazer algumas despe- 
sas, entre outras "como o sino grande p. r q. a posição em que se 
achava parecia, era o de maior risco nacendo tudo do princípio 
de sua elevação a simalha." 

17 — Em 1841 este sino foi refundido, (têrmo de 24-1-1841). 

18 — José Valentim Onofre, a 12 de agosto de 1883, propõe-se a refun- 

dir o sino grande por 1:0003000. A 8 de dezembro seguinte es- 
tava pronto e projetou-se colocá-lo na torre do lado do Evange- 
lho (à esquerda de quem olha para a igreja), o que se não fez." 
(Liv. 5.° de Têrmos, 65 v e 66 v). 

7.° — CLAUSTROS OU VARANDAS 

Incompletas e sem data, encontram-se, consignadas em 
documento avulso, as condições para a construção dêsses 
claustros que tão lindo relevo ou distinção conferem à igreja 
de São Francisco. 

As aludidas condições estão assim redigidas: 

"Condiçõens, pelas quaes Sehá de Rematar afactura das Baran- 



362 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



das depedra por sima dos Corredores da Capela do Patriarcha S. Fran- 
cisco de V. a R. a 

1. Primeiramente Será obrigado o Arematante afabricar as duas 
barandas dos ditos corredores pelo risco que seofereça debaixo dopre- 
ceito que Seachar emSima nos pateos tanto em comprimento, como 
nos ángolos, que ad. a digura mostra, pois será asua medida conferida, 
primeiro q se de principio ad. a obra, em razão deque poderá ter mais, 
oumenos comprimento os pátios doque o risco, ep. a commais acerto 
Seconfere para não aver acrecimos, nem diminuiçoens aodipois. 

2. Será mais obrigado afazer toda esta Obra depedra deSabão, 
tanto pilastras, como balaustres, bazamentos, eCorrimoins, etudo fa- 
bricado como aponta omesmo risco, fazendosse em sima das ditas pi- 
lastras as suas pirámidas conrespondendo as mesmas do d.° risco, es- 
tas Levando noleito húa respiga quadrada, para Sefaser firme no So- 
bre Leito dapilastra, nesta fasendo húa ranhura, ou Caixa para se- 
embatumar, eficando bem Segura, emrasão dos tempos as não des- 
conjuntarem, eque pareça pedra enteira, comdeclaração, que as ditas 
pilastras, tres serão abalaustradas, como aponta omesmo risco, eSerão 
de quatro faceas, emostrando osSeus faxeados pelas arestas, emais 
baixos noámbito dentro, que mostrão aSer refendido, mas he campo 
Lizo, eSomente comSua Cabeça, ep. a aparte dedentro afará aneiala- 
da com Seu Campo dentro lizo aplaino, para melhor vista eestilo mo- 
derno, eSomente aque medea noSentro do Meyo, pode esta diferensar 
na Sua obra, Como também aponta omesmo risco. 

3. Será obrigado a fazer os balaustres também de quatro facias 
lizas, ainda que a Sua figura mostre Ser redonda, mas estas se- 
rão dearesta para melhor sepoderem fabricar; declarace que caso as 
pedras não tenhão comprimento para os embazamentos, eCorrimoins, 
estes serão emendados com os seus malhetes e escarbas Levando os 
Seus batumes deSorte que Senão conheção pordonde forão emenda- 
dos, ecomo Semostra no risco omodo como os ditos corrimoins e ba- 
zamentos engradão nas pilastras, pois estes tem mais grossura p. a pu- 
lar asua moldura, mais Superior, do que adoCorrimão abaze que mos- 
tra oseu ressalto paradevidir eseparar os vam-os dos balaustres, que 
estes sendo fabricados como osSeus plintos, eomais que mostra afi- 
gura, ecom asSuas respigas também quadradas, ecom as Suas Caixas 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OU BO PRÊTO 353 

emSima, eembaixo ficarão seguras, evistozas. Esta Caixa que Sedecla- 
ra, he Ser aberta no Sobre Leito dos embazamentos, eleito dos Corri- 
moins para aRespiga dos ditos balaustres. 

4. Será obrigado áSentar toda esta obra emSima domasame, ou 
Lages, que Levará por Sima das Abobadas nos ditos corredores, pois 
nos Leitos dos bazamentos Levará detres, entres palmos húa passage 
para as agoas, esta Será deduas pulegadas delargo, pois, como as di- 
tas agoas dos pateos, desagoão nos canaes em Sima das paredes, he a 
razão, porque Sena de faser esta passage, etambem pode ser atai baza 
posta emSima das ditas Lages, eestas ter as suas ranhuras para apa- 
çage das agoas. 

5. Será mais obrigado a faser os canaes depedra de Sabão, e seis 
garbolas também dadita pedra, tres paracada banda para receberem 
as agoas emSima das paredes, aSahirem pelas taes garbolas fora, que 
Sendo tua datai pedra deSabão, e bem embatumada, não será fácil 
entrar, ou penetrarem as taes agoas nas paredes, edeste modo se evi- 
tará este danno, pois pelo tempo adiante sempre hade haver algua 
novidade, eSomente desta Sorte Seevitará. 

6. Será obrigado a faser oacento emvolta das paredes da Capela 
Mor, depedra do Itacolomi, estas serão acentes em hunspez, que tam- 
bém sefarão depedra eestes serão comSeu recorte de S. eembaixo seu 
plinto, Levando pela parte da frente oSeu redondo e filete, para me- 
lhor vista eperfeição, pois comresponde com a grade dos Balaustres. 

7. Será mais obrigado, atirar, eQuebrar toda apedra que Seca- 
recer, aSim deSabam, como de Itacolomy Sendo obrigado afaser os 
acentos emSima dos pateos, que nesta sedeclara dad. a pedra de Ita- 
colomy por esta faser melhor figura, eficar conrespondendo amesma 
grade dos balaustres. Será obrigado aSentar os canaes, egarvolas em 
altura suficiente para receber as agoas, que vem dosd.°" pateos, com- 
declaração que fará as represas, q mostra o risco, que São duas equa- 
tro meas encostadas em os Lados das paredes, como também aponta 
omesmo risco, que todas estas Serão depedra de Sabão em rasam de- 
Conresponder húa couza com outra. 

8. Será mais obrigado aconduzir asua Custa toda apedra, tanto 
de Sabão, como do Itacolomy, que sepercisar, etambem dará aSua 



354 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Custa todos os batumes quelhe forem percisos, para aSeguransa dos 
canaes, eemendas das mesmas pedras, etoda apedra, quemais percisa 
for, eSó fica responsável a venerável ordem adar aod.° remat. e osmol- 
des demadeira para osrecortes das pilastras, balaustres epiramidas, 
Cujo rematante será obrigado acestir af atura dos mesmos moldes, q. 
serão fabricados como aponta o mesmo risco. E sera obrigado od.° re- 
mat.* andar os Canaes prontos, e garvolas atempo que o rematante 
das Abobadas percize continuar os Seus maxames, que como osCanaes 
recebem as agoas dos ditos pateos, he razão porque estas sepercisão 
acentar antes queSefaça od.° maxame emSima da Abobada, como tam- 
bém as mesmas represas, queestas são as primeiras, q. hão dehir de- 
baixo da Semalha, eporhiço asacentará q. d0 por percizo. Enão estra- 
nhará omesmo rematante, que emqualquer tempo, quequeira amesma 
ordem mandar ver Seaobra vae ounão na forma das Condiçoens, eris- 
co, epossa fazer pelo mesmo Mestre que asfez, ed. 0 risco. 

9. Será pago epeloque Sea justar emdois pagamentos opr.° quan- 
do estiver feita aprimeira baranda, eacente emSeu lugar de todo aca- 
bada, eosegundo depois daOutra, também estar acabada, porquesendo 
aSim amesma obra afiansa o rematante." (Doe. avulso). 

As varandas, a que se referem estas condições, viriam for- 
mar, como foram traçadas 8 uma elegante balaustrada de pedra- 
sabão, ornada de pilastras e pirâmides, destinada a guarnecer, 
como guarda-corpo, o terraço, ou "pátio", que se assentou, de 
um e outro lado do templo, sobre os corredores do rés-do-chão. 
Êsse terraço, obra complementar das abóbadas dos menciona- 
dos corredores, seria descoberto, como o inculcam os canais e 
gárgulas de que rezam as condições, feitos para "receberem 
as agoas" e as lançarem fora... "pelas tais garvolas". 

Se executada como prescreviam as referidas condições, 
nessa obra teria hoje a igreja de São Francisco mais um motivo 
de atração, e a arte de Antônio Francisco realces novos, se pos- 
sível. Mas, apesar de projetada com tamanho carinho e erudi- 
ção, devendo ser trabalhada em boa pedra do Itacolomi, "para 
fazer a melhor figura", não pôde essa obra ser levada ao têrmo 
planejado, e daí a necessidade, em 1801, de se cobrir o terraço 
a fim de amparar as abóbadas sôbre as quais se assenta, preju- 
dicando embora, sensivelmente, a iluminação da capela-mor. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 355 

Datam dessa época os arcos que ornamentam essa parte 
da igreja, os quais não constavam do risco original nem da vari- 
ante sugerida em 1772 pelo próprio autor — Antônio Francisco 
Lisboa. 

Contudo, imperfeitos ou inacabados, esses cláust os, como 
hoje os apelidam, emprestam graça singular à igreja de São 
Francisco. 

Em 1801 o Andador Clemente José de Alamão Chaves, 
Procurador interino, mandou cobrir "os corredores desta ca- 
pela". Despendeu com isto 65S550. 

8.° — PORTAS E JANELAS 

Teria vindo de Lisboa, a pedido de um irmão da Ordem 
Terceira, como informa certo apontamento que se encontra no 
arquivo da Ordem. 

Tal porta, bem como as laterais, foi contratada, em 1823, 
com o Mestre Lucas Evangelista de Jesus. No mesmo ajuste 
entraram as quatro janelas do côro. Tudo se executaria 
debaixo das seguintes condições: 

"Condiçoins do Ajuste daObra das Sinco portas, edas quatro ja> 
nellas do Coro, q faz esta Venerável Ordem 3. a dePenitencia de S. m 
Francisco de Assis desta Imperial Cidade do Ouropreto, com o Offe- 
cial Lucas Evangelista de Jesus, declaradas emo Termo pella Meza 
dad. a Ordem, no Livro delles afolhas 218, vo asquais ficaõ no Arquivo 
da Ordem assignadas pello dito Offiçial, esseo fiador o Cap. m Manoel 
d'Asemçam Crus, naforma abaxo declarada. 

Condição l. a 

O offiçial Lucas Evangelista deJezus, será obrigado afazer aporta 
prençipal desta Igreja, asquatro portas travessas dam.™, dolado de- 
fora, easquatro janellas do Coro, pello Risco q esta prezente a Meza 
junto aestas, eassignado pello d.° Offiçial, o qual deve executalo com 
amayor segurança, eperfeição, egosto, com apossivel brevidade, co- 
messando já afactura desta obra. 

2.» 

Fara aporta prençipal pella quantia de Oitenta mil reis, as quatro 
travessa dolado defora da Igreja a Vinte quatro mil reis Cada húa, 



356 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



que importão em Noventa eseis mil reis, e tudo faz asoma, eq. tu de 
duzentos evinte quatro mil reis, recebendo daOrdem ametade dopre- 
ço deCada húa logo, que prencipie asua factura, eoresto nofim da- 
concluzam década húa, sendo am. ma obra fiscalizada p. la Ord. eseo 

p r0 (Jor 

3 a 

Será obrigado afazer adita obra com assintençia do Offeçial Ma- 
noel Francisco de Amaçeno, que para isso Comvidou, oqual seaxa tra- 
balhando ao prezente noassento datalha da Confraria de Marianna, 
prençipalmente nas oCasioins demayor neceçidade, Como afactura 
(ilegivel), abertura dos furos na Madeira, ajuntamento daspranxas, 
easentamento dasportas, sem q á Ordem fique Responçavel (ilegivel) 
pagamento algum aodito Manoel Francisco d'Amaçino, nem á outro 
q. 1 q. r Off.* 1 que mais xamar p. a ajudar-lhe, e inda serventes, q todos 
serão pagos pellodito Lucas Evangelista, e a Ordem não será obriga- 
da aprestar sustento algum, esópagar aq. tltt referida na 2 a Comdição. 

4. a 

AOrdem só será obrigada aprestar /alem dosfeitios oupreço de- 
clarado napredita 2. a Condição/ as Madeiras, pregos, toda ferragem 
para ad. a Obra, eo Offiçial dePedreiro para fazer os furos dos Caixi- 
lios, exumbar este, osmesmos. 

5 a 

Quando Concluir cada hua dasditas portas ou janellas serão exa- 
minadas p. r dous Offiçiais hum Elleito pella Ordem, eoutro pello dito 
Lucas, ep. r ella aprovada p. a dizerem seestão em termos da Ordem Re- 
cebellas, epagar esta o Resto dopreço de Cada húa, ou acaso descubrir- 
se algua imperfeição, ou falta deSegurança sera (ilegivel) o m. mo Of- 
fiçial, eseo fiador aResponder a Ordem Uniformemente, ehum p. r am- 
bos pelo dinhr. 0 q tiver Recebido, eprejuizo, q Cauzar as Maderas, 
q. sedestruirem. 

E p. a Constar assignão asprezentes Condiçoins o Offiçial Lucas 
Evangelista de Jesus, eseo fiador o Cap. m Manoel d'Ascenção Crus, as- 
q. M ficam no Arquivo desta Ordem p. a seobservarem Como nellas se- 
declarão, etambem assignão no Referido Termo Com a Meza, obri- 
gando-se pellos seus bens ao Cumprim. 10 das sobreditas Condiçoins 



SlO FRANCISCO DB ASSIS DE OURO PRETO 



357 



tanto oOficial, Como seofiador, e Vam p. r mim Camillo de Castro 
Per. a de Andrade Secretario q o Escrevi, eaSignadas pello Off. aI d.° 
efiador. Ouro preto em Meza de 31 de Agosto de 1823 

Manoel da Ascenção Cruz 
Lucas Evangelista de Jezus. 

Rellação das Madeiras que faltão, para a Obra das quatro Portas 
travessas, e a Principal desta Igreja, bem como para as quatro Ja- 
nellas do Coro eque se entrega ao S. or Irmão Ex Vice Ministro desta 
Venerável Ordem 3. a da Penitencia de S. Francisco de Assis o Cap. m 
Manoel Joze Barboza perante a Meza, na forma determinada pelo 
Termo em o Livro delles a folhas duzentas e quatorze e Seguintes, a 
qual vai aSignada pelo Secretario da Ordem, que presentemente ser- 
ve, e tãobem pelo Official encarregado da Obra Lucas Evangelista de 
Jezus aSaber 

Por duas Pranxas de Canella preta de vinte palmos de compri- 
mento, dous de largo, e tres quartos de groço. 

Por doze ditas de dita de vinte, palmo e meio de largo, e quatro 
dedos de groço. 

Por vinte quatro Taboas de Canella parda de vinte, palmo e meio 
de largo, e meio palmo de groço. 

Por doze Pranxas de Canella preta p. a as janelas, de dezesseis, 
dous palmos de largo, e quatro dedos de groçura. 

Imperial Cidade do Ouro Preto em Meza de sete de Setembro de 
1823. 

Lucas Evangelista de Jesus 
Camillo de Castro Per. a de Andr." 
Secretario." (Docum. avulso) 

Constam do L° 2 o de Rec. e Desp. (período de 1822-1823) 
os pagamentos feitos ao Mestre Lucas — de 4$600 "por conta 
do feitio da porta principal (fls. 86)" e de 30$400 "por conta da 
obra da porta principal" (fls. 97) ; e no período seguinte de 
1823-1824 o de 50$000, "metade do preço das duas portas tra- 
veças". (fls. 100). 

Duas das portas do contrato do Lucas, êle não as concluiu 
e foram contratadas com outros oficiais, como informa o termo 
de 10 de setembro de 1826 no trecho seguinte: 



358 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"... o mesmo Irmão Procurador Geral Serafim Jozé dos Santos 
propôs mais a esta Meza que aparecendo algúas pranxas que se com- 
prarão para concluzão de duas portas travessas da Nossa Igreja da 
parte de fora, fizera elle Procurador avaliar o servisso e trabalho que 
havia fei o o Mestre Lucas Evangelista de Jezus em algúas madeiras 
p. a parte das duas portas, cujo trabalho foi avaliado pelos avaliado- 
res do Conselho em dez mil reis, e q logo depois ajustara elle Procura- 
dor o feitio das ditas duas portas com o Irmão Manoel Giz Neves e 
Ignacio Fran.' 0 de Carv.°, ambas pelo preço e q. tia de sincoenta mil 
reis a seco, e com as mesmas condiçoens com q. forão justas com o 
Off. al Lucas Evang. a de Jezus no L.° de Termos findo a folhas duzen- 
tas e dezoito verço e só com a diferença do preço q aqui se declara 

p. a ambos os Off. e " eaxando-se prezente o Ir. Manoel Giz Neves 

diçe estava assim justo " (L.° 4.° de Termos, fls. 39). 

E no L° 2 o de Rec. e Desp. vem registado o pagamento de 
50$000 feito a Inácio Francisco de Carvalho "pelo feitio de 
duas portas traveças". (fls. 116). 

Com relação a portas e janelas, lançarei aqui o pagamento 
de 56$000 efetuado a Manuel da Silva Benavente pelo feitio 
de quatro janelas dos corredores. Tal pagamento se refere ao 
ano compromissal 1771-1772 e se encontra registado a fls. 108 
v. do L° I o de Rec. e Desp. 

9.° — CÔRO E GRADES DE MADEIRA 

Contratado o côro, como veremos no § 11°, com Manuel 
Rodrigues Graça por 41 oitavas e 3/4, isto é, por 50$100, não 
foi êle, contudo, o único que realizou aquele serviço, visto 
como, por trabalhos no côro, foram pagos: Manuel Gomes 
Laborinho, Manuel Gomes Barreiros, Manuel Gonçalves Ne- 
ves e Domingos Gonçalves de Barros. Comprovam-no os 
documentos que seguem: 

"N.° 12 — 15 1/2 6 

Reçebi do I. r Dom." s Alzda Costa como procurador da Venerável 
ordem terçeira de S. Fran. ct> desta villa quinze oitavas emeya eSeis 
Vinténs deOuro que mapagou de meu travalho de Carpinteiro que 
vençi naobra que se faz no Coro da Capela dad. a ordem, epor estar 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



369 



pago e Satisfeito lhe paço este por mim Som. te aSignado V. a Rica 5 de 
Agosto de 1794//M. e ' gomes Barreiros (18&285 rs)." 

"N o 13 — 12 3/4 

Reçebi doI. r Dom. os Alz daCosta como P. or daordem de S. Fran. c » 
doze oitavas, etres coartos deouro quemepagou de Jornais que vinci 
naobra do Coro da capella da mes. ma ordem epellas ter Reçebido paço 
este p. r mim Som. tc Asignado. V. a Rica 6 de Agosto de 1794//Manoel 
Gomes Laborinho (15$300 rs)." 

Outras despesas com o côro: 

"Snr. cs Irmã de Meza // Diz Manoel gonsalves Nevez que a elle 
Sup. c lhe he devedora esta V. cl ordem trinta e quatro oitavas de ouro 
de Seu uficio de carapina, que venseu na fatura do coro, e cazas que 
está atras desta capela, tudo p. r ordem do procurador que foi Dom. 0 ' 
Alz da costa e p. r que q. r ser pago da referida q. tia req. r a V. V.C.C, se- 
jão servidos mandar-lhe pagar p. r q. to — P. a V.V.C.C. sejão servidos 
a Sim o mandar do q. E.R.M." (Doe. avulso) — maço 206). 

Antes, em 1778-1779, Domingos Gonçalves de Barros rece- 
bera 3$600 de serviços no côro (L° I o de rec. e Desp. fls. 176). 

"Recebi de Bernardo J. e da Costta como procurador da venerável 
Ordem Terceira de S. Fran. c0 a quantia de des oitavas ettres quartos 
de Ouro procedidas de taboado p. a o forro do Coro. Villa Rica 3 de Ju- 
lho de 1800 



Manoel da S. a Guim. a 



2 dúzias de taboas de forro 7- 0-0 

1/2 dúzia de soalho de Canella parda 3 - 3/4 - 0 



10 -3/4-0 



12Ç900 rs. 



Pg. a M. e > Giz. 200 pregos "caix.™ p. a 



forro do côro" 1-1/2-0 

400 pregos ripares p. a o forro do coro 1-1/2-0 
200 d. os caixares 1-1/2-0 



4-1/2-4 



5$550" 



(das contas do Proc. or Bernardo Veiga de 1800) 



CÕNBOO RAIMUNDO TRINDADE 



Com relação às grades de madeira, modesto serviço sobre 
o qual não se detém o olhar do visitante, encontrei no arquivo 
estes dois documentos: 

"Conta das Taboas que vierão da Caza do Snr. Malta p. a as gra- 
des da capela de S. Francisco 



8 Taboas Largas a 3/4 6 - 0 - 0 

9 Ditas estreitas a 1/4 — 4 3-1/4-4 

2 ditas de forro a 1/4 — 4 0-3/4-0 

1 dita para as placas a 1/4 — 2 0 - 1/4 - 2 



Soma (12$525 rs.) 10-1/4-6' 



"Recebi o contiudo aSima queSão des oitavas e quarto e seis vin- 
teis de ouro p. r Mão do Procurador da mesma Manoel Alz de Meir." vil- 
la Rica a 15 de Agosto de 91//Ant.° Pr. a Malta// 

R/* dosnr Aju. de Manoel Alves de Meireles como pro curador da 
ordem 3. a deSão Fran. co nove oitavas e doze vinténs deouro daobra das 
grades dadita ordem epor ter recebido ad. a coantia paSei este p. a Sua 
Clareza v. a Rica 8 deDezbr 0 de 1797 //Manoel Giz Neves // São 9 — 
1/4 _ 4 (11$250 rs).*' 

10. a — CAMPAS 

Eram ordinàriamente no interior das igrejas os cemitérios 
de outrora. Tinham-nos as matrizes para o comum dos fiéis 
e tinham-nos, nas suas capelas — quase exclusivamente para 
seus associados — as Ordens Terceiras, Irmandades e Confra- 
rias. Os túmulos, que os constituiam, cobriam-nos umas cam- 
pas de madeira, dessas que, por maravilha, pavimentam ainda 
alguns de nossos templos coloniais e que, milagrosamente, vêm 
escapando à raiva demolidora de ímpios e sacrílegos brasilei- 
ros, "iconoclastas redivivos", bárbaros destruidores dos pa- 
drões, já raros, de nosso passado, e defraudadores do precioso 
patrimônio histórico e artístico de nossa terra" (72). 

(72) A quem, por acaso, queira acoimar de contraditórias as opiniões do au- 
tor, expendidas aqui e em Arehidincesc de Mariana, responderei, com A. Hercula- 
no, que 20 anos "não passam debalde para a inteligência humana, e eu não me en- 
vergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho df» 
raciocinar e aprender {Opúsculos, II, 64) ". 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 361 

As campas de São Francisco que, louvado seja Deus, aí 
estão novas e perfeitas, devem-se à iniciativa do irmão Fran- 
cisco Moreira Neto, quando vigário do culto divino em 1783. 

Nelas trabalharam, além de alguns oficiais cujos nomes 
se esconderam às nossas investigações, dois conceituados mes- 
tres, Manuel da Rocha Monteiro e José Ribeiro de Carvalhais. 

Vejamos os documentos que nos falam dêste serviço. 

"Sr. Ministro emais defini tório: 
(Despacho) O N. Ir. Sindico Assista 
com quarenta Oitavas de Ouro p. a 
complem.' 0 deque trata Este Requeri- 
m.to na) atura do acampamJo aq. todo 
o Definitorio uniforme m.' c com- 
veyo ficando oq. der O Ir. Joze Igna- 
cio p. a amesma Ordem V. a R. a em 
Meza de 13 de Maio de 1787. (assi- 
turas ilegiveis). 

Diz Fran. co Mor. a Netto q. e Servindo de Vigr ° do Culto divino o 
anno de 1783 p. a ode 84 entrou na pertenção de mandar aCampar 
aCapella Mor até aCoxia desta Nova Igreja Com a sua esmola edeSeos 
Sanchristaens entrando também ajoya que havia dedar oSeu ante- 
ceçor João Fran. co dos Santos q. ja havia aplicado p. a este fim. Com 
aqual obra tem oSup. e despendido, deq. ainda deve parte, aquantia 
deSento edesasete oitavas etres Coartos deoiro eSotem Recebido Como 
Consta daConta junta Sincoenta oitavas eComo oSeu Sanchristão 
Francisco Alves da Costa e Joze Ignacio lhe não tem dado Coiza algu- 
ma edamesma Sorte o Anteceçor João Fran. e0 dos Santos eSeos San- 
christaens Constando o Sup. p q. odito Santos Recebera Vinte oitavas 
de dous Sanchristaens, achandose o Sup. p nodesembolço de Secenta 
eSete oitavas etrescoartos deoiro p. a pagamento dad. a quantia Re- 
corre a V. V.C.C. Sedigne mandar q osSup." 8 venhão aprezença de V.V. 
C.C. dar aRezão por q. não pagão enão pagando Servirse V.V.C. C. de- 
pagar aReferida quantia de 67/8 as e 3/4 pello Irario desta Venerável 
ordem pois autilidade da obra he da mesma ordem deq. — P. a V.V. 
C.C. Sedigne aSim omandar — ER M. tc 



362 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



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SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



363 



Do ABcedário, fls. 25, verso: 



1787 — 4 de 7br.° — A V; 1 Ordem deve á Sacristia p. a a 
conclusão do acampamento da Capela mor te a grade 
q se recebeu de 2 Sacristães p. 1 mão de João Fran." 1 
dos S. tos 



20/8 a "" 



Ibid.a fls. 26: "1788 — Recebeu a q. u em fronte Fran. co Mo- 
reyra Neto q correu com a obra 



20/8"" 



De documentos avulsos: 

"Resebi do Sr. Ajudante Mel. Alves Como pro Curador da Venerá- 
vel terseira do patriarca Sam fran. co trinta oitavas de ouro por Conta 
destte decumento epor ter Resebido paso este de minha Lettra eSinal 
Vila 17 de agosto de 1788 a./ /Fran.™ Mor" Netto//." (36$000rs). 

"Resebi do Snr. Ajudante Mel Alves como proCurador da venerá- 
vel ordem terseira trinta oitavas deouro derestto do Campammentto 
que fiz do Choro p. a Sima e por ter resebido paso estte de minha Lettra 
eSinal vila Rica 18 de 7br.° de 1788 a. // Fran.™ Mor. a Netto//." 
(36$000rs) . 

"Recebi do procurador da venerável ordem de S. Fran.'° corenta 
e trez oitavas e doze vinteniz de ouro porsedidas demadeira q lhe ven- 
di p. a a venerável ordem trezeira epelas ter Resebido pazei este som.* 1 ' 
por mim azinado vila Rica 5 deagosto de 1794 a//Fran. c0 mr. a Netto. 
São 43-1/4 - 4." (52$050 rs) . 

"Conta do que se deve ao Sr. Fran. " Mor. a Neto de 
resto da conta velha do que tomou o Pr. cor 
Dom. 02 Alz 13 

22 Panxois p. a o resto do acampam.*" da Igr. a a 3/4 . . 29 



"Recebi o perduto da conta aSima que são vinte e nove oitavas de 
ouro p. r mão do Proc." r Manoel Alz de Meir. os villa Rica a 18 de Maio de 
1796//Fran/° mr. a Netto." 



Soma 



29 = 34$800' 



No L° I o de Rec. e Desp. a fls. 251 (1788-89) há o seguinte 
lançamento que talvez se relacione com o pagamento das ses- 



36 1 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



senta oitavas a que se referem os recibos retro de agosto e se- 
tembro de 1788: "Recebeu Francisco Moreyra Neto p. a paga- 
mento da obra do acampamento da nossa Capella Sesenta Oita- 
vas de Ouro e de como recebeu aSignou comigo Secretr. 0 
//Fran. co mor 8 Netto// Joze Bernardes de Fig. do ." (Does. avul- 
sos: 

De documentos avulsos: 

"Rol de esteios e pedra p. a o acampamento ao Sr. Manoel da Ro- 
cha Montr 0 , 

Carros de pedra para os baldrames 41 a 1/4 10-1/4-0 

esteios p. a o acampam. 10 17 a 3/4 12 - 3/4 - 0 

dias do M. c Pedr.° 9 a 1/2 4-1/2-0 

dias de ofeciais de tres pessoas 30 a 1/4 7-1/2-0 



(42$000 rs) Soma 35 - 0 - 0 

"Recebeu a conta aSima vinte Sinco oitavas de ouro a 29 de Mar- 
so de 1797. Recebeu mais des oitavas de ouro q. tudo faz — 35. 

Recebi do Procurador da Ordem 3. a deSão Francisco Manoel Ali 
de Meir.^ seSenta e quatro oitavas deouro defazer o Resto do acam- 
pam. 10 de Pedra te aporta prencipal p. r ajuste que fiz com o dito 
Procurador Vila Rica a 28 de Maio de 1797// Joze Ribr 0 decarv." // 
São 64/8" — 76$800 rs." 

11 o _ TELHADO E FÔRRO 

A obra do telhado correu por conta do arrematante, como 
se colhe do registro de pagamento feito a José Ribeiro de 
Faria, lançado a fls. 253 do L° I o de Rec. e Desp., onde se lê a 
cláusula "por conta do rematante"; mas aí, em diversas épocas, 
trabalharam, além do referido José Ribeiro de Faria, os seguin- 
tes oficiais: — Henrique Gomes de Brito, Francisco Rodrigues 
Lajes, João de Almeida Lanhoso, Miguel da Costa Peixoto e 
José Barbosa de Oliveira com seu escravo Manuel. É o que 
informam registros que ementarei e outros documentos que 
irei trasladar: 

"Snr. Ajudante Manoel Alves de Meyrelles — Vm. lc emtregara 
oouro q esta em seu Puder q. sam trinta ecoatro oitavas emeia deres- 
to defeitio dos telhados de S. fran. co os coais Vm. w ficou depagar no 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



365 



seu anno e Vm. r '' troce carta de Dom. v Mor. a que oouro estava pronto 
eaSim esta feita aobra não tem Vm. w que dizer emtregue a Joze franc." 1 
frz ad. a quantia dacoal Sou depozitario deque ele meade deslnorar 
fico aSua orde eu esto depurga edoente Poriço não vou aos seus pés 
DeVm. re crP//Joze Ribr. 0 de Faria// (73). Pertence oSnf Vianna." 

"Travalharão os Negros nos Telhados do Patriarca S. 
Fran.™ Pr. 9 dias q. travalhou o Negro Paulo a 
1/4 - 4 por Dia que enporta 3 - 1/4 - 4 

O outro Negro q he serventuário a 4 v. p. r Dia 1 - 0 - 4 



Soma (5S400 rs) 4-1/2-0 

V. a Rica 22 de Nobr.° de 1784 // Miguel da Costa Peixoto//" 

"R." do S. r then. te Diogo da Sylva Ribr 0 pro Curador Geral da V. el 
ordem 3 a de S. Fran. eo coatro oitavas e meya deoiro procedidas de 
Concerto dos telhados da Capella da m. roa ordem e por verd e lhe paço 
o prezente Som. te p. r mim aSignado v. a Rica e 28 de 9br.° de 1784 // 
Miauel dacosta Peixoto//. 

"Conta que da Joze Barboza dos dias que trabalhou e seu escravo 
Manoel nos telhados da Igreja da Ordem 3 a de S. Fran.™ q. teve pren- 
cipio em 27 de Julho de 1796. 



Por 11 dias meus a 1/2 - 4 6-8/4-4 

Por 13 dias do Manoel a 1/4 - 4 4.3/4.4 



Soma (rs. 14$100) 11-3/4-0 

Joze Barbosa deolivr 0 - 

Abonace a Jacinto coelho da S. a 3 - 0 - 1 

Abonace ao Sr. Joze Barboza deolivr. a 8-1/2-7 



11 - 3/4 - 0" 

O mesmo José Barbosa de Oliveira ainda trabalhou no 
telhado de 16 de julho a 15 de setembro de 1804 — êle e oito 
oficiais, seus escravos. (Doe. avulso). 



(73) Infere-se pelo registro que em breve se há de ler, ser de 1788 esta carta. 



366 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Lançamentos no L° I o de Rec e Desp.: 

A fls. 109 — Recebeu Henrique Gomes de Brito de cobrir 
o telhado a quantia de rs. $750 (1771-2). 

A fls. 160 verso — a Francisco Rodrigues Lages — 1$200 
de consêrtar o telhado (1776-77). 

A fls. 176 verso — João de Almeida Lanhoso recebeu 
6$000 de conserto do telhado da Igreja (1778-79). 

A fls. 191 o registro de um pagamento de 78/8 as de refor- 
mar o telhado a Miguel da Costa Peixoto (1780-81). 

A fls. 253 José Ribeiro de Faria é pago de 22/8 as de "resto 
da factura dos telhados p. r conta do rematante" em 1788. 

Com relação a João de Almeida Lanhoso o ABcedário a 
fls. 14 v. e 15 encerra o seguinte: 

"1779 — D. 1 ' a Nossa Yen.' 1 Ordem a João de Al- 



meida Lanhoso des dias de Jornal a 1/2 e 4 6 e 1/4 

"Pr. ouro que lhe pagou o Ir. Sindico Cust. 0 Alz 

de Araujo 2 e 3/4 

P> que se recebeu em annuais 3 e 1/2 



6-1/4 6 - 1/4" 

Quanto ao fôrro da igreja há o seguinte no arquivo da Ordem 
(ABcedário — 13 verso): 

"1779 — D. e a Nossa Ven. 11 Ordem a Manoel Roiz Grassa 
p. a selhepagar na forma da rematação q fes do ema- 
deiram. 1 " forro e camboteado o q. consta das condi- 
çoens e emporta a dita rematação q. se fará em tres 



pagam. tos a q. ,a de 255$000 

Deveselhe mais o ajuste da factura do coro que foi justo 
por 38/8 as com o acrecimo de que deo conta — 41 e 

3/4 a dr.o 50$100 



305Ç100 

Custas 6$195 



311$295' 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



,167 



E no mesmo ABcedário fl. 14: 



"Hade Haver p. a a conta emfronte (acima) o Seg."* 
P.'° que recebeo do Ir. Sindico João de Amorim Per. a o que 

consta do Seu recibo 63$600 

Pr. mais que recebeo como consta do mesmo 2Ç100 

Tem hú páo rolisso p. r empréstimo que na sua falta hade 

dar húa oitava e meya. 
1782 — Pr. dito do Sindico Ant.° Fran. 10 da S. a por mão 

do Men.° Luis de Amorim Costa 12$000 

1782 — Pr. d.° do Ir. Proc. or Alferes Fr. co X. er decarv. 0 de- 
que passou recibo que seacha em corporado no de- 
cum. t0 do d.° Irm. Proc. cor e nalinha do Sindico Ant.° 

Fr.™ da S. a em N. 2 77$125 

1783 — Recebeo do Ir. Sendico M. el Alz de Meir." 89$225 



244$050 

do Recibo 1$500 



245$550 

1784 — Recebeo do Sindico em n.° 20$812 

Recebeo p. r mão do Pro. vor Diogo da S. a 26$400 

Recebeo em N.° 33 5$775 



298$537 

1875 — Recibo em N.° 15 8$812 



307$349 

Restasse pg 3$946 



pg 311$295" 

Há mais : 



"Receberãose nesta venerável ordem 3 a de São Fran. 00 vinte eSeis 
dúzias em. a detaboado jaLimpo, do Snr. Ant.° Pr. a Malta daConta que 
o d.° rematou p. a oforro da Igr. a ep. 1 constar dos recibos deSua en- 
trada Lepasso oprez. tc p. a Sua clareza enossa V. a Riqua 

ede8bro 30 de 1781// Franco Dom.os deCarvP 

Recebi mais tres Dúzias detaboado deforro do Snr. Ant.° Per . a 



368 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Malta que Seachão naCapela ep. r estarem mesturado Comoutro que 
ja he da ordem eSer custoso oapartalo p. a Selhe emtregar oaJustei ao 
preço de tres oitavas cada dúzia deque Selhe pagarão nove oitavas de- 
ouro fora ad. a arematação ep. r aSim Ser verd. e paso oprez ,e dem. a 
Letra eSignal V. a Riqua ede8bro 30 de 1781/ /Frau.™ Dom.°s de Carv.°" 

★ 

"Senhor M.° e Mais definitorio 

Diz o Goarda M. Manoel da Mota de Andrade que esta venerável 
ordem lhe he devedora da quantia de duzentos oitenta e sinco mil 
sento e doze reis constantes da conta Junta na coal coantia emcontra 
o sup. c duzentos, sinco enta Mil e duzentos trinta e sete reis que o 
sup. e deve a m. ma como consta do asento da sua conta no L.° pr.° a 
fl. 234 de que ainda a m. ma ordem lhe resta trinta e coatro mil oito- 
sentos setenta e sinco que ficão p. a os anuais que se venser, portanto, 
como da conta milho hade constar, 

P. a V. V.C.C, sejão servidos averlhe a conta por boa. 
E.R.M.~ 

Documentos — 49$563 
250$237 



299$800 

pago no encontro do Lbr° fl. 234 
Ribeiro 

(No alto) : Compense na fr. a requerida V a R. a em Meza de 10 de 
Março de 1782. 

Costa 

Conta do q Deve a Venerável Ordem 3 a a 
Manoel da Motta de Andrade 

15 Dúzias de Cambotas p. a o forro do Corpo da Igr. a 

Rematadas p. r 74/8 1/2 a Dr.° Sao 89$400 

25 Dúzias de taboado de forro p. a a d. a obra a 5/8 1/4 de- 
clarasse a verse som.* gasto Dezoito Dúzias e ficar as 
mais por Conta e risco do d.° Snr. goarda Mor e as 

Dezoito Dúzias a Dr.° emportão 113$4G0 

e p. or a limpar as Dezoito Dúzias — a 1/8 21Ç600 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PSÊTO 3(39 

3 Dúzias q vierão para Limpar .... a 3/8 10$800 

40 Missas pela alma do p. 1 Luis pacheco de Andrade — 

20/8 24$000 

Pagou a Antonio Frz a Conta das Madeiras q. lhe devião 1/2 11$400 

a Antonio Pr. a Malta 7$200 

a Dom. 0 * Mor. a a Conta da arematação da Igr. a 22$800 



2995800 

Para dar Quitação da q. u " de 299S800 ao Sindico da Ordem 3 a da 
penitencia de V. a R. a Ant.° Fran. co da s. a pelo aver R.™ no que devo a 
mesma Ordem fasso a meu bastante Procurador a João Ferr. a da S. a 
Ignacio Fr. fo Ant.° da S. a Braga para cada hum de persi possa asignar 
a mesma quitação e tudo o obrado a este resp. l > por qual quer dos di- 
tos averei por bom firme e valiozo e para firmeza mandei passar a 
prezente por mim som."' asignada. V a R. a 20 de Mço 1782. 

M. el da Motta de Andr.- ,< 

Pela analogia que têm com o assunto dêste parágrafo, 
trasladarei para aqui os recibos que seguem: 

"Receby do Sr. Rdo. Com.° Manoel de Abreu Lobato vinteSete oi- 
tavas eSeis v.* 8 de ouro procedidas de Sete dúzias emeia de taboado 
deforo p. a o foro do teto do consistório da V.* 1 ordem 3 a de São Fran.°° 
desta villa Rica a 4 de Março de 1801 e por não Saver ler nem escre- 
ver pedi a Ignacio Franz" que este por mim Fezeçe eaSinaçe eu me- 
aSigno com o meu Signal que (sic) húa Cruz//7o2e + Frz dourado/ 
Ignacio Fran. cn // São 27/8 as e 6 v.^ 8 = 32$625 rs." 

R. oe mais na mesma forma aSima sete oitavas e coarto de ouro 
de duas dúzias tetaboas deforo V. a Rica a 22 de Março de 1801 // Joze 
+ Frz dourado/ /Ignacio Fran.™ // São 7/8 a8 1/4 = 8$700 rs. 

Receby do M. to R. do Snr. Comissário Manoel de Abreu Lobato a 
quantia de Sécenta digo a quantia de trinta e Seis oitavas de ouro pro- 
cedidas de 8 dúzias e cinco taboas de Soalho aRazão de 4/8 as e 1/2 a 
dúzia p. a aobra do forro do concistorio da Capela da Ordem de S. 
Fran.'° ep. r não Saber ler nem escrever pedi a M. el Felix Rosa que este 
p. r mim fizesse e como tt. a aSinase V a R. a 21 de Julho de 1802. Signal 
de Veri -f ssimo da S. a Guim. e * // M: 1 Felix Rosa // São 43$200 rs." 



CAPÍTULO IV 



O ALEIJADINHO EM SÃO FRANCISCO 

É em São Francisco de Assis de Ouro Prêto, cuja história 
estou a bosquejar, que se nos apresentam, numa série surpre- 
endente, as jóias mais custosas da arte impressionante de An- 
tônio Francisco Lisboa. São Francisco de Assis, sobretudo, é 
que há de levar-lhe o nome à posteridade mais distante. Po- 
derá o tempo consumir as biografias do artista; poderá des- 
truir todas as monografias, todas essas referências impressas, 
nacionais e estrangeiras (74), que procuram resguardar do 
olvido a memória do arquiteto patrício; ainda assim, sua me- 
mória sobreviverá gloriosa, porque lá está esculpida na estea- 
tita e no cedro, em maravilhosos lavores diante dos quais vêm 
pasmando, assombrados, artistas dos mais civilizados países da 
terra. No insigne monumento que êle "alimentou com a subs- 
tância de sua alma e em que se converteu, deixou, morrendo, 
o seu nome a sussurrar perpètuamente através de seus lavores 
e de suas cinzeladuras". 

Antônio Francisco era de Vila Rica, onde nasceu — na 
freguesia de Antônio Dias — aí pelo terceiro decénio do século 
XVIII. 

Na oficina do mestre Manuel Francisco Lisboa, seu pai, 
exercitou-se nas artes que abraçara e nas quais atingira sin- 
gular perfeição, mercê também das lições de João Gomes Ba- 
tista e dos notáveis mestres que então de soberbos monumen- 
tos opulentavam Vila Rica e outras localidades da capitania. 



(74) Cf. Judite Martins — Apontamentos para a Bibliografia referente « 
Antônio Francisco Lisboa — in Rev. do SPHAN, 3.°, 179. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO :J7l 

A cruel enfermidade que, aos 40 anos de idade, já no 
esplendor de sua carreira, o assaltou e que a outrem teria redu- 
zido a condição de mendigo, não o sequestrou do trabalho; 
antes parece ter comunicado maior realce à obra, de si mesma 
elegante e perfeita, que o imortalizou. Dir-se-ia que a paixão 
pela arte ou uma intensa aspiração à glória era quem lhe revi- 
gorizava os membros tolhidos pela zamperina. São justamente 
os trabalhos que êle realizou sob o domínio implacável da 
doença aquêles em que se ostentam o primor e a riqueza de 
sua arte. 

E é em São Francisco que estão esses trabalhos; aí abafou 
êle a sua dor, e a visão da glória porvindoira venceu a enfer- 
midade. 

Das realizações soberbas do artista, de que não ouso falar 
como crítico, direi chã e prosaicamente quando e como se efe- 
tivaram e o preço por que as pagou a Ordem Terceira de São 
Francisco. 

1.° — PÚLPITOS 

Como vimos nas condições (a de n° 7) propostas ao cons- 
trutor, a feitura dos púlpitos entrava no seu contrato. Domin- 
gos Moreira foi, portanto, quem os teria pago ao autor incon- 
testável dessa maravilha — Antônio Francisco Lisboa. A auto- 
ria do Aleijadinho atestam-na não só documentos, senão tam- 
bém uma tradição constante e segura e, ainda, o julgamento 
dos mestres mais autorizados que neles vêem claramente a 
técnica do insigne toreuta. 

Se não interpreto mal um lançamento do Livro de Rec. 
e Desp., parece que houve um pleitozinho a propósito da obra 
dos púlpitos. É o que se lê as fls. 108 verso e diz assim: 

"João de Amorim Pr a i Decom. to p a as pedrasdos Púlpi- 
tos $ 862." Quer dizer que o procurador João de 

Amorim Pereira pagou 862 réis por um documento com rela- 
ção às pedras dos púlpitos. 

Há na mesma folha registros de pagamentos ao advogado 
Dr. José Teixeira de Matos e a meirinhos por várias intima- 
ções. 

E a respeito de púlpitos há no mesmo livro, além do lan- 
çamento transcrito, mais os dois seguintes apenas: 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"P. Q pag. a Fr. co Mor a Netto de madr. as p a aobra e p a 
cobrir os púlpitos — 6$000." (Fls. 97). 

"Ant° Fran. co Lx a feitio das pedras dos Púlpitos 

20$400." (Fls. 108 v.) 

Tão insignificante quantia paga pelo feitio de obra de tal 
vulto, "teria correspondido apenas a algum trabalho extraor- 
dinário que o risco não previa" (75). 

Confirmando o último lançamento temos o seguinte recibo 
do punho de Antônio Francisco: 

"R° dosS r Antonio Martins Vianna Cindico da Venerável 
Ordem tr. ca de S. Fran. co dezesete oytavas de ouro deResto 
daObra dos Púlpitos eporestar pagão eSastefeito detudo 
memandou Fazer este dem a Letra eSinal V a Rica 12 de Fevr° 
de 1772/VAntonio Franc° Lx a ." (Doe. avulso). 

Finalmente na fl. 116 do citado Livro de Rec. e Desp., 
período de 1773-74, encontra-se o seguinte: 

"Joaquim Joze daS a de alimpar os púlpitos 1$200" 

Com a continuação dos trabalhos, sobretudo com a 
execução dos primorosos lavores do barrete da capela-mor, 
êsses púlpitos, apesar de resguardados por cobertura de ma- 
deira, estariam salpicados de cal e tinta. Daí a limpeza a que 
se refere o lançamento supra. 

Remataremos êste parágrafo com o seguinte que é da 
lavra do conhecido e apreciado escritor Padre Heliodoro Pires: 

"Nos púlpitos da igreja franciscana de Ouro Prêto verifi- 
ca-se imediatamente o cuidado meticuloso das proporções: a 
massa do tambor está mostrando harmonia perfeita com o 
soco. 

Em uma das tribunas sacras executou Antônio Lisboa a 
cena do profeta Jonas atirado às ondas pelos tripulantes de 
uma embarcação; no outro púlpito fixou o episódio da pre- 
gação de Jesus Christo, que está de pé, em uma barca, e defron- 
tando alguns ouvintes. 

Nesses dois quadres, o de Jonas e do Senhor na barca, 
revela-se inspiração da arte gótica. Sente-se que, ao projetá- 
los, tinha Antônio Lisboa diante dos olhos, gravuras e compo- 



(75) Rodrigo M. F. de Andrade — Contribuição para o estudo da obra d>> 

Aleijadinho, in Rev. do SPHAN. II, 2D2. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



373 



sições do período ogival. Observa José Mariano que êsse goti- 
cismo existe nas figuras dos ouvintes do Senhor, porém já não 
se encontra no vulto majestoso do Nazareno. Êste ergue o 
braço no momento que ensina às turbas a doutrina da salvação. 

Essas cenas centrais, a de Jonas, e a da barca do Senhor, 
estão separadas dos outros planos por pilastras com ornamen- 
tação barroca, muito sóbria. 

Para cada púlpito esculpiu Mestre Lisboa cinco cabeças 
de serafins, e frisemos desde logo o efeito admirável dos sera- 
fins no conjunto das duas tribunas sacras. 

Na localização desses anjinhos comprova-se mais uma vez 
o fôlego do artista que era Antônio Lisboa. Cada cabecinha 
graciosa, expressiva, cheia de fôrça e vida, ajusta-se a uma 
pilastra fazendo corpo com o todo da composição. Era deste 
feitio o Mestre Aleijadinho; mesmo nos pormenores de seus 
trabalhos esmerava-se no apuro, nas louçanias e na delicadeza. 

Mostra-se superabundante a ornamentação das pilastras 
na parte inferior; o Mestre Lisboa anastrou-as de margaridas, 
gira-sóis, e folhas de alcachofra. É trabalhada com verdadeiro 
requinte a composição da rocalha que se desenvolve entre as 
pilastras na parte inferior dos púlpitos. Mestre Antônio capri- 
chou no desenho ornamental afirmando qualidades singula- 
ríssimas de gosto e execução. 

Na face anterior do soco deixou o toreuta uma composição 
conchoide ainda mais opulenta, ornato que, ao lado da linha 
mediana, remata por uma cabeça de serafim alado. 

Por que se escolheram as cenas de Jonas e do Senhor 
falando às turbas? Ensinamentos de espiritualidade para os 
Terceiros Franciscanos?" 

Feitos pelo mais notável mestre da escultura mineira, 
êsses púlpitos foram estreados, a 5 de dezembro de 1771, pelo 
mais notável mestre da parenética colonial — Cónego Luís 
Vieira da Silva, Inconfidente. 

2° — BARRETE DA CAPELA-MOR 

Viu-se no parágrafo 2 o do capítulo precedente que a 
execução dos barretes ou abóbadas da capela-mor e dos corre- 
dores foi arrematada por Henrique Gomes de Brito. Dele será 



374 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



a abóboda em si, a obra tosca de pedra: a escultura, porém, e os 
adornos, que a realçam, são sem dúvida do Aleijadinho, por- 
que são visivelmente um prolongamento da talha do altar-mor, 
que é sabidamente dêle. 

Êstt barrete é de uma grandeza e pompa extraordinária. 
Os painéis em oval, com as imagens em relevo de grandes figu- 
ras da Ordem Seráfica, São Boaventura e Santo Antônio, Santo 
Ivo e São Conrado; e toda a opulenta decoração que o embe- 
lece, encantam e seduzem a quantos visitam a igreja do Alei- 
jadinho. 

Todavia, não foi antônio Francisco o único a executar 
aquele trabalho. O livro tantas vezes citado de receita e des- 
pesa revela outros artistas que ali trabalharam por certo sob 



a direção do mestre Aleijadinho. 

Com efeito, a fls. 115 daquele livro se vê: 
"Henrique Gomes e Bento Luís acréscimo da al- 
tura do Barr. te 33$600. 

Luiz Frr a da Sylva Jornais de Entalhador 9$900 . 

Faustino da Silva Correa Entalhador Barr. te 15$900. 

Henrique Gomes de Brito Jornais no d° 10$800. 

Leandro Soares deCarvalho d. os 13$200. 

An° Fr. co Lx a d. os 18$000. 

Ant° Fr. co Lx a d. os 73$200." 

Êstes registros, todos na mesma folha, pertencem ao perío- 
do de 1773-74. No mesmo período e ainda na mesma folha há 
o seguinte com relação ao barrete: 

"Joze Rodrigues da S â Andaime do Barrete 18$000. 

Os Mestres Entalhadores que levou o Ir. Pr. dor 14$400." 



Êstes últimos teriam vindo inspecionar a execução da obra, 
a convite do Procurador que não quereria arcar sozinho com a 
responsabilidade de um trabalho que a tinha tamanha. 

3 o _ A NOVA PORTADA 

A primorosa fachada que admiramos em São Francisco, 
essa obra prima em que sublimou a arte do Aleijadinho e que 
nos faz justamente orgulhosos do imortal compatrício que a 
idealizou e realizou, não foi a primeira frontaria daquela igreja. 
Conclui-se das condições, abaixo transcritas, que bem modesta 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 375 

devia ser a primitiva, a que se afastou para ceder o lugar à 
atual, a esse primor de escultura que longe levou já o nome e 
a reputação de Antônio Francisco Lisboa. 

Artistas e escritores em grande número e em trabalhos 
superiores de crítica e literatura têm se ocupado do frontis- 
pício de São Francisco. A um dêstes, para proveito e gôzo do 
leitor, cederei a palavra, sem dúvida ao que melhor sentiu e 
mais intensamente amou a arte prodigiosa do Aleijadinho, 
exprimindo-a em linguagem de tão delicado sabor: 



"Para coroar as colunas pôs êle duas grandes volutas, frente a 
frente; as quais parecendo impostas de um arco lançado a passar por 
cima do frontão, pelo contrário encolhem-se a fim de abrirem a vista 
sôbre a opulência decorativa dêste. Efetivamente sendo o frontão ba- 
seado na facha moldurada da cimalha que se confunde com o enta- 
blamento das colunas, essa facha encurva-se em volta perfeita sôbre 
o medalhão central, ao passo que as empenas saídas de outras volu- 
tas, opostas em relêvo, sobem em flexuosas linhas até o friso do acro- 
tério; e com os lados seguintes formam neste em cada banda um quar- 
to de círculo, sôbre o qual assenta-se o pedestal da cruz. Esta cruz de 
pedra torneada tem a forma insigne da patriarcal, e aos lados dela sô- 
bre peanhas simétricas pousam globos de onde irrompem chamejan- 
tes simbolizando as chagas. 

Esta fachada, porém, no que fica acima de tôda a nossa admira- 
ção, é nos ornatos do poético, e das tarjas comemorativas. O pórtico 
de ombreiras geminadas, e riscadas de caneluras simétricas, tem a 
verga recortada, com um querubim de cada lado e festões pendentes. 
Sôbre êste está um coroamento, denticulado, que disponta; mas logo 
oculta-se na ornamentação de flores, sôbre as quais vemos anjos de 
corpo inteiro apresentando símbolos da Ordem. Dois medalhões ovais, 
um com as cinco chagas avivadas de carmim, outro com cinco dados, 
enchem o espaço principal do painel, e êste tem sôbre si outro maior 
em forma de circunferência que traz cercada de anjos a imagem meio 
corpo da Senhora da Conceição, padroeira dos franciscanos. Uma co- 
roa de rainha encima finalmente tôda esta maravilhosa decoração. 
No alto da fachada, em um grande painel circular, guarnecido de 
molduras e ornatos, aparece então o Santo de joelhos recebendo as 
chagas no monte Alverne. O fundo dêste quadro vem ocupado por 



376 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



casarias e nuvens, ao passo que no chão crescem ervas e um lindo pé 
de assucenas que verga graciosamente. Está claro que minha pena 
tão somente por de leve pode descrever estas peças incomparáveis de 
pedra azul esculpida em altos relevos, pedra que o artista docilmen- 
te amoldou a seu pensamento. 

O êxtase do Santo, a candura elísia da Virgem, a alegria dos an- 
jos, não se pode negar, deram vida e alma à pedra, sob o cinzel palpi- 
tante dêste artista assombroso." (76) 

Uma das glórias, que sobredoiram com particular fulgor 
a carreira artística do Aleijadinho, é essa portada de São Fran- 
cisco. É dêle a obra, porque não se confunde o traço caracte- 
rístico de seu cinzel; é dêle o projeto, porque o afirma a Ordem 
no seu Livro I de Receita e Despesa, a fls. 146 com este lan- 
çamento (ano de 1774-75): 

"(Pago) a Antonio Francisco dorisco da nova portada — 

14$400" 

Êsse serviço, contudo, êle o realizou por conta de outrem; 
porque a obra foi à praça e arrematou-a o canteiro, de ótimos 
créditos entre os artistas de Vila Rica, José Antônio de Brito. 

Na execução do risco deviam ser obedecidas as condições 
seguintes : 

"Condiçoens pelas quais Sehá defazer anova Portada daCapela de 
N. Snr. a dos Anjos da Ordem 3. a de S. Fran. co desta V. a Rica 

Sera obrigado oMestre que afizer atirar, econduzir toda aPedra 
do Itaculomy, edeSabam para opeda obra, e-assentala Segundo orris- 
co, tanto demolduras, talha, e-escultura, atendendose, atoda. aSigu- 
rança, que for neceçaria. 

EaSim também fazer opedestal, eSepo the receber avaza inteiro; 
eaômbreira the receber averga tãobem inteira, eapilastra, que aela 
incosta, tãobem inteira, aSaber deSobre invazam. 10 aleito do Capitel, 
como mostra orisco, eAsua verga de Sinco pessas, eque aô menos fa- 
ção Corte detres palmos, emeyo p. a puder Sustentar opezo, advertin- 
do que tenhão Cumprimento, ou tardozes aomeyo daparede p. a me- 
lhor Sigurança, eadita Pedra deltacolomy Sera damais dura, eclara, 
que Seachar; Como também adeSabam etoda dehua côr izenta defios, 
e bixocas. 



(76) Diogo de Vasconcelos in Bic. de O. Prêto, 149. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO o77 

EaSim mais apiar ashonbreiras, que Seachão aSentadas Com 
acautela perciza para que possão Servir p. a honde Sedeterminar, 
Como tãobem rasgar aparede, etornala aCompor noaSento danova 
portada, eJuntam."' afastar asgenelas p. a ope dos Cunhais aquilo que 
fôr percizo p. a melhor com-modo dorrematante, eaverga, que faz ali- 
zar, que hé daobrigação dorrematante, digo da Portada antiga Sera 
esta partida aomeyo, elevara hum fecho parapoder Servir novão que 
agora hé mais Largo. 

Como tãobem tirar o-oclo que esta naTorre daparte direita, efa- 
zer outro, eaSentalo que comdiga com odaparte esquerda, e na mes- 
maforma fazer outro para aTorre daparte esquerda e Sentalos noSeu 
Lugar. 

Será obrigada a Ordem amandar fazer húa Cruz demetal ou es- 
tanho redonda naforma dorrisco para o Anjo da parte esquerda p. r 
não poder Ser depedra. 

Emfim Será obrig.' 10 oMestre adar aobra feita detudo oquefica di- 
to, epedir orrisco ainda no cazo deque nestas condiçoens fique algua 
parte do mesmo risco ómetida. 

A Ordem ficara obrigd a adar Sem Oitavas Logo, que apedra che- 
gar aopedaobra toda, eorresto no fim dadita obra. 

Será mais obrigd. 0 oMestre arrefender asduas Janellas da frente 
na forma dasportas dospulpitos. 

Declarou q aResp. to da forma dos pagam. ,os Sera aordem obrigd. a 
a dar-lhe chegada que seja apedra aopedaobra, Sem oitavas, deouro, 
eoResto em dous pagam."'* aSaber hum em estando aobra meya feita, 
e oultimo nofim detoda aobra, eporverd. e doreferido mandamos Lavrar 
duas de hum Theor húa aSignada p. r nos eaoutra pelo mestre, em 
Meza de 28 de 8br.° de 1774/ /João de Souza Lx. a — ministro // João 
Ferr. a da Silva, Procurador geral//." 

Tão primoroso trabalho custou à Ordem seiscentos mil réis, con- 
forme êste registo lançado a fls. 147 do citado livro: 
Despeza com anova portada 

Pelo queSedeo ao Rematante Joze Antonio de Brito — 

R. <0 fl. 54 120S000 

ao mesmo á conta do segundo pagamento — R. co fl. 54 1 00$000 
ao mesmo resto do segundo pagamento — R. co fl. 55 . 140S000 
ao mesmo, oresto, eultimo pagamento — R. to fl. 55 . . 240SOOO 



Total pago 



600S000- 



378 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

4.° — RETÁBULO DO ALTAR-MOR 

Antônio Francisco Lisboa tem nesse retábulo o esplendor 
de sua arte. Se êle pretendeu, como parece, glorificar a Virgem 
Imaculada colocando-a, no gozo da visão beatífica, bem perto 
do trono de Deus, realizou-o esplêndidamente. E a talha mara- 
vilhosa que seus dedos entorpecidos, mas guiados por um 
génio descomunal, criaram com visível enternecimento, ficou 
sendo um poema grandioso em que a heroína resplende cheia 
de suave majestade entre as Pessoas do Trindade Santíssima. 
Por isto vazou êle na obra estupenda o mais mimoso de sua 
arte e os melhores recursos de sua inspiração. 

Ao que informam alguns recibos do Aleijadinho, princi- 
palmente os de 29 de janeiro e 2 de outubro de 1792, êsse retá- 
bulo foi trabalhado em parte no antigo povoado, hoje cidade, 
do Rio Espera. Transportado para Vila Rica no ano mencio- 
nado, dois anos depois, em 1794, estava concluído e assentado. 

Fora contratado por 1 :750$000 a 18 de outubro de 1790. 

Tudo é relatado pelos documentos que passo a transcre- 
ver: 

"Conta de Despeza que fez o Snr. Procurador actual Domingos Alz 
da Costa com a V. Ordem 3. a da Penitencia o presente anno de 1791- 
1792: 

Pelo que dispendeu na viagem de Catas Altas quando 
foram com o Rdo. Comissário as Esmolas para con- 
dução do Retábulo 6-1/2-6 

Idem com o carreto do mesmo Retábulo 37 - 0 - 2 



Total (52§500) 43 - 3/4 - 0" 

(Doe. Avulso) 

"R.° doSindico da Venerável Ordem 3. a deS. Fran.'° desta V. a Dio- 
go Lopes aquantia detrinta eduas oitavas deouro emporte dequatro 
Caradas de Madeiralavrada q Conduzi para esta V. a do Arayal da Es- 
pera para o altar mor do mesmo Santo quya q. Ul procedeo deEsmollas 
que delegenciou p. a oD.° fim o M.'° R. do S. r ComiSario M. el deAbreo Lo- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 379 

bato; eemtodo otempo meobrigo apasar este memo R.'"° emolivro p.* 
Isto deputado V a R. a 14 de 7br o del792. 

Joaq."' Iginio de CarvP 

32-8. as (Doe. avulso) 

"R. <0 Mais sinco oitavas e dous v. ,s deOuro porsedidas de carreto 
das d. 18 Madeiras Carga de Nove Burros pertencentes a Marcelino Gif 
para clareza paso oprezente V. a R. a 15 de 7br.° de 1792. 

Joaq.™ Iginio deCarv. 0 " 

(Doe. avulso) 

O contrato, preço e pagamento constam do seguinte que 
se acha lançado a fls. 29 verso e 30 do ABcedário: 
Fls. 29 verso: 

"Ajustou esta Ven. w ordem o reta- 
bolo da Capela Mor com Antonio 
Francisco Lisboa em 18 de Outu- 
bro de 1790 conforme as Condi- 
çoens que se achão nesta mesma 
ordem pela quantia de 1:750§000 
1790 — (fl. 30) Recebeu o dito Infr. p por 
mão do Sindico João da Fonseca 





Neto que passou recibo 


50 


- 0 - 


0 


60$000 


1791 


— Recebeu do Sindico Fran. 10 da 












Costa Guim. s e deu recibo 


50 


- 0 - 


0 


60$000 


D.o 


— Recebeu do m. mo Sindico — Junho 


57 


-3/4- 


4 


69$450 


D.o 


— Recebeu do m. UK ' Sindico — 7br.° 


50 


- 0 - 


0 


60$000 


D.° 


— Recebeu do m. mo Sindico — 8br.° 


163 


- 0 - 


0 


195$825 


1791 


— Recebeu do Sindico Ditto Guim."* 


104 


- 0 - 


0 


124$800 


1792 


— Recebeu do Sindico Diogo Lopes . 


150 


- 0 - 


0 


180$000 




— Recebeu do mesmo Sindico 


90 


- 0 - 


0 


108$000 


1792 


— Recebeu do mesmo Sindico 


40 


- 0 - 


0 


48$000 


1793 


— Recebeu do Sindico M. el da S. a 












Carv. 0 


233 


-3/4- 


0 


280$500 


1794 


— Recebeu do Sindico J." de Faria e 












s- 


469 


-1/2- 


1 


563S437 






1458 


-1/4 


-3 


1:750$012' 



380 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Recibos do Aleijadinho: 

"R.ç° do Çindico daVeneravel Ordem 3. a de S. Fran.™ Sincoenta 
Oytavas deOuro aConta daquantia do ajuste q fis sobre af atura do Re- 
tabolo da Capella Mor eporter reçebido ad. a quantia paço este dem. a 
Letra eSinal. Villa Rica Vinte e hú de 8br.° de 1790. 

AntP Fran. co Lxa 

R.° do Çindico daOrdem 3. a deS.Francisco deV. a Rica pormão do- 
S. 1 Tenente Fran. to Dom. es deCarvalho Çincoenta eSete oytavas etres 
Coartos eCoatro vinteis deouro cujas Sederão adois Off. ee que traba- 
lhão naobra do Retabolo eporverdade paço Este dem. a Letra eSinal 
hoje Espera 18 de Janr. 0 de 1791. 
57 3/4 4 

Anjo Fran. c ° Lx. a 

R.° doSindico daOrdem 3 a deS. Fran. 00 de V a Rica pormão do 
S. r Ten. tp Fran. co Domingez de Carvalho Sincoenta oytavas deOuro 
p. a afatura do Retablo ep. a Clareza paço este deminha Letra eSinal 
hoje Espera dezanove de Março de 1791. 

An.t° Fran.co Lx.a 

R.° do Çindico, daOrdem 3 a deS. Fran. co deVilla Rica pormão 
do S. r Tenente Francisco Dom.™ deCarv. 0 Sento eSesenta etres oy- 
tavas aConta daObra do Altar Mor epara Verdade paço este demi- 
nha Letra eSinal hoje Espera Vinte Coatro de 8br.° de 1791. 

An.to Franco Lx. a 

163/8 aK 

R.° do Çindico daOrdem 3 a de S. Francisco deV. a Rica pormão 
do S. r Ten. te Francisco Dom. OB deCarvalho Çento e Coatro oytavas de- 
ouro aConta do Altar Mor q estou fazendo eporverdade faço este de- 
m. a Letra eSinal hoje Espera 29 deJanr 0 de 1792a. 

An to Fran. co Lx. a 

104/8" 



8ÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÈTO ;<S. 

Reçebi do Cindico daOrdem 3ra de S. Fran. co Cento eSincoenta 
oytavas aConta daObra do Retabolo eporverdade faço este dem. a le- 
tra eSinal hoje Espera 10 de Julho de 1792. 

Anjo Fran.™ £,x. a 

de 150/8" 

R. doCindico daOrdem 3r a de S. Fran co noventa oytavas deouro 
aConta das Obras do retablo q estou fazendo ep. a verdade faço este 
de minha Letra eSinal hoje Espera dois deOutubro de 1792. 

An.to Fran.co Lx. a 

Reçebi do Cindico da Ordè 3. a deS. Fran. co pormão do Procurador 
Corenta oytavas deOuro aConta daObra doRetablo da Capela Mor 
epor oster recebido paço este dem. a Letra eSinal V a Rica 22 de Dez.° 
de 1792 a. 
São 40/8" 

An.to Franco Lx. a 

R.° do Cindico daOrdem 31^ deS. Fran. 00 doze oytavas deOuro 
aConta da obra do Altar Mor que estou faz. d0 epor verdade paço este 
dem. a Letra e Sinal V a Rica 25 de Fev. de 1793. 

An.to Fran.co Lx. a 

R.° do Procurador daOrdè 3 a de S. Fran. co oS. r Dom. os Alz da- 
Costa corèta etrez oytavas etres coartos deOuro aConta daObra do- 
Retablo epara verdade faço este dem. a Letra eSinal V a Rica 20 de 
Mr.ç° de 1793. 
São 43 - 3/4 

An.to Fran.co Lx. a 

Reç.° mais namesma forma doze oytavas V a Rica 7 de Abrii 
de 1793 

An.to Fran.co Lx. a 

R.° do Çindico daOrdè 3 a deS. Fran. 00 doze oytavas deouro a- 
Conta daObra q. faço da Capela Mor epor verdade faço este dem. a 
Letra eSinal V a Rica 23 de abril de 1793 



An.to Fran.co Lx. a 



SF2 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

R.° do Procurador daOrdem 3. a deS. Fran.'° Cincoenta Oytavas 
deOuro aConta da Obra q. estou fazendo doAltar Mor eporaster re- 
çebido faço este dem. a Letra eSinal V a Rica 19 de Mayo de 1793 

Anto Fran.co Lx. a 

R.° do Procurador daOrdem 3. a deS. Fran. co doze outavas deOuro 
aConta daObra do Altar eparaVerd. p faço este dem. a Letra eSinal V. a 
Rica 10 de Junho de 1793. 

An.t° Fran.co Lx. a 

R.° do Procurador daOrdem 3 a deS. Franz"" doze oytavas deouro 
aConta daObra do Retablo ep. a verdade paço este dem. a Letra eSinal 
V a Rica 3 de Julho de 1793// 

An.t° FTans 0 Lx. a 

R.° do Procurador da Ordem 3. a de S. Fran. (0 desta Villa Catorze 
Oytavas deOuro a Conta dopagam.* daObra do Retablo ep. a Verda- 
de paço este dem. a Letra eSinal. V a Rica 12 de Agosto de 1793// 

An. f o Fran.co Lx.a 

R.° do Procurador da Ordè 3 a deS. Franz" des Oytavas deouro 
aConta da Obra do Altar Mor q. faço ep. a verdade paço este dem* 
Letra eSinal V a Rica 4 de 7br.° de 1793 

An.to Fran.co Lx. a 

R.° do Procurador daOrdem 3 a deS. Fran.' 0 deV. a Rica dezaceis 
outavas deouro aConta daObra do altar Mor epor verdade paço Este 
dem. a Letra eSinal V a Rica 13 de 8br.° de 1793 

An.*o Fran.co Lx. a 

R.° doS.' Inaçio Andador doze oytavas deOuro aConta daObra 
do Retablo deS. Fran. 00 ep. a verdade paço este dem. a Letra eSinal 
Villa Rica seis de Nobr.° de 1793. 

AnJo Fran.co Lx. a 

R.° do Procurador daOrdem 3 a deS. Fran. co desta V. ft Oyto oi- 
tavas deOuro aConta da Obra do Altar Mor q. faço ep. a Verdade este 
dem. a Letra eSinal V a 3 de Dez© de 1793 



An.to Fran.co Lx. a 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OU HO PRÊTO 



R.° do Procurador daOrdê 3. a deS. Fran.™ doze oytavas aConta 
daObra do Retablo q. faço daCapela Mor ep. a Verdade paço Este de- 
m. a Letra eSinal V. a Rica 31 de Dez.o de 1793. 

i ■ %®m 

An.to Frau.™ Lx. a 

R.° do Procurador da Ordem 3 a deS. Fran.'° dez outavas deouro 
aConta daObra doRetablo q. faço ep. a verd. e paço este dem. a Letra 
eSinal V a Rica 25 deJanro de 1794 a. 

An.to Fran.co Lx. a 

R.° do S. 1 José Montr. 0 Catorze oytavas etres Coartos e dois vin- 
teis as quais Levarey emConta aOrdem 3 a deS. Fran. co naConta dos 
pagam. 8 daObra nas contas q. tenho com M. el Gomes Laborinho ep. a 
verdade paço este dem. a Letra eSinal V a Rica 17 de Fevr.° de 1794. 

An.to Franso Lx. a 

R.° do Procurador da Ordem 3 a deS. Fran. t0 oyto oytavas acou- 
ta daObra do Retablo ep. a verd. e paço este dem. a letra eSinal V.* 
Rica 18 de Fevr. 0 de 1794 

AntP Fran. co Lx. a 

R.° damão do Procurador daOrdem 3 a deS. Fran. 00 corenta oy- 
tavas de ouro aConta daObra do Retablo ep. a verdade faço este de- 
m. a Letra eSinal V a Rica 12 de Março de 1794. 

An.^o Fran.co Lx. a 

R.° do Procurador da Ordem 3. a deS. Fran. c0 des Oytavas deouro 
aConta daObra do Retablo ep. a verdade paço este dem. a L. a eSinal 
V a Rica 26 de Abril de 1794. 

AntP Fran." Lx. a 

R.° do Procurador daOrdem 3 a oytava etres Coartos ehíí tustão 
p. a Manoel Gomes Melevar emConta noq. lhedevo dos seus jornais 
ep. a Verdade paço este dem. a Letra eSinal V a Rica 29 deAbril de 
1794 

An.to Fran.co Lx. a 



384 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



R.° do Procurador (ilegível) 3. a deS. Fran. co Sento edoze oyta- 
vas (ilegível) aConta daObra q. fiz do retablo (ilegível) e poraster 
Recebido paço Este dem. a Letra eSinal V a Rica 25 de M.° de 1794 

An.to Franco Lx. a 

R.° do Procurador da Ordè 3. a de S. Francisco Vinte eSeis Oy- 
tavas edoze Vinteis deouro a Conta daObra do Retablo daCapela Mor 
epara verdade Paço Este dem. a Letra eSinal V a Rica 11 de Mayo 
de 1794 

Anjo Franco Lx. a 

R.° do Procurador daOrdc 3 a de S. Fran. 00 desta V a Sento eSe- 
çenta eSete oytavas emeya eSeis Vinteis deouro aConta daObra do 
Retablo daCapella Mor ep. a (ilegível) faço este dem. a Letra eSinal 
V a Rica 13 de Mayo de 1794. 

An.to Franco Lx. a 

R.° do Procurador (ilegível) Ordem 3 a deS. Fran. LO oytenta eoito 
oytavas etres Coartos deResto (ilegível) quantia da obra q. ajustey 
ep. r (ilegível) e satisfeito paço Este dem. a Letra eSinal V a Rica 6 de 
Junho de 1794. 

AnJ° Fran.co Lx. a " 

Outros recibos e lançamentos: 

"Recebi do Sindico Fran. co da Costa guim.°« cincoenta oitavas de 
nossa Capella Mor da coal q. ta e outra também pasey recibo a o Alfr.^ 
ouro p. a remeter a Ant.° Fran. 00 Lx. a mestre da obra do retablo da 
Jer.° da Rocha do legado do tacoaral e por assim ser verd. e passo este 
de m. a letra p. a o d.° efeyto correndo-lhe o risco q. m diretamente per- 
tencer. V a R. a a 18 de M.?° de 1790 

Fran. 00 Dom." de CarvP 

Recebi de Fran. c " daCosta Guimaraens como Sindico da Venerá- 
vel Ordem Terseira de S. Fran. co desta Villa a q. to de quarenta e cinco 
oitavaz de ouro p. r conta do ajuste da madeira p. a o Retabolo da Ca- 
pella Mor da d. a Ordem e p. r verd. e do referido pedi e roguei a Ign. ° 
Joze de Leiros que este por mim fizece e como testemunha aSignace 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 385 

e eu me assigno com huma cruz signal de que uzo por não saber ler 
nem escrever V. a Rica 16 de Março de 1791 

Sinal de Vericimo + da S. a Guimaraens 
A rogo do sobredito como testemunha 
Ignacio Jozê de Leiros 

Receby do Procurador da ordem 3. a de S. Francisco o Sr. Domin- 
gos Alves da Costa a quantia de onze oitavas e doze v. t<s de oiro Em- 
portancia de pregos q me comprou p. a a talha da d. a Ordem e por es- 
tar pago e satisfeito paço o prezente por mim som.'" aSinado Villa 
Rica 8 de Junho de 1794 — Jozê Carvalho de Souza. 
São 11 - 1/4 - 4 (13$650) 

Do L.° 1.° de Rec. e Desp. 

Fl. 281 — "Recebeu o Irmão Domingos Alves da Costa como pro- 
curador actual da dita ordem do Irmão Sindico Joze de Faria Souza 
a quantia de quatrocentos sessenta e nove oitavas e meya e um vin- 
tém de oure que se devia do resto do retábulo da Capela Mor e Anto- 
nio Francisco Lisboa e de como recebeu e entregou e deste aprezen- 
tou recibo aqui assignou comigo Secretario que escrevi — 469-1/2-1// 
Dom." Alves da Costa //Joze Giz. Reis// 

Fl. 266 — Recebeu o Snr. Andador Ignacio Francisco do Ir. Sindi- 
co aquantia de cincoenta oitavas de ouro para entregar a Antonio 
Francisco Lisboa por conta da rematação do retábulo da Capela Mor 
de que passou recibo e de como recebeu e entregou assignou comigo 
Secretr. 0 // Ignacio Fran. 10 // Joszé Giz Reis // 50/8. aB 

"Recebeu o dito Sr. Andador do dito Sfir. Procurador Geral Do- 
mingos Alves daCosta com vezes de Sindico a quantia de Duzentos 
trinta e tres oitavas e tres quartos de ouro para entregar a Antonio 
Francisco Lisboa para a conta da nova obra do retábulo da Capela 
Mor desta Ven/' 1 Ordem que esta fazendo cuja quantia entregou a 
este como consta dos recibos que do mesmo aprezentou que vão a li- 
nha competente e de como recebeu e entregou a dita quantia aqui 
assignou comigo Secretario — 233 - 3/4 // Ignacio Fran. 00 // Joze 
Giz Reis//." 

5.° — LAVABO DA SACRISTIA 

Primoroso escritor afirmou que o lavabo da sacristia é a 



386 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



obra prima do Aleijadinho (77). Com efeito, é um prodígio de 
escultura essa peça grandiosa, com que enriqueceram a igreja 
do Seráfico Patriarca os sacristães que nela serviram de 1777 
a 1779. E precisamente por ser oferta dêssses dedicados Ter- 
ceiros, nada havendo, portanto, custado à Ordem, sobre sua 
feitura calam quase totalmente os registros da Igreja. 

Apenas alude a essa maravilha a advertência final, apensa 
às Condições que ficaram transcritas no § I o do cap. III desta 
2 a parte, onde se lê: 

"... nofundo daSacristia deixara lugar naparede p a oLa- 
vatorio ..." 

E no L° I de Rec. e Desp. a fls. 108 verso o seguinte: 
"(Pago a) Antonio Joze dos Santos depintar oLavatório 
— $600". 

E acêrca de uma obra de tamanho primor nem mais uma 
palavra no arquivo da Ordem. 

6.o _ OUTROS TRABALHOS DO ALEIJADINHO 

Pedras d'ara — Num documento avulso, datado de 29 de 
abril de 1789, vê-se o seguinte: 

" . . . . 13 varas dep.° delinho para cobrir as pedras da 

ara 3 - 3/4 - 7 

a Antonio Fran. 1 " Lisboa dafazer asd. ag pedras 1-1/2-0" 

Risco dos altares laterais — Diz o seguinte o termo de 9 
de junho de 1829 (L° 4 o fls. 59) : 

"Termo pelo qual sedetermina sedé aobra do Retabolo dos dous 
primeiros Altares Colaterais a Vicente Alz daCosta pelo preço de 
700$000 rs. ambos mandando aordem desdobrar as madeiras de fora, 
tudo conforme orisco que tem esta Venerável Ordem, e condiçoins 
abaixo declaradas. 

Aos nove dias domez de Junho demil oito çentos evinte nove 
annos oitavo da Independência, edo Império, no consistório, e caza 
do despaxo da Igreja da Venerável Ordem terceira daPenitencia do 
Gloriozo Padre São Fran - de Assis desta Imperial Cidade do Ouro 



(77) Diogo de Vasconcelos, op. cit. 152. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



387 



preto, axandose prezente o Reverendo Comissário Felix Antonio 
Lizboa, e Irmão Ministro o Sargento Mor Manoel Fernandes da Sil- 
va, Officiais, e Definitorio nomayor numero que sepode congregar, 
ahi pelo Irmão Procurador Geral actual Joaquim Carlos deFiguei- 
redo foi proposto a esta Meza, que axandose no Armazém da Ordem 

que esta contiguo a Capela dam. ma os Cedros etaboado, qu ; esta Ve- 
nerável Ordem havia mandado vir á quatro annos p. a a Entalha dos 
dous primeiros Altares Colateraes desta Igreja, que não sehavia dado 
the oprezente ordem alguma para a factura damesma Obra, sendo 
detanta necessidade ep. a aqual havia çerta quantia dedinhr 0 no Co- 
fre destinada para adita obra como consta do Livro da reçeita edes- 
peza, axandose arellação das madeiras que existem, esemandarão vir 
p. r via do Sargento Mor Antonio Pedro d'Azeredo Dantas, descriptas 
no Livro Copiador afls. 156 epagas ao mesmo pelo preço que forão 
justas; tinha elle Procurador feito publicar the pela folha do Vniver- 
çal aquém quizesse a Rematar adita obra, ou ajustala, sem aparecer 
peçoa algúa suficiente, que fosse Capás de adesimpenhar, esó apre- 
zentou-se Vicente Alz daCosta, que declarou tinha acabado a m. to a 
obra da Entalha da Capela do Carmo para o que tinha vindo aesta 
Cidade eque querendo retirar-se para fora da terra, só esperava con- 
cluir nuns Oastiçaes que adita Ordem terceira doCarmo tinha pos- 
teriormente incumbido aelle Mestre, más que não tinha duvida ajus- 
tar aobra do Retabolo dos dous altares Colateraes desta Ordem para 
aplantear já edebaixo de suas vistas serem desdobradas as Madeiras 
e emquanto as fazia aparelhar, q podia Concluir ostaes Castiçaes 
do Carmo, que emvigor demoraria dous mezes dadata deste emdian- 
te e que tendo emseo poder á muito o Risco que esta Venerável Or- 
dem lhehavia dado p. a over eexaminar, oq. 1 foi feito pelo falecido 
Antonio Francisco Lisboa, e sendo este prezente aesta Meza, ep. r ella 
aprovado, e od.° Mestre Vicente Alz da Costa, foi por este dito a Me- 
2a, que estava prompto afazer o Retabolo dos dous primeiros Altares 
Colateraes desta Igreja pelo preço, e quantia de Sete Centos mil 
reis. . ." 

O risco, portanto, dos altares laterais é do Aleijadinho; 
não a execução: de suas mãos privilegiadas não sairam aque- 
les feios anjos dos dois altares mais próximos à entrada do 
templo, como não saíram do cinzel bastante hábil de Vicente 



38» 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Alves da Costa. A seu tempo saberemos a quem toca a autoria 
daquelas carrancas. 

São Jorge — Não pertence, nem pertenceu nunca, à igreja 
de São Francisco a imagem de São Jorge; é, porém, hoje do 
Museu da Inconfidência. Estando, no momento, à testa desta 
repartição o autor dêste livro, há de se lhe relevar pelo amor 
que consagra à casa em que trabalha, desviar-se um instante 
do assunto a que seu trabalho deve limitar-se, a fim de poder 
registrar aqui uma pequena notícia dessa obra do insigne Alei- 
jadinho. 

Acerca dessa imagem assim falou Rodrigo Bretas, o pri- 
meiro biógrafo de Antônio Francisco: 

"Também é obra do Aleijadinho a imagem de São Jorge que 
anualmente costuma sair a cavalo na procissão de Corpus-Christi 
nesta cidade. (78) 

A respeito da encomenda desta obra deu-se o seguinte fato. 

"O General Dom Bernardo José de Lorena, atendendo a que era 
muito pequena a imagem do dito Santo, que então havia, deu ordem 
que viesse a sua presença o Aleijadinho, que devia ser encarregado 
de construir uma outra. O estatuário compareceu em palácio depois 
de muitas instâncias para o fazer. Logo que o viu o Coronel José 
Romão, ajudante de ordens do General, exclamou, recuando: feio 
homem! ao que disse em tom áspero Antônio Francisco, ameaçando 
retirar-se: É para isso que S. Excia. ordenou-me que aqui viesse? 



(78) "Costuma sair na procissão de Corpus-Christi", afirmou Rodrigo Bre- 
tas. A respeito de sair em tal procissão a imagem de São Jorge, a que está no Mu- 
seu, consultei várias pessoas desta cidade que melhor conhecem as crónicas de Ouro 
Prêto, e tôdas, unânimes, afirmaram que êste São Jorge — o do museu, repito — 
era o que em dia de Corpus-Christi, percorria processionalmente, a cavalo, as ruas 
da capital, seguido de uma guarda de honra, formada de oficiais e praças do Exér- 
cito e da Polícia, todos igualmente a cavalo. A última dessas procissões realizou-se 
em 1886 sob o paroquiato do Cónego Conselheiro Santa Ana. 

Das pessoas que consultei uma foi o Exmo. Monsenhor Castilho Barbosa, vene- 
rando vigário de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Prêto, o qual, em criança, assis- 
tiu às três últimas curiosas procissões de São Jorge. 

O santo é dotado de articulações a fim de poder apresentar-se bem como cava- 
leiro. Era garboso, cavalgando, afirmam. Consulte-se, para comprovação, o precio- 
síssimo livro do Dr. Edgar Falcão — Relíquias da Terra do Ouro — a estampa da 
pág. 25(5 e ver-se-á como se portava galhardamente a cavalo o nosso Santo 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



389 



O General que logo apareceu, tranquilizou o artista e pôde en- 
trar com êle em detalhes relativos à imagem de São Jorge, que decla- 
rou devia ser de grande vulto, e tendo tomado para exemplo o do 
dito ajudante d'ordens, que se achava presente, o Aleijadinho, vol- 
tando-se para êste e retribuindo a ofensa dêle, disse duas vezes me- 
neando a cabeça e com ar displicente: — Forte arganaz! forte ar- 
ganaz! 

Pretende-se que, quando o artista deu por acabada a imagem, 
não houve quem nela deixasse de reconhecer uma cópia fiel do dito 
José Romão, que, formando o mesmo juízo, em vão opôs-se a que 
ela saísse nas procissões." 

O "pretende-se" do Professor Rodrigo Bretas está, a meu 
ver, arguindo de lenda a história do José Romão. Aliás a fisio- 
nomia do São Jorge surge mais ou menos parecida em outras 
imagens do Aleijadinho. Confronte-se com o São Jorge o 
Cristo xio Horto de um dos Passos de Congonhas. Veja-se a 
gravura dêsse Cristo em o Aleijadinho de José Mariano Filho. 
A semelhança é manifesta. 



i 



CAPÍTULO V 



PINTURA 

l.o — CAPELA-MOR 

Em ordem cronológica o mais antigo pintor da igreja de 
São Francisco com quem travamos conhecimento é João de 
Carvalhais a respeito do qual apenas se sabe o que consta do 
seguinte : 

"(Pago a) João de Carvalhais depintar opano do arco, frontal 
e cardencias — 74$400 rs." (L.° 1.° de Rec. e Desp. a fls. 108 verso, 
período de 1771-72). 

"Recevi do Sr. Antonio martins Viana Sindico da venerável orde 
de S. fran. co doze oitavas de ouro do acrescentamento que se fes ao 
painel e banqueta e credencias e o pano grande que se acha no teto 
de pintar todas esta couzas asima declaradas de que estou pago e 
zatisfeito e lhe pazo este para sua clareza oje V. a Rica 9 de Marzo 
de 1772//70ÕO de Carvalhais." (Doe. avulso — pasta 395) 

Os trabalhos de Carvalhais, referidos nos documentos 
transcritos, serviram primitivamente de altar, retábulo e forro 
da capela-mor e naturalmente desapareceram quando se con- 
cluiu a ornamentação do barrete e se fêz o retábulo de talha. 

Em seguida aparece-nos João Batista de Figueiredo. Êste 
nasceu em Catas Altas do Mato Dentro e era filho de Antônio 
Lopes de Figueiredo, da Colónia do Sacramento, e Francisca 
das Chagas Freire, de Cachoeira do Campo. Casado com Maria 
da Silva do Nascimento, filha de João da Silva Vieira, natu- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PllÊTO 391 

ral de São Salvador de Dornelas, comarca de Amares, e Ana 
Josefa da Silva, de Cachoeira do Campo. 

Uma filha do casal, Maria Vitória da Silva Figueiredo, 
casou em 1797, em São João do Morro Grande, com José Ven- 
ceslau Monteiro de Alvarenga, filho de Manuel Monteiro 
Chassim e Maria Tomásia da Encarnação (Autos de hábil, 
matr. do Arq. da Cúria Marian., n. 851, gaveta 222 e Gen. Paul., 
de Silva Leme, VI — 532). 

José Batista de Figueiredo, outro filho do pintor, nasceu 
em Antônio Dias de Vila Rica e aí foi batizado a 27 de maio 
de 1787. 

Em 1773, a 28 de junho, o pintor Figueiredo arrematou por 
400$000 a pintura e douramento da capela-mor e realizou esses 
trabalhos, visto que deles foi pago, como veremos mais abaixo. 
Por sua conta correu o material que empregou na execução da 
obra. Comprovam-no os documentos que vamos ler: 

"Condiçõens 

comque Se rematou apintura edouramento da CapelaMor deS. Fran- 
cisco empreço de 400$000 rs. 

1 . Sera obrigado orematante aaparelhar toda aobra que compreen- 
de oteto decai emadeira seguro deSorte que anaturesa daCal 
lhenão faça damno p. a dourarse abornido oqueabaxo Seapon- 
ta ficando o Rematante obrigado persy eSeus fiadores aqual- 
quer perigo oudefeito quando Seexaminar adita obra fasendoa 
otra ves aSua Custa. 

2. Serão dourados todos os ornatos que Seacharem Levantados 
emcal. Todos os filetes que ouverem nas molduras serão doura- 
dos juntamente comos redondos que goarnecem asmedalhas 
por parte dedentro, eosredondos mayores que goarnecem as 
mesmas molduras não serão dourados. 

3. Seram também dourados os filetes daSimalha emque afirma 
oteto juntamente comhum redondo piqueno quetem adita Si- 
malha. 

4. Ospedestais que Seacharem dentro dos fundos das medalhas se- 
ram fingidos pedra comacor que parecer melhor, etambem Se- 
rão redondos e filetes das mesmas dourados ebornido. 



3P2 CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 

5. Aestanta que está dentro damedalha Serão asgrosuras doura- 
das abornido, eaSim também osLivros levarão Suas Letras de- 
Ouro amordente. 

6. As borlas e resplandores queSeacharem dentro das medalhas 
serão dourados. 

7. Seram todas as molduras do teto fingidas depedra bornida azul 
clara cujas manchas serão brancas com misto rozado. 

8. ASimalha principal emque firma oteto Será decor rozada com- 
manchas também brancas edilatadas. 

9. Serão encarnadas apolimento todas asfiguras queseacharem no- 
teto, eobalayo deflores que seachana cabeça doAnjo Será dou- 
rado, e as flores. 

10. Todas as roupas das figuras, caras dos Anjos Serão estufadas 
aOuro bornido. 

11. Serão debranco quatro Lizos que estão porbaxo das medalhas, 
osquaes am de Levar Letras. 

12. Logo porSima destes Lizos estão quatro molduras piquenas que 
Sustentão as quatro medalhas estas serão damesma pedra ro- 
sada da Simalha. 

13. Seram fingidos damesma pedra das molduras doteto osquatro 
óculos, cujapedra também Será bornida. Os Cayxilhos das vi- 
drasas serão pintados comhua Cor que Melhor parecer aOlio. 

14. As molduras dos dois painéis doslados Serão damesma pedra 
do teto, e osOculos eSeus ornatos Seram também dourados, eos 
filetes das d. as molduras. 

15. A pintura dos painéis Será aeleyção dopintor, edaOrdem ambos 
elegeram o pano que melhor agradar efor conveniente aComo- 
do deles. 

16. Opano que Seacha pintado datribuna Será retocada a pintura, 
eoque Seacresentar para oComodo do Seu Lugar, eopainel que 
está nomeyo do d.° pano Será borrado, epintada amesma Se- 
nhora denovo. 

17. O Frontal Será pintado aCola fingido deSeda eosgaloens Seram 
amarelos detinta enamesma forma as banquetas emque Sepu- 
ser opano que são Cinco aonde Sehadepor o Santo. 

18. As portas ejanelas damesma Igreja Serão oliadas eacor Será 
aeleição daOrdem, verde ouCor deSinza eas maons detinta que- 
seder serão encorpadas. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 393 

19. Agrades deferro das Janelas, eOculos Serão oliadas de preto 
com duas maons. 

20. O Rematante Seraobrigado adar a pintura edourado feito eaca- 
bado dentro emtres mezes desde o dia emque ficar rematada 
aObra. 

21 . Ospagamentos serão dois, hum nomeyo daObra eoutro nofim 
dela. 

22. Poderaaordem quando lheparecer, mandar hum pintor exami- 
nar aobra, eorematante poderameter outro para defenderse Se- 
ouver maldade outiver pejo doespetor. 

23. As portas queSahem para aCapela Mor Serão fingidas dealmo- 
fadas, erefendidas daCor que pareser melhor, enamesma forma 
asque sahe dos Corredores para o Corpo daCapela. 

24. Será obrigado o rematante a fingir deprespetiva todos os caxos 
que se acharem dentro das medalhas e as Colunas namesma 
forma. 

25. Seraobrigada aven." 1 ordem aacestir comtodas as tintas, ouro, 
Olio. quepelo rematante lhefor pedido, abatendose asuaempor- 
tan-da nopreço porque for rematada adita pintura. 

26. Seraobrigado oRematante afaser nadita pintura algua galan- 
taria que Seentender Ser persiza eas tintas com que fiser ames- 
ma obra seram dasmais finas, emelhores que ouverem noPais. 

Estas Samas Condiçoens comque rematou oi. r João Baptista de 
Figueyredo apintura edouramento daCapela Mor do Patriarca S. 
Francisco, eSefizeram duas desteteor, hua que fica na venerável or- 
dem asinadapelo dito rematante eoutra que selhedá asinada pelo Ir- 
mão Procurador que eu Antonio Joseph Miz. a Correa Ex Secretario 
damesma escrevy V. a Rica 28 de Junho de 1773. 

Jerónimo da Costa de Olivr* 1 
P. ,,r geral 

Material 

Recebi dos. r Jerónimo da Costa deOlivr.a huma Barra de Ouro 
Com sua Guia N 2390 que emporta pella comta q nella Sefez Sem Mil 
Seis sentos eSeSenta e hum Rial p. a Levar em m. a comp. a p. a o Rio 
deJanr. 0 aemtreguar a M. 01 Paradella auz.* aBento Leite Soares oque 
pormeto fazer Levandome D. s aSalvam.*° dadita Barra tudo por comta 



394 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



eRisco deq. ffi direito pertemSer ep. a clareza everd." passo dois dehum 
teor hum comprido outro não valha Sendo Som. p pormim aSignado 
oje V. a Rica 17 de Julho de 1772 a. Manoel Joaq. m Ramos. (100$661 rs) 

R. oComteudo no recibo retro p. a o aprontamento deonze milhei- 
ros de ouro dedourar Rio de Janeiro 29 de Julho de 1773. M. el Fras» 
Paradellas 

Levo da caza do Snr. L. 00 Jozé Pr. a desaSeis L. as e meya deretalho 
a meya pataca a L. a emporta Coatro oitavas ecoatro v.* 8 mais doze L."" 
de bolo dedourar a sete v. te * emporta em duas (sic) e cruzado Levey 
mais pincéis e brochas tres Coartos e seis vinténs de ouro emporta tudo 
em Sete e meya e seis v. tes villa Rica 12 de julho de 1773 // João Bapt.' a 
de Figr. d ° // São 9$225. 

O NoSo caricimo Irmão cindico pagou esta conta — Camara 
Emporta a conta aS. a 7 - 1/2 - 6. (79) 
O P. r Figr. do ja pasou recibo desta conta // Giz // 
Reçebi do Sr. L. d0 Jozê pr. a Carnr 0 húa Libra de Sombras deolivr." 
e nácar de pingos e verdachos vermelhão e bolo p. a aobra do Snr. S. 
Fran.™ emportou tudo aSima em Coatro oitavas e doze v. tes de ouro 
as cujas hade pagar a venerável ordem do S. r S. Fran. co e eu lhas le- 
varei em conta na conta q me dever ad. a ordem êportou em 4 1/4 4 
vila Rica 3 de 7br.o de 1773 // 4/8 1/4 4 // João Bapt. a de Figr.<* 
// São 5$250 

— O P. or Fig. do ja pasou resevo desta coantia asima 30 de 7br.° 
de 1773 a.// o Sindico Domingos AntP Giz // 

Recebi do Sr. Irmão Sindico tres oitavas e hú cruzado de ouro da 
entrada de noviçia de m. a molher Maria da S. a do Nascim. 1 " os coais 
lhe levarei em conta na Rematação da pintura villa Rica 5 de 8br.° 
de 1773//JOÕO Bap.' a de Figr. d »//Sã,o 4$350 



(79) O cruzado acima, isto é, cruzado de ouro, correspondia a $750, ou 20 
vinténs. Assim, a soma se fará: 4 — 0 — 4 
2 — 1/2 — 4 
0 — 3/4 — 6 

7 — 1/2 — e 



S A O FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



395 



Pagamentos 

(Pago a) João Bap. u de Fig. 0 " a Conta da pintura emdr.° 133$075 
Em tintas eOuro noR.° 88$130 



Soma 221$205 

(L.° de Rec. e Desp. a fls. 116, período de 1773-74). 
"João Baptista de Figueiredo deresto da pintura do Doura- 

mento daCapellaMor — R.° fls. 55 33$563" 

(L.° cit. a fls. 146 v., período de 1774-75) 

Limitaram-se ao teto os serviços, "pintura e douramento 
da capela-mor", realizados por João Batista de Figueiredo. 

Consignemos aqui, antes de finalizar este parágrafo, que 
os estudos procedidos pela Diretoria do Patrimônio Histórico 
e Artístico Nacional levam à conclusão de que João Batista de 
Figueiredo, pintor do magnífico forro da igreja do Rosário e 
provavelmente também da matriz de Santa Rita Durão (Infi- 
cionado), foi o verdadeiro mestre do Ataíde. 



2.o _ PAINÉIS 

Com relação aos preciosos painéis que adornam as paredes 
da capela-mor (exceção feita dos azulejos de que a breve tre- 
cho falarei) e a sacristia, há escassez de documentos. O que 
tem o n° 26 e se encontra na pasta 86 diz assim: 

"Recebi deis oitavas de ouro a conta da pintura dos pai- 
néis q. estou pintando para a Ordem terseira de S. Fran. co coya 
quantia recebi do procurador da mesma ordem por mão do 
Capp. m Manoel Fernandes deCarvalho cuia quantia levarei em 
conta do ajuste da mesma obra e por verdade lhe passo este 
por mim feito e aSinado Vila Rica 3 de Junho de 1782 //Fran. co 
X. er Giz." 

Tais painéis são os quadros da sacristia, o que se infere 
dos pagamentos ao carpinteiro que fêz os caixilhos e ao oficial, 
que os pintou, serviços pertencentes ao ano compromissal de 
1780-81. Os lançamentos que a eles se referem encontram-se 
a fls. 191 verso do L° I o de Rec. e Desp. e estão redigidos nos 
termos seguintes: 



396 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



"feitio dos painéis ou seus caixilhos q. estão na Sacristia 
— 6/8^" 

"ao pintor de pintar os caxilhos dos ditos painéis — 4 — 
0 — 4 (4$950)." 

Na sacristia, no entanto, há ainda os cinco painéis do teto 
aos quais se refere o seguinte que se lê a fls. 18 v. do ABcedário: 

"A nossa ven. el Hordem a M el Per a de Carv°, Pintor quefoi 
daSacristia D. c o que dad a obra selhe ficou devendo na fr a que 
suplicou ameza d' 13 dejanr 0 d'82 — 24000 selhepagarão ja 
12000 oqueconsta do decum. to N. 3 na linha doSindico Ant° 
Fr. co daS a e restaselhe — 10/8 as " 

e na fl. 19: 

"Pago o resto da divida infr. e e consta do recibo no lb. 
corr. e fl. 200 — 10/8 as " 

Manuel Pereira de Carvalho é, portanto, o autor da pin- 
tura que adorna o forro da sacristia, como Francisco Xavier 
Gonçalves o é dos quadros que ali pendem de suas quatro 
paredes. 

Ora, à exceção das referidas telas e painéis, não há outras 
pinturas na sacristia. 

Relativamente aos painéis da capela-mor (à parte os azu- 
lejos, como já notei), há no arquivo da Ordem os documentos 
que passo a transcrever, mudos inteiramente, como se verá, a 
respeito da notícia que mais nos apetece — a da autoria desse 
trabalho: 

"Recebi do Sr. Ajud. te M. el Alz de meireles como procurador de 
S. Fran. co 8 oitavas de ouro de resto de fazer 6 caixilhos p. a a capella 
mor. e dias q andei no trono e nada mais me fica devendo a dita or- 
dem the o dia de hoje e declaro que levei de jornais a 1/4 por dia a 
seco e p. a sua clareza lhe passo este V. a Rica, 6 de 8br.° de 1803 // 
Grigorio Joze deSza Fortes." (9$600) Doe. av. na pasta 95. 

Recebi do Sfir Ajudante M. eI Alves de meireles quinze oitavas e 
seis vinténs de ouro de jornais que vinci na fatura dos coadros q. se 
fez p. a a Capela mor e dias que andei no trono e para clareza paso o 
prezente Villa Rica 21 de Dezbr.° de 1803. 



3Â0 FRANCISCO DE ASSIS DE OIRO PRETO 



M." Giz Neves 

"Conta dos dias de trabalho nas obras da ca- 
pela de S. Fran/" desta villa Gregorio Men- 
des no andame 3 dias 0-34-0 

dia e meyo de Fazer o trono 0-14-4 

50 dias nos coadros a 1/4 12-1 2 - 0 



13 -1/2-4 

Recebeu 4-14 

mais em 2 escoras . 0-1/2 

abate 3 dias 0- 34-4 5 - 1/2 -4 



Soma 5 - 1/2 - 4 8-0-0 

M. el Glf 3 dias no andame a 1 4-4 1- 0 - 4 

1 1/2 dia no trono 0-1 2 - 2 

60 dias nos coadros 15 - 0 - 0 



16 - 1/2 - 6 
Abate 1 - 1/2 - 0 



Resta (18$225 rs) lõ - 0 -6 

V. R a 6 de 8br.° de 1803 

M. ci Giz Neves." (Pasta 95). 

'•Recebi do Sr. Ajud." Manoel Ali trez oitavas de ouro das escar- 
polas q fiz p. a S. Fran. co a saber dezaseis escarpolas pequenas e 16 
grandes villa Rica 13 de 9br.° de 1803 Avt.P Roiz Chavez " (Pas- 
ta 95). 

Especificando a finalidade dessas escápulas, diz um 
documento avulso do referido ano: "P. a Ant° Roiz Chaves de 
32 escarpolas p a dependurar os painéis da capela-mor — 
3S600". 

José Barbosa de Oliveira, em 1803, abriu os buracos p a os 
painéis da capela-mor". 

Manuel Gomes Barreiros, em 1804, "fèz andaime das tor- 
res, forrou os seis painéis da capela-mor". 



398 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Entretanto, cerca de 20 anos antes, a 6 de outubro de 1782, 
o Vigário do culto divino, José Bernardes de Figueiredo, pa- 
gou três oitavas e um quarto — "emporte da caza p a os seis 
painéis, e quatro vinténs — "de cem tachas p a as guarnições 
dos painéis." (Pasta 76). 

No L° I o de Rec. e Desp. ainda se encontra, a fls. 192, perío- 
do de 1780-81, este lançamento: "P. trosser o barbante p a de- 
pendurar os caixilhos ou quadros da Sancristia — 1/4 — 4." 

Note-se que alguns documentos falam de seis painéis na 
capela-mor; na realidade, porém, êles são oito. 

Referi-me neste parágrafo aos seguintes painéis: 

I — na sacristia — 10 telas em grandes molduras, distri- 
buídas pelas quatro paredes (sobre a cómoda) : Santa Isabel 
de Portugal. São Luís de França, São Roque, desfazendo-se 
de sua herança, São Francisco em colóquio com Jesus Cristo; 
(parede de leste): Santa Isabel de Hungria e Santo Ivo; (na 
parede do oeste): São Francisco lendo as regras a São Lúcio 
e Santa Bona, e São Francisco perante o papa Honório III ; (na 
parede do fundo): São Francisco pregando e Santo Ivo; (no 
teto ao centro) : São Francisco transportado ao céu e, a um 
lado, São Francisco na Porciúncula, e S. Maria Egipcíaca; 
ao outro lado, a mesma santa e São Francisco em oração. 

II — na capela-mor (lado da epístola) : ao alto, São Fran- 
cisco recebendo as Regras de sua Ordem. Aí se lê: 5. Francis- 
cus Regulam a Chro. inspiratam accipit. Chrus, oranti aparet 

veluti Cruci coníixus dicens Qui vult post me ah Angelo 

dape reficitur; aos lados, Nicolau V e Gregório IX; em baixo, 
Ceia dos Apóstolos. (Lado do evangelho) : no alto, São Fran- 
cisco alcança as indulgências da Porciúncula. Lê-se aí: São 
Franciscus ab Angelo vocatus in Ecclia. Portiunculae Patro- 
cínio Virg. Dei par ae a Christo pro Peccatorum salute Indul- 
geas. plenárias obtinet. In signum concessae grae. Rosas 
mirblter. accipit. Aos lados Nicolau IV e Xisto IV. Em baixo, 
Lava-pés. (80) 



(80) Dentro do camarim, no teto, aos lados e ao fundo, há ainda quadros 
apreciáveis. Num dêles um anjo desfralda um fitão em que se lê: Ave Marin gratiu 
plena, Dominus tecum, benedicta tu m mulieribus. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 399 

30 _ PINTURAS DO ATAÍDE 

Manuel da Costa Ataíde nasceu em Mariana e foi batizado 
na catedral daquela cidade a 18 de outubro de 1762. Era filho 
de Luís da Costa Ataíde e Maria Barbosa de Abreu. Seu padri- 
nho de batismo, o mestre carpinteiro Sebastião Martins da 
Costa, nome bastante conhecido nos meios artísticos da época. 
Seu pai, como seus avós paternos — Nicoláu Gonçalves e 
Maria Gonçalves — eram naturais de Santa Cruz de Alvadia, 
em Trás-os-Montes, comarca de Vila Pouca de Aguiar (Autos 
da habilit. matrim. de Luís da Costa Ataíde, ano de 1753, no 
arq. da Cúria Marianense). Felícia Barbosa, sua avó materna, 
era natural de Irajá, freguesia da Candelária, Rio de Janeiro. 

Um de seus irmãos, Antônio da Costa Ataíde, ordenou-se 
e foi vigário encomendado de Guarapiranga. 

Em 1799 lhe foi concedido a patente de alferes da Compa- 
nhia de Ordenanças do distrito de Mumbaça, no têrmo de 
Mariana. 

Em 1818. por despacho de 29 de abril, lhe foi conferido um 
atestado de professor das "Artes de Architectura e Pintura". 
(81). 

Faleceu, com solene testamento, a 2 de fevereiro de 1830 
e está sepultado na campa n° 94 da igreja de São Francisco de 
Assis de sua cidade natal. 

No referido testamento (registrado de fls. 62 a 63 do livro 
48 do cartório do I o Ofício de Mariana e de que há traslado no 
arquivo da DPHAN), lavrado a 8 de janeiro de 1826, declara 
que nasceu em Mariana e afirma a sua filiação, como a inscrevi, 
há pouco. Diz que sempre viveu no estado de solteiro, mas con- 
fessa que, "por fragilidade humana", procriou quatro filhos, 
a saber: Francisco de Assis Pacífico da Conceição, seu testa- 
menteiro, Maria do Carmo Néri da Natividade, Francisca Rosa 
de Jesus e Ana Umbelina do Espírito Santo. Libertou quatro 
escravos, dois dos quais "moleques" ainda. Satisfeitos os su- 
frágios que determinou se fizessem por sua alma e pagas as 
dívidas que tivesse, deixou o "remanescente de sua parte" a 



(81) É seu o risco do retábulo de talha da capeia-mor do Carmo em Ouro Pre- 
to. Cf. F. A. Lopes — Hist. da Igr. do Carmo, págs. 78 e 153. 



100 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Maria do Carmo Raimunda da Silva, provavelmente mãe de 
seus filhos. Recomendou a seu testamenteiro que concluísse, 
"como quisesse", os trabalhos de pintura que constasse haver 
êle contratado "por papéis ou condições assinadas". Do mesmo 
testamento consta ainda que era Terceiro de São Francisco em 
Mariana, do Carmo e de São Francisco em Ouro Prêto, e era 
filiado às Irmandades da Terra Santa, Bom Jesus de Congo- 
nhas, Senhora Mãe dos Homens do Caraça, Senhora da Lapa 
de Antônio Pereira; e Senhora da Boa Morte, Senhora das 
Mercês dos Perdões e Senhor dos Passos de Ouro Prêto. 

Quando trabalhava na igreja de São Francisco, em Vila 
Rica, residia aos fundos da igreja em casa da Ordem. 

★ 

Como o Aleijadinho, na sua arte opulenta e multifária, é 
o Ataíde, em pintura, o artista de maior nomeada em Minas; 
seu nome, como o de Antônio Francisco, sobrepaira, preclaro 
e glorioso, aos de todos quantos, no século XYIII e princípios 
do XIX, benfizeram e honraram a Arte na terra mineira. São 
êles, os dois notáveis artistas, que, sôbre todos, canalizam, 
particularmente, para Ouro Prêto, Congonhas, Sabará e Maria- 
na, essas levas seguidas de sábios e estudiosos que sobem a 
Minas e, fia a fio, vêm transitar pelas nossas igrejas para admi- 
rar e aprender. E todos, num irreprimível impulso de admira- 
ção, se desfazem em entusiásticos louvores aos insignes mes- 
tres e benfeitores da arte religiosa em Minas. 

É tempo, porém, de restringir-me ao Ataíde. 

Positivamente, em Ouro Prêto e, aí particularmente em 
São Francisco, é que a arte do mestre marianense atingiu a 
perfeição; é aí que se aprimorou, com apuro extremo, com re- 
quintes de luxo, a pintura do Ataíde. 

A Nossa Senhora da Porciúncula, subindo ao céu numa 
revoada de anjos, circundada dessas decorações magníficas 
que enchem de lado a lado, em todos os sentidos, o teto da nave 
principal, quem uma ve^ contemplou com olhos de artista 
essa obra-prima não mais a esquece, porque é em verdade 
maravilhosa. 

A autoria do Ataíde, nas obras de São Francisco, é asse- 
gurada por uma tradição quase sesquicentenária. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS UE OURO PKÊTO 



401 



Mas a tradição, em casos análogos, tem sido prova insufi- 
ciente. E antes que se tente esbulhar o Ataíde da autoria des- 
sas côres — bem distribuidas — que inundam a igreja de São 
Francisco, vamos ao arquivo da Ordem e comprovemos essa 
autoria com os documentos que ali nos restam. 

Foi a 9 de agosto de 1801 que entre a Ordem e o Ataíde se 
lavrou o contrato para o douramento e pintura da igreja. 

Serviços que deviam necessàriamente preceder aos traba- 
lhos do pintor estavam sendo já realizados ao tempo do refe- 
rido contrato. Di-lo a conta que agora passo a transcrever 
(Pasta 329): 

"Despeza de ofeciais de carapinas com o Andame de toda a cape- 
la para ser dourada — 13 de 7br.° de 1802 

Manoel giz Neves 4 dias a 1/4 4 1-12-0 

gergorio Joze de Souza 6 dias a 7 vs . . 1-14-2 

Francisco giz 5 dias a 7 vs 1- 0 - 3 

Manoel Mor. a 6 dias a 7 vs 1-14-2 

Joaq."' de Joaquina Vas 5 dias a 6 vs . . 0-3/4-6 

Soma 6-0-5 

de como receberão a conta aSima aSinão aqui// 
M.' 1 Giz Neves/ /Manoel Mor. a De Ar. 0 / /Grigorio 
Joze de Sza/ /Joaquina Ant. a Vás//Franc.° giz 

Manoel giz Neves 4 dias a 1/4 - 4 1-12-0 

gregorio J." de Souza 4 dias a 7 vs 0-3/4-4 

Fran. fo giz 4 dias a 7 vs 0-3/4-4 

Manoel Mor. a 4 dias a 7 vs 0-3/4-4 

Joaq." 1 de Joaquina Vas 4 dias a 6 vs . . 0-34-0 

Soma 4-34-4 

de como receberão aSinão aqui//M." Giz Neves// 
Manoel Mor." De Ar. 0 //Grigorio Joze de Sza// 
Joaquina Ant." Vás/ /Franc." giz// 



402 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Manoel giz Neves 3 e 1/2 dias a 1/4 - 4 . 1-1/4-2 

gergorio Joze de Sza. 4 dias a 7 vs 0 - 3/4 - 4 

Fran. co giz 3 dias a 7 vs 0-1/2-5 

Joaquim 3 dias a 6 vs 0 - 1/2 - 2 



Soma 3-1/4-5 

de como receberão aSinão//Af. el Giz Neves// 
Joaq.™ Ant. a Vás da S. a //Grigorio Joze 
de Sz. a //Franc.° giz// 

Total (17$325 rs.) 14 - 1/4 - 6 



Iriam no seu têrmo os serviços do Ataíde quando se apresentou à 
Mesa a conta que segue, na qual há informações que não é de mais 
fixar: 

"Dias de jornais que trabalharão Manoel Giz e Manoel Gomes nas 
obras da Capella de São Fran. co em aumentos do andame e desmanxo 
do m. mo e hum forro que se fez por sima do Camarim 



Manoel Giz. 19 dias a 1/4 e 4 v. tes por dia 7 - 0 - 4 

Manoel Gomes 19 dias a 1/4 e 4 por dia 7 - 0 - 4 

o Forro do Couro justo por 9 - 0 - 0 

Coatro Payneis ou Coadros justo por 16 - 0 - 0 



Soma 39-1/4-0 

Villa Rica 14 de Abril de 1807 
Manoel Giz Neves/ /M. el gomes." 



Os caixilhos que emolduram os painéis da grande nave, 
nos ângulos, quatro grandes painéis do pincel do Ataíde, que 
representam, os que estão juntos ao arco-cruzeiro, São Pedro 
e Santa Margarida de Cortona, e os que estão aos lados do 
côro, São Francisco em agonia e Santa Clara, foram feitos, 
portanto, pelo mestre carpinteiro Manuel Gonçalves Neves, 
auxiliado por Manuel Gomes (Barreiros). 

Como veremos em documento pôsto mais adiante, são 
igualmente do Ataíde ou azulejos do presbitério. Êstes recor- 
dam 10 episódios da vida do patriarca Abraão. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



408 



No teto do corpo da igreja, além da efígie de Nossa Se- 
nhora dos Anjos (ou da Porciúncula, na verdade a Assunção 
de Nossa Senhora), pintou o Ataíde as figuras de quatro gran- 
des Doutores da Igreja: Santo Agostinho e São Jerônimo, São 
Gregório e Santo Ambrósio. 

Não deixa de ser interessante trasladar para aq li -alguns 
documentos relativos ao material para o douramento e pintura, 
sua procedência e seu custo. 

Ei-los: 

"Rio de Janr o 30 de Janr o de 1801 

Conta da importância do Ouro emais tintas p. a adouramento e 
pintura da Capella dos Terceiros de S. Fran. co de V. a Rica, que me pe- 
diu o Sr. Cap. am Jozé Montr.° Peixotto, as quaes estão promptas desde 
16 de Julho do a.° próximo passado, e as remetto prezentem. te em 2 
Caixas com a marca á margem pelo Conduttor João Roiz Ferr. a 

a Saber 

Em dous Caixotinhos dentro das d. as 



40 Milheiros de Ouro da Caza de João Giz Bra- 
ga a 12:800 512$000 

l d.° de pratta p/ 6$400 518$400 

* 1 Arroba de Geço groço $800 

* 2 d.* B de retalhos de Luva 7$400 14$800 

16 Lb. aB de Bollo com a cor amarellada p. r 1$500 

* 2 1.*" de d.° branco $080 $160 

1 pelle de Lixa p. r 1$280 

11/2 Arroba de Alvayade fino domilhor q hou- 
ver em pedra (este por ora não vai pelo não ha- 
ver Superior, ealgum q. aparece dad. a qua- 

dad. e he a 800 rs alb. a ) 

2 1/2 lb. as de Vermelhão fino 2$450 6$ 125 

* 1 lb. a de flor de Anil do mais escuro e Superior 9$400 

* 1 lb. a de Rom empedra 2$880 

* 1 1/2 lb. a de Cinzas Azuis 3$100 4$650 

* 2 lb. as de Sinopla cor de roza $850 1$700 

* 11/2 Onça de Carmim fino 7$600 11$400 



404 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



2 Onças de Ouro de conxa $800 1$600 

4 d.* 8 de Ialde amarello $120 

* 8 d. as de Ialde queimado $240 

8 d. as de Maquim amarelo $280 

* 1 lb. a de Sombra de Oliveira $160 

* 4 Onças de Sombra da Colónia $040 

1/2 lb. a de Anil fino $960 

* 3 lb. as de Oleo de Nozes $800 2$400 

* 4 d. as de Oleo de Linhaça $300 1$200 

* 1/2 lb. a de Zarcas $050 

* 1/2 lb. a de fezes de Ouro $050 

* 1 dúzia de broxas grandes de Arco de ferro a 

Saber: 

da Letra E. 5 broxas a 320 . . 1$600 

da Letra G. 7 d. as a 400 . . 2$800 .... 4$400 



Soma eSegue 584$595 

Transporte da Somma Retro 584$595 

* 2 duz.* 8 de broxinhas de aparelhar d.° arco, de 

Letra B a 120 cada húa 2$880 

2 D." 8 de broxas de frizar a Saber 

21 a 160 3$360 

3 a 140 $420 3$780 



* 1 dúzia de d. as de frizar menores $720 

2 d. as de broxinhas pequeninas de pintar 1$120 2$240 

* 4 d. as de pincéis de cabra metade grd. es , eoutra 

menores $200 $800 

* 4 d. as de pincéis de dourar $480 1$920 

* 1/2 dúzia de broxinhas de molhar do mesmo ca- 

belo, cada húa a $080 $480 

* 1 dúzia depinceis de abrir sentidos $200 

* 1 Lb. a de Verniz fino e Claro $800 

1/2 lb. a de Verdaxo $300 

* 4 Onças de Verde Estilado $640 

* 4 d. as de pozes de Sapatos $080 $320 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



405 



4 d. as de Sangue de Drago 

4 d. as de Nácar de pingos Superfino 

2 folhas emq vai o Oleo de Nozes e de Linhaça . 

1 folha em que vai o Verniz 

1 d. a em que vai os pozes de Sapateiro 

1 Saquinho em que vai o Gesso groço 

2 Caixotinhos em que vai o Ouro e a prata a. . 
2 Vidros em que vai o Carmim e o Ouro de 

Conxa 

2 Caixas em que vai tudo 

de as Encabeçar de couro ao Corrieiro 



$640 
$320 



$480 

$080 
1$760 
$400 



1$000 
2$560 
$640 
$160 
$100 
$240 
$960 

$160 
3$520 
$800 



609S815 



NB. As adiçoens que nesta rellação vão anotadas á margem com 
húa estrella são as compradas na Botica do Cap. m Diogo Vieira de Aze- 
vedo econstão da rellação que envio com recibo do mesmo de pagas, 
e as mais forão compradas em outras diversas boticas e Droguistas." 
(Doe. avulso). 



Segue-se a conta de todos os trabalhos realizados pelo 
Ataíde dentro do seu contrato: 

"Deve o Alferes Manoel da Costa Atahide morador na Cidade 
Marianna a Conta dos Dinheiros que recebe por conta do ajuste 
da obra do Douramento da Capela Mor e mais Pintura comforme 
as condiçõens da dita obra (No ABcedário a fls. 30). 



3 — Mayo — Pela impor- 
tância do ouro de Dou- 
rar e Pintar para prin- 
cipio da obra de que 
passou recibo nesta 

data 807$875 

Carretos e 5. 0S de 2 
caixas e hum caixote de 
que foi condutor João 
Roiz Ferr. a 17S300 



1801— Agosto - 9. Pela im- 
portância do ajuste de 
toda a obra comforme 
o termo lançado no L.° 
delles afls. 744 2:400$0fl 

1804— Abril - 22. Idem im- 
portância do acréscimo 
da obra comforme o 
Termo a fls. 149 450$000 



406 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADJ 



"Nov. 26 — Pela importân- 
cia de três recibos que 
se achão na linha do 
Sindico deste Anno . . . 264S54S 

1804 — Idem recebeu do Sin- 
dico Ai,t.° J. Ribr.° co- 
mo conota dos recibos 
que se achão na sua li- 
nha 323*929 

1805 — Recebeo em varias 
parcelas do Sindico 
Custodio Fran. co de que 
assinou o recebimento 
no L.° de receita e des- 
pesa a fls. 345 253$200 

1806 — Recebeo em varias 
parcelas do Sindico o 
Cap. Pantaleão Alz da 
S. a de q assinou o rece- 
bim. to no L.° de receita 

e despeza a fls. 352 .. 266$000 

1807 — Recebeo em varias 
parcelas do Sind.° Al- 
feres Joze Roiz Cacha- 
do de que assinou re- 
cebimento no L.° de re- 
ceita e despeza a fls. 

358 32$550 

1808— Recebeo do Sindico 
Vicente Bapt. a Roiz p. r 
Recibo de 19 de Agosto 

de 1808 70$09'? 

1809— Recebeo do Sind.° 
Carlos de M. Jurdão — 

10/8.«" 12$000 

— Recebeo mais do mes- 
mo Sind.° 151S944 

1810 — Recebeo mais do Sin- 
dico Alf.es M.ei Luiz . . 53$34Ô 
— Recebeo mais do mes- 
mo Sind.° 102$400 

— Abateo no total di- 
vida como consta do 

L.° de termos 200?000 

— Recebeo mais q as- 
sinou no L.° da Receita 74$000 

1811 — Recebeo mais em 
1811 de q assinou no 

L.° 238|828 

1812 — Recebeo o Resto q se 

lhe devia 179$983 



Pelo Azulejo da Cape- 
la Mor, menos o Ver- 
niz com que a Ordem 
assestio e Armas do 
Cruzr.° 



Soma 



2:850$000 



2:850$000 



SÃO fRANCISCO DE ASSI 



DE OURO PRÈTO 



40T 



Fora do contrato, executou o nosso pintor ainda para São 
Francisco os serviços que estão especificados no documento 
que segue e que se destinavam à procissão de Cinzas de 1805: 

"A Imagem do Snr. Crucificado, Encarnado e os Sangues de Car- 



mim (ilegivel); 

a Cruz, Titulo, Coroa de Espinhos os (ilegivel) e 

as Azas 6-3/4-0 

2 Varas e 1/2 palmo de Renda p. a a toalha do S. r . . 0 - 3/4 - 0 
A Imagem de S. Roque, aVara dom. mo envernizada 

doirada, e oseu Caxorinho 2 - 1/2 - 0 

A Imagem de S. Ivo 1- 0 - 0 

A de S. Francisco recebendo as Chagas 1- 0 - 0 

A do Pontifice 3/4-0 

A dos dous Cardiais a 3/4 cada nua 1-1/2-0 

A de S. Luiz 2-3/4-0 

O criado do d.° Sto 0-1/2-0 

A Cruz da Penitencia com as Suas Armas, tudo de 

novo ex ceto os Raios 3 - 0 - 0 

Os 3 cravos pratiados, e coroa de Espinhos de S. Luis 0 1/2-0 

12 Serafins 1-1/4-0 

27 Siprestes de Verde en Vemizado a 2 v.™ cada hum 1-1/2-6 



Soma (28S725 rs) 23-3/4-6 



11 Alfanges grátis 

3 Braços retocados grat. 

O Carneirinho doirado grat. 

A Vestimenta e Vara da Morte .... grat. 

As Letras doiradas da Regra grat. 

A tinta p. a o Sangue dos Fradinhos . grat. 



R. bi do Procurador actual da Venerável Ordem 3. a de S. Francisco 
desta Villa o Snr. Cap. m Manoel Frz da S. a Vinte oitavas de Ouro em- 
pagam. to das Obras q fis aSima declarados, ficando pago e Saptisf ei- 
to por deixar aom. mo S. to de esmolla as 3/8. as e 3/4 e 6 vin. te8 de resto 
ep. a Clareza passo o prez. e de m. a Letra e Signal V a R. a 10 de M. 00 
de 1805 //Manoel da Costa Attaide// 

R/" tãobem nam. raa forma aSima, Sette oitavas equarto eSette 



408 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



vinteins de ouro, de Encarnar, doirar, epintar, Varias Imagens, Meza 
de S. Luiz, e Setro, eSeprestes. V. a R. a 28 de Fevr.° de 1806/VManoeí 
daCosta Athaide 

Recibos do Ataíde que estão lançados no L.° 1.° de Rec. e 
Desp.: 

A fls. 341 (1803-804) — "Recebeo o Irmão Tenente Custodio Joze 
Coelho dodito Irmão Sindico Antonio Joze Ribeiro aquantia de qui- 
nhentos esincoenta oitavas hum quarto e sete vinteins deouro impor- 
tância de diversas despezas que fes como consta do Documento nume- 
ro dous quevai a Linha do mesmo Sindico ede como recebeo a dita 
quantia aqui assinou comigo Joze Gonçalves Reis Secretario dadita 
Ordem que oescrevy / /Custodio J Coelho, Proc. or Geral//7o2e Gonçal- 
ves Reis//" 

A margem lê-se o seguinte: "N B. Neste docum. to de 550-1/4 — 7 
achão-se 5 recibos do Pintor da import. cia detrezentos vinte etrez mil 
nove centos evinte enove reis q fica servindo derecibo dad. a q. t,n por 
conta do douram. 10 e Pintura//M. p ' da Costa Athaide//" 
(550-1/4-7 = 660$562 rs). 

A fls. 345 (1804-805) — "Recebeo o Alferes Manoel da Costa Athai- 
de do Irmão Sindico Alferes Custodio Francisco Pequeno aquantia de 
duzentas eonze oitavas de ouro por conta daObra do Douramento e 
Pintura daCapella, em que actualmente seocupa namesma Capella 
desta Venerável Ordem 3. a deS. Fran. co edecomo recebeo adita quan- 
tia aSina commigo Manoel Ferreira daSilvaCintra Secretario actual 
que escrevy/ /Manoel da Costa Athaide / /Manoel Ferr. a da S. a Cin- 
tra//." 

(211 oitavas = 253$200) 

A fls. 352 (1805-806) — "Recebeo o Alferes Manoel da Costa Athai- 
de do Irmão Sindico Quartel Mestre Antonio Joze Ribr. 0 aquantia de- 
duzentos e sessenta mil reis por conta da Obra do Douram. 10 da Capella 
Mór e Pintura emque actualmente seocupa na mesma Capela desta 
Ven. cl Ordem 3. a de São Fran. to emvarias parcellas de que havia paça- 
do recibos demão eosresgatou neste acto e asina o recebim. 10 da dita 
quantia neste Livro com o dito Sindico ecomigo Manoel Ferreira da 
Silva Cintra Secretario que oescrevi e asino//ManoeZ da Costa Athai- 
de/ /Manoel Ferr. a da S. a Cintra Secretario//." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS 1)K OURO PRÊTO 409 

A fls. 358 (1806-807) — "RecebeooAlferes Manoel da Costa Athai- 
de porconta da Pintura eDouram. to da Capella desta Ven. Ordem 3 a 
emque se acha empregado actualmente aquantia de trinta e dous mil 
quinhentos cincoenta reis pormão do Ir. Sindico Alf. es Joze Roiz Ca- 
chado edecomo recebeo adita quantia abaixo asina comigo Secreta- 
rio nesta Villa Rica aos 2 de Janr. 0 de 1808//Manoel daCosta Athaide 
//Secr.o J. Coelho// (32$550 = 27-0-4). 

A fls. 363 (1807-1808) — "Recebo o Alf. ss Manoel daCosta Ataíde 
p.' conta do que esta ordem lhe deve do Douram/" epintura daCapela 
cincoenta eoito oitavas edecom, digo e quarto eSinco v. s deoiro e de- 
como recebeo aSina aqui comigo Secretario V. a R. a 6 de Dezbr° de 
1808 — 58-1/4-5 // Manoel da Costa Athaide/ /Secr. 0 Custodio JCoc- 
lho//" = 70$087 rs. 

A fls. 370 (1808-1809) — "Recebeo oAlf." 5 Manoel da Costa aTay- 
de p.' conta doque se lhe deve do Ajuste do Douram. 10 daCapela cen- 
to eSesenta etres mil nove centos equarenta e quatro reis e decomo 
recebeo aSigna aqui commigo Secretario V. a Rica 18 de Dezembro de 
\809//Manoel da Costa Athaide/ /Custodio J. Coelho//." 

A fls. 379 (1809-1810) — "Recebeu o Air.™ Manoel da Costa Ataí- 
de por mão do mesmo Sindico aquantia de Cento e cincoenta e cinco 
mil sete centos equarenta eseis reis por conta de mayor quantia que 
esta Ordem lhe está a dever do douram. 1 " etoda a pintura danossa Ca- 
pela eassim mais pelos motivos ponderados no L.° dos termos af. 8 168 
abate od.° Alf. es Ataíde aquantia de Duzentos mil reis que faz a soma 
de 355$746 rs que sahe a margem, ficando assim esta Venerável Or- 
dem de dever-lhe te a data desta de toda a obra Quatro centos no- 
venta e dous mil oito centos eonze reis. E de como recebeu os ditos 
155$746 rs e abateo os ditos 200$000 rs assigna comigo Secretario. 
Villa Rica 10 de Junho de 1810 Manoel da Costa Ataíde //Manoel 
Teixeira de Souza//." 

A fls. 381 (1809-1810) — "Recebeu o Ir. Alf. ,;s Manoel da Costa 
Ataíde do Ir. com vezes deSindico Ajud. tf Manoel Joze Barbosa por 
conta do que esta Ven. cl Ordem lhe deveda pintura edouramento da 
Nossa Capela Setenta e quatro mil reis — 74$000 — E de como rece- 
beu assigna aqui comigo Secretario. Villa Rica 21 de Dezembro de 
\8\Q/ /Manoel da Costa Athaide/ /Manoel Teixeira de Souza//." 

A fls. 387 (1810-1811) — "Pagou ao AlíV* Manoel da Costa Atai- 



âlO 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



de por conta doque esta Ven. 1 Ordem lhedeve da Pintura eDouramen- 
to daCapela Duzentos trinta eoito mil oito centos e vinte e oito reis. 
E de como recebeu assigna comigo Secretario//Af arcoeZ da Costa Athai- 
de/ /Manoel Teixeira de Souza//." 

A fls. 392 (1811-1812) — "Pelo que pagou o dito Irmão Sindico ao 
AH.*" Manoel da Costa Ataide resto detoda apintura, edouramento da 
Capela da Nossa Venerável Ordem queselhe estava a dever ficando 
saldadas todas as contas te o presente que a mesma Ven. 1 Ordem tem 
tido com o dito Ataide Cento e settenta enove mil novecentos e oiten- 
ta e tres reis — 179S983 — E de como Recebeu asobredita quantia as- 
signa aqui comigo Secretario. Villa Rica 18 d'Abril d'1812//3íanoeZ 
da Costa Athaide //Manoel Joze Barbosa." 

★ 

Um recibo que se relaciona com a pintura de que vimos tratando: 
Do Livro cit. a fls. 322 (1799-1800) — "Recebeu o Irmão Jozê 
Monteiro Peixoto Ministro actual desta Venerável Ordem do dito Ir- 
mão Sindico João Gonçalves Pereira a quantia de quinhentos quaren- 
ta e sete oitavas hum quarto e tres vinténs de ouro que a dinheiro são 
seiscentos e cincoenta e seis mil oitocentos e dois reis para mandar 
para a cidade do Rio de Janeiro para se empregarem em Ouro folhas 
e mais aparelhos para o douramento da talha do Altar Mor da Capela 
da dita Ordem de que ha de dar complemento a conta de sua sahida 
e de como recebeu a dita quantia aqui aSignou comigo Secretario que 
oescrevi // Jozê MontrP Peixoto//Joze Giz Reis//." 

4.0 _ OUTRAS PINTURAS 

O mais antigo pintor que trabalhou para a Ordem Ter- 
ceira de São Francisco de Vila Rica foi Francisco Xavier de 
Meireles, cujo trabalho — a efígie de São Francisco em cores, 
pode ver-se ilustrando o Livro da Fundação da Ordem, otima- 
mente conservado. Esta notícia obteve-se de registro lançado 
à fls. 65 do Livro I o de Rec. e Desp. (ano de 1764): 

"Pello q. se despendeu em pintar hua imagem de N. Smo. 
Patriarca em o livro da fundação da Ordem a Fr.°° X. eT de 
Meyreles — 3$000." 

No mesmo livro trabalhou outro artista, este da pena, o 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO A\l 

Capitão Francisco Alexandrino. Da mesma procedência a notí- 
cia (L° cit. fls. 70), assim redigida: 

"Pago ao Capp.™ Fran. ro alexandrino da escrita que fez 
no L° da Fundação, como consta do recibo — 8$625 rs." 

Outros pintores figuram nos documentos seguintes: 

"Rec. do Irmão Sindico da V. Ord. 3. a de S. Francisco por mão do 
Irmão Procurador Domingos Alves duas oitavas e meya de oiro da 
Pintura do Prezepio, q. se axa na mesma Igreja p. a o qual asisti com 
todas as tintas e p. a as duas portas, meu jornal e do meu oficial, q. 
tudo emportou em maior q. t;i q. dou de esmolla a S. Fran. co e me dou 
por pago com a quantia dita asima e satisfeito hoje V. a R. a 27 de 7br.° 
de 1794/ /Feliciano M. cl da Costa 

O d.° Pintor havia de receber 3/8. as porem deu-me mais 1/2 8.^ 
q. se comprou huraa folhinha p. a a nossa Capella. //Lobato " (Pasta 
214). 

"R. bv do Procurador da Venerável Ordem 3 a de S. Fran/° quatro 
oit. as e meia de ouro emp.* da emcarnação da Imagem de N. Sfir. do 
Amor Divino V a R. a 2 de Março de 1800. São 4 — 1/2 //Feliciano M: ' 
da Costa" (Doe. avulso). 

"Recebi do Sr. Manoel Alves de meireles nove oitavas de ouro de 
aparelhar de branco o camarim e trono e pintura do coro e lampeão 
na capela da ordem terseyra de S. Fr. co desta Vila e por ter recebido 
passei este por mim hoje 19 de Março de 1196/ /Manoel RibrP Roza//." 
(Pasta 82). 

"R. ( ' do Ir. Sind.° desta V. Ordem 3 a da Penit. a donosso S.P.S. 
Fr.'° 5/8. ls de oiro p. a pagar ao Pintor, q dourou a piaina onde se de- 
posita a Custodia com o SS. mo Sacram. to uma nossa Capl. a epor não 
estar nesta V a od.° Pintor o C. Manoel Ant.° paço este, q serve p. a as 
contas do nosso Ir. Pro. or geral Dom. 0 - Alz da Costa V a R. a 15 de Ja- 
nr.° de 1795/ /Manoel de Abreu Lobato/ /Com. mo Viz///." 

★ 

Ao penetrar numa igreja deve o católico largar à porta as 
vaidades da terra, despreocupar-se dos negócios do mundo, 
para, aligeirado de inquietações, cuidar da própria salvação, 
pensar na morte e na eternidade. 

É o que lembra aos fiéis uma pintura com sugestivas legen- 
das no fôrro debaixo do côro: Vanitas vanitatum — Memento 
mori. 



CAPÍTULO VI 



ALTARES LATERAIS 

Projetados pelo Aleijadinho, mas executados por profis- 
sionais a que não assistia o espírito do genial arquiteto, êstes 
altares — que têm longa e acidentada história — exibem ao 
observador, ainda ao menos iniciado nos mistérios e delicade- 
zas da arte, imperfeições e deformidades que teriam feito explo- 
dir em interjeições aspérrimas a sensibilidade artística somada 
à indignação fácil (82) de Antônio Francisco. 

— A construção destes altares, bastas vêzes interrompida, 
dilatou-se por mais de 60 anos, como hão de mostrar os 
documentos que se oferecem ao leitor no discorrer do capítulo. 

Antes, porém, de encetar a história dessa construção, devo 
informar os que me lêem não terem sido êstes os primeiros 
altares laterais de São Francisco; outros (dois apenas talvez), 
feitos de resto, por conceituado mestre, ali serviram por mais 
de 30 anos a partir de 1793. É o que se infere dos recibos que 
vamos ler, sabendo-se que a feitura dos novos se iniciou em 
1829 ou pouco depois: 

Na pasta 91, n° 6: "Receby do Sr. Procurador Geral o S. r 
Dom. os Alz da Costa treze oitavas e tres coartos e hum tostão 
de ouro por conta dos dois Altares colaterais que fiz na dita 
capela do S. Fran. co e por verd. e lhe passei este som. te por mim 
assignado. V a Rica a 13 de Junho de 1793 — Manoel Joze Ve- 
lasco". São 13 — 3/4 — 5 = 16$687 rs. 



(82) Rodrigo Bretas e Diogo de Vasconcelos falam do génio irascível do in- 
signe toreuta e o exemplificam com o incidente-José Romão, a propósito da fabri- 
cação do São Jorge. 



SÂO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



413 



Ibid. n. 7: "R. ci do Sindico da Venerai ordem terceyra 
desta V a seis oitavas prossedidas de jornais de dois altares q. 
se fizerão na Capela da d a ordem e p. r verd. e lhe passei este 
som. to p. r mim assignado. V a R a 19 de Mayo de 1793. M. el Go- 
mes Borges" São 6/8 as = 7$200 (No verso lê-se: "Recibo de 
M. el Gomes Carapina)". 

Manuel José Velasco, que figura com a indicação do ofício 
de carpinteiro a fls. 19 do Livro 115 de Provisões, Cartas de 
exames de Ofício, do A. P. Min., já trabalhava em São Fran- 
cisco, em 1773-74, no retábulo, no soalho, etc, como consta do 
Livro I o de Rec. e Desp. da Ordem, a fls. 115 verso e 116. 

O retábulo mencionado no período precedente, mais tarde 
substituído por obra de talha, teria sido um trabalho provisó- 
rio, liso e moldurado, próprio para receber ornamentação pin- 
tada, como os do Rosário. 

As primeiras providências empregadas peia Ordem para 
a construção dos novos altares datam de 1825 e constam do 
termo de 6 de novembro do qual passarei para aqui o trecho 
que interessa e que reza assim: 

"Aos Seis dias domez de Novembro do Armo do Nascimento de 
Nosso Senhor Jesus Christo demil oito Centos evinte Sinco annos quar- 
to do Independência, edo Império, em o Consistório da Igreja da Ve- 
nerável Ordem terceira dePenitencia doGlorioso Padre Sam Franz" 
de Assis axando-se prezentes oRmo. Comissário Manoel da Costa 
Ferr. a , e Irmão Ministro o Sargento Mor Manoel Fernandes da Silva 
emais Difinitorio no mayor N.° q sepode Congregar ahi pelo Irmão 
Procurador Geral Serafim José dos Santos, foi proposto, a esta Meza, 
que visto a Resposta p. r escrita aSignada pelo Sargento M. r Antonio 
Pedro de Azeredo Dantas m. dor em Catas altas dada p. r baixo da Rela- 
ção das Madeiras deCedro p. a aobra de dous altares Colaterais deta- 
lha da Igreja desta Venerável Ordem aprezentada p. 10 Ir. Ex Pro. c ' or 
Lourenço Corr. a de Mello, em que pede pelas Madeiras Constantes da- 
tai relação p. a os dois altares aq. tla de trezentos esincoenta mil reis com 
Sem mil r. fi adiantados postas aqui notempo, ecom as declaraçoins ex- 
pecificadas nam. ma Rellação p. r elle a Signada, sem mais despeza al- 
gua, Requeria ao Ir. Min.° mandasse Correr o escrotinio p. a ser apro- 
vado o d.° preço, escrevendo-se aod.° S. M. r Pedro, q se aseitava o Con- 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



trato, Cuja Carta ficará Registada no L.° Competente, epagando o 
Sind.° adiantado a Referida q. u de Sem mil reis q sahirão doCofre da 
Repartição Competente, e serão entregues ao Ir. Min.° S. M. r Manoel 
Fr. 8 da S. a p. a este os entregar aod.° S. M. r Ant.° Pedro, ficando ad. a 
Rellação no Arquivo p. a Constar como parte deste Termo, efazendo o 
Irmão Min.° Correr o escrotinio dep. s de Ouvir a Meza sobre o expos- 
to que foi bastantemente ponderado por todos, ep. 1 haver grande fal- 
ta das ditas Madeiras p. r estarem longe, edisperços os paus e de Sem. 08 , 
e não haver q. m por menos fizesse, e ser odito Sargento M. r Antonio 
Pedro de Azeredo Dantas pessoa detoda aprobidade eabonação, eCapás 
dedesempenhar esta Comissão, sahio todo o exposto, eRequerido p. 10 
Ir. Procurador aprovado por toda a Meza pelo geral Numaro deVotos 

esemandar ao Sind.° pagar na forma supra, e retro declarado: " 

(L.° 4.° de termos a fls. 22 verso) . 

"Copia da carta q. a Meza desta Ven. 01 Ordem escreveo ao Sargen- 
to Mor Antonio Pedro de Azeredo Dantas sobre o trato das Madeiras 
de cedro p. a o sdois Altares Colaterais desta Venerável Ordem. 

limo. Snr. S. Mor Antonio Pedro d'Azeredo Dantas. A Meza da 
Venerável Ordem 3. a de S. Francisco de Assis da Imperial Cidade do 
Ouro Preto sendo-lhe prezente pelo Irmão Andador Lourenço Correya 
de Mello, a Rellação das Madeiras de Cedro p. a dous Altares Colate- 
rais da Igreja da dita Venerável Ordem, asignada por V. S. a com as 
condiçoens nella expecif içadas, acordou por termo na data de hoje 
em transmitir a V. S. a Copia Original da dita Rellação que vae junto 
a esta feita e asignada pelo Irmão Secretario da dita Ordem, para o 
governo de V. S. afim de se incarregar da remessa das ditas Madei- 
ras no tempo em que nos afirma, e vindo as mesmas com perfeição 
necessária, e declarada na m. ma Rellação, q. fica no Arquivo da Or- 
dem, em cumprimento da qual receberá V. S. a da mão do Nosso Ir- 
mão Ministro Sargento Mor Manoel Fernandes da S. a a quantia que 
se m. dou sahir do cofre, que Sam Sem mil reis adiantados, e ficando 
esta Ordem responsável a satisfazer o resto das ditas Madeiras, logo 
que cheguem no tempo declarado na dita Rellação e com a perfeição 
recomendada, com q. tia de duzentos e sincoenta mil reis. sem mais 
pençam algúa, e nem Carretos, vindo as duas parcellas a somarem a 
quantia de trezentos e sincoenta mil reis, segundo o seo aviso. Hé 
quanto temos a certificar a V. S. a e que o pagamento do resto se axa 
em cofre, e que esperamos do Zello, e honrra de V. S. a nos desimpe- 



SÃO FRANCISCO UE ASSIS DE OURO PRÊTO 1L& 

nhe como costuma a praticar com todos. D. s G. fI " a V. S. m. 8 . a. s em 
Jesus Christo Imp. al Cidade do Ouro Preto em Meza de 6 de 9bro. de 
1825 = de V. S. a Irm. 8 e Servos em o Senhor = O P. e Manoel da Cos- 
ta Ferr. a = Com.° Vz. or = Manoel Fernandes da Silva = Ministro = 
Manoel Jozé Barboza = Vice Min.° Camillo de Castro Per. a de An- 
drade = Secretario Serafim J. dos Santos = Procurador Geral = Vi- 
cente Bapt. Ul Roiz = Sindico = o Pe. Franc.° Jozé dos Santos = De- 
finidor = Lourenço Correia de Mello = Difinidor = Boaventura Ve- 
nâncio de Araújo = Difinidor = Felicio Jozé dos Santos = Difinidor 
= Jozé Franc.° X."* = Definidor = Franc.° da Costa Mello = Difini- 
dor = João José Pereira de Almeida = Difinidor = Antonio José Vel- 
loso = Ex-Difinidor = Joaquim JoséBenevides = Difinidor = Manoel 
Giz Neves = Ex-Difinidor = José Baptista de Figueiredo = Ex-Difi- 
nidor Raimundo Frz Mx. do = O Sindico Angelo da Costa Teix.™ — 
Vigário do Culto Divino. 

P.S. — O Nosso Irmão Lour.ç° Corr. a nos afirma, que ficou a co- 
pia da Lista das Madeira com V. S. a = Não se continha mais coiza 
algúa na d. a Carta = O Secret. 0 Camillo de Castro Per. a d'Andrade. 
Pg. 156. Copia da Rellação das Madeiras de Cedro p. a a Entalha dos 
dois Altares Colaterais desta Ven. TCl Ordem, asignada pelo Contratan- 
te O S. Mor Ant.° Pedro d'Azeredo Dantas, que fica no Arquivo: asi- 
gnada também pela Meza na data do Termo = O Seg.° = Rói das Ma- 
deira de Cedro para dous Altares = Duas Pranchas de doze palmos 
de Comprimento trez e meyo de largo e de groço dois e meyo // Qua- 
tro ditas de doze palmos de comprimento, dois e meyo de largura e 
de groço, palmo e meyo digo e quarto // Quatro toradas de dez pal- 
mos de alto e hum e meyo de groço em quadra // Quatro Pranchas 
de dez palmos de alto, e de groço palmo e meyo, e dous e meyo de 
largo // Quatro toradas de tres de comprido e dois e meyo de gro- 
ço em quadra // Quatro Pranchas em sete digo de sete, e quarto de 
alto, dois e meyo de grosso, e trez de largo // Quatro ditas de sete e 
meyo de alto, de largo, trez e meyo, e de grosso palmo e meyo // Qua- 
tro ditas de quatro palmos de alto, trez de largo e hum e meyo de 
groço // Quatro D. as de sinco e meyo de alto, de grosso hú e de largo 
dous e meyo//Quatro D. af * de seis e meyo de alto, dous e meyo de 
largo e de groço hum palmo//Quatro Ditas de seis e meyo de alto, 
dous e meyo de largo, e de groço hum palmo//Quatro D." 8 de quatro 
de alto, dous delargo e hum e meyo de groço// Quatro D." de seis e 



416 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



meyo de alto, hum e meyo de groço digo hum e meyo em quadra // 
Quatro D. as de nove de alto, dois de largo, e hum de groço// Quatro 
D. as de sinco palmos e meyo de alto, de largo três e de groço hum// 
Duas dúzias de Prancha de Vinte de comprido, de largo dous e de gro- 
ço meyo palmo //Duas Dúzias de Forro de Vinte de alto, hum e meyo, 
ou dous de largo e um dedo de grosso //Toda esta madeira hade ser 
livre de brozio e muito perfeita para os primeiros dois Altares Cola- 
terais da Igreja da Venerável Ordem 3. a de Sam Francisco da Peni- 
tencia da Imp. al Cidade do Ouro Preto, cuja Rellação leva o Ex-Pro- 
curador, e Cobrador Lourenço Corr. a d'Mello, 16 de Mayo de 1825- 
O Secretario Camillo de Castro Per. a d'Andrade Obrig.?™ de Letra e 
punho do S. Mor Ant.° Pedro P. r baixo da Rel. m // Eu abaixo asigna- 
do meobrigo ao aprezentamento das Madeiras constantes da lista re- 
tro, e a polas na Imperial Cidade do Ouro Preto the o prencipio do 
mez d'Agosto do Anno de 1826/dando-me D. s Vida/pello preço de tre- 
zentos e cincoenta mil rs. recebendo em digo eu avista sem mil reis, 
eoresto no fim da condução das ditas Madeiras e p. a firmeza, faço este 
de minha Letra, e sinal. Fazenda da Cachoeira 4 de 8bro de 1825 = 
Antonio Pedro de Azeredo Dantas = Pello termo de seis de Novem- 
bro de 1825, resolveo a Meza, e aprovou o que em fronte declara o 
Snr. S. Mor Antonio Pedro de Azeredo Dantas, como no m. mu Termo 
se declara, aqui se asigna abaixo a Meza commigo Secretario Camil- 
lo de Castro Pereira de Andrade, que o escrevi nesta Imp. al Cidade 
do Ouro Preto em o dia seis de Novembro de 1825 = O S. Manoel da 
Costa Ferreira = Com. mo Viz. or = Manoel Ferreira da Silva = 

Contém as mesmas asinaturas da carta anterior, e, seguindo, — 
Nada mais se contem em a dita Rellação de Madeiras, obrigação nella 
por baixo pelo dito S. Mor Antonio Pedro de Azeredo Dantas, e decla- 
ração da Meza, q. o contheudo supra, e retro declarado, que eu Secre- 
tario aqui Copiei por Ordem da Meza o pé da carta que se dirigio ao 
dito S. Mor tudo constante do Termo de seis de Novembro de 1825 a 
folhas vinte duas verso no L.° actual delles cuja Rellação e obriga 0 ™ 
original fica no Arquivo desta Ven. el Ordem. Eu Camillo de Castro 
Per. a de Andr. c Secretario, que copiei, conferi, e Asigno a seis de No- 
vembro de 1825. Camillo de Castro Pereira de Andrade Secretario/' 
(Copiador — 155). 

Pelo termo que segue, ver-se-á que a madeira precisa e 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PKÊTO 



417 



encomendada fôra entregue em tempo oportuno. Contudo, so- 
mente quatro anos depois é que se iniciára a obra, trabalho que 
a passo tardo se arrastou por oito anos, como se tira dos 
documentos que abaixo se trasladam. 

O têrmo referido é de 9 de junho de 1829 e está assim redi- 
gido (L° 4 o fls. 9): 

"Termo pelo qual se determina se dê a obra do Retábulo dos dous 
primeiros Altares Colateraes a Vicente Alz da Costa pelo preço de 
700$000 rs. ambos, mandando a ordem desdobrar as madeiras de fora, 
tudo conforme o risco, que tem esta Venerável Ordem, e condiçoins 
abaixo declaradas // Aos nove dias do mez de Junho de mil oito cen- 
tos e vinte nove annos oitavo da Independência, e do Império, no 
consistório e casa da despaxo da Igreja da Venerável Ordem terceira 
da Penitencia do Glorioso Padre São Franc.° de Assis desta Imperial 
Cidade do Ouro preto axando-se prezentes o Reverendo Comissário 
Felix Antonio Lx. a , e Irmão Ministro, o Sargento Mor Manoel Fer- 
nandes da Silva, Officiaes e Definitorio no maior numero que se pode 
congregar, ahi pelo Irmão Procurador Geral actual Joaquim Carlos 
de Figueiredo foi proposto a esta meza, que axando se no armazém 
da Ordem que está contiguo a Capella da mesma os cedros e taboado 
que esta Venerável Ordem havia mandado vir ha quatro annos para 
a Entalha dos dous primeiros Altares Colateraes desta Igreja, que não 
se havia dado the o prezente ordem algua para a factura da mesma 
obra, sendo de tanta necessidade e para a qual havia certa quantia 
de dinh. ro no Cofre destinada para a dita Obra como consta do Livro 
da receita e despeza, axando-se a rellação das madeiras que existem 
e se mandarão vir p. r via do Sargento Mor Antonio Pedro de Azevedo 
Dantas, descriptas no Livro Copiador a fl.56 e pagas ao mesmo pelo 
preço que forão justas, tinha elle Procurador feito publicar the pela 
folha do Vniversal a quem quizesse arematar a dita obra, ou ajustala, 
sem aparecer peçoa algua suficiente, que fosse capaz a digo de a de- 
simpenhar e só apresentou-se Vicente Alz. da Costa, que declarou ti- 
nha acabado á m. 10 a obra da Entalha da Capella do Carmo para o 
que tinha vindo a esta Cidade e que querendo retirar-se para fora da 
terra, só esperava concluir nuns Castiçaes que a dita Ordem terceira 
do Carmo tinha posteriormente incumbido a elle Mestre, mas que não 
tinha duvida ajustar a obra do Retábulo dos dous Altares Colateraes 



418 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



desta Ordem para o plantear ja, e debaixo de suas vistas serem des- 
dobradas as Madeiras e em quanto as faria aparelhar, que podia con- 
cluir os taes Castiçaes do Carmo, que em rigor demoraria dous me- 

zes da data deste em diante e que tendo em seo puder á muito o ris- 
co que esta Venerável Ordem lhe havia dado para o ver e examinar, 
o q. 1 foi feito pelo falecido Antonio Francisco Lisboa, e sendo este pre- 
zente a esta meza, e p. r ella aprovado, e o d.° Mestre Vicente Alz. da 
Costa, foi por este dito a Meza, que estava prompto a fazer o Retabo- 
lo dos dous primeiros Altares Colateraes desta Igreja pelo preço e 
quantia de Sete contos digo sete centos mil reis dentro em dous annos 
contados da data deste em diante na forma do risco, e condiçoens que 
o mesmo Mestre assigna com o Irmão Secretario, cujas condiçoens se 
fazem dous papeis de hu theor que fica hum no Arquivo da Ordem 
e outro com o mesmo Mestre, e que fazem parte integral deste Ter- 
mo por serem feitos no dia de hoje, não podendo elle Mestre largar 
esta obra, nem sahir para outra emquanto nesta estiver, e a conser- 
var dous Officiaes efectivos a trabalharem com o mesmo, e q. d0 por 
algum moctivo a deixe, não sendo p. r falta da precisa assistência da 
Ordem, que a fará a porporção do merecimento do que se for fazen- 
do poderá a m. m;l Ordem meter Officiaes p. r conta delle ajustante sem 

dependência de o fazer citar affim de que conserve 

sempre tres Officiaes a trabalharem na d. a obra p. 1 conta delle ajus- 
tante, e do preço total da rematação dando a Ordem as madeiras des- 
dobradas e tudo o mais na forma das ditas condiçoens que fazem par- 
te integral deste termo e sendo ouvido e ponderado pela dita meza, e 
estando elle Procurador inteirado do contheudo ouveram a obra p. r 
justa, e contratada na forma supra, e aprovado todo o exposto, e Con- 
dições pelo Excrotinio, e mandarão ao Sindico pagar na forma deste 
termo, e condiçoens ao d.° Mestre, authorizando também ao Ir. S. Mr. 
Manoel Fernandes da S. a como ja se deliberou pelo termo fl. 58 e por 
ser todo o expendido conforme as nossas determinaçoens mandamos 
lavrar o prezente Termo em que assignamos com o dito Mestre, e Eu 
José Ant.° Ribr. 0 Secretario q. o sob escrevi e assino. Pe. Felix Ant.° 
Lx. a / /Manoel Fernandes da Silva/ /José Ant.° RiorP/ /Vicente Alz da 
Costa/ /José Frz. da Silva // Francisco José Ferreira ' /Camilo de Castro 
Pereira/ /Ray mundo Frz. Maxado/ /Lourenço Corrêa de Melo/ /Mar- 
celino Correa de Andrade / /Manoel Giz. Neves//." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



419 



Vicente Alves da Costa, cuja naturalidade não logrei des- 
cobrir, terá sido por certo o último dos entalhadores que ainda 
argui em seus trabalhos alguma lição dos velhos mestres. Sua 
talha, sobretudo no Carmo de Ouro Preto, merece louvores. 

São dêle, como estamos vendo, os dois altares laterais, os 
que estão junto ao arco-cruzeiro, da igreja de São F rancisco. 
Na construção dêles obedeceu o mestre às seguintes condições: 

"Condiçoens com que sehade fazer aobra do Retabolo dos dous 
Altares Colateraes da Igreja da Venerável Ordem 3. a da Penitencia de 
São Francisco d Assis da Imperial Cidade do Ouro-preto. 

1. Será obrigado o Rematante, ou ajustante afazer toda atalha e- 
mais obra dos dous primeiros Altares Colateraes da Igreja dadita or- 
dem naforma emaneira, que seacha figurado no Risco feito pelo fa- 
lecido Antonio Francisco Lisboa, eporque seacha orisco do Altar mui- 
to lizo, deverá omesmo ser feito á-imitação dehua urna com sua porta 
detirar epor com aporporçionada talha que lhe corresponder na Com- 
formidade dorisco, emayor gosto eperfeição, tendo o Altar dolado di- 
reito Sacrário para o Sacramento, debaixo domesmo risco. 

2. Sera mais obrigado odito Rematante, ou ajustante afazer adita 
obra dentro noespaço de dous annos, que correrão dadata destas con- 
diçoens em diante, eatrabalhar nella Sucessivamente com dous Offi- 
çiaes mais semhirem para outra obra emquanto não acabar esta de- 
todo, equando por algum aconteçimento adeixe de seguir não sendo 
por falta da devida a-ssistençia q'lhe deve fazer adita Ordem, aman- 
dará esta continuar á custa delle Rematante sem dependência de ofa- 
zer Citar, ou admoestar, deforma que secomserve tres individuos com 
o Rematante efectivamente neste trabalho. 

3. Será obrigada a Venerável Ordem áprestar ao Rematante as ma- 
deiras preçizas, necessárias para odito Retablo, eapor-lhas como as- 
tem já no Almazem da Ordem perçiza para o Andaime, eemcosto da- 
talha, eseu estrado, e compregos, eferrage, eoque for precizo do Offi- 
çio de pedreiro, Sendo todo otrabalho de obrar, assentar, epregar em 
seu lugar da obrigação do Rematante, aquém sedará morada gratui- 
tamente no mesmo Armazém emquanto durar aobra, enella rezidir á- 
trabalhar, sem obrigação dedar a Ordem comedorias ao Rematante, 
nem aos dous Officiaes, que devem efectivamente trabalharem com 
omesmo. pagos por Conta dopreço total da Rematação. 



-120 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



4. Será mais obrigada adita Ordem apagar ao Rematante ou ajus- 
tante aquantia detrezentos esincoenta mil reis por cada hum Altar 
ambos Sete Centos mil reis naforma do Risco, econdiçoens assima re- 
feridas, sendo opreço porque seaxa justa com o Rematante para este 
fazer adita obra do Retabolo dos dous Altares Colateraes, que fica- 
rão comcluidos em dous annos naforma destas condiçoens, fazendo 
esta Venerável Ordem disdobrar as Madeiras asua Custa somente, de- 
baixo daplanta, edeterminação do d.° Ajustante, enaforma seguinte 
hirá amesma Ordem assestindo aelle Rematante com odinheiro que 
lhe for perçizo eneçessario para asua sustentação delle ajustante, e- 
para pagar aos Offiçiais, que o ajudarem nadita obra desorte que nun- 
ca exçederá á despeza da mesma assistençia ao mereçimento doque 
damesma obra estiver feito, evitando esta condição á fiança que o 
ajustante devera prestar como hé estillo, enofim detoda aobra posta 
em seu lugar pregada vista, eexaminada por intalhador, eestando com- 
forme, será omesmo Rematante pago, Satisfeito, einteirado doque as- 
sim se-lhe restar do preço doreferido ajuste pelos bens, e Rendimen- 
tos da mesma Ordem, epor ser todo o Rellatado verdadeiro, ecomfor- 
me asnossas vontades nos obrigamos cada hum na pessoa que repre- 
senta adar cumprimento este ajuste na Comformidade doque seacha 
detreminado pela dita Ordem pelos Termos lançados noLivro actual 
delles af. 158, e 159, que aqui havemos por incorporados, epara Cons- 
tar do Referido sefizerão dous deste theor hum com que fica adita 
ordem, eoutro elle Rematante, ou ajustante // 

Imperial Cidade de Ouro preto Nove de Junho demil oito Centos e 
vinte nove annos Oitavao da Independençia, e do Império do Brasil. 
Jose Antonio Ribeiro Secretario que sobescrivi eaSino. 

José Antonio Ribr.° 

Secretario 
Vicente Alz. daCosta." 

Sabe-se que o mestre executou o seu contrato pelos se- 
guintes lançamentos exarados no "Livro 2 o de Rec. e Despesa: 

a fls. 514 (1829-1830) — "Pagou o dito Irmão exSindico ao Irmão Pro- 
curador Joaquim Carlos de Figueiredo por quatro serventes que alu- 
gou para desocuparem o Armazém para trabalhar nos dous Altares 
o mestre Vicente — 1$760" 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



421 



a fls. 158 — "Recebeo o M. e da obra Vicente Al- 
ves da Costa neste armo de 1830 aq. te de 
cento e noventa mil rs. do Sindico 190$000 

E de como r.° aSina comigo Secretr. 0 // Vicente 
Alz da Costa//Cypriano Ant.° Salgado//" 

"Recebeo Quintiliano Vr. a Guedes Gusmão do 

Sindico p. a desdobrar as madeiras 14$990 

Liquido (83) 315$991 

ibid. id. — "Que passou para pagam. 10 da obra 
dos 2 Altares Colateraes ao M. e Vicente 
Alves da Costa a quantia de trezentos e 
quinze mil, nove centos noventa e um rs. 
(1830-1831). 

"Recebeo p. r mão do Sindico o dito M. e aq. te de 
cento e cincoenta e dois mil e quatrocen- 
tos reis 152$400 



Liquido 163$59I 

que passa para o anno de 1832. E de como re- 
cebeo ad. a q. to o referido M. e assina aqui co- 
migo Secretario // Vicente Alz da Costa // 
Cypriano Ant.° Salgado//" 
a fls. 169 — "R. co o M. e Vicente Alves daCosta 

aq. to de 137$500 

"E de como rec.° damão do Sindico, assina Liq.^ 

que passe para 1833 26$091 



204S990 



comigo/ /Vicente Alz da Costa//Secret.° 
Cypriano Ant.° Salg.°// 

Do LP 3.o de Rec e Desp. a fls. 11 (1833-34) : 

"Pagou o dito Sindico ao Intalhador Vicente Alz por conta da 
obra dos Altares aquantia de Cento e quarenta e treis mil e quinhen- 
tos reis — E de como recebeu a quantia aSima de cento e quarenta 



(83) Para as despesas com esses altares havia em cofre 520$981, dos qua'? 
retirados os 204$990 rs., ficaram em dito cofre 315$991. (Ver livro cit. a fls. 158 -1 . 



422 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



e treis mil e quinhentos reis aSina aqui comigo Secretario/VVzcewíe 
AU da Costa// Joze Antonio Ribr.°// — 143$500 rs." 

A fls. (ilegível) : "Ao Mestre Intalhador Vicente Alz — 4Sj>000 

No referido L.° 3 o fls. (ilegível) (1834-1835) : 

"Pagou o Sindico Manoel Giz asseistencia da comida do Mestre 
Intalhador Vicente Alz aquantia de vinte e oito mil reis//Jo2e Antonio 
Ribr.o//» 

Ib. id. a fls. 30: — "Pagou o Sindico as despesas nos altares co- 
laterais o seg. te (1836-37) : 

Aos pedreiros q. fizerão os buracos na parede 14$320 

Ao ferreiro de apontar os ferros p. a abrir os buracos 2$240 
Conserto na casa onde trabalha o Intalhador Vicente 1$600" 

Lê-se no têrmo de 10 de setembro de 1837: "Quanto ao altar que 
se esta acentando que a respeito ao defeito do emfeite da janela as- 
sentou a Meza que se tirem por ora as goarniçoens da janela para ser- 
vir o altar no dia da festa do Santo e depois deste dia para o Mestre 
cuidar na emenda da janela para ficar com a sua verdadeira perfei- 
ção. . ." (LP 4° de termos a fls. 102). 

Donde se infere que os dois primeiros altares estariam 
concluídos e assentados no fim de 1837. 

No têrmo de 10 de fevereiro de 1839: "Pelo nosso Irmão Procura- 
dor foi requerido que a Meza deveria dar providencias sobre a fatura 
dos novos altares colaterais, visto achar-se o Mestre Vicente desocupa- 
do e haver um outro hábil oficial que se propunha a fazer os ajustes 
que a Ordem mais conveniente julgasse o que sendo houvido foi pela 
Meza deliberado q o dito nosso Ir. m Proc. r conjuntamente com o nos- 
so Irm. m Sindico ficarão encarregados depromoverem os competentes 
ajustes com o dito Mestre Vicente, bem como com esse outro Official 
afim de se dar andamento aos dois primeiros Altares da emtrada da 
Capella (84), e que na próxima Sessão darião disso conta a Meza afim 
de poder esta deliberar como mais acertado entendesse. . ." (LP cit. a 

fls. 115 e 115 verso). 

O têrmo da sessão a que no anterior se faz referência diz assim: 



(84) Posteriormente se fizeram os altares do centro, como se verá no andar 

<lo capítulo. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 423 

"Termo do ajuste que se procedeo sobre algumas pessas dos dous 
novos altares como abaixo se faz menção, acrescendo mais algumas 
deliberaçoens. 

Aos vinte um dias do mez de Abril do anno de mil oitocentos e 
trinta e nove no Consistório da nossa Venerável Ordem 3. a da Peni- 
tencia de S. Francisco de Assis, na Imperial Cidade do Ouro Preto 
onde prezentes se achavão o nosso Reverendo Padre Comissário, Ir- 
mão Vice-Ministro e mais Definitorio, com o maior numero que pode 
comparecer, resolveo a Meza a vista das informaçoens prestadas pelo 
nossos Irmãos Procurador e Sindico que se chamasse os Mestres da 
Obra de Italhador Vicente Alves da Costa e Camillo Batista afim de 
proceder-se com elles o ajuste de algumas pessas dos dous novos al- 
tares: e sendo o Mestre Camillo prezente e perguntando-se-lhe por 
quanto poderia apromptar o resto das duas urnas, este respondeo que 
por vinte mil reis cada uma, obrigando-se a aprezenta-las em dous 
mezes contados de vinte e dous do prezente a vinte e dous do futuro 
mez de Junho, sugeito a perder a quantia de vinte mil reis no cazo 
que as não aprompte no prazo marcado, sendo os pagamentos estipu- 
lados em quatro per cada urna. 

Aprezentando o nosso Irmão Procurador as dificuldades que tem 
encontrado de serem conduzidas as madeiras que ofertou á Ordem o 
nosso Irmão Bonifacio Teixeira da Motta, auctorizou a Meza ao dito 
Irmão Procurador para promover pelo melhor meio possivel o carre- 
to das mesmas madeiras consultando para este fim aos carreiros de 
Santa Rita." 

Resolveram q. se vendessem algumas jóias para custear as des- 
pesas e termina: 

"Resolveo a Ordem que se desse ao Mestre Vicente Alves da Cos- 
ta a quantia de dous mil reis em renumeração de haver apromptado 
quatro toucheiros para o Mozelleo. E não havendo mais a tratar..." 
(L.o cit. a fls. 116). 

Silenciam sobre o assunto os termos seguintes por espaço 
de quase dois anos. A 24 de janeiro de 1841, ficou no respectivo 
têrmo êste rápido convite para a obra: "que se desse anda- 
mento à obra dos altares". E nada mais por espaço de mais 
quatro anos. 

Na reunião da Meza de 13 de fevereiro de 1844 nomeou-se 



424 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



uma comissão formada dos Srs. Agostinho José dos Santos, 
Antônio Daniel da Costa e Lúcio Moreira da Silva p a exami- 
narem "as Peças q já se achão principiadas dos 2 Altares dos 
<I faltão, proceder-se orçam to . apresentarem as condiçõens a que 
se deve sugeitar o Mestre Intalhador." 

Em fevereiro de 1845 o serviço dos novos altares conti- 
nuava paralisado. 

Por êsse tempo estava na Procuradoria da Ordem o Irmão 
Antônio Daniel da Costa. A 23 de fevereiro do ano, há um 
instante mencionado, apresentou êle à Ordem um Relatório 
interessante. Aí o tem o leitor que, passando-o pelos olhos, 
aliviar-se-á por um pouco do enfado desta narrativa: 

"Caríssimos Sn. es Irmãos 

Hé de meu dever segundo me impõe os nossos Estatutos, na qua- 
lidade de Procurador Geral apresentar-vos o estado da Ordem sem- 
pre que haja reunião de Mesa tornando-se muito mais necessária esta 
obrigação por ser esta a Mesa, que tem por fim a passagem aos novos 
Irmãos que forão eleitos para Servirem na administração da Caza o 
presente anno de 1845, porem os muitos afazeres, que ultimamente 
me estiverão entre mãos, por ter de vir á Visita o Exm.° Bispo, como 
W.CC. 68 bem o sabem, me prohibirão de faser á W CC.™ uma expo- 
sição de nossa Ordem, da qual eu peço desculpa. 

Caríssimos Snrs.* 8 , o estado de nossa Ordem não é dos peiores, ou- 
tras há n'esta Cidade, que, segundo me consta estão em muito mais 
atraso. Os Empregados estão em dia, e se á alguns se deve, são quan- 
tias limitadas; por mais esforço, q. tenha feito não me tem sido pos- 
sível continuar com a Obra dos nossos Altares Collateraes pela difi- 
culdade, q há em descobrir-se um Mestre Entalhador, o que muito te- 
nho sentido, não perdendo com tudo isso de vista; não estando na Ad- 
ministração da Caza, tenho-me no entretanto ocupado em promover 
Alfaias, e alguns trastes para a nossa Capella, que de todo estava dis- 
tituida, como se ve da relação junta, concertando alguns objectos, que 
são de summa necessidade, e isto tenho conseguido com a coadjuva- 
ção do nosso Digno Irmão, que tem servido de Ministro, o Snr. Ten. c 
Cor. 01 José Baptista de Figueiredo, como W CC. PS o verão, pois é esta 
a boa occazião por estar a nossa Capella ainda armada, podendo di- 
sermos que o que n'ella está é nosso. 



SAO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 425 

Tenho promovido algumas cobranças, Q tem feito face á despesa 
dessas obras, e alguma cousa, que ainda se deve, é muito limitada, 
cujas contas existem em poder do nosso Irmão Secretario, para se- 
rem abonadas competentemente, e depois presentes a Mesa. O Nosso 
Cemitério está no estado, que W.CC. IS o vêem, tencionava continuar 
com as novas Catacumbas, epara isso tenho dado os passos necessá- 
rios, pois W. CC. e8 já veem algumas pedras no Adro, e apesar de en- 
tregar a Administração com tudo pretendo coadjuvar, assim o Nosso 
Patriarcha me dê saúde, afim de levar a ef feito esta obra, pois nos é 
de grande interesse; dando á W CC. ea esta pequena ideia do estado 
da nossa Ordem não faço mais do q cumprir um dever, que os nossos 
Estatutos me impõe, livrando-me assim de alguma boa língua, para 
não diser má que por ventura queira censurar, ou procurar maneiras 
de deprimir o conceito de qualquer pessoa, inda não havendo razão 
alguma: concluo finalmente requerendo á W CC. es o seguinte: 1.° 
que sejão levadas á Inventario da Casa as peças feitas de novo, e que 
constão da relação junta pois a alguns annos, que aqui sirvo — não 
o conheço, nem sei de que côr ele é: 2.° que seja revogado um termo, 
que há na Casa na parte em que declara, que qualquer pessoa, que 
falescer, e procurar esta Ordem seja admittida, querendo catacumba 
pagará 20$000 rs. devendo ser, se o falescido quiser catacumba, deve- 
rá preceder ajuste com o Procurador Geral Actual, não podendo ser 
este ajuste nunca menos de 50$000 reis, pois tenho calculado, e não 
é possivel aprontar-se presentemente uma Catacumba com menos 
dessa quantia e ultimamente que (ilegível) esta archivada para cons- 
tar á todo tempo. 

Consistório da Ordem 3. a de S. Francisco d'Assis em 23 de Feve- 
reiro de 1845. 

O Procurador Geral da Ordem 
Antonio Daniel da Costa." 

"Relação das obras, que tenho podido conseguir a dactura d'ellas 
para a Ordem 3. a de S. Francisco de Assis, como Procurador Geral da 
mesma Ordem nos annos em que tenho servido. 

Promovi em primeiro lugar todo o cerco do nosso Cemitério de 
pedra, conforme o ajuste que se fez perante a Mesa. 

Pude conseguir com algum sacrificio assentarem-se em seus lu- 
gares dois dos nossos Altares Callateraes de talha, como está paten- 



426 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



te, alem das peças, que estão promptas para os outros dois, para as 
quaes promovi a vinda das madeiras, que deu á esta Ordem o falesci- 
do Irmão Bonifacio Teixeira da Motta. 

Promovi a factura de quatro Touceiras grandes para o nosso Mau- 
souleo, os quaes estão servindo. 

Promovi um Citial grande de damasco de seda para o Arco Cru- 
zeiro da nossa Capella, e duas portadas juntas ao m. mo , um dito para 
a boca do Throno, que oq. servia era emprestado; dois ditos pequenos 
para os Nixos dos dois Altares de Talha. 

Promovi uma capa preta nova, pois a que havia e nada era a 
m." ,a coiza. 

Promovi uma dita branca, que estava-me nas m. m;,s circunstan- 
cias. 

Promovi vestimentas para algumas Imagens, que estavão bem 
necessitadas. 

Promovi um docel novo para o Throno, pois o que havia era mais 
trapos do que docel. 

Promovi o concerto do Sino grande conforme ja a Mesa o sabe, 
pois se achava encravado por muitos annos, consertando também o 
Meão. 

Promovi um Cortinado para a Sachristia conforme a determina- 
ção da Mesa. 

Promovi o acabar-se de todo a Capellinha do nosso Cemeterlo, 
como está patente. 

Promovi quatro Cetiaes para os quatro Altares Collateraes, que 
ainda não estão com obra de talha; duas portadas para as portas da 
Capella Môr, um Citial grande para o Arco do Coro, e ainda que seja 
damasco de lãa, por se não achar do de seda no Rio de Janeiro sem- 
pre são melhores, do que os que havião, que erão nenhuns. 

Promovi a factura de vinte e quatro Castiçaes novos prateados 
para a banqueta dos seis Altares Collateraes, como ja fis ver á Mesa, 
e estão servindo, e ultimam." um tapete novo de baeta verde para o 
Altar-Môr. 

Todas estas obras, que menciono, estão presentemente servindo 
em seus competentes lugares. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 427 

Consistório da Ordem 3. a de S. Francisco de Assis do Ouro Preto 
em 23 de Fevereiro de 1845 

O Procurador Geral da Ordem 
Antonio D. da Costa 

N.B. — Informo mais a VV.CC. que existe na Caza a Armação de um 
Mozuleo que se armou na nossa Capela p. r oCazião das exéquias do 
Falecido Senador o Exm.° Sr. Diogo Antonio Feijó." 

★ 

Correram ainda quatro anos, ao fim dos quais se encontra, 
no têrmo de 17 de setembro de 1848, a informação de que a 
Mesa está autorizada a "ajustar os estrangeiros entalhadores" 
para a conclusão dos dois altares. 

Em documento avulso encontram-se as condições, sob as 
quais se contratou o serviço dêsses altares com Antônio Fer- 
nandes Ramos. Parece, contudo, que tal contrato deu em nada, 
porque sobre ele nenhuma referência existe no arquivo da 
Ordem. 

Eram dêste teor as referidas condições: 

"Condições com que a Comissão abaixo assignada faz o ajuste do 
resto da talha dos dous Altares Collateraes da Igreja da Venerável Or- 
dem de S. Francisco d'Assis d'esta Cidade com o Snr. Antonio Fernan- 
des Ramos debaixo das Condições abaixo declaradas. 

1. O Snr. Antonio Fernandes Ramos fica obrigado a concluir o 
restante da talha dos dous Altares Collateraes conforme o risco, e os 
dous já existentes pela quantia única de oito centos mil reis /800S000 
em notas correntes, e em pagamentos como abaixo se declara. 

2. A Ordem he obrigada unicamente aprestar todas as peças ja 
feitas eprincipiadas, ebem assim as madeiras que forem necessárias, 
pregos e Caza para sua residência. 

3. O primeiro pagamento será da quantia de cem mil reis pagos 
logo que se der principio á obra: O segundo de outros cem mil reis de- 
pois de hum mez de trabalho sucessivo, excetuando-se só os Domingos 
e Dias Santos: O terceiro de duzentos mil reis logo que se conhecer 
ter-se feito metade do trabalho: O quarto e último de quatro centos 
mil reis depois de acabados ditos dous Altares. 

4. O dito Snr. Antonio Fernandes Ramos será obrigado a se achar 



428 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



nesta Cidade nos primeiros dias do próximo mez de Abril afim de dar 
começo ao ajuste. 

5. e Ultima. No caso de que qualquer das partes contratantes 
deixar de cumprir alguma das condições acima declaradas pagara á 
Meza da Santa Caza da Mizericordia desta Cidade a multa de cem mil 
reis, que serão cobrados em vista de uma copia deste contrato tirada 
peo Snr. Secretario da Ordem. 

E como assim ficou concluido oreferido ajuste lavrarão as pre- 
sentes condições em que se assignão o contratante, obrigando ao in- 
teiro cumprimento pelos seus bens presentes e futuros, e a Comissão 
por parte da Ordem 3. a que também fica obrigada a cumprir na par- 
te que lhe toca. 

Ouro Preto 15 de Fevereiro de 1849. 

Antonio Fernandes Ramo* 
Antonio Daniel da Costa 
Agostinho José da Silva 
Antonio Xavier da Silva 
Joaquim Carlos de Figueiredo 
João José Ribeiro Bhering." 

Para revigorar o julgamento de que não deu resultado o 
contrato com o Ramos, vem o têrmo de 4 de janeiro de 1852 
com a notícia de que o procurador é autorizado a contratar 
qualquer operário hábil para os altares cuja talha está come- 
çada (já o estava antes do Ramos). Em março seguinte recu- 
sou-se por demasiado cara — 1:200$000 — a proposta de Ma- 
riano Rodrigues do Nascimento. 

Tudo consta do L° 5 o de têrmos a fls. 16 verso, 26 e 27. 

E mais sete anos se passaram de silêncio absoluto sôbre 
a obra dos altares. 

Em 14 de setembro de 1859 (L° 6° de têrmos a fls. 3 verso) 
lê-se no respectivo têrmo: "Achando-se p. r ultimo sobre a 
mesa uma proposta do Mestre Carpinteiro José Pinto de Souza 
J. or para se encarregar da concluzão dos dous altares colateraes 
da Capella, cuja talha já se acha principiada, depois de falla- 
rem a respeito os Irm. s Com. dor Baptista de Fig. do , José Fiusa 
e Secr°, resolveo a Mesa autorizar a este ultimo para com o dito 



S A O FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 4J5) 

Pinto firmar o contracto, com as cautelas necessárias, devendo 
o mesmo ser depois prezente à Mesa em sua primeira reunião." 

O Secretário desincumbiu-se da comissão, como se verá do 
seguinte: 

"Dizemos nós abaixo assignados, o primeiro como representante 
da Venerável Ordem 3. a da Penitencia de S. m Franc.° d'Assis desta 
Cidade do Ouropreto, competentemente autorisado pelo Termo de 14 
do corr. e e o segundo como Official de Carpenteiro e entalhador, que 
contratamos, como de fato contractado temos, o acabamento e collo- 
cação de dous altares collateraes da m. mR Capella na forma das se- 
guintes condiçõis. 

1 . A Ordem obriga-se á dar as peças existentes, e a madeira neces- 
sária ao acabamento dos mesmos, assim como a preciza para levanta- 
mento do andaime e os serviços de pedreiro, necessários á collocação 
dos ditos altares. 

2. Estes dous altares estarão concluidos e assentados no prazo de 
dez mezes contados da prezente data sob multa de 6% ao anno, cal- 
culados sobre o total do preço da obra. 

3. Por todas estas obras pagará a Ordem ao dito contractante a 
quantia de oitocentos mil reis (800$Q0Q) em quatro pagamentos 
egoaes; o 1.° quando estiver concluida a talha das janellas até o guar- 
da pó; o 2.° a do guarda pó ate as cimalhas das columnas; o 3.° a das 
columnas até o sacrário, e o 4.° depois de assentadas todas as peças 
nos seos respectivos logares. 

4. Para verificação do cumprimento da 3. a condição, e poder ter lo- 
gar os pagam. to9 , a ordem com a necessária antecedência nomeará 
pessoa competente para procederem a exame. 

5. Na falta dos pagamentos de que trata a condição 3. a a ordem pa- 
gará ao arrematante a multa de 6% ao anno, sobre o pagam. to não 
realizado, como determina a mencionada terceira condição. 

6. Se o contractante não concluir a obra, ou pretender rescizão do 
prezente contracto pagará a beneficio da Ordem uma multa de 
200$000, sem contestação judicial. 

7. Para garantia da execução da obra, e estipulações deste contra- 
cto, o arrematante desde ja obriga todos os seos bens prezentes e fu- 
turos, e o melhor parado delles, como se de cada um fizesse especial e 
declarada menção, especial e geral hypoteca. 



430 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



8. Alem do estipendio de que trata a condição 3. a , a ordem garante- 
lhe sua profissão gratuita na mesma ordem, q d0 tenha bem desempe- 
nhado a collocação dos ditos altares; assim como preferencia á qual 
quer outro para construcção dos outros dous que ainda faltão. 

E por assim ser passamos o presente, p r um de nós escripto, e p. r 
ambos assignados em prezença de duas testemunhas na I.C. do Ou- 
ropreto aos 23 de Setembro de 1859. 

O Secretario da Ordem. Antonio Luiz M. a Soares d'Albergaria 
O contratante José Pinto de Sz. a J. or 
Testemunha Antonio José d'01iveira 

Seraphim Francisco Gonsalves." 

Os seguintes documentos dão notícia do andamento do serviço, 
do qual, por fim, parece não dará boa conta o mestre Sousa Júnior: 

"limo. Snr. Ministro e mais Definitorio da Ordem 3. a de S. Fran- 
cisco de Assis. 

Diz José Pinto de Sz. a J." q. tendo contratado a Obra dos Altares 
da V. 1 Ordem, p. a concluir em o espasso de(ilegivel) mez de trabalho, 
e não podendo assim cumprir; não só p. r não istar serto ainda no tem- 
po q. divia levar p. a fazer esta Obra tão importante, p. r ser a l. a des- 
ta qualidade q. faço, como p. r diversas interropçoens de incómodos, 
vem então desde já aos Péz de V. s S. s p. a conceder-lhe mais algum 
tempo até q. possa completar ad. a Obra; Assim requero mais o paga- 
mento da l. a parte da mesma, na forma do Contrato. 
O.P. 11 de Junho de 1860 

Assim espero de V. s S." 

Atender a suplica do 

Jose Pinto de Sz. a J. or 

Despacho: "Fica concedido ao Supp.' o prazo improrrogável até fim do 
conv anno epocha em q. deverão estar assentados os Altares. Consis- 
tório da Capella 17 de Junho de 1860. 

OMin. 0 ECNogr. a " Êste praso foi concedido à vista da informa- 
ção favorável dos irmãos Agostinho José da Silva e José Joaquim da 
Rocha Fiusa. 

Em 8 de Janr.° de 61 concedeo-se m." o praso de 6 mezes até fim de 
Junho (Doe. avulso)." 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



431 



Em 8 de janeiro de 1861 "resolveu-se autorizar o Ir. Proc. 1 " para 
entrar em contracto com a Ordem das Mercez p. a troca dos altares 
velhos pelos paos dos andaimes q se precizão p. a collocação dos no- 
vos." 

Outra carta, quase ilegível, do Mestre Sousa Júnior, 
"limos. Sfs 

Tendo prezente o respeitável officio que V. s S. s me dirigirão em 

data de 23 e bem inteirado do que o mesm 

tenho a honra de respond seg. u 

Pelo contracto q fir 7br.° de 1859 me obriguei 

a f de q. fui encarregado, no p 

mezes, dando-me a Venerável necessária 

madeira, porem zendo nesse tempo, e 

nem e dias de prorogação, esta 

podia vigorar o contracto da sua pois q. sendo 

retardado o material não era possivel o andamento da obra 

tanto é certo q. durante o tempo q. esperei a madeira (mais de J6 

mezes) ocupei em imendar á colla e pregos 

piquenos pedaços de madeira p. a formar peças grandes, o q. incontes- 
tavelmente é muito defficil e por isso consumi tempo incalculavelm. ; " 
maior. Quando em data de 8 de Janeiro de 1861 pedi mais 6 mezes e 
alegando a falta de madeiras, e não as obtendo p. r muito tempo, ins- 
teis p. r ellas e então o Sr. Ministro authorizoume ir a Fazenda do Pe- 
riquito examinar ahi alguns paus q. se supunha servirem para a obra; 

cumprindo 

madeiras, com effeito 

•5 • erão cedros, e q perfeitas; em consequên- 
cia mandados vir p. a aqui e tempo 

depois aprezentarão iados p. r tal modo q. não 

servir, fazendo eu ver novas madeiras q. só 

aio de 1862 me foi forne sendo q. vie- 

rão paus mui sos, q. tiverão de ser desdo 

serviço este de q. p. r certo encarreguei, 

ja se ve pois terminado em Junho 

o prazo, e obtendo eu as madeiras em Maio de 1862, não 

se levão em conta estes 11 mezes decorridos, e pelo co.u- 

trario dever-se dar novo tempo, o q. não recla- 

mei p. r entender q. V a S. s não contarião um espaço de tempo enter- 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



rompido p. 1 motivo alheio a minha vontade, e como este houverão ou- 
tros espaços ocazionados pela mesma razão. 

Em vista portanto do q. deixo dito, e outras razoens q. poderei 
vocalm. te se for percizo, não é possível q esteja concluída a obra an- 
tes do fim de mez de 7br.° futuro, se me forem prestados os aucilios 

da V. s S. s q. tenho 

exigir 

Restame assegurar a V. B S. 8 q de de humilde Irmão da 

Venerável 3. a da Penitencia de S. Francisco 

tenho os mais ardentes desejos cluidas as obras dos 

Altares lhantismo 

da Capella, como p 

abilidade do mais indigno Irmão 

Deos G. de as V. as S. K — O.P. 28 de J 

Ulmos. Snrs. Dr. Eugénio Celço No bros 

da Meza administ da Ordem 3. a da Peniten- 
cia de S. Fran de Assis desta cidade. 

O inprezario 

José Pinto de Sz. a J. or " (Doe. avulso). 
Terceira carta do arrematante: 
"limo. Sr. Ministro 

He com a mais profunda convicção de gnamente deferida 

sua petição que arrematante da concluzão dos 

Iateraes da capella da ordem 3. a de São Francisco de Assis, vem a 
presença de uma indemnização por aquella 

baseando-se justiça que lhe razão seguinte. 

Por contracto celebrado em 23 de encarregou-se o 

Supp.*" de concluir altares collateraes pela quantia 800$000 rs. 

por prestaçeõs no praso 10 mezes, por trez veses teve o Supp. c 

p. gação de praso para dar conta obra, mas destes prasos se 

deve descon todo o tempo em que esteve a espera de 

deira, o que teve lugar em Maio de 136 portanto se se atender a 
que o Supp. 0 te de emendar á colla e a pregos peque- 

nos pedaços de madeira para formar peças grandes; se se attender ao 
tempo empregado em desdobrar grossos páus, e finalmente se se le- 
var em conta o tempo gasto em desmanchar os altares velhos, tirar 
medidas, e outros serviços, que embora de pequena monta, por que 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OU HO PRÊTO 



433 



não tão trabalho, gastão o tempo, se ha que, tendo 

o Supp.' .... do nesta obra oito centos e dias e 

vencendo o jornal minimo de 2.500 rs. devia 

2:100$000 rs. ao passo que sustentar sua familia 

cons se em dias santificados e a 

procurasse agenciar algu mais, embora não cobrasse 

que claramente se reconhe o Supp. e sofrido. O Supp.", 

po indigno irmão desta Venerável , não quer 

que se lhe indemni- diferença de 1:3005000, supplican- 

do mente a graça de ser attendido com a quantia de 1 : 000$000 

rs. q. por justiça lhe é devida, Se esta obra fosse encarregada a algum 
entalhador de fora desta cidade, visto que aqui não os há, não era p. r 
sem duvida com a quantia de 1:800$000 rs que elle daria conta da 
obra; e se se recorrer ao tempo em que forão feitos os dous -primeiros 
altares -pelo fallecido mestre Vicente, facilmente se reconhecerá a ver- 
dade desta asserção. O Supp.°, pois entrega-se ao espirito de justiça, 
que caracterizar cada um dos dignos me da 

Mesa Administrativa desta Ve ordem e a todos os mais dignos 

e espera que lhe farão = Justiça = Ouro Preto, 17 de Se- 
tembro de 1864 = José Pinto de Souza Júnior. 

Despacho = 

presente requerimento a 

uma Com. m para emitir a sua opinião á respeito, sendo nomeados para 
ella os Irmãos Antonio Daniel da Costa, Antonio Xavier da S. a e José 
Joaquim Feusa da Rocha. 

Consistório da Venerável Ordem de S. Francisco de Assis, 17 de Setem- 
bro de 1864 = Nogr. a =." 

Último pedido do Mestre José Pinto : 

"Ulmo. Snr. 

Tendo eu abaixo assignado, em 17 de 7br.° do anno passado, repre- 
sentado em Meza as circunstancias de não ter ainda podido concluir a 
obra dos altares a q.me comprometti acabar, e bem assim do excessivo 
prejuizo q. soffria, e pedindo p. r isso uma indemnisação, demonstrando 
p. r um calculo aproximado, a realidade do dito prejuizo; tive em respos- 
ta verbalm. 10 pelo Senhor Ministro q. = concluisse eu a obraq. a Meza 
marcaria alguma indemnisação =: e desejando eu na verdade fazer 
todo o sacrificio afim de a acabar, empreguei ainda 38 dias de serviço 
com toda a dedicação; mas vendo q seria necessário não poucos dias 



434 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



p. a a concluil-a, e faltando-me os recursos necessários, tive de suspen- 
der a continuação, afim de poder por outros meios ganhar q. me sub- 
sistir; visto q. não sabia o q teria p. r indemnisação nestas circuns- 
tancias, eu venho de novo implorar da respeitável Mesa, hajão de dar 
alguma providencia, de sorte q. eu possa ter recursos p. a poder con- 
cluir a dita obra; isto é, ou marcar-se-me a indemnisação q. for de jus- 
tiça ou marcar-se alguma mensalidade p. a eu poder concluir a obra, 
podendo p. r esta mensalidade (caso tenha lugar) fazer parte da in- 
demnisação q. houver de se marcar-me. 

Eu espero na generosa attenção de V. s S. s tomarem em considera- 
ção esta justa exposição, certo de q. empregarei todos os exforços para 
poder coroar a obra, e do q. serei agradecido. 

Deos Guarde a V. s S. s Ouro Preto 17 de Setembro de 1865. 

111.™ 08 Snr. es Ministro e mais Definitorio da Venerável Ordem 3. a 
de S. Francisco de Assis. 

José Pinto de Sousa Júnior." 

Finalmente, a 14 de março de 1866 o Mestre comunica à 
Mesa que os altares estão concluídos. Uma comissão os exa- 
mina e, à vista do parecer que emite, reúne-se a Mesa e no dia 
11 de maio consigna em termo o seguinte: 

"Aos onze dias do mez de Maio de 1866, congregados em Mesa o 
maior numero de Irmãos foi presente o parecer emittido pela Com. m 
anteriormente nomeada para examinar a obra dos dous altares colla- 
teraes da Capella q. pelo empresário foi julgada prompta, conf. seo of- 
ficio de 14 de março ultimo p.° para o effeito de ser aceita,e cencetida 
a indemnisação pedida em officio de 17 de Setbr.° de 1864, cujo pare- 
cer notando deversos defeitos contem as seguintes conclusões: = que 
se aceite a obra, porque os defeitos notados em 1.°, 2.° e 3.° logar po- 
dem ser corrigidos p. r occasião da pintura e douramento por ser nos 
altos; que o contractante deve porem pollir melhor a talha abaixo das 
colunas, inclusive as mesmas, e corrigir a imperfeição dos anjos, do 
que se não deve prescindir, p. r q. to não só dificulta a pintura e doura- 
mento, como porque esses defeitos e imperfeições são na parte infe- 
rior dos altares ..." 

Devia ser documento interessante o parecer da comissão 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



435 



em que vinham especificados os defeitos da obra; infelizmente, 
porém, tal documento se consumiu. 

Em 1869 cogita-se finalmente da construção dos dois últi- 
mos altares. Leiamos êste tópico do têrmo de 17 de setembro. 
(L° 6 o a f ls. 32) : 

"Tratou-se finalmente da construção dos dous altares q e faltão e 
do douramento de todos seis á que se propõe fazer por 6:7003000 rs. o 
artista Joaquim Ernesto Coelho, morador em São João d'El-Rei, e 
actualmente encarregado do douramento da Capella das Mercês do 
Ouro Preto; e depois de discussão em que tomárão parte alguns Irmãos, 
resolveo-se nomear uma comissão composta dos Irmãos — Doutor Eu- 
génio Celso Nogueira, Ten. te Coronel Luiz José d'01iveira, e Cap. m An- 
tonio Luiz Maria Soares d'Albergaria para emittirem juizo á respeito." 

Conclui-se pelo têrmo que vamos ler que a deliberação de 
17 de setembro de 1869 fracassou. Vejamos o referido têrmo, 
que é datado de 2 de março de 1873 e diz o seguinte: 

"Aos vinte e cinco dias do mez de março do anno de mil oitocentos 
settenta e tres, reunida a mesa administrativa, declarou o irmão pro- 
curador que o fim da presente reunião era deliberar-se sobre a factu- 
ra dos dous altares collateraes da capella e que para isso tinha convi- 
dado o entalhador José Pinto de Souza para comparecer e ajustar as 
referidas obras. Aguardando-se a chegada do entalhador por espaço de 
duas horas e não tendo elle comparecido, e constando haver declara- 
do que não se encarregaria mais de taes obras com receio de grande 
prejuizo, ponderou o irmão vice-ministro e comissário, que não haven- 
do nada a tratar-se em ausência do entalhador, julgava desnecessária 
a permanência da mesa, levantando-se imediatamente a sessão." 

Da mesma questão ocupou-se a Mesa na sessão imediata 
que se realizou a vinte e um de abril e cujo têrmo está assim 
redigido. (L° 6 o a fls. 42): 

"Aos vinte e um dias do mez d'abril do anno de mil oitocentos se- 
tenta e trez, reunida a mesa administrativa, declarou o irmão procura- 
dor que o fim da presente reunião era deliberar-se sobre a factura dos 
dois altares da capella e que para esse fim achava-se presente nas im- 
mediações da capella o entalhador Francisco Pereira de Castro, cidadão 



436 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



portuguez, de reconhecido mérito, que se propunha a construil-os se- 
gundo os necessários preceitos da arte. Sendo o mesmo entalhador in- 
troduzido no consistório da capella ratificou o que havia a respeito in- 
formado o irmão procurador e apresentou uma proposta em que exi- 
gia o valor de cinco contos de reis pelas mesmas obras. Submetendo-se 
á ajustes, que a mesa administrativa entendeo dever apresentar-lhe, 
aceordou-se, que os dous altares fossem construidos com a solidez, ele- 
gância e preceitos da arte, e no mesmo sentido mais ou menos dos já 
existentes, e mediante a soma de quatrocontos de reis, precedendo 
para isso o necessário contracto, em que se resguardará devidamente 
os interesses de ambas as partes contractantes. Para constar etc." 

Ésse Castro não se portou honestamente com a Ordem. 
Seu contrato, sobre não ter sido executado, acarretou aborreci- 
mentos e prejuízos de dinheiro à Congregação, a qual, como se 
percebe, já não tinha por êsse tempo as suas finanças em bom 
estado. 

Atente-se para o que consta do termo de 17 de setembro 
de 1876. (L° 6 o a fls. 50 verso) que passo a transcrever na parte 
que interessa: "A Comissão nomeada na referida sessão de 17 
de março apresentou seo parecer sobre a construção dos alta- 
res de que havia sido contratante o Cidadão Portuguez Fran- 
cisco Pereira de Castro, opinando para ser levado todo este 
negócio ao conhecimento do Sr. Juiz Provedor de Capellas. 
Depois de discutido, o Irmão Amaral indicou que antes de se 
tratar judicialmente deste negócio se officiasse aos Membros 
da Mesa adm a do anno de 1873, que fez o contrato, como a prin- 
cipal responsável à Ordem pelas obras dos altares não exe- 
cutadas, visto que tornou-se ella fiadora do empresário, por não 
ter exigido do mesmo fiador idóneo para resguardar os inte- 
resses da Ordem, conforme o têrmo de 21 de Abril de 1873, 
para que ou faça o empresário cumprir o contrato, ou indemnise 
o cofre da Ordem das quantias que indevidamente forão entre- 
gues ao mesmo empresário contra disposição expressa do con- 
trato afim de que depois de sua respotsa se proceda de confor- 
midade com o parecer da com. m o qual lhe irá por copia." 

E nem a mínima referência mais sobre o Castro e seu con- 
trato. 

A 14 de janeiro de 1882, pela Mesa foi deliberado o que 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÉTO 437 

ficou consignado no termo desta data, do qual aparto para aqui 
o trecho que segue: 

" deliberar-se sôbre a construção dos dous altares lateraes da 

capella e que p. a esse fim podia a Ordem celebrar contracto com o co- 
nhecido entalhador Miguel Antonio Treguellas o qual se propunha a 
construil-os segundo os preceitos da arte" . . . pelo entalhador foi apre- 
sentada uma proposta "em que exigia não só o valor de 2:500$ pela 
mão de obra, madeira e mais materiaes necessários, assim como o pra- 
so de 6 mezes a contar de 31 do corrente, para entrega da obra. . . De- 
cidiu-se q. se fizessem os altares, seguindo-se como modelo os outros al- 
tares e lavrando-se o ajuste" (Liv. cit. fls. 63 v.) 

O contrato, a que se refere o tópico que se acaba de ler, foi 
firmado pelas partes contratantes a 31 de janeiro, poucos dias 
depois de tomada a deliberação acima referida, 
do teor seguinte esse contrato: 

"Termo do contracto celebrado pela Mesa Administrativa da Ve- 
nerável Ordem 3. a de S. Francisco de Assis da cidade do Ouro Preto 
para construção de dous altares lateraes da respectiva Capella e forne- 
cimento dos materiaes necessários. 

Aos 31 de Janeiro de 1882, reunida a Mesa Administrativa da Ve- 
nerável Ordem 3. a de S. Francisco de Assis compareceu á convite da 
mesma o cidadão Miguel Antonio Treguellas afim de celebrar o con- 
tracto para a construcção de dous altares lateraes da Capella e forne- 
cimento dos respectivos materiaes. Discutidas as clausulas ficarão 
ajustadas as seguintes: 
1. O referido cidadão obriga-se: 

§ 1.° A construir os dous altares lateraes da Capella que se achão 
damnificados pela quantia de um conto setecentos e cincoenta mil reis 
(1:750$000). 

Seguirá como modelo, os outros altares lateraes da mesma Ca- 
pella, podendo Supprimir os anjos que estão collocados nas columnas 
de dentro, e fazer alguma outra alteração para melhor. 

Poderá também empregar aquellas peças dos altares antigos que 
estiverem em bom estado e no caso de servirem. 

§ 2.° A dar promptos os altares dentro do prazo de seis mezes con- 
tados desta data. 



438 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



§ 3.° A conservar diariamente (nos dias úteis) trabalhando na obra 
contractada tres officiaes pelo menos. 

§ 4.° A pagar a multa de dez mil reis (10$000) diários pelo exesso 
do prazo » st: pulado. 

2. Tami ^m se obriga a contractante a fornecer as madeiras, cuja 
qualidade só será — cedro — e mais materiaes necessários pela quan- 
tia de setecentos e cincoenta mil reis (750$000). 

3. Por seu turno se compromette a Mesa a pagar ao contractante a 
importância deste contracto (dois contos e quinhentos mil reis) em 
prestações mensaes de trezentos mil reis (300$000) , e o restante que 
é setecentos mil reis (700$000) depois de concluidos os altares, exami- 
nados e acceitos. 

4. Si o contractante fizer a entrega da obra até o dia 5 de Abril fu- 
turo terá direito não só a receber logo a quantia que faltar para com- 
pletar a importância de 2:500$000, como a uma gratificação de cin- 
coenta mil reis (50$000). 

5 . O contractante não terá direito a reclamar indemnisação por pre- 
juizos, perdas ou damnos que allegar ter soffrido, quer na mão de 
obra, quer no fornecimento de materiaes. 

6. Se durante a execução das obras ou depois de concluidas, for no- 
tado algum defeito a Mesa Administrativa, que a fiscalisará sempre 
que for conveniente, marcará um prazo rasoavel ao contractante para 
sanal-o. Caso não o faça no tempo fixado, se descontará da ultima 
prestação 20 até 50% conforme a natureza da imperfeição, a juizo da 
Mesa Administrativa ou de uma commissão que nomeará se julgar 
conveniente. 

7. Não havendo no cofre dinheiro para o cumprimento d'este con- 
tracto, o Ministro se compromette a adiantar as quantias necessá- 
rias, que ser-lhe hão indemnisadas logo que a ordem disponha do 
fundo preciso. 

E para constar eu Francisco de Paula Horta Lima, secretario da 
Ordem lavrei o presente contracto em duplicata, o qual vae assignado 
pelos membros da Mesa Administrativa e pelo contractante. 

Miguel Antônio Tregellas (era como êle assinava), teve nesta ci- 
dade uma oficina de "Marcenaria, Esculptura em ornatos, carpin- 
taria, etc", montada na Praia de Ouro Preto, conforme desenvolvido 
anúncio, estampado no Almanack de Outro Preto. Lê-se aí: "O pro- 
prietário desta oficina, já bastante conhecido por seus trabalhos, en- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 430 

tre os quais salienta-se a construção dos altares da capella de São 
Francisco de Paula desta capital (85) ..." 

A entrega da obra por êle realizada em São Francisco de Assis 
consta do seguinte: 

"Termo de 31 de julho de 1882 — Aos 31 de Julho de 1882, reuni- 
da a Mesa Administrativa no Consistório da capella a convite do con- 
tractante dos altares Miguel Antonio Treguellas, o qual participou es- 
tarem os mesmos concluidos, procedeu ella ao respectivo exame, re- 
conhecendo ter o contractante cumprido fielmente as clausulas esti- 
puladas, pelo que resolveu acceitar os mesmos altares. Em acto segui- 
do recebeu o contractante do Ministro a quantia de setecentos mil 
reis (700$000) que se lhe devia, visto já ter recebido pontualmente do 
mesmo Ministro as demais prestações. E para constar foi lavrado este 
termo em que assignão os membros da Mesa e contractante, comigo 
Francisco de Paula Horta Lima, Secretario da Ordem que o escrevi. 
O Com.°Pe. Dr. Miguel Salvia // Francisco Affonso Painhas // Felício 
José d' Andrade // O Procurador Antonio de Jesus Passos // Joaquim 
José dos Passos // Pedro Mourthé // Miguel Antonio Tregellas (L. cit. 
a fls. 64)." 

Cinquenta e sete anos haviam decorrido desde quando, 
em 1825, se iniciara a construção dêsses altares! 

O douramento e pintura dêsses mesmos altares, as condi- 
ções do serviço, o tempo em que este se verificou, os contra- 
tantes e a Mesa a que se deve este benefício, tudo consta dos 
seguintes documentos com os quais dou por absolvido êste en- 
fadonho capítulo: 

"Aos 24 de Abril de 1888 no consistório da Capella da Venerável 
Ordem 3. a de São Francisco de Assis da Imperial Cidade de Ouro 
Preto, reunida a Mesa Administrativa para tomar conhecimento da 
proposta que faz Salvador Improta para incumbir-se do douramento 
e pintura dos altares lateraes da Capella e julgando-a rasoavel resol- 
veo contractar com o mencionado Salvador o dicto trabalho que será 
feito nas seguintes condições e sob as seguintes clausulas: Primeira, 
o contractante Salvador Improta se obriga a pintar e dourar segun- 
do o estylo e forma do altar mór da Capella de S. Francisco de Assis 



(85) Talvez êrro de revisão do Almanaque, que é de 1890, oito anos depois 
■de concluídos e entregues os altares de cuja construção se encarregara. 



440 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



os seis altares lateraes, executando o serviço com toda a perfeição e 
segundo as regras actualmente adoptadas para trabalhos deste géne- 
ro. Segunda, a Mesa Administrativa fiscalisará por si ou por pessoa 
de sua confiança e de habilitações técnicas os trabalhos do contrac- 
tante e poderá exigir quaesquer modificações no gosto do mesmo tra- 
balho de pintura e douramento. Terceira, o preparo dos altares para 
receberem a pintura e douramento será feito pelo contractante pres- 
tando apenas a Ordem os andaimes necessários que serão feitos sob 
a direção do contractante. Quarta, a Ordem fornecerá os materiaes, 
ficando incumbido de compra-los no Rio de Janeiro pela lista forne- 
cida pelo contractante, o Irmão Procurador do Reverendo Irmão Mi- 
nistro. Quinta, a Ordem pagará pela pintura e douramento de cada 
altar a quantia de quinhentos mil reis (Rs 500$000), sendo o paga- 
mento feito no fim do trabalho de cada um dos altares. Sexta, o pre- 
sente contracto poderá ser rescindido pela Mesa Administrativa desde 
que o serviço do contractante não satisfaça as condições de perfeição. 
Sétima, o contractante receberá por adiantamento do preço da pin- 
tura e douramento do primeiro altar a quantia de cem mil reis 
(lOOftOOO). Oitava, o cidadão José Brande se obriga como fiador do 
contractante pelo exacto cumprimento do presente contracto que terá 
força de escriptura publica. E para constar lavrou-se este termo que 
é assignado pela Mesa Administrativa e por mim Francisco de Paula 
Barcellos que o escrevi e assigno. 

O Proc. or esp. 1 do Rvmo. Ministro, Manoel Joaqr de Lemos 
O Secretario Francisco de Paula Barcellos 
O Procurador Agostinho de Paula Ribr.° 
O Syndico Francisco José d'Olivr. a 
A rogos de Salvador Improta, Antonio Pacheco 
Como fiador José Brandi 
Como tt. a João Dias de Olivr. a 

" Arthur de Lemos." (Liv. cit. fls. 82 v.j. 

"Despezas 

do dia 1 de Fevr.° a 14 do mesmo mez 
Pagouse ao Sancristão o ordenado como consta do d.° 

n.o 110 

" Compra do Ouro e pelica como consta do d.° 

n.° 111 



15,000 
144,500 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



441 



a Joze Brandes o doramento do 5.° altar como 

consta do d.° n.° 112 

a Louiz Chavier da costa 1 g.^de vinho consta 
do d.o n.o 113 



500,000 



1,000 



660,500 



Ouro Preto 14 de Fevr. 0 de 1890 
Agostinho" 



"Termo de obrigação que faz o cidadão italiano Lourenço Petricio 
para douramento do sexto altar lateral da respectiva Capella. 

Aos vinte e seis de Fevereiro de 1890 resolveo a Mesa Administra- 
tiva da Venerável Ordem 3. a de S. Francisco d'Assis desta Capital a 
aceitar a proposta do cidadão acima referido, que se incumbirá do 
douramento do ultimo altar (6.°) da mesma Capella pelo preço de 
quatrocentos mil reis, menos cem mil reis do que se tinha ajustado e 
contractado com Salvador Improta e ultimante com José Brandi, que 
como fiador de Salvador obrigou-se, em suas faltas, pelo fiel cumpri- 
mento do acordo de 24 de Abril de 1888, que fica por essa forma res- 
cindido, segundo suas clausulas estabelecidas. 

Outro sim, declara o referido Lourenço Petricio que o andaime 
para o começo do serviço será feito a sua custa 

E quanto ao pagamento d'aquella importância declara mais o 
mencionado proponente que receberá mesmo em duas prestações de 
duzentos mil reis .... 

E para firmeza do que fica exposto lavrou-se o presente termo 
em que assignão os mesarios infra, dando-se copia do contrato para 
os devidos effeitos. Eu Anacleto Queiroga, o Secretario da Ordem que 
o escrevi e assigno. Anacleto Queiroga. 



O Ministro (não assinou) 

O Vice-Ministro (não assinou) 

O Secretario — Anacleto Queiroga 

O Procurador Geral — José Augusto de Carvalho Gama 

O Syndico — Pedro A ff. o G. de S. MartP e Abreu 

O vigário do Culto Divino — (não assinou)." 



CAPÍTULO VII 



BÊNÇÃO DA IGREJA 

I — PRIMEIRA BÊNÇÃO 

Em 1771 — sabêmo-lo — não era ainda a capela-mor de 
São Francisco o primor que agora nos enleia e fascina; podia, 
contudo, receber já as bênçãos do ritual. E recebeu-a, com efei- 
to, a 22 de novembro. Evidentemente, houve pressa em proce- 
der-se a essa cerimónia. Entre as causas que teria a Ordem 
para tal urgência uma nos parece clara — certa má-vontade 
do então Vigário de Antônio Dias, Padre Estanislau da Silvei- 
ra Ébanos, para com os Terceiros da Penitência. Consta como 
certo que êle pretendeu opor-se judicialmente à solenidade da 
Bênção, e não há dúvida que protestou contra a celebração da 
primeira Missa Cantada levada a efeito em São Francisco. 

Os dois documentos que vamos ler foram a despacho na 
Câmara Eclesiástica na mesma data. Requeria a Ordem, simul- 
tâneamente, provisão de bênção e medidas preventivas contra 
qualquer atitude hostil do referido vigário: 

"Illust. mo e Rmo. Snr. Dizem o Ministro, e mais Difinitorio, da 
Mesa da Venerável ordem 3. a da Penitencia do Seráfico Padre S. Fran- 
cisco de V. a Rica, que estão edeficando húa Capela para a mesma or- 
dem na dita Vila a sua própria custa, com invocação de N. Senhora 
dos Anjos; e como querem que se bemza toda aquela parte, que esti- 
ver coberta, e fexada para se poder celebrar o Santo Sacrificio da Mis- 
sa, recorrem a V. Snria. lhe mande passar provisão para se poder ben- 
zer na dita capela, a dita parte que estiver na forma sobredita, como 
também para se poder celebrar o Santo Sacrificio da Missa, com fa- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS I) E OURO PRÊTO 



443 



culdade de poder benzer o Rmo. Comissário da dita ordem, ou seus 
companheiros para o que // Pedem a V. Snria. se sirva mandar pas- 
sar a dita Provisão na forma expressada, e R.M.//." Despanho// 
"Pace Provisão dirigida ao R. D.°' Vigário da vara, para vezitar e ben- 
zer o que se achar em termos disso e com a cauzula de aprezentarem 
quando se houver de benzer o corpo da Igreja os documentos necessá- 
rios para o Património, Marianna vinte e dois de Outubro de mil sete 
centos e setenta e hú // Almeyda// 

Saibão quantos este publico instromento de Appelação ante omnia 
ou como em direito milhor nome e lugar haja virem que sendo no anno 
do nascimento de nosso Senhor Jezus christo de mil e setecentos e se- 
tenta e hum anos aos vinte e dois dias do mes de outubro do dito 
anno nesta cidade Mariana pelas des oras da manhã em Cazas do Re- 
verendíssimo Conigo Magistral da sê desta mesma cid.° e comissário 
do Santo officio João Rodrigues Cordeiro onde eu Notário apostólico 
aprovado neste Bispado fuy vindo e sendo ahi prezente João Pinto 
de Souza morador em Villa Rica que reconheço pelo próprio de que 
dou fé e Procurador Geral e Bastante da Meza da venerável ordem 
terceira do Seráfico Padre Sam Francisco da mesma vila como cons- 
ta da Procuração neste inserta que a reconheço por verdadeira e por 
ele foy dito e requerido ao dito Reverendíssimo Cónego Magistral Co- 
missário do Santo officio que em nome de seus Constituliintes e mais 
Irmãos appelava ante omnia na forma das Rezoens do thior seguinte 
= O Reverendo Padre Mestre Luis Vieyra da Silva, comissário, vice 
comissário, Ministro e mais deffinitorio da venerável Ordem terceira 
da Penitencia do Seráfico Patriarca Sam Francisco de vila Rica do 
ouro preto, ereta por Patente do Reverendíssimo Ministro Provincial 
da Provincia do Rio de Janeiro e aprovada pelo Reverendíssimo Ge- 
ral da mesma ordem e pela cé Apostólica, com seus Estatutos em seu 
nome e de todos os Irmãos terceiros dela agregados desde o primeiro 
té ultimo por se temerem de que o Reverendo Parrocho da Matris de 
nossa Senhora da Conceição da mesma vila pelo que tem mostrado 
ou dado a entender per sy, ou qualquer seu quadjutor obtenha des- 
pachos ou sensuras, e interditos ou quaisquer outros procedimentos 
ecleziasticos e ainda de seu motu próprio sem os recorrentes apelan- 
tes serem ouvidos e judicialmente convencidos de qualquer Prelado 
ou Ministro Ecleziastico sobre o benzerse ou não a nova Capela que 
os Recorrentes Appelantes a expensis da sua Venerável ordem e seus 



444 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



comfrades tem edificado para a colocação de nossa Senhora Santa 
Maria dos Anjos da Porciuncula, e do dito Seráfico Patriarca Sam 
Francisco e funçoens da sua venerável ordem, tentando temeraria- 
mente com pena de excomunhão censuras, e interditos, Parrochiar os 
actos e funçõens publicas e particulares da mesma ordem a empedi- 
las aos Reverendos Comissário e vice Comissário ou quem suas ve- 
zes fizer a quem direitamente pertencem, e porisso de todos e quais- 
quer despachos censuras e interditos ou motus próprios promulgados 
ou que se hajão de promulgar ao dito fim de embarassar o Benzerse 
a dita Capela e colocarse a dita Senhora o dito Santo e fazerençe pe- 
los Appelantes e seu Reverendo Comissário ou vece Comissário todos 
os actos e funçõens da sua ordem e interros de seus terceiros desde já, 
de tudo, e de todo qualquer gravamen futuro Apellão ante omnia et 
post omnia ad Santam Sedem Apostolicam Romanam seu ad ejns 
Legatum ou para onde direitamente pertencer e pedem os Apóstolos 
Reverenciais saepe, saepius, saepissime, instanter, instanssius, instan- 
tissime simulque et único contexto salvo juro nulitatis e requerem a 
vossa mercê lhe haja sua Appelação por interposta como coram probo 
viro, e que o Notário que está prezente lha escreva e dê fé da sua in- 
terpozição e passe os Instromentos necessários e que vossa mercê se 
constitua juis da mesma Appelação na sua interpozição tudo na mi- 
lhor forma e via de Direito. Cidade Mariana aos vinte e dois dias do 
mes de outubro de mil e setecentos e setenta e hum annos // o Pro- 
curador Geral João Pinto de Souza e ouvido pelo dito Reverendissi- 
mo Conigo e Doutor Magistral sua Appelação lha mandou escrever 
por mim Notário Apostólico que he a prezente e lha recebeo na forma 
que a emtrepunha, e o thior da Procuração da dita Meza he a seguin- 
te — o comissário, Ministro e mais officiais e deffinitorio desta Meza 
da Venerável Ordem terceira da Penitencia do Seráfico Patriarca Sam 
Francisco desta Vila Rica de nossa Senhora do Pilar ereta pelo Reve- 
rendíssimo Ministro Provincial do Rio de Janeiro e aprovada pelo Re- 
verendíssimo Geral e pela cé Apostólica, pelo prezente alvará de Pro 
curação Bastante e na milhor forma de direito fazemos nossos pro- 
curadores aos Senhores Doutores Cláudio Manoel da Costa, Antonio 
Rodrigues de Queirós, Manoel Teixeira de Carvalho e a nosso Irmão 
Procurador Geral João Pinto de Sousa, João Barbosa Amorim e João 
de Amorim Pereira, Antonio Vieira de Carvalho, Antonio de Castro 
Peixoto, João Batista Vale Amiel, e na cidade Mariana os Senhores 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 445 

Doutores João Dias Ladeira, Manoel Bras Ferreira e Manoel da Guer- 
ra Liai e aos Solicitadores Thomas Pereira, Miguel Peixoto de Araujo 
e Agostinho Pereira Braga para que todos juntos e cada hum in soli- 
dum em quaisquer partes, juizo ou tribunal possão representar nos- 
sas pessoas e toda a Ordem, fazer requerimentos Protestos Contra Pro- 
testos Appelar Aggravar e jurar em nossas almas qualquer licito ju- 
ramento de calunia pedir vista vir com embargos e outros quaisquer 
artigos e tudo seguir té a maior alçada em todos os recursos e deman- 
das em que formos Autores ou Reos para o que lhe damos e consede- 
mos todos os poderes em direito necessários e de appelar de quaisquer 
despachos ou censuras perante qualquer varão constituido em digni- 
dade cujas censuras e tudo o mais que haja de proceder e diga respei- 
to a esta venerável ordem comissário vice comissário e capela ou qual- 
quer acto que nela se haja de fazer respectivo a mesma ordem em 
todo e qualquer tempo e pidir os instromentos que lhe paresser em 
firmeza do que nos assinamos em Meza de treze de outubro de mil e 
setecentos e setenta e hum annos, Antonio José Martins Correa, Se- 
cretario, que a fiz e assiney. Thomas Machado de Miranda, vice Co- 
missário — Feliciano José da Camara, Ministro // Antonio José Mar- 
tins Correa, Secretario // João Pinto de Souza, Procurador Geral // 
Antonio Martins Viana, Sindico /./ Antonio Ferreira da Fonsequa, Def- 
finidor // Antonio Francisco, deffinidor // João Vieira da Rocha, 
Deffinidor // Francisco Manoel da Silva, Deffinidor // Francisco Xa- 
vier de Andrade Pereira, Deffinidor // Antonio da Costa, Deffinidor 
// Mathias Gonçalves Lima, Deffinidor // Manoel Coelho da Silva, 
Deffinidor // Bernardo Gonçalves Veiga, Deffinidor // Francisco da 
Costa Guimarães, Vigário // e está a d. a Procuração selada com o selo 
da Ordem a qual entreguei ao dito Procurador que a recebeo, e refe- 
rido he verdade de que passo o prezente instromento por mim feito e 
assignado que de meu publico corroborey e nele assignou o d.° Reve- 
rendíssimo Doutor Magistral e o dito Procurador. Dado nesta cidade 
Mariana aos vinte de outubro digo Mariana em dia era ut supra. Joa- 
quim Joze de Oliveira, Notário Apostólico o escrevi e assigney = Cordr. 0 
— Joaq. m Joze de Oliveira Not.° Apost. co = In testimonio -4- Fidei 
= Joaq. Joze de OlivrP- = João P."> de Sz. a , Proc. or G. 1 //." 

E a Bênção verificou-se pacificamente, oficiando na sole- 
nidade o Vigário da Vara da Comarca Eclesiástica de Vila 
Rica, Br. José Batista da Silva. 



446 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



Provisão da Bênção: 

"Vicente Gonçalves Jorge de Almeyda, Cónego Prebendado nesta 
Igreja Cathedral de Marianna, nela, e em todo este Bispado Vigário 
Capitular pelo Ilustricimo e Rm.o Cabido, sede vacante. 

A todos os Fieis christaens nossos súbditos saúde, e paz em Jesus 
Christo Nosso Senhor, Fazemos saber, que atendendo nós ao q. por sua 
petição retro nos enviaram a dizer, o Ministro, e Definitorio da Vene- 
rável ordem terceyra da Penitencia do Seráfico Patriarcha S. Francis- 
co de Vila Rica, havemos por bem, conceder faculdade pela prezente 
nossa Provisão ao Reverendo Doutor vigário da vara, da mesma vila, 
para que visitando a Capela de Nossa Senhora dos Anjos, da dita or- 
dem, e achando a perfeita, e decentemente paramentada com os orna- 
mentos das quatro cores, de que usa a Igreja e determinão os cere- 
moniaes, Pedra d'Ara Sagrada de suficiente grandeza, Cálix e patena 
de prata e todos os mais paramentos necessários para a decente ce- 
lebração dos Officios Divinos, possa benzer a parte da referida Cape- 
la, que estiver em termos disso, na forma do Ritual Romano, e dipois 
de Benta se poderá nela celebrar o Sacrosanto Sacrifício da Missa, e 
passará na, digo, a sobre dita certidam nas costas desta para a todo 
tempo constar, e será registada no Livro do registo geral // Dada 
nesta Cidade Marianna sob nosso sinal e selo da Meza Capitolar aos 
vinte e dois de , Outubro de 1771, com a clauzula de apresentarem, 
quando se ouver de benzer o Corpo da Igreja, os Documentos necessá- 
rios para o Património, e Eu João Soares de Araujo Presbitero secular, 
Escrivam da Camara Eclesiástica a Escrevy // Vicente Gonçalves Jorge 
de Almeyda // Ch. a gr. selo $751. Feit. $310 Reg.° $112 // Registada 
no livro 8.° do reg.° g. al a fls. 66 v. Marianna 22 de 8bro. de 1771 Pe- 
reyra." 

Certificado da Bênção: 

"José Baptista da Silva Presbitero do habito de S. Pedro Bacharel 
formado na faculdade dos sagrados cânones pela universidade de 
Coimbra e vigário da vara nesta comarca de Vila Rica, por Provisão 
do Rmo. Cabido sede vacante // Certifico em como neste dia vinte e 
dois de Novembro do presente anno por virtude da Provisão retro fuy 
a Capela de S. Francisco desta Vila, e em prezença da mayor parte 
da Meza da Venerável Ordem terceyra da Penitencia, e mais tercei- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



447 



ros, e grande quantidade de povo que se achava presente, e muitos 
sacerdotes, benzi a ditta Capela na forma do Ritual Romano, por den- 
tro, e por fora como determina o d.° Ritual, a saber a Capela Mor que 
se achava feita, e juntamente a parte do corpo da dita Capela que 
se achava tapado de madeira, e coberto de telha, e por assim passar 
na verdade, e a todo tempo constar do referido pacey esta de minha 
Letra e sinal. Villa Rica 22 de Novembro de 1771. José Baptista da Sil- 
va, e não se continha mais cousa algúa na dita Provisão, e certidam. 
que bem fielmente aqui fiz escrever eu Antonio Jose Miz. Correa Se- 
cretario." 

Colocação da Imagem de São Francisco 

A 5 de dezembro de 1771, dia designado para a inaugu- 
ração solene da igreja, como veremos em breve, foi ali solene- 
mente instalada a imagem do Santo Patriarca. Isto se fez 
litúrgicamente em virtude dos despachos que vamos ler: 

"Diz o Ministro e mais definitorio da Venerável Ordem 3 a da Pe- 
nitencia de V. a R. a , que pertendem no dia sinco do corrente colloca- 
rem a Santa Imagem de S. Fran. eo de Assis no novo Templo, que eri- 
girão com a invocação de N. Snr. a dos Anjos e p. r que se ache já ben- 
zida p. r Provisão de V. S. e ignoravão os Supp. cs que precizavão de nova 
licensa p. a a collocação porisso // P. a VS. Seja Servido conceder lhe 
a graça de poderem colocar a d. a S. 1 " Imagem, visto estarem prontos 
p. a solemnizarem com Missa Cantada, e Sermão, q.° rogarão a D. s pelo 
felix governo de V.S.// R.M. (Despacho) P.P. m — Mar. a aos 5 de 10br.°, 
de 1771 // Alm.**//." 



para q. visitando a Imagem de São Francisco de 

Assis e achandoa decente, perfeita e conforme com o seu original a 
benza na forma do Ritual Romano; e coloque em o lugar deputado na 
Capela de nossa Senhora dos Anjos, erecta na dita V a , fazendo a d. a 
colocasam com procisão, e com toda a reverencia, solenid. e e pompa 
q. permitir a devosam dos Sup. tes e sera reg. da esta no Livro de Reg.*° 
G. al Dada nesta Cidade Mariana, sob nosso sinal, e selo da Meza Ca- 
pitular, aos 5 de Dezembro de 1771. Eu Joam Soarez de Araujo, Esco- 
vam da Camera Ecleziastica a escrevi // Vic. te Giz. Jorge de Alm.^ // 



448 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



L. + S. Xer. // Ch. a $825;Sel $075; Assin. $300 (grátis) ;Feit. $310; 
Reg. $112 // Reg."" no L.° 8.° do Reg.° g. al a fl. 80. Mar. na 5 de Dezem- 
bro de 1771 // Per. a //. P. p. a colocação com procissão da Imagem de 
S. Franc.° d'Assis, em o Templo de Nossa Senhora dos Anjos de V. a 
R. a dirigida ao Rdo. D. or Vigário da Vara, a favor do Min.° e Definit/ 0 
da Ven. eI Ordem 3 a da Penit. a // P. a V. 9 S. a ver." 

Primeira festa em São Francisco 

rr • • • ■ ****** m&w&mKÊií \,\'\-v\i • - 

Decorridos poucos dias e celebrou-se na nova capela a sua 
primeira festa. Eis como a essa augusta solenidade me referi, 
não há muito, por ocasião do aniversário do Ouro Preto: 

"O dia 5 de dezembro de 1771 foi de festa para Vila Rica 
e terá sido, por ventura, um dos de mais intenso júbilo que até 
aí vivera a nobre capital das Minas Gerais. 

Instalou-se nessa data o culto divino na igreja de São 
Francisco de Assis. 

Bem que o novo templo andasse ainda em obras e que 
estas representassem menos de um terço do que veio a ser o 
insigne monumento de que todos nos envaidecemos ; ainda que 
o dia eleito para marcar nos anais da cidade uma efeméride de 
tal vulto fosse uma singela quinta-feira, a solenidade revestiu- 
se do máximo esplendor e teve pompa litúrgica excepcional, 
fácil de reproduzir-se em nossa imaginação. 

Essa quinta-feira histórica situava-se dentro das novenas 
da Conceição, festa por excelência de Vila Rica, durante a 
qual se despovoavam freguesias em derredor para vir sua 
gente assistir na Matriz de Antônio Dias às afamadas soleni- 
dades. A Vila regorgitava por isto de forasteiros. 

Demais, promovia a festividade a Ordem Terceira da Peni- 
tência, que empolgara Vila Rica e enfeudara por todo o terri- 
tório das Minas dedicações enternecidas e simpatias univer- 
sais. Presidias florescentes, destacando-se as do Sêrro, Sabará, 
Carijós, Borda do Campo, São José e São João dei Rei, pres- 
tavam-lhe tributo e obediência. De todos os quadrantes do 
antigo bispado olhos e corações de terceiros dedicados vol- 
viam-se para Vila Rica onde, naquele dia, se inaugurava a pri- 
meira matriz da Ordem Terceira em Minas. A capitania do 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 449 

ouro, de um extremo ao outro, associava-se à festa inaugural 
dos franciscanos de Vila Rica. 

Vila Rica de 1771 era sem alteração de vulto a Ouro Prêto 
de nossos dias. Leia-se esta relação dos Presidentes da Ordem 
nos bairros de Vila Rica: 

Manuel Gonçalves Saragoça, da Boa Vista e Bocaina; 
Domingos Gomes Rodrigues, do Passa-Dez até a Ponte do 
Rosário; João Martins, do Morro do Ramos; Manuel Rodri- 
gues, do Rosário até a Ponte de Ouro Prêto; Antônio Correia, 
da ponte de Ouro Prêto até a Praça; José Soares Pôrto, da 
Praça até a Ponte de Antônio Dias; Antônio Martins Viana, 
da ponte de Antônio Dias até o Alto da Cruz; Francisco da 
Costa Guimarães, do Alto da Cruz ao Taquaral; Domingos 
Pires, do Ouro Fino; Manuel de Oliveira Nogueira, da Pedra 
Branca e Manuel Teixeira de Barbosa, do Morro da Quei- 
mada". 

Magnífico, portanto, o cenário para a solenidade. 

Acresce que o dia 5 de dezembro era, por então, uma data 
muito querida ao vilarriquense. Fazia anos o Capitão-General 
e Governador da Capitania, Dom José Luís de Meneses Abran- 
ches Castelo Branco, Conde de Valadares. 

Logo, à sua entrada na Vila, o Conde, com a simpatia que 
irradiava de sua mocidade impressionante, pois não atingira 
ainda os vinte e cinco anos, ganhara todos os corações. Dedi- 
cara-lhe Cláudio a primeira edição de seus versos, e o Cónego 
Luís Vieira, "à maior ilustração colonial da época", era de seus 
maiores amigos. 

Se o aniversário do Conde era para Vila Rica festa de 
classe, era-o para a Ordem, que o elegera Protetor, uma festa 
carinhosa de família. 

Não era, pois, uma quinta-feira vulgar o dia designado 
para a grande solenidade. Fôra de indústria escolhido, em 
acertada e merecida homenagem ao amigo e protetor da 
Ordem. 

Constara a celebração de uma solene Missa cantada, cuja 
descrição vou ceder ao Secretário da Ordem, que a faz pitores- 
camente e com pormenores, no seguinte documento, que de 
certo nos transportará ao grande dia e nos abrirá espaço na 
seleta assistência, a fim de podermos gozar a pomposa liturgia 



150 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



das cerimónias religiosas, o sermão circunstancial do Padre 
Luís Vieira, o ouro dos uniformes, a graça das toilettes femi- 
ninas e, finalmente, a música sacra regida pelo Alferes José 
Felix de Magalhães e Faria, o maestro mais querido de Vila 
Rica na época. 

Fale o Secretário da Ordem: "Antonio José Miz. Correa Secreta 
rio actual desta Venerável Ordem 3. a da Penitencia de S. Francisco 
de Vila Rica. Certifico e atesto em como no dia sinco de Dezembro 
do presente anno de mil sette centos e setenta e hum, nesta capela de 
N. Senhora dos Anjos, da mesma ordem se fez a primeira festa, de 
Missa cantada, com Musica e todas solenidades, cuja missa cantou o 
Rdo. vice-Comissario Thomaz Machado de Miranda sendo Diácono o 
Rdo. Irmão José Ignacio Correa e sob diácono o Irmão noviço o Rdo. 
Antonio Correa de Souza, e fez hum bom sermão o M.R. Comissário 
Luiz Vieira da Sylva; e a toda esta solenidade assistio toda a Meza da 
dita ordem encorporada, e muito grande parte dos nossos Irmãos mo- 
radores nesta V. a ; a Meza da venerável ordem 3. a do Carmo por con- 
vite desta de S. Francisco, o limo. e Exmo. Sr. conde de Valadares Go- 
vernador e Capitam general desta Capitania // em cujo dia fez an- 
nos //, o Doutor Ouvidor e Corregedor desta Comarca José da Costa 
Fonseca, Procurador da Coroa e Fazenda Real o Dr. José Dias Roiz 
Maciel, o Dezembargador Procurador da Real Fazenda, o Dr. Intenden 
te, os Capitaens Mores desta Vila e Cidade Marianna o Rdo. Dr. Vi- 
gário da Vara, e seu Escrivam, os Reverendos Vigários de hua e outra 
Freguezia desta Vila e todas as mais principais pessoas desta comar- 
ca, com muita paz e socego, sem que houvesse empedimento algum 
a que o Reverendo vice comissário acima referido, Thomaz Machado 
de Miranda, que estava fazendo vezes de comissário, cantasse a Missa 
e fizesse as vezes, e figura do dito comissário, como Pae Espiritual 
desta venerável ordem a cujo acto antes e depois acestio de estola dei- 
tando o Santo habito a alguas pessoas e porque a todo tempo conste 
o referido fiz aqui este termo, o que afirmo debaixo do juramento dos 
Santos Evangelhos se necessário for e em fé do meu cargo, e por ver- 
dade de tudo eu Antonio José Martins Correa Secretario o Escrevy e 
assigney. Antonio José Miz. Correa Secretario — Manoel Machado 
Ribeiro." 

As alegrias e consolações do dia 5 de dezembro de 1771 me- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



451 



recia-as a Ordem de inteira justiça. Desde sua fundação sofre- 
ra angústias incomportáveis e contrariedades constantes. Fi- 
zera jus a êssa indenização. Teve-a cabal e esplêndida na festa 
inaugural de sua igreja. 

Das despesas dessa festa destaco do L° compet *ite (fls. 
108 v.) apenas esta, que se refere à música, dirigida \ ;lo Alfe- 
res José Felix de Magalhães e Faria, que era, a bem dizer, o 
maestro da Ordem, tão frequentemente aparece em seus 
registros : 

Joze Felix de Magalhães 

Da Festa de 5 de BezrP de 1771 20/8 tti 

Da Procissão de Cinza 24 

Do dia dos Reis 4 

O d.° da Persiuncula 15 

Soma 63/8 as (75$600)" 

Referi-me acima ao protesto contra a festa de 5 de dezem- 
bro por parte do Vigário de Antônio Dias. Aqui está a prova: 

I 

"Antonio Meireles Rebelo Pereira, formado na faculdade de Câ- 
nones e Vig.° actual da freg. a de N. S. da C. m de V. a R. a . 

"Certifico que depois q tomei posse dad. a Paroquia de q se trata 
na qual se acha a capella da Ordem 3 a de São Fr. co em onze meses de 
m. a residência alguns enterros tem havido q acompanhei com o clero 
da mesma freg. a á dita Capela e nela fiz os ofícios funerais sem re- 
pugnância da dita Ordem, nem me consta ter havido desordem algu- 
ma com os meus antecessores, só sim que o Rd.° Vigário Estanislau 
da Silveira Evano, meu antecessor, fizera intimar um -protesto ao Pro- 
curador da dita Ordem sobre a primeira Missa q Cantou o Comissário 
da dita Capela por entender pertencer aos direitos paroquiais; enquan- 
to aos fatos de repugnância, e exposições do Sacramento tem procedi- 
do como o R. d0 Pároco da Freg. a do O. Preto na Capela da Ordem 3. a 
do Carmo, sua filial, o que atesto in verbo Parochi. Vila Rica, 17 de Ou- 
tubro de 1774." 

II — SEGUNDA BÊNÇÃO 

Em 1776 benzeu-se finalmente o corpo da igreja, aquela 
parte do monumental edifício que cinco anos antes não se 



452 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



achava ainda em estado de receber as bênçãos rituais da 
Egreja. 

Ainda aqui precederam à solenidade, de acordo com as 
disposições canónicas, os competentes despachos da autori- 
dade diocesana. 

A petição da Ordem para obtê-los dizia assim: 

"limo. e Rvmo. Sr. — Diz o Procurador Geral da Venerável Or- 
dem Terceira da Penitencia de V. a Rica que por virtude dos despachos 
juntos se lhe benzeo a parte da capella de Nossa Senhora dos Anjos 
em que está erecta a mesma Ordem, o que da mesma estava decente: 
e p. a se benzer o mais que falta, que he parte do corpo da Igreja, per- 
tende que VS. lhe faça a graça mandar passar Provisão para o Co- 
missário da d. a Ordem o poder fazer // P. a VS. ia se digne em atten- 
ção ao referido assim o haver por bem//E.R.M. 

(Despacho) P.P. m p. a o Rdo. Vig.° da Vara benzer o resto que fal- 
ta da Capella de São Fran. co Mar. a 5 de 8br.° de 1776 — Gondin (86)." 

Certificado da Bênção: 

"Ignacio de Sousa Ferreira, Presbytero do Habito de S. Pedro, B." 
formado em cânones pela universidade de Coimbra e vig.° da vara 
desta comarca de V a Rica e seo termo // Certifico que no dia 5 de 
8br.° de 1776 benzi o resto da Capella de N. Senhora dos Anjos citua- 
da nesta mesma V a em virtude da Provisão retro (87), e não os no- 
tifiquei p. a fazerem Património na forma detreminada por q. já es- 
tava em juizo, e perante mim o diligenciavão, e por verd. e passey esta 
q. assino. 

V a Rica 5 de 8br.o de 1776 // Ignacio de Sousa Ferr. a //" 

★ 

No momento em que vou traçando estas linhas, ao cerrar 
o último capítulo do meu modesto trabalho, estão se comple- 
tando ao justo 171 anos, sete meses e 24 dias, desde quando, 
em Vila Rica, se abriu solene e definitivamente ao culto a 
igreja de São Francisco de Assis. 



(86) Dr. José Justino de Oliveira Gondim, governador do Bispado. 

(87) Esta Provisão não foi encontrada. 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 453 

Daqui, destroutro monumento em que trabalho, estou a 
vê-la — a veneranda igreja — pouco distante — em baixo, suas 
tintas novas cintilando ao sol acariciador e bom dêste frígido 
maio ouropretano, e cismo, ao vê-la, nas coisas, e tantas são 
elas! que terá visto no desdobrar dos anos o velho monumento; 
quantos episódios interessantes e comoventes de nossa histó- 
ria se desenrolaram à sua beira! os Inconfidentes, quantas 
vêzes ter-se-ão acolhido à sua sombra para, numa oração fér- 
vida e palpitante, pedir a Deus pátria e liberdade! Marília, a 
inditosa noiva, terá por certo ido ali muitas vêzes chorar aos 
pés da Senhora dos Anjos as saudades do seu primeiro amor 
estragado pela tirania. Lá o estou contemplando, em todo o 
seu esplendor, o velho templo, mantendo viva e imperecível a 
memória querida do Aleijadinho, de Manuel da Costa Ataíde, 
de Domingos Moreira de Oliveira; lá está êle a testemnuhar 
perenemente a benemerência da Ordem Terceira da Penitên- 
cia; a chamar para Ouro Prêto caravanas sucessivas de artistas 
e estudiosos; ali, o objeto do mais justiifcado carinho e do mais 
nobre orgulho do ouropretano; ali, restaurado inteiramente 
pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 
está êle a proclamar bem alto os ingentes benefícios da bene- 
mérita repartição dispensados à terra mineira e, em particular, 
à Igreja Marianense. 

Ao despedir-me dêste trabalho, em que me entretive por 
longos meses, quero consignar aqui, pálida, mas comovida e 
sincera homenagem de reconhecimento aos que ergueram e 
aos que conservam o suntuoso monumento — São Francisco 
de Assis de Ouro Prêto — testemunho eloquente da piedade 
cristã de nossos maiores e padrão sem par do génio artístico 
de dois modestos mineiros, benfeitores insignes da Arte Reli- 
giosa no Brasil. 



APÊNDICE 



DOCUMENTOS 

FRADES GIROVAGOS EM MINAS 

Carta do Bispo de Mariana a El Rei 

Pelo Conselho Vltrmr. 0 — 1751 — 

"Snr. — Por Provizão de dez de Septembro de mil, settecentos, e cincoenta an.* 
hé V. Mag. e servido mandar-me informar sobre a Representação, que fizerão a V. 
Mag. e os Irmãos da Terceira Ordem de Nossa Senhora do Carmo de Vila Rica, na 
qual pedem, que em razão de se fazer expulsar desta Capitania ao seo Comissária 
em observância das Reaes Ordens de V. Mag. e porque manda sahir delia 
todos os Religiosos, fosse V. Mag. e servido conceder lhes possa assistir hum 
Religioso com seo companheiro de Comissário, sendo approvado, e nomeado pe- 
los seos Prellados, dispensando assim na referida Ordem de prohibição geral da 
assistência dos mais Religiosos nestas Minas. Primeiramente esta chamada Ordem 
Terceira na realidade não he Ordem, porque lhe falta seo Constitutivo; principiou 
há quatro an." por húa Simples Confraria; não tem Igreja própria, nem Caza de 

Cappitulo, em que possáo fazer os seos actos de ; e como as espórtulas 

das entradas dos Irmaons, e da sua proffissão vão para o Convento do Rio de Ja- 
neiro ficão impossibilitados para fazer as ditas obras; porque com alguas esmollas 
que se offerecem apenas podem satisfazer á despeza de húa Festa, que fazem. Hé 
verdade que mandei expulsar deste Bispado aos Religiosos, que não tinhão licen- 
ça de V. Mag. e para rezidirem nelle, não só em observância das repetidas Ordci ; 
de V. Mag.*\ mas a requerimento dos seos Prelados, que me manda- 

rão os nomes dos que handavam Apóstatas; alguns se recolherão, outros se mette- 
rão nos Mattos onde não hé fácil de caçalos, outros se vestirão de Secular, hum dos 
quaes foi prezo, e remetido para o seo Convento da Bahya, outro fugio com a sua 
cúmplice não sei para onde; em fim todos mal procedidos e escandalozos, hum dos 
quaes era o Padre Comissário na chamada Ordem Terceira do Carmo de Villa Rica, 
que se fosse bem procedido, dissimularia com elle, como agora dissimulo com hum 
Religiozo da mesma Ordem que veyo do Rio de Janeiro a pretexto de alguas co- 



45G 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



branças, e recomendação de fazer as vezes de Comissário só para receber as es- 
pórtulas que dão os que entrão naquella Irmandade, e remettelas promptamenle 
para o Convento do dito Rio de Janeiro 



Finalmente dou conta a V. Mag. e , que como m.* 08 Prelados mandão a estas Min- 
nas Religiosos com o pretexto de Procuradores dos seos Conventos, m. tas vezes sem 
terem que procurar para elles, procurando somente as suas conveniências por vá- 
rios meyos e alguns muy indecentes ao Estado Religioso, de que resultãõ muitas 
offensas de Deos, por cujo motivo recuzão o recolherem se aos seos Conventos, fi- 
cando Apóstatas em estado de perdição represento a V. Mag. e seja servido mandar, 
não rezidão nas Minnas Procuradores das Religioens, nem Esmolleres, senão Fra- 
des Leigos porque nestes não háos inconvenientes reeridos .... 

V. Mag. e mandará o que for servido. Marianna, etc. (Copiador de D. Fr. Ma 
ituel da Cruz — 125)" 

LICENÇA PARA A CONSTRUÇÃO 

Carta da Ordem ao Procurador em Lisboa 

"Sr. Cap. m Francisco Antônio Rodrigues Feio; Vila Rica, 13 de abril de 175b 
anos. 

A providência divina, que nunca cessa de despender com mão larga os seus te- 
souros, quis que seu servo e nosso Seráfico Pe. São Francisco fôsse conhecido pelo 
grande empenho que sempre teve na salvação das almas; muito tempo esteve esta 
terra alheia desta bênção, quiçá por isto infeliz, até que a impulsos do fervor de al- 
guns seus filhos terceiros, por exatas rogativas veio a ela, no ano de 1746, o Rdo. 
P. M. Fr. Antônio de Santa Maria, religioso de grande virtude, enviado pelo seu 
Rmo. Provincial, da cidade do Rio de Janeiro, para efeito de erigir esta venerável 
Ordem na mesma forma que recomendam os SS.PP. se estabeleçam nos lugares onde 
não há conventos pelos muitos serviços que a Deus resultam de exercícios tão san- 
tos e cujo estatuto aplaudiram êstes moradores com tanto fervor, gôsto e aprovei- 
tamento, quanto se experimenta nos repetidos culto, reforma de costumes e conver- 
são de muitas almas; e vendo nossos antecessores a grande ocorrência de irmãos 
que todos os dias vêm concorrendo a esta venerável Ordem, mediante a graça di- 
vina, e que êstes pelo grande número mal podiam cumprir com seus estatutos e ob- 
servância de seus santos exercícios pela pouca comodidade que há nesta Matriz e 
pelos muitos impedimentos de atos para os quais determinaram pedir à Majestade 
concessão de Capela, como consta do Memorial incluso, tomando por diretor desta 
graça o Dr. Francisco Xavier Ramos no ano de 1752, remetendo-lhe para todas as 
expensas 890$ e tantos réis, e trabalhando êste com tôdas as suas forças neste re- 
querimento, o não pôde conseguir, azendo-nos saber esta frota que, pois, não tive- 
ra a dita de conseguir êste tão desejado bem, agora não podia se assistir nele por 
se achar molesto em uma cama, desenganado dos médicos, pedindo-nos fôssemos 
servidos mandar tomar conta do dinheiro na mão do Cap. m Francisco Dias Leal, a 
quem o tinha entregue por razão do perigo com que se achava; notícia que nos foi 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 457 

tão penosa, tanto pela moléstia do nosso beneitor, como também pelo desamparo em 
que ficava nosso requerimento, ao que, acudindo o nosso amado irmão Procura- 
dor Geral, o Tenente João de Serqueira dizendo nessa côrte tinha a V.M de quem 
tinha recebido extraordinários favores, e conclusão de negócios de muita impor- 
tância, e que à sua conta tomava o pedir a V.M., por serviço de Deus e de nosso 
Pe. São Francisco, quisesse empenhar todo o seu valimento para conseguir o fim 
de tão santa obra, e com esta alegre notícia recebemos tal consolação que nos pa- 
receu ser mais inspiração divina que humana, que por ser a obra tôda de Deus, 

sempre Êle por seus altíssimos decretos 

, e fiados no nobilitante zêlo e piedade que V.M. tem em obra tão me- 
ritória, pelo modo que nos é possível prostrados aos pés de V.M. imploramos empe- 
nhe o grande valimento que tem nessa côrte para conseguir da Majestade o bom 
despacho de nossa rogatória, oferecendo todo o dinheiro que paira na mão do so- 
bredito Leal e todo o mais que fôr necessário, com aviso de V.M. remeteremos, sen- 
do também o desempenho dos Breves, todo o dinheiro que fôr necessário que V.M. 
remeterá para Roma dêsse que há de cobrar acompanhado com as cartas de favor 
que remetemos a V.M. mandar entregar, em Santarém ao P.e M. e Fr. Joseph da 
Conceição Pereira no seu convento, como consta do sobrescito da carta que dentro 
dela vai outra para seu irmão, também religioso seráfico que se acha em Roma 
com o cargo de Procurador Geral dos Reformados, com a mesma recomendação do3 
Breves, e para que êste negócio dos Breves melhor se encaminhe, se V.M. tiver oca- 
sião de falar com o Religioso vindo a essa côrte lhe poderá entregar o dinheiro que 
êle disser é necessário para a despesa dos Breves, isto é, para não molestar tanto 
a V.M. para cujo efeito remetemos a procuração junta, pondo em suas mãos todos 
os nossos poderes, e de tôda esta Venerável Ordem para que com mão liberal pos- 
sa despender tudo o que fôr necessário para que com mais brevidade se possa con- 
seguir a graça que desejamos e pelo laborioso trabalho que V.M. há de ter em al- 
cançar tão alta e dificultosa mercê por esta depender da mão real lhe oferecemos 
as nossas vontades e nossos corações como vítimas dêste holocausto, imprimindo 
no Livro das Recessões desta Venerável Ordem o caráter de seu nome eternizado 
para glória dos presentes e memória dos futuros, para que uns e outros o apelidem 
por seu Mecenas, suplicando em todo tempo a Deus lhe conceda felizes anos de 
vida, com muitas enchentes de graças para que depois vá gozar dos bens da eter- 
na glória em mérito de obra tão pia; a pessoa de V.M. guarde Deus muitos anos. 
De V.M. afetuosos servos e criados Vd." 58 Bernardo Madeira, Com.° Vis or ; o Cap. m 
José Gomes da Rocha, Ministro; o Pe. Antônio Jacome, Vice-Ministro ; Manuel da 
Silva Couto, Secretário // Lugar do + Sêlo // João de Sequeira, Procurador; Mi- 
guel José Lopes, Síndico; Domingos Dias Lopes, Definidor; João Soares, Defini- 
dor; Manuel Dias de Sousa, Definidor; José da Mota Araújo, Vigário." 

Memorial pelo qual pretendem os terceiros seculares da venerável Ordem ter- 
ceira de nosso Patriarca São Francisco alcançar da Muito Alta e Poderosa Majes- 
tade por decreto ou provisão a licença abaixo declarada: 

que os terceiros desta Venerável Ordem, instituída no ano de mil e setecentos e 
quarenta e seis, a instância do Rmo. Prov. Ql de Sto. Antônio da cidade do Rio de 
Janeiro, nesta Matriz de Nossa Sr. a da Conceição de Vila Rica, Bispado da cidade 



-15S 



CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



de Mariana, se acham oprimidos pelo grande número de mais de mil irmãos para 
nela poderem exercer os seus atos, conforme lhe determinam seus Estatutos e Re- 
gra, pela pouca comodidade que para isso há na sobredita Matriz e muito meno3 
para nela recolherem todos os paramentos de que a dita Ordem se acha enriqueci- 
da por êstes se acharem dispersos por casas particulares dos irmãos, lugares pou- 
co decentes para o seu culto: por cujas causas acima declaradas, pretendem de Sua 
Majestade lhes conceda licença para no distrito desta Vila fazerem de novo sua 
Capela com o título de São Francisco, administrando nela por seu Comissário um 
irmão sacerdote do hábito de São Pedro, como em té o presente tem sido, conceden- 
do-lhe mais Sua Majestade a graça de tomar a dita Capela debaixo de sua real 
proteção, concedendo-lhe todos os indultos e privilégios que tem concedido à Mise- 
ricórdia desta Vila, sem que em nada prejudique a Real Fazenda. 

Memorial pelo qual se pede por serviço de Deus e de nosso Patriarca São Fran- 
cisco ao Mto. Rdo. Pe. M. e Fr. José da Conceição para que êle peça a seu Irmão 
o Mto. Rdo. Sr. Pe. M. e Fr. Francisco de Azurara, Digníssimo Procurador Geral 
dos Reformados alcance da Santidade reinante os Breves com as concessões abai- 
xo declaradas: 

que Sua Santidade conceda por Breve Pontifício a esta venerável Ordem Terceira 
de Vila Rica do ouro preto, Bispado da cidade de Mariana das Minas Gerais, em 
o estado do Brasil, sujeito à coroa de Portugal, novamente ereta no ano de 1746 
pelo Rmo. Pe. M. p Fr. Antônio de Santa Maria, Religioso Seráfico da Província do 
Rio de Janeiro, por comissão e patente que para êste efeito lhe deu o Rmo. Pe. 
M. e Fr. Antônio da Conceição, Ministro Provincial da mesma Província: 
que o Ministro desta Venerável Ordem e mais Definitório e mais Oficiais da Mesa 
anualmente eleitos canonicamente, conforme determinam os Estatutos, fiquem logo 
gozando e exercendo os seus cargos como que se já aprovados estivessem; que a 
dita Mesa possa eleger Comissário Visitador a Sacerdote do hábito de São Pedro 
tôdas as vêzes que para isso tiverem necessidade para a boa e mesma educação e 
santos exercícios e utilidade desta Venerável Ordem com tôdas as prerrogativas 
concedidas aos Comissários da Ordem Seráfica, como se fôsse religioso, ficando êste 
pelo mesmo Breve aprovado para exercer o seu cargo em todo o tempo que por 
impedimento da longitude de mais de oitenta léguas que são desta vila e Ordem a-i 
Rio de Janeiro, onde assiste o P. e Rmo. Provincial ou por denegação que lhe faça, a 
quem tão somente recorrerá esta venerável Ordem, com a obediência devida, para 
a sua confirmação; concedendo-lhe mais que êle Comissário possa benzer a igreji 
que a dita Ordem pretende fazer de novo, e imagens que nela se colocarem, e possa 
dar comissão a qualquer irmão sacerdote para que êste por impedimento de dis- 
tância ou por necessidade possa lançar hábitos e professar e absolver em artigo de 
morte a quaisquer irmãos que pela Mesa estiverem despachados; concedendo-lhe 
mais que êle Comissário possa eleger um altar qual bem lhes parecer por ora nes- 
ta Matriz de Nossa Sra. da Conceição, onde se acha esta venerável Ordem, pas- 
sando depois para a Capela que de novo fizer ou pretende fazer, digo, com tôdas 
as indulgências e prerrogativas que Sua Santidade fôr servido conceder ao dito al- 
tar. E podendo ser mais dois para que, dizendo-se as Missas dos irmãos defuntos, 
gozem suas almas das indulgências a êles concedidas, atendendo Sua Santidade 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 



459 



que em esta vila e todo o seu Bispado não há convento algum de religiosos seráfi- 
cos nem de outra alguma Religião por êstes serem providos (proibidos?) pela Mr.- 
jestade com tanto aperto que não concede a religioso algum que a estas minas ve- 
nha mendigar, e se o concede a algum é por tempo determinado, o que seus Minis- 
tros executam rigorosamente, fazendo-os recolher a seus conventos, e à vista disto 
parece justo o requerimento desta Venerável Ordem; que a dita Ordem seja isenta 
de tôda a jurisdição ordinária, como o são tôdas as mais Ordens Terceiras que es- 
tão anexas a conventos, gozando dos mesmos estatutos a elas concedidas e só delas 
poderá tomar conhecimento e visitá-la o Rmo. Pe. Ministro Provincial da cidade do 
Rio de Janeiro por ser êste o mais próximo Prelado da Religião Seráfica que se 
acha em o dito Estado; confirmando-lhe juntamente tôdas as indulgências e graças 
que se acham concedidas a tôdas as mais ordens terceiras já estabelecidas; e que pos- 
sa fazer todos os sciis atos piiblicos e particulares, dentro e fora da sua igreja, ex- 
pondo nela o SS. Sacramento em festividades da Ordem e em Quinta-Feira Maior, 
sem que para isso o impidam os Exmos. Prelados, ou seus Ministros, ou Pároco da 
freguesia; antes, sim, dar-lhe todo o favor e auxílio que necessitar; assistindo em 
todos êstes atos e funções os Irmãos dela com seus hábitos, preferindo êstes em 
atos de comunidade a tôdas as Irmandades e Confrarias que houverem na dita Vila, 
quando saírem em procissão nos enterros, e que o Irmão Vigário do Culto Divino 
possa pegar em todos os vasos sagrados, gozando do privilégio de cânon, tomando 
Sua Santidade a esta Venerável Ordem debaixo de sua proteção, concedendo-lhe d 
privilégio de São João de Latrão; que os irmãos desta Venerável Ordem de um e 
outro sexo possam ser sepultados com seus próprios hábitos que em vida usam em 
todos os atos da Ordem acrescentando-lhe em as ocasiões de seus falecimentos o ca- 
pelo da mesma cor, como o dos Religiosos, a cujos hábitos se lhe concedam as mes- 
mas indulgências que são concedidas aos Religiosos da Primeira Ordem, atendendo 
a que a muita distância faz que muitos Irmãos se enterrem nos seus hábitos sem 
gozarem das indulgências pela falta que sempre há de hábitos dos Religiosos da 
Primeira Ordem; e sucedendo a isto o viverem muitos irmãos em partes muito re- 
motas desta Vila, sendo tão desertas que a vizinhança lhe fique em distância de 
léguas, por cuja razão ficam privados de tão grande bem; e tôdas as mais indul- 
gências e privilégios, que se ignoram, para bem da dita Ordem e se puderem al- 
cançar; como também algumas relíquias, principalmente a do Santo Lenho de que 
muito necessita esta Venerável Ordem para as suas procissões de penitência, como 
é das Cinzas // (Copiador da Ordem — 2) 

Ao Ministro Provincial — Carta da Mesa de 6-10-1761: 

"Nosso Mto. Rmo. Pe. Ministro Provincial frei Manuel da Conceição 

Em resposta da carta de 24 de maio dêste presente ano que esta Venerável Or- 
dem remeteu com o transunto da Patente do Nosso Reverendíssimo pedido por V.P. 
M. Rda. debaixo do preceito da Santa Obediência pela carta de 29 de abril, nos fez 
responsável a Mesa imediata nesta nossa posse a carta de V.P.M. Rda. de 3 de ju- 
lho, por benefício da qual lhe rendemos as graças pela grande consolação e alegria 
que nos deu e a tôda esta Venerável Ordem, enchendo-a de júbilo e contentamen- 



460 



CÓNEGO UA1MUNDO TRINDADE 



to na coonsideração com que transcede (sic), a liberalidade do amor paternal, co- 
municando por meio tão aplausível, na cautela e conselho que na sua discreta e 
abreviada carta nos insinuou, sem que a isso lhe impedisse a pressa do portador e 
demora da entrega, como o mesmo disse; nem tampouco o importuno da convales- 
cença: esta a razão por que fica eternizada nos nossos corações, e memorável no ar- 
quivo desta venerável Ordem. Deus e Nosso Santo Patriarca permita restituí-lo 
da sua peregrinação feliz a essa sagrada Congregação, comunicando-lhe como a seu 
legítimo sucessor muitas enchentes de graças, para delas nos fazer, como a filhos, 
participantes. 

Por obrigação de nossos Estatutos e força da obediência remetemos a nossa 
eleição canonicamente feita no dia 17 de setembro na mesma forma que determina 
o cp. 26 dos mesmos para que V.P.M. Rda. se digne por serviço de Deus e de N. 
Sto. Patriarca de a aprovar e confirmar e a mesma posse em que estamos dês " 
dia 4 de outubro, como Pai piedoso e benigno Prelado. 

Se aos humildes filhos lhes é lícito nas maiores perturbações recorrer ao me- 
lhor Pai e Prelado, como doutamente nos insinuou. V.P.M. Rda. na sua carta de 29 
de Abril: Ibi = Os filhos não devem ocultar nada aos pais quando êstes lho inqui- 
rem para utilidade sua = e assim permita-nos a religiosa modéstia de V.P.M. Rda. 
o dizermos que não é nossa intenção caluniar a quem com estranho procedimento 
nos desatendeu, só sim desafrontar a inocência violada, e inda supondo-a, como 
publicamente se diz, acreditada na presença de V.P.M. Rda., porque sempre as jus- 
tificações são mais vagarosas do que as queixas. 

Ambicioso, fraudulento, temerário e sem acordo subiu à presença da Majesta- 
de Fidelíssima pelo seu Desembargo do Paço, dessa Cidade, o Rdo. Luís de Almei- 
da Vila Nova, Comissário que foi desta Venerável Ordem, sem apresentar Paten- 
te de Terceiro em todo o tempo que serviu, com uma sua iníqua petição na qual em 
substância denunciando, requeria que a concurso de mais irmãos de Mesa suble- 
vadamente, fôra lançado fora do atual exercício de Comissário por querer impe- 
dir, como fiel vassalo, a observância de uma Patente de graça do nosso Reveren- 
díssimo, por esta vir in forma Brevis, pelo Eminentíssimo Senhor Núncio: e para 
colorir esta eleivosia dizia por conclusão no seu requerimento que por se achar 
sem acordo do que devia obrar, se lhe mandasse passar sua Provisão para apelar 
(sem dizer de quem, nem para quem) ; e não sucedendo no despacho os efeitos do 
prémio que por meio de confisco imaginava pertencer-lhe, sem atenção à sua irre- 
gularidade; por isso ambicioso: mandou o Desembargo por seu despacho, respon- 
der a esta Venerável Ordem com o prazo de três dias, cuja intimação se lhe fêz 
por requerimento do mesmo, e por isso fraudulento: de cuja resposta resultou mos- 
trar esta Venerável Ordem por documento autêntico o termo assinado pelo mesmo 
recorrendo denunciante, no qual se declarava que somente se observariam nesta Ve- 
nerável Ordem os Estatutos aprovados com aprovação distinta e que de nenhuma 
forma se usaria da Patente in forma Brevis, na qual se nos concediam vários in- 
dultos e graças, e que esta ficaria sem uso algum, como com efeito está (remeten- 
do-se para a Corte, o que assim se fêz) sem que primeiro Sua Majestade Fidelíssi- 
ma o determinasse; acompanhou a mesma resposta o documento de uma petição, 
que com a mesma Patente se mandou ao limo. e Exmo. Sr. Conde de Bobadela, in- 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRÊTO 461 

sinuando-nos proferiu seu despacho em 19 de fevereiro do teor seguinte: "Recor- 
ram a Sua Majestade pela Secretaria dos Negócios do Reino", e assim se obrou: c 
se por estes e outros muitos documentos se mostra temerário por subir a tão su- 
premo Tribunal com uma temerária infâmia e sem acordo, por se não lembrar á > 
que fez e obrou, devendo-se também considerar réu, no caso que houvesse culpa: 
todos êstes fatos com maior individuação e clareza se acham há tempos deferido, 
pelo Desembargo com o final despacho do teor seguinte: "Passe Provisão para ape- 
lar do caso que tende sobre o Ministro e mais oficiais, sem embargo da resposta do 
Procurador Geral": e assim se ficou sem mais estrépito. Como acima dizemos, áe 
acham na mão do Guarda-Mor da Relação dessa cidade, o qual com facilidade 
os há de confiar 1T V~Jr\M. Rda., dos quais verá a razão ou sem razão que tivemos 
para a sua expulsão, além dos mais fatos monstruosos e verídicos, com as demais 
circunstâncias ocorrentes e de tudo fará V.P.M. Rda., com a sua discreta ponde- 
ração, discurso certo para dêle melhor conhecer, do que da pena com as vozes. 

Esta nossa representação não é, Senhor e Prelado nosso, movida do nosso pa 
decer, só, sim, por querermos justificar, sem culpa as infâmias com que os êmulos 
perturbadores da paz, sugeridos pelo comum inimigo arg-uem a esta Venerável Or- 
dem, fazendo-a por isso odiosa no lugar aonde não chega o conhecimento da ver- 
dade, e em nós nunca houve, nem haverá, tenção de prejudicar a Mãe que nos ge- 
rou, por não haver também em nós o querer, para haver culpa; e só agora como 
causa primária nos move, sim, o padecer para pedir e rogar a V.P.M. Rda nos quei- 
ra por serviço de Deus e de Nosso Santo Patriarca acudir em todas as nossas afli- 
ções e tribulações remediando-as ; e a tudo aquilo o em que nos achar defeituosos, 
como Pastor vigilante e médico cuidadoso, e Prelado providente, reduzindo a êste 
pequeno rebanho a uma observância de regularidade para que nela reine sempre a 
tranquilidade da paz, pela qual se faz suave o jugo da obediência, e êste será o 
voto afetivo de nossos rendidos corações, sacrificando-se neles, como vítima, o ar- 
dentíssimo zêlo dos preceitos de V.P.M. Rda. os quais esperamos daqui em diante 
nos continue para que, por meio dêste mérito, nos alente o incêndio da santa bên- 
ção da qual vivemos inflamados. 

A religiosa pessoa de V.P.M.Rda. guarde Deus por muitos e duplicados anos 
para proteger e amparar a êstes humildes filhos. 

Vila Rica e Casa do despacho desta Venerável Ordem Terceira, aos seis de 
Outubro de mil setecentos e sessenta e um // Reverendíssimo e sempre Nosso Pa- 
dre Ministro Provincial //De V.P.M.Rda. obedientíssimos e reverentes súditos // 
O Padre Manuel Pinto Freire, Comissário Visitador // Antônio Gonçalves Ferrei- 
ra, Ministro // Domingos Tomé da Costa, vice-Ministro // José da Mota Araújo. 
Secretário // Bernardo de Araújo Franco, Procurador Geral // Domingos dos San- 
tos Lisboa, Síndico // Paulo Correia Vieira II Pedro Teixeira Mendes II Sebastião 
Fernandes de Paiva II Manuel Barbosa Suares II Pedro Aires da Costa // João 
Pedro II Manuel Dias Ribeiro II Valentim António Maciel II Antônio Esteves Fer- 
reira II" 



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CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



ESTATUTOS 

Carta do Provincial em resposta à que acompanhou a eleição de 1771 
para 72, de 13-10-1771 

"Kdo. Pe. Comissário, Sr. Irmão Ministro e mais Srs. da Mesa da Congrega- 
ção Seráfica de Vila Rica. A eleição feita em 17 de setembro dêste ano, que VV.CC. 
enviaram para ser confirmada, está defeituosa em o todo: porque devendo presidir 
nela, depois do Rdo. Pe. Comissário, o Irmão Vice-Ministro, a quem pertencem as 
funções tôdas do Ministro ausente, os eleitores substituíram no lugar dêste a um 
irmão ex-Ministro, dando-lhe, contra tôda a lei e razão, o lugar, presidência e ju- 
risdição que lhe não pertencia, nem podia ter. Vejam acerca disto ao Directorium 
trium Ordinum: os Estatutos gerais para a terceira ordem confirmados por Ino- 
cêncio X: : Arbiol: Olívio e outros. E como êstes lhes não estarão muito â 
mão, vejam a Palestra, pág. 354, § 3.° — Da obrigação do Irmão Vice-Ministro — 
que bem claramente diz que = na ausência do Ministro faz a sua mesma pessoa o 
Irmão Vice-Ministro. Nem os seus mesmos pretensos Estatutos e insubsistentes, 
no caso que merecessem atenção, dispõem alguma coisa que favorecia êste defei- 
tuoso modo de obrar. E no caso de serem precisos Irmãos mais antigos para com- 
pletar o número dos mesários deficientes, se aquêles não foram Ministros ou Vice- 
Ministros, tem o seu lugar abaixo de todos os Mesários atuais, e tendo sido tais, 
ainda que sejam jubilados, isto é, trienais, devem assentar-se abaixo e nunca acima 
do Ministro e Vice-Ministro. Também está nula em sujeitos que se elegeram por 
balotação, isto é, por favas brancas e pretas, propondo-os o Irmão ex-Ministro Subs- 
tituto: e isto por duas razões. A primeira: porque o voto consultivo, qual é o dy 
propor os sujeitos para os mais eleitores votarem concedeu o S. Pe. Benedito XIII 
aos Comissários Visitadores em a Bula = Paternae Sedis = e não sei que alguma 
pessoa inferior ao Papa tenha autoridade para privar ao Pe. Comissário do voto 
consultivo e trespassá-lo para o Ministro, como no caso presente certamente não a 
tinham os irmãos que fizeram e aceitaram os Estatutos, e menos os que concorre- 
ram para a presente eleição: e se disserem que o § 7 do cap. 26 de seus pretensos 
c insubsistentes Estatutos assim o dispõe, inquiram donde veio aos Estatutos essa 
autoridade. E se lhe parecer que, por obterem uma obrepticia e subrepticia et ali- 
quid amplius confirmação do Rmo. Pe. Comissário Geral Molina, consultem os ca- 
i:onistas, se tem o Pe. Geral autoridade para derrogar o que o Papa determina e dar 
a um o que é de outro. Considerem êste ponto com madureza e sem paixão, pois 
êle mesmo faz suspeitosa a pretendida confirmação dos Estatutos e advirtam para 
outra ocasião o que lhe é lícito obrar ou não obrar. A segunda, porque, dado e não 
concedido, que pertencesse o voto consultivo ao Ministro atual nunca podia, nem de- 
via ser, o consulente ou proponente desta eleição o irmão ex-Ministro Substitututo, 
mas só o Vice-Ministro atual pelo que acima fica dito e se pode ver nos A. A. cita- 
dos, que por brevidade se não expõem. 

Finalmente, tolerando usque ad tempus outras nulidades e defeitos, já por nos- 
sos antecessores a VV.CC. advertidos, especialmente pelo Pe. Provincial, Fr. Iná- 
cio da Graça, e atendendo ao bem espiritual de tôda essa Congregação, por esta 



SÃO FRANCISCO DE ASSIS DE OURO PRETO 



463 



vez havemos por confirmada, firme e valiosa a eleição feita em o ano de 1771, de 
que VV.CC. pedem a confirmação, dispensando para êste efeito somente em os so- 
breditos e outros quaisquer defeitos, e sanando a sobredita e outras quaisquer nu- 
lidades que nela houvesse e em todos e quaisquer atos à presente eleição subsequen- 
tes e imediatos, ou dela dependentes e emergentes e usando para êste efeito so- 
mente, se necessário fôr, de tôda a plenitude de nosso poder e jurisdição ,a confirma- 
mos e havemos por confirmada, estável e valiosa na forma sobredita. E admoes- 
tamos todos VV.CC, a quem enviamos a seráfica bênção, se empenhem na promo- 
ção da honra de Deus, veneração de Nosso Seráfico Patriarca e aumento dessa 
Congregação e Venerável Ordem, e exata observância da Santa Regra que pro- 
fessam. 

Deus guarde a VV. CC. Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, 20 de 
Novembro de 1771 = De VV.CC. irmão e servo em Xpto. Inácio dc Santa Rita Quin- 
tanilha. 

PRECEDÊNCIA 

Carta ao Alferes José da Silva Ribeiro, procurador da Ordem em Lisboa = 

"No dia 5 de novembro próximo passado tínhamos expressado a Vm. a dúvida 
em que estava a Mesa da Ordem Terceira de São Francisco desta Vila de que na 
Cidade da Bahia se tinha truncado uns autos de causa de preferência que a mes- 
ma Ordem tem com a Ordem Terceira do Monte do Carmo, por cujo motivo se ti- 
rou uma certidão dos autos que ficaram por traslado e se remeteu a Vm. no dito 
dia 5 de novembro para Vm. nos fazer a honra de mandar examinar os autos e 
ver se se achavam nêles os documentos de que fazia menção e certidão que, segun- 
do nos parece, foram truncados de fls. 121 até fls. 126 lugar em que se achavam 
as nossas patentes, confirmação do Geral e Núncio, por vermos que na cópia la 
Sentença que veio da Bahia se não referem os Julgadores senão a um documenta 
de fls. 16. 

"Agora temos notícia que a Armada Castelhana que navegava nesta costa do 
sul tem tomado várias embarcações nossas e não sabemos se seria uma destas a que 
levava a certidão, nestes têrmos e pela incerteza de sua chegada mandou o nosso 
Procurador Geral da mesma Ordem pôr em pública forma as Patentes, Breves, e Pro- 
visão Régia por donde S. Majestade concedeu licença para aquela Ordem fundar a 
sua nova capela, como dela se vê e não é antiga por estar esta Ordem ereta na fre- 
guesia de Nossa Senhora da Conceição desta vila que, enquanto nela esteve, não 
lhe era necessário tirar licença do Soberano, e só o fêz quando quis estar sôbre si. E 
se os Irmãos de Nossa Senhora do Monte do Carmo tiraram ordem de Sua Majes- 
tade mais cedo é porque logo fundaram sua Capela, e lhe foi concedida a licença, 
não como Ordem, mas sim como Irmandade de N. Sra. de Monte do Carmo, o que 
melhor se colige da mesma licença que por parte dos mesmos se juntou aos autos. 

"Por uma carta escrita pelo Dr. Vicente Rabelo de Saldanha, morador nessa 
Cidade, teve a dita Ordem notícia pelo seu procurador da Bahia José Dias de Al- 
meida Ferreira que Vm. tinha tomado conta desta causa em virtude de procuração 



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CÓNEGO RAIMUNDO TRINDADE 



que lhe foi remetida da mesma Ordem Terceira de São Francisco e que esta já es- 
tava arrazoada por parte da mesma e não dá o mesmo Saldanha bons anúncios dela, 
dizendo que naqueles autos só se achava uma simples nomeação do nosso Prelado 
do Rio de Janeiro e é certo que esta Ordem ajuntou, desde fls. 121 até fls. 126, 
Patentes, aprovação do nosso Rmo. Geral, dos nossos Estatutos, e confirmação do 
Núncio, e nesta forma se vai averiguando em que há falsidade nos mesmos papéis 
e se por acaso e desgraça permitir que à mão de Vm. não tenha chegado a carta, 
e certidão que se lhe mandou daqui em 5 de novembro próximo passado, e os do- 
cumentos que mandamos em pública forma não puderem sustar alguma sentença 
que haja contra nossa Ordem, e o nos30 Patrono entender que será necessário tirar 
outra certidão do traslado dos autos que cá ficaram, se fará e se remeterá logo a 
Vm. Também se remete a Vm. uma segunda via por donde consta que os Irmãos de 
N. Sra. do Monte do Carmo e sua primeira Patente do seu Rmo. Geral com a data 
de 15 de maio de 1751, e na mesma certidão se vê a súplica que os mesmos fize- 
ram ao Santíssimo Papa, e o que lhe deferiu foi remetê-los ao Rmo. Bispo da Ci- 
dade de Mariana no dia 19 de julho de 1755, e foram julgados pelo dito Prelado 
Marianense em o ano de 1758, e deste tempo é que se deve constar a fundação da- 
quela Ordem, e a de São Francisco foi criada com corpo de Mesa em 9 de janeira 
de 1746, como consta da sua ereção; não repare Vm. nestas miudezas, mas poderão 
suprir, e servir de informação ao nosso advogado da mesma Ordem. 

"Na de 16 de novembro próximo passado, se remeteu a Vm. umas certidões 
por donde se vê fazerem os devotos e alguns Irmãos da Ordem Terceira do Monte 
do Carmo, sujeitos à Ordem Terceira do Rio de Janeiro, festejaram a dita Sra. na 
capela do Bom Jesus dos Perdões desta vila em 20 de julho de 1746, ao que Be 
apegam os Julgadores da Bahia, dizendo na sua Sentença que esta festividade for» 
feita em 1745 e que por essa causa tinha aquela Ordem preferência à de São Fran- 
cisco, quando se vê a verdade da mesma certidão ser no dia 20 de julho de 1746, 
e a de São Francisco, quando esta tivesse primazia por esta festividade como de- 
votos, deve ter preferência à de São Francisco por ser criada em 9 de janeiro de 
1746, e por esta certeza é mais antiga. 

"E assim que estimaremos que estes documentos com êste aviso cheguem a 
tempo de se aclararem os nossos requerimentos e se nos dar a justiça que nos as- 
siste e mostrar a alguns da Ordem Terceira do Monte do Carmo, o dolo e malícia 
com que se têm portado nesta demanda, e em mostrarem oz autos, como se vê à 
vista dos documentos que mandamos, e assim que rogamos a Vm. que no caso des- 
tes chegarem a tempo ponha todas as suas forças, a ajunte à causa os ditos do- 
cumentos, e tratar desta demanda com aquele zêlo e cuidado, como se lhe tem reco- 
mendado, e de tudo o que se oferecer a êste respeito, e se fôr preciso mais algum 
locumento, fazer-nos logo aviso para se lhe mandarem, e assim o esperamos de 
seu zêlo e cuidado. 

"Já a Vm. avisamos em carta que se lhe escreveu em 19 do corrente mês que 
da mão de quem Vm. recebeu êstes papéis da Ordem Terceira, se queixou a quem 
lhe remeteu os tais papéis da Bahia, que, ent